A sociedade passa por uma crise moral e religiosa sem precedentes. O neopaganismo e outros "ismos" têm carcomido vários segmentos, a Igreja, inclusive. Nesses momentos tempestuosos, que não poucos vêem como apenas um passageiro redemoinho, no âmbito da Igreja não basta repetir fórmulas de esperança. É preciso voltar às fontes, reler os documentos do Magistério e recuperar aquela capacidade de discernimento que permite distinguir a verdadeira renovação da simples adaptação ao espírito do mundo. Quero crer que estejamos navegando em um desses momentos em que a Barca de Pedro precisa consertar o rumo. Retornemos às fontes.
Entre os documentos-fonte que merecem ser novamente estudados estão a Encíclica "Pascendi Dominici Gregis", de São Pio X, publicada em 8 de setembro de 1907, e o Motu Proprio "Sacrorum Antistitum", de 1º de setembro de 1910. Não se trata de ressuscitar controvérsias de outro século, mas de perguntar se alguns dos fenômenos denunciados por São Pio X desapareceram realmente ou apenas assumiram novas linguagens.
A advertência da "Pascendi" permanece impressionantemente atual. São Pio X não se limitou a denunciar os adversários externos da Igreja. Seu diagnóstico mais grave dizia respeito àqueles que se encontravam dentro dela. O Papa advertiu que os fautores do erro não deveriam ser procurados apenas entre os inimigos declarados, pois alguns se ocultavam "no próprio seio da Igreja". E acrescentava, com especial tristeza, que entre eles havia também membros do clero. É uma passagem que deveria ser lida sem precipitação e, sobretudo, sem instrumentalização. O Papa não autorizava ninguém a transformar suspeitas pessoais em condenações. Ele próprio lembrava que somente Deus conhece as intenções interiores. Seu critério era examinar a doutrina, a linguagem e a conduta.
O problema não é simplesmente descobrir "quem é o inimigo", mas identificar o erro que se infiltra na inteligência católica, enfraquece a fé, relativiza o dogma, despreza a Tradição e diminui a autoridade do Magistério.
São Pio X considerava particularmente perigoso aquele que, permanecendo dentro da Igreja, pretendesse reformá-la segundo categorias estranhas ao depósito da fé. Para ele, o perigo era maior justamente porque vinha de pessoas que conheciam a estrutura e a linguagem da própria Igreja.
Três anos depois, São Pio X voltou ao problema no Moto Próprio "Sacrorum Antistitum". O documento nasceu da constatação de que, apesar da "Pascendi", os modernistas não haviam abandonado seus métodos. Segundo o Papa, continuavam a procurar novos adeptos e a disseminar suas ideias por meio de livros, revistas e outros instrumentos de formação.
A preocupação de São Pio X alcançava, portanto, especialmente os lugares onde a formação intelectual e espiritual da Igreja se realizava: seminários, universidades, centros de estudos e ambientes de formação do clero.
A razão estava evidente. Uma crise doutrinal que contamina os formadores inevitavelmente alcança as gerações seguintes de sacerdotes, religiosos e leigos. Por isso, a "Pascendi" insiste na escolha criteriosa de professores dos seminários e instituições católicas e pede especial vigilância sobre aqueles que difundissem doutrinas incompatíveis com o Magistério.
Nos dias atuais essa preocupação não perdeu a atualidade. Com efeito, os princípios e orientações da "Pascendi" devem ser reafirmados com vigor.
Décadas mais tarde, em 29 de junho de 1972, Paulo VI pronunciou uma das frases mais dramáticas da história recente da Igreja. Ao falar da situação eclesial depois do Concílio Vaticano II, referiu-se à impressão de que, por alguma fresta, "a fumaça de Satanás entrou no templo de Deus".
O contexto é importante. Paulo VI falava de dúvida, incerteza, inquietação, confronto e crise dentro da própria Igreja. A expressão não pode ser reduzida a um slogan utilizado contra o Concílio Vaticano II. Ela nasceu da angústia de um Papa diante de uma crise que ele próprio percebia no interior da comunidade eclesial. É impossível não perceber a impressionante consonância entre a preocupação de Paulo VI e a de São Pio X.
Um Papa, em 1907, advertia para o perigo que penetrava "nas veias e entranhas" da Igreja. Outro, em 1972, lamentava a entrada da "fumaça de Satanás" no templo de Deus. São linguagens diferentes para expressar uma mesma realidade espiritual: a Igreja pode ser combatida de fora, mas também pode sofrer profundamente quando seus próprios membros deixam de pensar, ensinar e agir segundo a fé que receberam.
Nessa crise que alastra no seio da Igreja cristã há mais de cem anos, onde entra a Teologia da Libertação? Aqui é necessário fazer uma distinção histórica e teológica indispensável. Não se pode afirmar simplesmente que toda Teologia da Libertação seja herética. O próprio Magistério posterior distinguiu entre uma legítima reflexão cristã sobre a libertação e determinadas correntes que incorporaram elementos incompatíveis com a fé cristã. O Dicastério (ex-Congregação) para a Doutrina da Fé, sob a direção do então cardeal Joseph Ratzinger, publicou em 1984 a "Libertatis Nuntius", advertindo contra determinadas formas de Teologia da Libertação que utilizavam, de modo insuficientemente crítico, conceitos provenientes de correntes do pensamento marxista e que podiam conduzir a desvios prejudiciais à fé e à vida cristã.
Dois anos depois, a "Libertatis Conscientia" chama a atenção para a verdadeira libertação, ressaltando a dimensão cristã da libertação, deixando claro que a libertação cristã nasce primordialmente da redenção realizada por Cristo e não pode ser reduzida a uma transformação meramente econômica, social ou política.
João Paulo II, ao dirigir-se aos bispos brasileiros em 1986, foi igualmente explícito ao reafirmar o óbvio, ou seja, a verdadeira libertação cristã é, antes de tudo, soteriológica, e somente depois possui consequências ético-sociais e ético-políticas. Reduzir a primeira à segunda seria desnaturar a própria libertação cristã. Portanto, o problema não está em a Igreja defender os pobres, combater a injustiça ou promover a dignidade humana, pois isso sempre realizou cumprindo o mandamento evangélico. Tudo isso pertence profundamente à tradição cristã. O problema surge quando a salvação é substituída pela emancipação política; o pecado pessoal pelo conflito de classes; a conversão por uma revolução social; Cristo por uma ideologia; e o Reino de Deus por um projeto político terrestre.
Nesse ponto, a advertência do Magistério torna-se absolutamente pertinente. O maior perigo talvez não esteja na existência de ideologias fora da Igreja. O mundo sempre produziu ideologias. O perigo começa quando categorias ideológicas passam a determinar a leitura do Evangelho; quando a luta política se transforma em critério para interpretar o pecado; quando determinados grupos sociais são tratados como naturalmente bons e outros como estruturalmente maus; quando a Doutrina Social da Igreja é substituída por uma visão de mundo importada de sistemas políticos; quando a pessoa de Cristo deixa de ocupar o centro da evangelização; quando a Santa Missa é transformada predominantemente em assembleia sociológica; quando o sacerdote deixa de ser visto antes de tudo como ministro do altar e passa a ser apresentado como agente político; quando a catequese perde a transcendência, o pecado, a graça, a redenção, o juízo, a vida eterna e a necessidade da conversão.
É justamente nesse ponto que a Igreja precisa voltar para São Pio X. Não para retornar um século no tempo,, mas para recuperar o princípio do discernimento doutrinal a fim de manter a eterna juventude do ensinamento da Igreja.
Nos dias atuais a Igreja sofre um processo de apostasia? Certamente não é correto declarar que o Corpo se Cristo presente na Igreja Católica tenha apostatado. A promessa de Cristo permanece: as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Mas pode-se, sim, reconhecer que há fenômenos de apostasia, relativização da fé, abandono da prática religiosa e perda da identidade católica em determinados ambientes e segmentos da Igreja. E isso é suficientemente grave. Quando um cristão deixa de acreditar na divindade de Cristo, na realidade do pecado, na necessidade da graça, na Ressurreição, na presença real de Cristo na Eucaristia ou na autoridade do Magistério, não estamos diante de uma simples mudança pastoral, mas em face de uma crise da própria fé. Por isso, o caminho não pode ser esconder o problema. Tampouco pode ser transformar toda divergência em acusação de heresia. O caminho é voltar àquilo que São Pio X recomendava: doutrina sólida, filosofia sã, teologia verdadeira, fidelidade à Escritura, aos Padres, à Tradição e ao Magistério. A "Pascendi" é explícita ao exigir especial atenção à formação dos sacerdotes e professores. Talvez a crise seja mais grave precisamente porque é mais sutil. Não seria precipitado afirmar simplesmente que vivemos uma situação pior do que a enfrentada por São Pio X. Há pelo menos uma razão para considerar nossa época particularmente desafiadora: o erro contemporâneo frequentemente não se apresenta como negação da fé, mas como sua releitura.
O modernismo denunciado por São Pio X procurava acomodar a fé às exigências intelectuais do seu tempo. Hoje, em alguns ambientes, podemos encontrar fenômeno semelhante sob novas formas: a fé reinterpretada à luz da ideologia; a moral subordinada à cultura dominante; a tradição apresentada como obstáculo; o dogma considerado mera linguagem histórica e a autoridade eclesiástica relativizada.
Por isso, a "Pascendi" continua sendo uma espécie de exame de consciência. Não porque tudo aquilo que São Pio X condenou possa ser simplesmente identificado com qualquer corrente teológica contemporânea, mas porque o método de discernimento continua válido.
A pergunta fundamental continua sendo sobre se Cristo está sendo recebido como Senhor, Salvador e Verdade única, ou está sendo reinterpretado para caber nas categorias intelectuais de cada época. Talvez uma das grandes necessidades da Igreja contemporânea seja voltar a ler os documentos da própria Igreja.
Ler São Pio X;
Ler Leão XIII;
Ler Pio XII;
Ler São Paulo VI;
Ler São João Paulo II;
Ler o extraordinário teólogo Bento XVI;
Ler os documentos do Concílio Vaticano II, não com o olhar enviesado de idrologias malsãs, não fragmentos selecionados, mas integralmente;
Ler o Catecismo da Igreja Católica, imprescindível;
Ler os documentos do Dicastério para a Doutrina da Fé;
Ler os Padres da Igreja;
Ler Santo Tomás;
E, sobretudo, ler o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Uma Igreja que deixa de conhecer sua própria tradição fica vulnerável a qualquer novidade apresentada como descoberta. São Pio X compreendeu isso perfeitamente e o disse há mais de um século. Sua preocupação não era simplesmente com determinadas ideias, mas com um processo pelo qual a fé poderia ser lentamente corroída por dentro. Por isso sua advertência continua a interpelar a consciência católica. Com efeito, não devemos procurar inimigos em todos os lugares; não devemos suspeitar de todos; não devemos transformar divergências prudenciais em heresias; mas também não devemos ser ingênuos. O erro deve ser combatido onde quer que esteja, inclusive e principalmente quando se apresenta com linguagem religiosa, veste clerical, título acadêmico ou autoridade institucional.
A fidelidade à Igreja não consiste em negar suas crises. Consiste em enfrentá-las com a própria verdade da Igreja. E talvez seja precisamente por isso que a leitura da "Pascendi Dominici Gregis" e do "Sacrorum Antistitum" seja tão necessária hoje. Eu diria imprescindivel.
Porque, em tempos de confusão, voltar às fontes não é voltar ao passado.
É voltar à verdade.







