Por primeiro, devo dizer que não me causará surpresa se algumas vozes assestarem suas baterias verbais contra mim. Normalmente críticos alinhados com a imbecilidade - suprema imbecilidade - do politicamente correto. Se porventura isso ocorrer não será a primeira vez e certamente não será a última que alguns poucos se incomodam com o meu modesto exercício de crítica literária. Certa vez quase me linchavam em razão de texto que escrevi intitulado "Chico Buarque, um estorvo na literatura brasileira." Porque o romance "Estorvo", a meu entender, é um fraco passeio literário. Posteriormente, o respeitado crítico e historiador da Literatura, Wilson Martins, expressou pensamento igual ao meu.
Vamos, pois, botar as coisas pelo avesso. Não é a primeira vez que livros chegam às mãos do leitor precedidos por uma espécie de unanimidade crítica. São elogiados, premiados, recomendados, incorporados às listas de leitura e apresentados como obras indispensáveis da literatura contemporânea. O leitor, então, abre o livro esperando encontrar aquilo que a reputação promete. E pode acontecer justamente o contrário. A leitura termina e permanece uma sensação incômoda de decepção.
Foi o que me ocorreu com "O Avesso da Pele," de Jeferson Tenório. Reconheço a importância dos temas abordados e compreendo as razões pelas quais a obra encontrou tamanha acolhida. Mas, como leitor, não consigo confundir a relevância de um tema com a excelência de sua realização literária. E é precisamente nesse ponto que minha discordância se estabelece.
Minha impressão é a de que estamos diante de um livro muito mais forte em sua pauta temática do que em sua arquitetura literária. O assunto é grave, atual e mobilizador. O racismo, a violência, as relações familiares, a experiência da população negra e as marcas psicológicas deixadas pela discriminação constituem matéria legítima e poderosa para a literatura. Mas matéria-prima não é obra de arte. Uma grande literatura não se faz apenas pela escolha de temas importantes; faz-se pela capacidade de transformar esses temas em linguagem, personagens, conflitos, ambiguidades e experiências humanas que ultrapassem o circunstancial. E é justamente aí que vejo as principais fragilidades de "O Avesso da Pele."
A escrita de Tenório me parece excessivamente linear e, em muitos momentos, previsível. Há passagens de força, evidentemente, mas falta à narrativa aquela densidade verbal capaz de fazer com que determinadas páginas permaneçam na memória do leitor depois que o livro é fechado. Não me refiro à necessidade de uma linguagem rebuscada. Grandes escritores podem escrever de maneira absolutamente simples. O problema não é a simplicidade; é a falta de tensão estética. A linguagem literária precisa fazer mais do que transportar uma história. Precisa criar atmosfera, sugerir, ocultar, revelar, produzir sentidos que não estejam inteiramente à superfície.
Em "O Avesso da Pele," muitas vezes tive a impressão de que a narrativa explica aquilo que poderia mostrar e afirma aquilo que poderia deixar o leitor descobrir. A literatura, entretanto, não precisa entregar todas as suas conclusões. Sua grandeza está também na capacidade de suscitar dúvidas, contradições e zonas de silêncio. Talvez por isso o livro me pareça mais próximo de uma narrativa de grande apelo imediato do que daquela literatura que se aprofunda progressivamente no espírito do leitor.
A fragilidade que mais me incomodou, contudo, está na construção dos personagens. Personagens literários memoráveis não são apenas aqueles que protagonizam uma história. São aqueles que parecem possuir uma existência própria, inclusive para além das páginas em que aparecem. Têm contradições, hesitações, zonas obscuras, defeitos que não podem ser explicados por uma única circunstância e virtudes que não cabem em uma classificação moral.
Em "O Avesso da Pele" algumas personagens me parecem excessivamente subordinadas à tese que a narrativa pretende desenvolver. Em vez de serem plenamente indivíduos, acabam funcionando, em determinados momentos, como veículos de uma experiência social ou de uma determinada interpretação do mundo. Isso reduz a complexidade humana. Pedro, por exemplo, é construído a partir de sua tentativa de compreender o pai e reconstruir sua memória. A premissa é literariamente fértil. O problema, a meu ver, é que a investigação sobre Henrique nem sempre produz a complexidade psicológica que poderia produzir. Henrique poderia ser uma figura muito mais contraditória, imprevisível e enigmática. Poderia carregar consigo ambiguidades capazes de obrigar o próprio leitor a rever constantemente o julgamento que faz dele. Em vez disso, tenho a sensação de que determinadas características das personagens são reiteradas até que sua função dentro da narrativa fique demasiadamente evidente.
A boa literatura não precisa absolver nem condenar suas personagens. Precisa compreendê-las em sua humanidade. E compreender alguém literariamente é muito mais difícil do que enquadrá-lo.
Não considero ilegítima uma literatura comprometida com questões sociais. A literatura brasileira está repleta de grandes obras que enfrentaram problemas políticos, sociais e econômicos. Machado de Assis, Lima Barreto, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Érico Veríssimo e tantos outros jamais fugiram das questões de seu tempo. Mas há uma diferença fundamental entre uma obra que nasce da complexidade da experiência humana e uma obra na qual a experiência humana parece, por vezes, estar a serviço de uma tese previamente estabelecida. Quando o leitor percebe antecipadamente aquilo que o autor deseja que ele pense, a literatura perde parte de sua capacidade de surpresa. A personagem deixa de perguntar "quem sou eu?" para começar a responder "o que represento?". E uma personagem que representa uma ideia pode ser interessante sociologicamente, mas dificilmente alcança a grandeza de uma personagem que vive suas próprias contradições.
É possível escrever sobre racismo sem produzir personagens unidimensionais; denunciar a violência sem transformar a narrativa em discurso. É possível defender uma causa justa sem fazer da literatura uma espécie de tribunal. Aliás, quando o tema é realmente forte, não há necessidade de sublinhá-lo o tempo inteiro. A literatura confia no leitor. Talvez a minha maior divergência com a recepção entusiasmada da obra esteja justamente no fato de não acreditar que "O Avesso da Pele" vai resistir ao tempo como literatura.
Não questiono seu sucesso, sua circulação, sua importância pedagógica ou sua capacidade de provocar discussões. Tampouco questiono o direito de outros leitores de considerá-lo uma grande obra. O gosto literário não é uma ciência exata. Mas existe uma diferença entre um livro importante para o debate contemporâneo e um livro que se torna parte permanente da literatura. O primeiro pode ser celebrado intensamente por sua sintonia com o espírito de uma época; o segundo precisa sobreviver à época que o produziu.
É nesse teste que grandes obras se tornam grandes. Daqui a cinquenta ou cem anos, quando muitas das controvérsias atuais tiverem perdido sua urgência, o que permanecerá de determinado livro? Permanecerá a linguagem? Permanecerão as personagens? Permanecerá a construção narrativa? Permanecerão imagens, frases, situações e conflitos capazes de comover um leitor que desconheça completamente o ambiente histórico em que a obra foi escrita? Essa é a pergunta que faço a "O Avesso da Pele". E minha resposta, neste momento, é marcada pela dúvida.
Há ainda uma questão que precisa ser enfrentada com serenidade. A literatura contemporânea parece, algumas vezes, ter incorporado uma espécie de critério extraliterário para a consagração das obras. A identidade do autor, o tema escolhido, a representatividade das personagens, a posição política da narrativa e sua adequação às sensibilidades dominantes podem contribuir para a recepção de um livro. Nada disso, porém, deveria substituir o juízo propriamente literário. Um livro não é bom porque aborda um tema socialmente importante. Também não é ruim porque aborda determinado tema. O que importa é o que o escritor faz com esse material.
Se amanhã um autor escrever um romance extraordinário sobre o racismo, será extraordinário não porque o racismo seja uma questão relevante, mas porque haverá ali literatura de alta qualidade. O contrário também é verdadeiro. Uma causa justa não transforma automaticamente uma obra mediana em grande literatura.
Talvez seja necessário recuperar algo que parece cada vez mais raro, qual seja o direito de não gostar de um livro consagrado. Existe hoje certa pressão para que o leitor aceite determinados julgamentos críticos como verdades definitivas. Se uma obra foi premiada, aplaudida e incorporada ao cânone contemporâneo, parece quase uma heresia declarar que ela não nos convenceu. Não deveria ser assim. A literatura nasce justamente da liberdade do leitor. Posso reconhecer a importância de "O Avesso da Pele" e, ao mesmo tempo, considerá-lo literariamente insuficiente. Posso respeitar seu autor e discordar de seus resultados estéticos. Posso reconhecer a legitimidade dos temas tratados e ainda assim concluir que suas personagens não alcançaram a densidade que esperava encontrar. Não há contradição nisso. Ao contrário, é precisamente levar a literatura a sério. Porque elogiar um livro apenas por sua mensagem é, de certa maneira, subestimar a própria literatura.
Meu desconforto com "O Avesso da Pele," portanto, não nasce daquilo que o livro pretende discutir, mas de como, a meu ver, realiza literariamente essa discussão. Vejo uma escritura por vezes frágil e insossa, uma narrativa de grande apelo temático, mas de menor potência estética; personagens que poderiam alcançar maior espessura psicológica, mas que frequentemente me parecem subordinados à função que desempenham na tese do romance; e uma linguagem que raramente alcança aquela dimensão de permanência que esperamos encontrar numa grande obra.
Pode ser que eu esteja errado. A literatura tem essa extraordinária capacidade de desmentir os leitores. Talvez o tempo demonstre que estou sendo injusto. Mas o tempo é justamente o grande crítico de todos nós — escritores, críticos e leitores. E é a ele que entrego minha ressalva. Porque há livros que recebem muitos aplausos quando chegam. E há livros que continuam sendo lidos quando os aplausos já silenciaram.
A diferença entre uns e outros talvez esteja no que existe por baixo da pele. Não apenas uma história que o presente considera necessária, mas uma verdadeira experiência literária capaz de atravessar gerações.







