Caros irmãos em Cristo,
Escrevo-vos movido pela preocupação com os rumos espirituais e morais de nossa sociedade e, sobretudo, com a responsabilidade dos cristãos diante dos acontecimentos políticos. Não pretendo ditar escolhas eleitorais, mas recordar uma verdade que jamais deveria ser esquecida: não se pode separar a fé das consequências morais das escolhas que fazemos.
Um cristão comprometido com a integridade do Evangelho não deveria festejar, sem reservas, a eleição de um presidente que mantém alianças com partidos, grupos e lideranças empenhados em promover pautas frontalmente contrárias à doutrina cristã e aos fundamentos éticos e morais do Catolicismo. A política não está acima da consciência, e a conveniência partidária não pode se sobrepor à Lei de Deus.
Não se trata de exigir que os governantes sejam santos, nem de imaginar que um partido humano possa representar perfeitamente o Reino de Deus. Trata-se de reconhecer que existem limites morais inegociáveis. Quando a defesa de interesses eleitorais nos leva a relativizar princípios fundamentais da fé, já não estamos apenas diante de uma divergência política, nos colocamos diante de uma grave questão de consciência.
Dirijo-me, particularmente, aos católicos que, em nome de uma suposta justiça social, aderem a projetos ideológicos incompatíveis com a fé que professam. A Teologia da Libertação, claramente influenciada pelo marxismo, foi objeto de severas advertências da Congregação para a Doutrina da Fé, especialmente na instrução *Libertatis nuntius*, de 1984. Isso significa que a Igreja não pode aceitar a instrumentalização do Evangelho por ideologias que subordinem a salvação cristã à luta política de classes.
A caridade cristã não precisa do marxismo para reconhecer a dignidade dos pobres. A defesa dos trabalhadores não exige a negação de Deus, da propriedade legitimamente adquirida ou da ordem moral. A Igreja possui sua própria doutrina social, fundada na dignidade da pessoa humana, na solidariedade, na subsidiariedade e na destinação universal dos bens.
Aos que transformam o altar em palanque ideológico, subordinam a verdade revelada a projetos revolucionários ou confundem a missão da Igreja com a militância partidária, cabem as advertências de São Paulo: “Não vos conformeis com este mundo” (Romanos 12.2). A expressão “fumaça de Satanás”, empregada por São Paulo VI em 1972 ao falar das dificuldades que atingiam a Igreja, deve servir-nos de alerta espiritual.
Portanto, é sobretudo aos cristãos católicos que desejam permanecer fiéis à totalidade da fé católica, que dirijo esta carta.
Não tenhais medo! São João Paulo II fez desse apelo uma das marcas de seu pontificado, ecoando a exortação de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não tenhais medo das perseguições, das pressões sociais, das ameaças profissionais ou do isolamento que podem atingir aqueles que se recusam a negociar suas convicções. A fidelidade a Cristo nunca foi garantia de aplausos neste mundo. Muitas vezes, foi precisamente a causa da rejeição.
Se tempos tenebrosos vierem, não será a covardia que nos salvará, tampouco o silêncio diante da injustiça nos tornará inocentes. O cristão deve respeitar as autoridades legítimas, mas não pode transformar a obediência civil em submissão moral absoluta. Quando os homens exigem aquilo que contraria a Lei de Deus, permanece válida a resposta dos apóstolos: “Importa obedecer antes a Deus do que aos homens” (Atos 5.29).
A história sagrada está repleta de advertências. Israel, repetidas vezes, fechou os ouvidos à voz dos profetas, abandonou a Aliança e sofreu as consequências de sua infidelidade. O cativeiro na Babilônia foi uma dessas grandes tragédias, interpretada pelos profetas bíblicos como consequência do pecado, da idolatria e da injustiça. O próprio Jesus lamentou a resistência de Jerusalém aos mensageiros de Deus.
Não devemos, porém, transformar esses acontecimentos em fórmulas simplistas para explicar toda desgraça histórica. A Bíblia também nos ensina, no Livro de Jó e no Evangelho, que o sofrimento não pode ser atribuído automaticamente à culpa de quem o enfrenta. O que podemos afirmar é que uma sociedade que despreza persistentemente a verdade, a justiça e a dignidade humana prepara o terreno para a própria ruína.
E que dizer do Holocausto, uma das páginas mais abomináveis da história humana? Não seria justo atribuí-lo ao castigo de Deus contra os cristãos, nem responsabilizar as vítimas por sua perseguição. O extermínio dos judeus foi um crime perpetrado pelo regime nazista e seus colaboradores. Sua memória, contudo, deve advertir-nos sobre o que acontece quando o totalitarismo, o racismo e a indiferença moral
encontram espaço na sociedade. De igual modo o socialismo/comunismo infligiu e ainda inflige a várias nações o terror, o medo, a dor, a castração das liberdades minimas. O silêncio dos que poderiam resistir, a cumplicidade dos que se acomodam e a omissão dos que preferem a conveniência à justiça podem contribuir para a expansão do mal.
Precisamos acolher a advertência que se impõe. Quando nos calamos diante da injustiça, quando aplaudimos governantes injustos por conveniência partidária e quando sacrificamos a verdade no altar da ideologia, comprometemos nossa própria fidelidade ao Evangelho.
Não afirmo conhecer os desígnios ocultos da Providência, nem pretendo declarar que a eleição de determinado governante seja, por si só, uma sentença divina. Afirmo, entretanto, que os acontecimentos políticos podem servir de ocasião para um rigoroso exame de consciência. Se um povo consente com a injustiça, normaliza a mentira e despreza os princípios que sustentam a vida moral, deve perguntar a si mesmo que futuro está construindo diante de Deus.
Por isso, não vos deixeis seduzir pelas promessas do poder, nem vos torneis cúmplices de projetos que afrontam a dignidade humana e a Lei divina. Não confundais a vitória eleitoral com a vitória da verdade. As urnas podem conferir legitimidade política a um governante, mas não transformam o erro em verdade, o pecado em virtude ou a injustiça em justiça.
Católicos, voltai os olhos para Cristo. Recorrei às Escrituras, à Tradição e ao Magistério da Igreja. Formai vossas consciências, examinai os programas e as alianças políticas à luz da doutrina católica e não permitais que a paixão partidária obscureça a razão iluminada pela fé.
Que Nossa Senhora, Mãe da Igreja, nos alcance a graça da fortaleza nos momentos de provação e da sabedoria nos momentos de decisão.
E, quando a fidelidade parecer custosa, recordemos que não fomos chamados a servir aos poderosos deste mundo, mas a seguir Nosso Senhor Jesus Cristo, que é Caminho, Verdade e Vida.
Melhor perder o aplauso dos homens do que a fidelidade a Deus. Melhor suportar a perseguição por amor à verdade do que conquistar honrarias à custa da própria consciência.
Que o Senhor nos conceda a coragem de permanecer firmes, a humildade de reconhecer nossos erros e a caridade de combater o mal sem abandonar o caminho da verdade. Porque, no fim, não seremos julgados pela bandeira partidária que empunhamos, mas pela verdade que acolhemos, pela justiça que praticamos e pelo amor com que vivemos a fé que professamos na Trindade Santa.









