quarta-feira, 22 de julho de 2026

"Maracanaú-CE e Teixeira de Freitas-BA: trajetórias semelhantes de desenvolvimento e protagonismo regional " - Por Barros Alves

                                                                 


Em período de férias, por esses dias, depois de breve temporada capixaba, vim dar com os costados no extremo sul da Bahia, com pouso na simpática e buliçosa cidade de Teixeira de Freitas. Causou-me surpresa a similitude entre esse município e Maracanaú, onde se localiza o maior polo industrial do Ceará,  município que muito prezo por motivos vários.

A história recente de muitos municípios brasileiros é marcada por profundas transformações econômicas e sociais. Entre os exemplos mais expressivos desse fenômeno, quero crer que estão os municípios de Maracanaú, no nosso  Ceará; e Teixeira de Freitas, na Bahia. Embora localizados em regiões distintas do Nordeste, ambos compartilham características históricas notáveis: nasceram como pequenas vilas/distritos, conquistaram sua emancipação política no início da década de 1980 e, em poucos anos, tornaram-se importantes polos econômicos de seus respectivos estados.

Até o final da década de 1970, Maracanaú e Teixeira de Freitas eram localidades subordinadas administrativamente a municípios maiores. Maracanaú integrava o território de Maranguape, enquanto Teixeira de Freitas pertencia ao município de Alcobaça. Em ambos os casos, o crescimento populacional, a expansão das atividades econômicas e a crescente importância regional criaram as condições para a emancipação política.

Maracanaú foi emancipado em 1983, enquanto Teixeira de Freitas conquistou sua autonomia em 1985. A emancipação representou um marco decisivo para os dois municípios, permitindo maior capacidade de planejamento, investimentos em infraestrutura e fortalecimento das políticas públicas voltadas ao desenvolvimento local.

Apesar das semelhanças históricas, os caminhos que impulsionaram o crescimento econômico de cada cidade apresentaram características próprias. Em Maracanaú, o desenvolvimento esteve fortemente associado à industrialização. A implantação do Distrito Industrial de Maracanaú, um dos maiores do Nordeste, atraiu empresas de diversos segmentos, gerando empregos, renda e consolidando o município como um dos principais centros industriais do Ceará. Sua proximidade com Fortaleza também favoreceu a integração logística e econômica, ampliando ainda mais seu potencial de crescimento.

Já Teixeira de Freitas experimentou um desenvolvimento baseado principalmente no comércio, nos serviços e na posição estratégica que ocupa no Extremo Sul da Bahia. Situada em uma região de intensa atividade agropecuária e próxima a importantes áreas produtoras de celulose, café e pecuária, a cidade tornou-se um centro regional de negócios, saúde, educação e distribuição de mercadorias. Sua influência ultrapassa os limites municipais, atendendo dezenas de municípios da Bahia, além de localidades do Espírito Santo e de Minas Gerais.

A década de 1980 foi especialmente decisiva para ambos os municípios. Enquanto o Brasil enfrentava desafios econômicos em nível nacional, Maracanaú e Teixeira de Freitas vivenciavam um ciclo de expansão impulsionado por investimentos públicos e privados. O crescimento urbano acelerado atraiu migrantes em busca de oportunidades de trabalho e melhores condições de vida, contribuindo para a rápida ampliação da população e da economia local.

Outro aspecto que aproxima as duas cidades é o papel de centralidade regional que passaram a exercer. Maracanaú consolidou-se como um dos motores econômicos da Região Metropolitana de Fortaleza, destacando-se pela força industrial e pela arrecadação municipal. Teixeira de Freitas, por sua vez, transformou-se no principal centro urbano do Extremo Sul baiano, exercendo liderança econômica, comercial e de serviços em uma vasta área de influência.

Hoje, tanto Maracanaú quanto Teixeira de Freitas figuram entre os municípios mais relevantes de seus estados. Embora tenham seguido modelos de desenvolvimento distintos — um fortemente industrial e outro baseado no comércio e nos serviços — ambos demonstram como a combinação entre emancipação política, localização estratégica, empreendedorismo e investimentos estruturantes pode transformar antigas vilas e distritos em importantes polos econômicos regionais.

A comparação entre essas duas cidades revela que o desenvolvimento não segue um único caminho. Maracanaú e Teixeira de Freitas são exemplos de como diferentes vocações econômicas podem produzir resultados semelhantes em termos de crescimento, geração de oportunidades e protagonismo regional. Suas trajetórias reforçam a importância do planejamento local e da capacidade de aproveitar as potencialidades de cada território para construir um futuro de prosperidade.

"Vila Velha e Vitória são uma lição de Brasil possível" - Por Barros Alves

                                            


Viajar é uma forma de conhecer lugares, mas também de refletir sobre o país que somos e aquele que desejamos ser. Nos últimos dias, junto de minha mulher Lúcia, em visita a Vila Velha e Vitória, no Espírito Santo, vivemos mais uma vez a experiência do turismo religioso e cultural, prática que cultivamos sempre que possível. Difícil ignorar que ali vemos sinais concretos de um Brasil que dá certo.

Vila Velha e Vitória são cidades privilegiadas pela natureza. O mar, a paisagem harmoniosa e o clima agradável contribuem para o encanto imediato do visitante. Mas o que mais chama a atenção não é apenas a beleza física. É a sensação de cuidado, de pertencimento e de respeito ao espaço público.

No alto do morro onde se ergue o Convento de Nossa Senhora da Penha, um dos mais importantes centros de peregrinação do país, respira-se um ambiente de serenidade que convida à reflexão. Ali assistimos à celebração de São Boaventura, ocasião em que foram ressaltadas as virtudes intelectuais do santo franciscano. Em tempos marcados pela superficialidade e pela pressa, é reconfortante perceber que ainda existem espaços onde a fé dialoga com o conhecimento e a tradição continua a inspirar valores permanentes.

A poucos metros dali, a Praça Almirante Tamandaré oferece uma lição de urbanismo simples e eficiente. Trata-se de uma praça de verdade: ampla, aberta e destinada às pessoas. Sem a profusão de estruturas improvisadas que frequentemente descaracterizam nossos espaços públicos, o local proporciona uma agradável sensação de liberdade. As crianças brincam, as famílias convivem e os cidadãos ocupam naturalmente a cidade que lhes pertence.

                                                       


A travessia entre Vila Velha e Vitória pode ser feita pela moderna ponte que une os dois municípios. No entanto, as barcas que cruzam a Enseada do Suá representam uma alternativa que vai além da utilidade prática. Há algo de poético nesse deslocamento pelo mar, lembrando que o desenvolvimento urbano não precisa eliminar a beleza nem a memória das cidades.

Em Vitória, a limpeza urbana, a conservação dos espaços públicos e a organização geral revelam uma administração comprometida com a qualidade de vida da população. Entre as muitas atrações disponíveis, preferi visitar as igrejas históricas do centro antigo. A Catedral Metropolitana, a secular Igreja de São Gonçalo e o Memorial da Cúria Metropolitana constituem um valioso patrimônio cultural e religioso, preservado com respeito e dignidade.

O que mais nos  impressionou, contudo, foi a percepção de uma cidadania que parece compreender a importância da ordem, da convivência civilizada e do trabalho. Não se trata de idealizar realidades nem de ignorar os problemas que certamente também existem. Trata-se de reconhecer exemplos positivos que merecem ser observados e, quem sabe, replicados.

Vila Velha e Vitória sugerem a imagem de um Brasil possível: um país que preserva sua história, valoriza suas tradições, cuida de seus espaços coletivos e compreende que desenvolvimento econômico e elevação moral não são objetivos incompatíveis. Pelo contrário, são metas que devem caminhar juntas.

Num momento em que o debate público frequentemente se concentra nas deficiências nacionais, é importante destacar experiências bem sucedidas. O Espírito Santo oferece uma delas. E talvez a principal lição dessas duas cidades seja a de que o progresso não depende apenas de grandes projetos ou discursos grandiosos. Ele começa no cuidado cotidiano com a cidade, no respeito ao patrimônio comum, na valorização da cultura e na disposição de cada cidadão para contribuir com a construção de uma sociedade melhor.

Ao deixarmos Vila Velha e Vitória, trouxemos conosco a convicção de que o Brasil que desejamos não é uma utopia distante. Em muitos lugares, ele já está sendo construído.

domingo, 21 de junho de 2026

"A beleza perdida dos altares e o relativismo espiritual pós-Concílio Vaticano II" - Por Barros Alves

                                                                           



Neste domingo, 21/06/2026,  participei da Santa Missa celebrada às 6h 30min na Igreja da Paróquia de Nossa Senhora de Nazaré, no Montese. O templo conserva as bonitas linhas arquitetônicas originais. Todavia,  o altar-mor adquiriu uma modernidade desvestida de beleza estética e até a imagem do Cristo é uma escultura - com o perdão  do termo - requenguela. É uma imagem feia. A dolorosa constatação é que essas modernidades artísticas que agridem o olhar e não convidam à reflexão, ocorreram em muitos templos católicos.

Durante séculos, a Igreja Católica foi uma das maiores patrocinadoras das artes. Arquitetos, escultores, pintores e entalhadores colocaram seu talento a serviço da fé, produzindo templos cuja beleza elevava a alma a Deus. No centro desses espaços sagrados encontrava-se o altar, coração do templo e ponto de convergência da atenção dos fiéis. Não por acaso, os altares tradicionais eram concebidos com esmero artístico, riqueza simbólica e profundo sentido teológico.

Os magníficos altares de madeira entalhada, mármore ou pedra, adornados por imagens de santos, anjos, colunas e elementos ornamentais, constituíam verdadeiras obras de arte. Sua finalidade transcendia o aspecto meramente decorativo: eram instrumentos de catequese visual e expressão da transcendência divina. A beleza, conforme ensinavam grandes pensadores cristãos, é um dos caminhos que conduzem à contemplação de Deus.

Entretanto, sobretudo a partir da segunda metade do século XX, difundiu-se em muitos lugares uma tendência de modernização dos espaços litúrgicos que, não raramente, resultou no empobrecimento estético dos templos. Sob o argumento de adaptar as igrejas aos novos tempos, inúmeros altares históricos foram removidos, mutilados ou simplesmente destruídos. Em seu lugar surgiram estruturas minimalistas, esculturas abstratas ou peças de discutível valor artístico, frequentemente incapazes de transmitir o sentido de sacralidade que caracterizava os conjuntos anteriores.

Em alguns casos, a substituição de altares centenários representou verdadeira perda patrimonial. Obras produzidas por artesãos e artistas de reconhecido mérito desapareceram para dar lugar a criações que, embora possam agradar a determinados gostos contemporâneos, dificilmente alcançam a mesma riqueza simbólica, histórica e estética. Não faltam relatos de intervenções realizadas sem o devido respeito ao patrimônio cultural e religioso, provocando indignação entre fiéis, historiadores e estudiosos da arte sacra.

A crítica a tais transformações não constitui mera nostalgia. Trata-se de reconhecer que a arte sacra possui uma função específica: manifestar a beleza do mistério divino e favorecer o recolhimento espiritual. Quando o centro visual do templo perde sua majestade, a própria experiência religiosa pode ser afetada. O espaço sagrado corre o risco de assemelhar-se a um auditório ou salão comum, privado dos elementos que tradicionalmente evocavam o transcendente. É como se os altares católicos tivessem se protestantinizados.

Isso não significa rejeitar toda produção artística contemporânea. A Igreja continua aberta à arte de cada época, desde que esta seja capaz de expressar adequadamente a dignidade do culto divino. O problema surge quando o novo é adotado apenas por ser novo, em detrimento de obras consagradas pelo tempo e pela devoção popular. O modernismo, quando convertido em ideologia estética, pode tornar-se tão intolerante quanto os movimentos iconoclastas que, ao longo da história, destruíram imagens e monumentos religiosos.

A preservação dos altares históricos não é apenas um dever para com a memória da Igreja, mas também uma obrigação para com as futuras gerações. Cada altar antigo representa um testemunho da fé, da cultura e da sensibilidade artística de um povo. Sua destruição empobrece não apenas os templos, mas o patrimônio espiritual e cultural da própria civilização cristã.

Recuperar o apreço pela beleza dos altares tradicionais é, portanto, mais do que uma questão de gosto. É reafirmar que a arte, quando colocada a serviço do sagrado, pode elevar o espírito humano e recordar que a casa de Deus deve refletir, ainda que imperfeitamente, a beleza do Céu.

                                                        


Vale insistir, por pertinência histórico-sociológica e teológica, que entre os inúmeros fenômenos que marcaram a vida da Igreja Católica após o Concílio Vaticano II (1962-1965), poucos foram tão visíveis quanto as profundas transformações ocorridas na arquitetura dos templos. Sob o pretexto do "aggiornamento", expressão italiana que significa "atualização" e que se tornou uma das palavras de ordem do período conciliar,   verificou-se, em muitos lugares, uma verdadeira ruptura com a tradição litúrgica e artística que durante séculos moldou a espiritualidade católica.

Os antigos altares-mores, majestosos e artisticamente elaborados, constituíam o coração do templo. Neles se encontrava o sacrário, onde permanecia o Santíssimo Sacramento, sinal visível da presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo na Eucaristia. Toda a disposição arquitetônica convergia para esse centro sagrado. O olhar do fiel era naturalmente conduzido ao tabernáculo, favorecendo a oração, a contemplação e a adoração. Quando a iconoclastia de alguns padres mal formados substituiu as antigas estruturas sacramentais dos altares, o que surgiu depois não atendeu às expectativas do povo católico. Constata-se que o tal "aggiornamento"  contribuiu sobremodo para a fuga de católicos para outras religiões. Ou seja, o efeito foi contrário ao pretendido.

Mais grave ainda foi a transferência do sacrário para capelas laterais ou locais secundários. Embora juridicamente permitida em determinadas circunstâncias pelas normas litúrgicas, tal prática produziu, em muitos casos, uma evidente perda da centralidade eucarística na percepção dos fiéis. O lugar outrora ocupado pelo Rei dos Reis passou a ser relegado a espaços discretos, enquanto o altar voltado para a assembleia assumia o protagonismo visual.

Não poucos católicos perceberam nessas mudanças a influência de uma mentalidade relativista que, pouco a pouco, enfraqueceu a consciência da transcendência divina. Quando a presença real de Cristo deixa de ocupar o centro visível do templo, corre-se o risco de transmitir a ideia de que a comunidade reunida é mais importante que Aquele em torno de quem ela se reúne.

A arte sacra nunca foi mera ornamentação. Ela constitui uma forma de catequese silenciosa. Os grandes altares barrocos, góticos ou neoclássicos proclamavam, sem palavras, verdades teológicas fundamentais: a majestade de Deus, a realeza de Cristo, a mediação dos santos e a sacralidade do sacrifício eucarístico. Sua eliminação representou, em muitos casos, não apenas uma perda artística, mas também um empobrecimento espiritual.

Sob a ótica da tradição católica, a destruição deliberada de bens sacros que elevavam a alma a Deus pode ser vista como um grave erro pastoral. Ainda que praticada com a intenção declarada de modernizar os espaços litúrgicos, produziu frequentemente efeitos contrários à finalidade da liturgia, obscurecendo o sentido do mistério e favorecendo uma visão excessivamente horizontal da religião.

Diversos pensadores católicos têm sustentado que tal processo refletiu uma crise mais profunda: a substituição gradual de uma cultura centrada em Deus por uma mentalidade antropocêntrica. Nesse contexto, o desaparecimento do sacrário do centro dos templos tornou-se um símbolo eloquente de uma mudança de paradigma espiritual.

Para muitos fiéis, a recuperação da beleza litúrgica e da centralidade eucarística constitui uma necessidade urgente. Não se trata de mera nostalgia estética, repito, mas do reconhecimento de que a beleza sempre foi uma das vias privilegiadas para conduzir as almas a Deus. Como ensinava Bento XVI, a verdadeira arte sacra não é um luxo, mas uma expressão da fé que torna perceptível o esplendor da verdade.

A renovação autêntica da Igreja não pode nascer do abandono de suas raízes, mas do reencontro com elas. Onde o sacrário volta a ocupar lugar de honra, onde a arquitetura aponta novamente para o transcendente e onde a beleza serve à adoração, renasce também a consciência de que o centro da vida católica não é o homem, mas Cristo realmente presente na Santíssima Eucaristia.

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sábado, 13 de junho de 2026

"Santo Antônio: de capitão a tenente-coronel" - Por Barros Alves

                                                                      


Em 1989, quando cuidei da Assessoria de Comunicação  do município de Maracanaú, terra de Santo Antônio do Pitaguary, por instâncias do prefeito Júlio César Costa Lima, colocamos uma grande e bela imagem do santo na reserva dos pitaguary, onde há mais de 100 anos foi erguida uma ermida em homenagem a Santo Antônio. Em 1997, agora cuidando institucionalmente da área cultural, no segundo mandato de Júlio César, fiz publicar um pequeno ensaio histórico e hagiológico subordinado ao título FESTEJOS JOANINOS E OUTRAS FESTAS JUNINAS. No livrinho inserido está um capítulo sobre um dos mais populares santos da quadra junina. Dele recolho o que segue:

No afã de agradar ao santo os devotos protagonizam fatos hilariantes e esdrúxulos, semelhantes ao praticado pelo Príncipe Regente Dom João VI, que por instâncias de alguns frades, concedeu a Santo Antônio a patente de tenente-coronel, quase seiscentos anos depois do falecimento do santo que foi canonizado apenas um ano após a morte, a 30 de maio de 1232. O episódio serve também para mostrar quão oportunistas eram alguns religiosos em tempos passados, os quais aproveitavam-se desavergonhadamente da boa fé e até ingenuidade das pessoas para meter-lhes a mão no bolso. E os governantes conhecedores da influência da Igreja sobre os seus súditos, quedavam genuflexos aos caprichos de qualquer padreco. Foi, certamente, o que ocorreu com Dom João VI. Eis o que relata a história. A biografia do glorioso taumaturgo Santo Antônio de Lisboa, como soldado português é assim traçada:

"Assentou-lhe praça Dom Afonso VI no Regimento de Infantaria de Lagos, com o intuito de animar o povo a combater contra Castela, de cujo domínio se libertara Portugal em 1640. No mesmo dia em que faleceu Dom Afonso VI, 12 de setembro de 1683, o irmão Dom Pedro II, de Portugal, que nesse dia se apossara definitivamente do trono, como o tinha feito da mulher do seu irmão em 2 de abril de 1668, elevou Santo Antônio ao posto de capitão. Em 1814, Dom João VI estando no Brasil, e a instâncias dos frades de Santo Antônio, da Cidade do Rio de Janeiro, que faziam festas pomposíssimas ao seu milagroso patrono, elevou-o a tenente-coronel, por carta-patente de 31 de agosto de 1814, registrada às fls. 46, do livro 6, de cartas-patentes.

"A carta-patente que promoveu o milagroso santo é do seguinte teor: Dom João, por graça de Deus Príncipe Regente de Portugal e dos Algarves de aquém e de além mar em África, Senhor de Guiné da Conquista, da Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e da Índia etc. Faço saber aos que esta minha carta-patente virem, que sendo da minha particular devoção o glorioso Santo Antônio, a quem o povo desta corte incessantemente e com a maior fé dedica os seus votos, e tendo os céus abençoado os esforços dos meus exércitos, com a paz que se dignou a conceder à monarquia portuguesa, crendo eu piamente que a eficaz intercessão do mesmo santo tenha concorrido para tão felizes resultados, hei por bem que se eleve ao posto de tenente-coronel de Infantaria e com ele haverá o respectivo soldo (grifo do autor), que lhe será pago na forma de minhas reais ordens, pelo que o Marechal-de-Campo Ricardo Xavier Cabral da Cunha, na qualidade de ajudante-general e encarregado interinamente do comando das armas desta corte e capitania, assim o cumpra; e o soldo referido se assentará nos livros a que pertence, para lhe ser pago nos seus devidos tempos. Em firmeza do que lhe mandei passar carta, por mim assinada e selada com o selo das minhas armas. Dada nesta Cidade do Rio de Janeiro, aos 31 dias do mês de agosto do ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1814. O príncipe em guarda -Gaspar José de Matos Ferreira Lucena José Caetano de Lima".

Como morto não recebe soldo nem correspondência, mesmo que de um príncipe, claro está que quem embolsava a quantia paga ao tenente-coronel Santo Antônio era os frades da sua Ordem. Vê-se que ontem como hoje existem oportunistas do púlpito e do confessionário, que fazem da religião um negócio a lhes render boa pecúnia. E em todos os tempos, por outro lado, governantes há a se curvarem aos cultos que lhes proporcionem mais popularidade. De permeio, a idolatria a Mamom.

 Santo Antônio, por ser grandemente popular, também opera desses milagres. Como, por exemplo, o dobrar vontades de autoridades aos seus piedosos representantes aqui na Terra.

Mas, saindo dos episódios do folclore, que não que dizer que seja uma inverdade como julga o vulgo; ou que seja apenas conteúdo anedótico, segundo o entendimento de não poucos, o fato é que Santo Antônio é um dos mais poderosos ícones do Catolicismo no mundo latino, sobretudo nos países lusófonos. No Brasil, nem se fala! No Nordeste brasileiro só é suplantado na devoção popular por São Francisco de Assis.

Por pertinente, transcrevo mais os excertos que seguem, que constam no meu livrinho:

                                                                        


O escritor Itamar Espíndola cita em seu livro "Três Santos Populares no Ceará", um  responso muito conhecido no interior cearense, oração que muito enleva o espírito dos devotos:


Padre-Nosso pequenino! 

Me guiai no bom caminho, 

Santo Antônio é meu padrinho, 

Nossa senhora é madrinha.


Sete livros a rezar, 

Sete anjos a cantar

Quer de noite, quer de dia, 

Enquanto eu não me deitar.


Há o famoso "Rosário de Santo Antônio", há orações para obter a intercessão do santo, com promessa de pão para os pobres; para achar coisas perdidas etc. Em Portugal canta-se popularmente o hino que transcrevemos a seguir, de autor desconhecido:


Bendito louvado seja 

O Menino-Deus nascido

Que nos braços de Antônio 

Tem seu trono esclarecido.


Vós, Antônio, merecestes,

Pela vossa santidade,

Sendo um frade dos menores,

Ser maior na divindade.


E também seja louvado

De Antônio, esplêndida luz, 

Com Deus-Menino num braço 

E no outro a sua cruz.


Esclarecido é Antônio

Pelo seu merecimento.

Sendo um anjo de pureza, 

É do céu um ornamento.


Vós Menino que descestes 

Do céu, em braços de Antônio, 

Livrai-nos com vossa graça 

Da tentação do demônio.


Rogai por nós, vós, Antônio, 

Àquela divina Luz,

Que nos livre do inferno

Para sempre. Amém,  Jesus!


Homenagem das mais belas prestou a Santo Antônio Dom Marcos Barbosa, poeta, um dos intelectuais mais completos entre os que já tomaram assento na Academia Brasileira de Letras. Ele escreveu "Em Louvor de Santo Antônio", um poema que os devotos do santo não podem deixar de conhecer e memorizar. Leiamo-lo:


Santo Antônio é São Francisco. 

São Francisco mais bumano. 

Srm chagas nem crucifixo.


Pois o Deus que traz nos braços

é ainda o Deus-Menino 

com seus divinos abraços.


Mas, sendo o Verbo Encarnado, 

pode sentá-lo no Livro,

verbo escrito e encadernado.


E era o Evangelho vivo

que pregava horas e horas, 

mantendo o povo cativo.


Por isso Boaventura 

sua língua encontra intacta 

ao abrir-lhe a sepultura.


A chuva lhe obedecia:

jamais vinha dispersar

quem ao ar livre o ouvia.


Mas se alguns se recusavam, 

levava-os consigo à praia, 

onde os peixes o escutavam.


Ajoelhava-se o jumento

como outrora no presépio, 

quando erguia o Sacramento.


Morre o rico. Incontinenti 

manda buscar-lhe no cofre 

o coração ainda quente.


Acusam seu pai de um crime; 

ressuscita Antônio o morto, 

que da calúnia o redime.


Santo de tantos achados, 

faz achar o verdadeiro

entre os falsos namorados.


Sua voz tal modo ecoa,

que ele é visto ao mesmo tempo

pregando em Pádua e Lisboa.


Vivendo em Pádua, é padeiro; 

mas os pães de Santo Antônio 

se espalham no mundo inteiro.


Palma de um novo martírio, 

de Lisboa traz o lis, 

que é outro nome de lírio.


Da mais pacata nação,

Antônio, de guerra antônimo, 

é tornado capitão.


No Rio, do seu convento, 

abençoando a cidade,

estende a mão a São Bento.

                                                           


Humanizando o santo, reintegrando-o ao convívio dos homens e das alegrias humanas, o povo, conforme explica o folclorista Jaime Cortesão, faz Santo Antônio perder a compostura no altar, para acenar às moças e ir tocaiá-las nas estradas:


Fui andando num caminho 

Santo Antônio me chamou: 

Quando um santo chama a gente 

Que fará o pecador?


Santo Antônio me acenou 

De cima do seu altar:

Olha o maroto do santo

Que também quer namorar.


Assim é o ubícuo Santo Antônio de Lisboa, de Pádua, de Barbalha, de Quixeramobim, do Pitaguary e do mundo inteiro.

Santo Antônio, rogai por nós!!!

sexta-feira, 5 de junho de 2026

"Nossa Senhora, de Fulton Sheen" - Por Barros Alves

                                                                          


Recentemente algumas editoras brasileiras redescobriram uma das personalidades mais importantes da Igreja Católica no século XX, sobretudo nos EUA, onde desempenhou sua missão sacerdotal, sendo um dos primeiros prelados católicos a usar com grande sucesso os principais meios de comunicação da época, quais sejam o Rádio e a Televisão. Refiro-me ao Bispo Fulton Sheen, que alcancou enorme popularidade nos anos 1950,  ao apresentar diariamente durante vários anos, o Programa "Life is Worth Living" (A vida vale a pena ser vivida). Além de exímio pregador, Sheen era doutorado em Filosofia e Teologia, foi professor e escreveu dezenas de livros sobre  espiritualidade, apologética e vida cristã, entre eles "Nossa Senhora"  sobre o qual falarei adiante; "O Sacerdote Não Pertence a Si Mesmo", "Paz de Espírito" e "A Vida de Cristo".

Reconhecido por sua eloquência, profundidade intelectual e fervor mariano, Fulton Sheen teve papel decisivo na evangelização através dos meios de comunicação modernos. Em 2012, o Papa Bento XVI reconheceu suas virtudes heróicas, concedendo-lhe o título de Venerável, importante etapa no processo de canonização. Em 5 de julho de 2019, o Papa Francisco aprovou um milagre ocorrido pela intercessão de Fulton Sheen, mas seu processo de beatificação ainda permanece aberto. Todavia, como Deus a tudo conduz no tempo que Lhe aprouver, talvez tenha colocado um norte-americano no trono de Pedro para que também venha a reconhecer a santidade de vida de Fulton Sheen.  Aliás,  já há informações de que a beatificação do Venerável ocorrerá no dia 24 de setembro vindouro, em Saint Louis, Missouri, Estados Unidos. A celebração se dará sem a presença do Papa Leão XIV, que será representado prlo Cardeal Luís Antonio Tagle.

É sobre um dos mais admiráveis escritos desse extraordinário pregador mariano, que passarei a discorrer. Li a obra embevecido. Não estarei faltando com a verdade se disser que toda a escritura de Fulton Sheen me comove, me enleva e me eleva.

A Edições Gratia Plena, de Valadares, Minas Gerais, publicou em 2021 o livro "Nossa Senhora" (144 páginas), uma obra de espiritualidade mariana que reúne reflexões sobre a pessoa, a missão e a importância da Virgem Maria na história da salvação. Sheen, conhecido por sua extraordinária capacidade de comunicar a fé católica ao grande público, apresenta Maria não apenas como objeto de devoção, mas como modelo perfeito de fé, esperança e amor. O autor examina episódios da vida da Mãe de Jesus, suas virtudes — maternidade, virgindade, fidelidade e confiança em Deus — e também o significado espiritual das principais aparições marianas reconhecidas pela Igreja.

Um dos temas centrais do livro é a convicção de que toda autêntica devoção mariana conduz a Cristo. Para Sheen, Maria nunca ocupa o lugar de Jesus; ao contrário, sua missão é levar os fiéis ao encontro do Filho. Essa perspectiva está em plena sintonia com a tradição católica, que vê Maria como medianeira de graças por sua íntima união com a obra redentora de Cristo. Rigorosamente católico ele observa: "Maria não é nossa redenção; não caiamos no absurdo. Asdim como a mãe nao é o médico, assim Maria não é o Redentor; do mesmo modo, porém, que muitos de entre nós devem a conservação da sua vida física à mãe terrena, assim devem a conservação da sua vida espiritual à Mãe de todas as mães, a Nossa Senhora." ( pág.  118)

A obra possui um tom ao mesmo tempo teológico e pastoral.  Fundamentada na doutrina católica, é escrita em linguagem acessível, marcada pelo estilo eloquente e meditativo característico de Fulton Sheen. Por isso, pode ser apreciada tanto por estudiosos da mariologia quanto por leitores que desejam aprofundar sua vida espiritual.

"Nossa Senhora", de Sheen,  não é um tratado acadêmico de mariologia, desses chatos e herméticos que fazem o leitor não passar da décima página.  Trata-se de uma obra de contemplação e formação espiritual. Seu maior mérito está em apresentar Maria como figura viva e atual, capaz de inspirar o cristão contemporâneo em meio às crises da família, da fé e da cultura. A leitura revela a profunda devoção mariana de Fulton Sheen e sua convicção de que o caminho mais seguro para Cristo passa pela escola espiritual de Maria. A fala profética e admoestadora contra o comunismo ateu está no último capítulo, "Nossa Senhora da Rússia", que continua atualíssimo, apesar do texto haver sido escrito em tempos de Guerra Fria.

Enfim, é uma leitura amena que, apesar de ser traduzido (tradutore, traditore) conserva o estilo leve e agradável de Sheen, sem perder a densidade teológica. Daí é que tenho certeza de que constitui profícua leitura não apenas para leigos, mas também  para sacerdotes e religiosos que desejam fortalecer a devoção mariana, assim como compreender melhor o papel de Nossa Senhora na fé católica e na própria economia da salvação.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

"Kostomárov, Orwell e as revoltas dos bichos” - Por Barros Alves



Recentemente a Editora Ercolano publicou um livrinho (o diminutivo é afetuoso) até aqui desconhecido do leitor brasileiro. A pérola nos veio da velha Ucrânia.

Muitos conhecem a "A Revolução dos Bichos", do escritor inglês George Orwell; mas poucos leram o conto "A Revolta dos Bichos", de autoria do russo (ucraniano) Mykola Kostomárov, ambas as obras exercícios de ficção política com um conteúdo crítico ao poder autoritário. Embora separados por quase um século e por contextos históricos muito distintos, "A Revolta dos Bichos" ou "O Motim dos Animais"  (Skótskoi bunt), de Mykola Kostomárov, e "A Revolução dos Bichos" (Animal Farm), de George Orwell, apresentam um notável ponto de contato: as duas obras utilizam a alegoria animal para refletir sobre os vícios do poder político e as deformações dos projetos de emancipação social. Contudo, as semelhanças terminam, em grande medida, nesse recurso formal, pois os objetivos ideológicos, a profundidade da crítica e o horizonte histórico de cada obra diferem substancialmente.

Kostomárov publicou "Skótskoi bunt" por volta de 1880, período marcado pelo conservadorismo do Império Russo e pelas tensões decorrentes da servidão rural. A narrativa apresenta animais que se insurgem contra a ordem estabelecida, imaginando construir uma sociedade mais justa. Entretanto, a rebelião degenera em desordem, violência e fracasso.

Já Orwell publicou "Animal Farm" em 1945, quando o mundo saía da Segunda Guerra Mundial e começava a confrontar as contradições do regime soviético. Na obra inglesa, os animais da Granja do Solar derrubam o fazendeiro Jones para criar uma sociedade baseada na igualdade. Pouco a pouco, porém, os porcos concentram o poder, transformando a revolução em uma nova forma de tirania.

Em ambos os casos, os animais funcionam como espelhos da sociedade humana. A diferença fundamental reside no alvo da crítica. Kostomárov dirige seu olhar para os perigos da rebelião descontrolada e para a incapacidade das massas de construir uma ordem estável. Orwell, por sua vez, examina a corrupção interna dos movimentos revolucionários e a transformação dos libertadores em opressores.

A obra de Kostomárov possui forte matriz conservadora. Poeta, ensaísta e historiador  atento às revoltas camponesas e aos movimentos populares do Leste Europeu, ele via com desconfiança as explosões revolucionárias que prometiam instaurar uma nova sociedade. Em "Skótskoi bunt", a revolta dos animais sugere que a destruição da ordem tradicional pode gerar consequências ainda piores do que os problemas que se pretendia corrigir.

No caso de Orwell, crítico feroz do stalinismo, jamais abandonou seus ideais socialistas democráticos. Sua crítica não é dirigida à ideia de igualdade social, mas à burocratização e à concentração de poder que deformaram a Revolução Russa. Assim, ingenuamente, "Animal Farm" não condena a revolução em si; condena sua degeneração autoritária. Ora, a doutrina marxista que dá sustentação aos governos socialistas/comunistas é "intrinsecamente má", confirme assegurou com razão o Papa Pio XI. O stalinismo como todos os demais "ismos" filhotes do marxismo são autoritários, cruéis e criminosos.

Então, o que se constata é que enquanto Kostomárov parece advertir que a ordem é preferível ao caos revolucionário, Orwell sustenta que a revolução somente fracassa quando abandona seus princípios originais.

Outro aspecto comparativo relevante diz respeito à representação dos líderes.

Na obra de Kostomárov, os líderes da revolta aparecem frequentemente como figuras incapazes, impulsivas ou manipuladoras. O fracasso decorre tanto da irracionalidade coletiva quanto da ausência de direção política consistente.

Em Orwell, a liderança é representada sobretudo por Napoleão, figura suína que simboliza claramente Joseph Stalin. O problema não é a ausência de liderança, mas sua hipertrofia. Napoleão constrói um sistema baseado no culto à personalidade, na propaganda e na repressão.

Dessa forma, Kostomárov identifica o perigo na insuficiência de autoridade; Orwell, no excesso dela.

Se a obra de Kostomárov enfatiza a desordem provocada pela rebelião, Orwell concentra sua atenção na manipulação da linguagem.

Em "Animal Farm", os mandamentos revolucionários são continuamente alterados para justificar privilégios e abusos. Epa!!! Qualquer semelhança com o Brasil atual não é mera coincidência! A famosa máxima “Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que os outros” tornou-se uma das formulações mais célebres da literatura política do século XX.

A preocupação orwelliana antecipa discussões contemporâneas sobre propaganda, desinformação e controle ideológico. Nesse aspecto, sua obra alcança profundidade filosófica e política superior à de Kostomárov, cuja alegoria permanece mais próxima da fábula moral tradicional.

Apesar das diferenças, ambas permanecem atuais porque tratam de uma questão permanente da vida política: a distância entre os ideais proclamados e os resultados efetivamente alcançados.

Kostomárov alerta para os riscos da destruição irrefletida das instituições; Orwell adverte contra a captura das instituições por elites que se apresentam como representantes do povo.

O primeiro teme a anarquia; o segundo teme a tirania.

Destarte, podemos afirmar que "A Revolta dos Bichos", de Mykola Kostomárov; e "A Revolução dos Bichos", de George Orwell, pertencem a uma mesma tradição alegórica, mas expressam visões políticas distintas. Kostomárov, influenciado pelo conservadorismo do século XIX, enfatiza os perigos da insurreição popular e da ruptura da ordem social. Orwell, moldado pelas tragédias totalitárias do século XX, denuncia a corrupção do poder revolucionário e a metamorfose dos libertadores em novos tiranos.

Se a obra de Kostomárov pode ser lida como uma defesa da prudência política, a de Orwell constitui uma advertência universal sobre a tendência do poder a reproduzir privilégios e desigualdades. Em conjunto, os dois livros oferecem uma reflexão profunda sobre os limites das revoluções e sobre a fragilidade dos ideais humanos diante das tentações da dominação. O que não se sabe é se Orwell foi influenciado pelo quase drsconhecido ucraniano  Kostomárov, para escrever o famoso "A Revolução dos Bichos".

domingo, 31 de maio de 2026

"Corações ao Alto" - Por Barros Alves

                                                                         


Há lembranças que o tempo não desgasta. Antes, as torna mais luminosas, como aquelas estrelas antigas cuja luz continua viajando pelo firmamento mesmo depois de já não estarem entre nós. Assim são as imagens de meu pai e de meu irmão, guardadas no sacrário da memória.

Meu pai, Zé Chico da Caiana, era um homem da terra. Agricultor de mãos calejadas, rosto queimado pelo sol e alma moldada pelos rigores da seca e das esperanças da chuva. Não sabia ler nem escrever. Aos olhos do mundo, era um analfabeto. Aos olhos de Deus, porém, era um sábio.

Vejo-o ainda, já envelhecido, sentado à cabeceira da mesa. Sobre ela repousavam os alimentos arrancados do chão pelo suor do seu rosto, conforme a antiga sentença do Gênesis: “Com o suor do teu rosto comerás o teu pão” (Gn 3,19). Ao seu redor, alguns dos dezesseis filhos e outros mais da família, recolhidos em respeitoso silêncio. Então ele unia as mãos, baixava a cabeça e agradecia.

Aquele gesto simples possuía a solenidade de uma liturgia.

Não era apenas uma oração antes da refeição. Era um ato de reconhecimento de que tudo vinha de Deus: o pão, o feijão, a chuva, a colheita, os filhos e a própria vida. Naquele instante, meu pai transformava a mesa familiar em altar e os alimentos em testemunhos da providência divina.

Lembro-me das palavras do salmista: “Todos têm os olhos postos em Ti, e a seu tempo lhes dás o alimento” (Sl 145,15). Meu pai jamais  leu  esse versículo. Contudo, ele o conhecia com uma profundidade que muitos doutores desconhecem. Conhecia-o porque o vivia.

Também me visita a lembrança de meu irmão, Joca, que para mim foi igualmente um pai. Homem da roça, de poucas palavras e muitos exemplos. Quando a noite descia sobre o sertão e o silêncio se espalhava pelos caminhos escuros, eu o via ajoelhado ao lado da rede de dormir.

A luz da lamparina tremulava, projetando sombras nas paredes de barro. E ali estava ele, curvado diante do Mistério.

Rezava sem pressa.

Agradecia sem exigências.

Confiava sem reservas.

Aquele homem simples, cuja existência parecia insignificante aos olhos dos poderosos, dialogava com o Senhor do universo como quem conversa com um amigo próximo. Não pedia riquezas nem honrarias. Agradecia. Apenas agradecia. Porque sabia que Deus tudo provê.

Hoje compreendo que aquelas cenas constituíam uma verdadeira teologia vivida. Não a teologia dos tratados eruditos, mas a teologia dos joelhos dobrados. Não a ciência dos livros, mas a sabedoria do coração.

Meu pai e meu irmão eram homens rudes, sem letras, mas não eram ignorantes. Havia neles uma inteligência espiritual que ultrapassava os limites do conhecimento acadêmico. Conheciam aquilo que Santo Agostinho chamou de “a ciência do amor”, a única capaz de conduzir o ser humano ao encontro de Deus.

Neles eu contemplava uma manifestação da graça. Uma epifania silenciosa que iluminava a casa pobre mais intensamente do que qualquer lâmpada.

Por isso, quando recordo suas figuras ajoelhadas, volto meu pensamento para a oração de Cristo:

“Graças te dou, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11,25).

Quantas vezes os poderosos imaginam possuir todas as respostas, enquanto os pequeninos guardam os segredos essenciais da existência! Quantas vezes os eruditos discutem Deus, enquanto os humildes simplesmente o encontram!

Meu pai encontrou Deus à mesa.

Meu irmão encontrou Deus junto à rede.

E ambos me ensinaram que a verdadeira grandeza não consiste em acumular saberes, mas em reconhecer, com humildade, a fonte de todos os bens.

Hoje, quando a memória me conduz àquelas noites de lamparina e àquelas refeições familiares, compreendo que vivi entre sacerdotes sem batina. Homens simples que celebravam diariamente a liturgia da gratidão. Homens que fizeram da própria vida uma oração.

E se algum dia me perguntarem onde vi mais claramente o rosto de Deus, talvez eu responda sem hesitar: numa mesa sertaneja cercada de filhos, ou sob a luz vacilante de uma lamparina, onde dois homens humildes, de joelhos, agradeciam ao Pai pelos dons que descem do alto.

Porque a fé, quando é verdadeira, não precisa de palácios nem de púlpitos. Basta-lhe um coração agradecido.

Mas a galeria dessas santas lembranças não estaria completa sem a presença de minha mãe adotiva, cuja memória habita em mim com a mesma ternura e gratidão.

Eu a chamava — e ainda hoje a chamo — de Meu Amorzinho.

Quando a recordo, vejo-a sempre com um rosário entre os dedos. As contas gastas pelo uso pareciam prolongamentos de suas próprias mãos, numa intimidade tão profunda com a oração que já não se distinguia onde terminava a mulher e começava a devoção.

Enquanto os homens da casa buscavam no trabalho da roça o sustento cotidiano, Meu Amorzinho travava seus combates no território invisível da fé. Rezava incessantemente. Rezava pelos parentes e aderentes, pela família, pelos enfermos, pelos ausentes e pelos aflitos. Rezava pelos vivos e pelos mortos. Rezava porque acreditava.

Hoje, olhando para trás, para aqueles anos marcados por permanentes lutas pela sobrevivência, imagino que muitas de suas súplicas eram depositadas aos pés de Nossa Senhora das Dores. Quem mais poderia compreender tão profundamente as aflições de uma mãe senão aquela que recebeu, ao pé da cruz, a espada profetizada por Simeão: "E uma espada transpassará a tua alma" (Lc 2,35)?

Talvez por isso Meu Amorzinho encontrasse nela abrigo e consolo. As dores da vida eram confiadas à Mãe das Dores; as incertezas do amanhã, à Rainha da Esperança; os temores da pobreza, àquela que cantou no "Magnificat" a fidelidade de Deus para com os humildes.

Ainda hoje me parece ouvir o suave murmúrio de suas Ave-Marias atravessando as tardes e as noites de nossa casa. Era uma oração simples, mas carregada de uma força que os poderosos dificilmente compreenderiam. Ali estava uma mulher sem pretensões teológicas, mas profundamente mergulhada nos mistérios da fé.

Se meu pai transformava a mesa em altar de gratidão e meu irmão santificava a noite sob a luz da lamparina, Meu Amorzinho convertia o rosário em ponte entre a Terra e o Céu. E assim, cada um à sua maneira, ensinava que Deus se deixa encontrar não apenas nos templos majestosos, mas também nas casas humildes onde a oração brota sincera do coração.

Hoje compreendo que muito da fé que me sustenta nasceu dessas três testemunhas silenciosas: meu pai de mãos postas à mesa, meu irmão ajoelhado junto à rede e Meu Amorzinho com o rosário entre os dedos. Neles resplandeceu aquela sabedoria dos pequeninos de que falou Cristo; neles a graça se fez visível; neles Deus escreveu, sem tinta e sem papel, uma das mais belas páginas de Evangelho que já pude ler.



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