O Evangelho não muda para agradar ao mundo, e o sacerdócio não pode transformar-se em instrumento de legitimação dos vícios que deveria combater.
A Igreja Católica atravessa tempos de inquietação, conflitos doutrinários e divisões que não podem ser enfrentados com discursos complacentes, silêncios calculados ou concessões à mentalidade secularizada. Quando aqueles que receberam a missão de ensinar, santificar e conduzir o povo de Deus passam a relativizar os mandamentos, enfraquecer a disciplina e tratar a verdade revelada como matéria sujeita às preferências de cada época, a crise deixa de ser apenas administrativa e se torna espiritual e moral.
Não se trata de exigir que os sacerdotes sejam homens sem fraquezas. Trata-se de exigir que reconheçam o pecado, combatam-no em si mesmos e não convertam a misericórdia divina em pretexto para a impunidade moral.
Nos Evangelhos, Nosso Senhor Jesus Cristo não poupou palavras ao denunciar a hipocrisia dos dirigentes religiosos. Em Mateus 23.27, compara os escribas e fariseus a sepulcros caiados, exteriormente belos, mas interiormente cheios de impureza. E adverte, em Lucas 12.48: "A quem muito foi dado, muito será exigido". Essas palavras devem ressoar com particular força na consciência de todo bispo, sacerdote e religioso. Quanto maior a responsabilidade espiritual, maior o dever de fidelidade. O altar não é palco para vaidades pessoais; a homilia não é palanque para ideologias; o ministério sacerdotal não é licença para viver segundo conveniências particulares.
A advertência de Cristo em Mateus 5.13 — "Vós sois o sal da terra" — contém uma pergunta incômoda, qual seja que utilidade terá o sal se perder o sabor? Se o clero deixa de anunciar a conversão, de ensinar a doutrina e de testemunhar a santidade, como poderá conduzir os fiéis à vida eterna?
O sacerdote que proclama a necessidade de conversão, mas se recusa a converter-se, contradiz com a própria vida aquilo que ensina. O Beato Fulton Sheen diz em sua autobiografia, que pouco pregava sobre jejum, porque nesse quesito ele não dava bom exemplo. E aquele que, por medo de desagradar, silencia sobre os pecados graves não pratica necessariamente a caridade, pois pode estar abandonando as almas à própria sorte.
No século XI, São Pedro Damião enfrentou uma realidade que demonstra não ser nova a tentação de acomodar o sacerdócio às paixões humanas. Em seu *Liber Gomorrhianus*, ("O Livro de Gomorra e a luta de São Pedro Damião contra a Corrupção Eclesiástica"), com recente edição em vernáculo pela editora Ecclesiae, escrito por volta de 1049 e dirigido ao Papa Leão IX, São Pedro Damião denunciou graves desordens sexuais entre membros do clero e a insuficiência das respostas disciplinares diante de determinados abusos. O santo não tratava a corrupção dos ministros como assunto secundário, a ser escondido para preservar a reputação institucional. Entendia que a reforma da Igreja exigia a correção dos culpados, a responsabilidade dos superiores e a recuperação da dignidade do ministério sagrado. Sua obra tornou-se um importante testemunho da luta medieval pela reforma moral do clero.
São Pedro Damião ensina, por seu exemplo, que a verdadeira fidelidade à Igreja não consiste em encobrir os pecados de seus ministros, mas em desejar sua purificação. Amar a Igreja não é proteger a imagem de homens culpados; é defender a santidade da missão que lhes foi confiada. Essa coragem continua uma necessidade premente no seio da Igreja Católica adoentada pelas liberadades dos padres e teólogos partidários da Teologia da Libertação. Diante de abusos sexuais, violações do celibato, escândalos financeiros, abuso de autoridade ou encobrimento de crimes, não basta lamentar os acontecimentos. São necessárias investigação, justiça, proteção das vítimas, responsabilização dos culpados e penitência sincera. A dignidade sacerdotal não pode servir de escudo contra a lei moral ou a justiça civil.
Grande motivo de preocupação é, portanto, o liberalismo doutrinário entendido como a pretensão de submeter a fé às opiniões dominantes, como se as verdades do Cristianismo fossem provisórias e pudessem ser remodeladas conforme as mudanças culturais.
A Igreja deve dialogar com o mundo, compreender os sofrimentos humanos e anunciar o Evangelho a todas as pessoas. Mas, diálogo não significa renúncia à verdade; acolhimento não significa aprovação automática de toda conduta; misericórdia não significa declarar irrelevante o arrependimento e a sincera conversão.
Cristo não disse à mulher surpreendida em adultério que o pecado não importava. Depois de protegê-la da condenação hipócrita, ordenou-lhe: "Vai e não tornes a pecar" (João 8,11). A passagem reúne duas exigências inseparáveis, que são a misericórdia para com o pecador e o abandono do pecado.
Quando a primeira é proclamada e a segunda convenientemente esquecida, mutila-se a mensagem evangélica. Uma pastoral que acolhe sem jamais chamar à conversão torna-se incapaz de explicar por que Cristo morreu na cruz e se não há pecado do qual ser libertado, a Redenção perde, aos olhos dos homens, seu significado prático. A mesma advertência vale para as liberalidades morais, tais como a flexibilização indiscriminada dos compromissos sacerdotais, a banalização da castidade, a transformação da liturgia em espetáculo e a substituição da formação doutrinária por slogans ideológicos. Não se deve presumir que todo sacerdote que discorda de determinada interpretação seja corrupto, nem confundir legítimo desenvolvimento doutrinário com abandono da fé. O critério, porém, não pode ser a popularidade de uma ideia, mas sua coerência com o Evangelho e a doutrina da Igreja.
Há também um escândalo particularmente doloroso quando alguns representantes do clero se deixam absorver por disputas partidárias, projetos ideológicos ou discursos de natureza predominantemente política, relegando a segundo plano a salvação das almas. A preocupação com os pobres, a defesa dos injustiçados e a denúncia da corrupção são deveres compatíveis com o Evangelho e o próprio Cristo manifesta compaixão pelos necessitados.
O desvio começa quando a missão sobrenatural da Igreja é reduzida a um programa político, quando a justiça social é separada da conversão pessoal ou quando a linguagem da libertação passa a obscurecer a libertação do pecado. Colocar os pobres no lugar do Cristo não leva à libertação, mas à condenação. A Igreja existe não para servir de capelania a partidos, movimentos revolucionários ou projetos de poder, pois sua missão ultrapassa as fronteiras das ideologias. Nenhuma corrente política pode reivindicar para si o Evangelho inteiro, e nenhuma preferência partidária autoriza um ministro a silenciar sobre as verdades morais que contrariam seus aliados.
A fidelidade à doutrina não impede a caridade social; antes, oferece-lhe fundamento moral. O problema não é defender os pobres, mas instrumentalizá-los, venerá-los, deificá-los como se pobres não cometessem erros e pecados. Não é combater a injustiça, mas transformar a Igreja em extensão de uma organização político-ideológica. Não é dialogar com a sociedade, mas permitir que os critérios do mundo substituam os critérios da fé.
Alguns procuram justificar toda concessão como sinal de abertura, como se a disciplina eclesiástica fosse uma relíquia autoritária e a exigência moral, uma forma de intolerância. Essa oposição é falsa.
A misericórdia autêntica não humilha o pecador nem o abandona à sua condição. Ela o procura, oferece-lhe o perdão e o convida à mudança de vida. A disciplina, quando exercida com justiça, prudência e caridade, protege a comunidade e preserva a integridade do ministério.
O próprio Cristo adverte em Mateus 7.15: "Guardai-vos dos falsos profetas". E, em Mateus 7,16, ensina que eles serão reconhecidos pelos frutos. Não basta ostentar títulos, paramentos, eloquência ou prestígio. É preciso examinar a coerência entre o que se ensina e o que se pratica.
Isso vale igualmente para a autoridade episcopal. A omissão diante de desvios comprovados, a proteção de pessoas influentes e a aplicação seletiva das normas destroem a confiança dos fiéis. A autoridade que não corrige quando deve corrigir torna-se cúmplice do problema que deveria resolver.
A crise da Igreja não será superada pela simples multiplicação de documentos, pela propaganda institucional ou pela tentativa de silenciar toda crítica. Tampouco será resolvida por ataques indiscriminados contra o clero, como se todos os sacerdotes fossem responsáveis pelos pecados de alguns. Muitos vivem com generosidade, castidade, humildade e dedicação, servindo aos fiéis longe dos holofotes. O caminho da reforma passa pela santidade pessoal, pela formação doutrinária sólida, pela celebração reverente da liturgia, pela observância dos compromissos sacerdotais e pela aplicação imparcial das normas canônicas.
A advertência de São Paulo em Romanos 12.2 permanece atual: "Não vos conformeis com este mundo..." O cristão não foi chamado a reproduzir todas as tendências de sua época, mas a discernir o que corresponde à vontade de Deus. O clero, por sua responsabilidade particular, deve ser exemplo dessa resistência espiritual.
A Igreja não precisa de pastores que adaptem o Evangelho a todas as conveniências humanas; precisa de pastores que tenham coragem de anunciá-lo integralmente, começando por aplicá-lo a si próprios.
A maior crise não é a de uma Igreja perseguida por permanecer fiel à verdade, mas a de ministros que, receosos de contrariar o mundo, deixam de anunciar aquilo que receberam a missão de transmitir.
São Pedro Damião compreendeu que a reforma exige coragem para denunciar os vícios, humildade para reconhecer os pecados e firmeza para exigir a correção. Os séculos passaram, mas a lição permanece: a santidade da Igreja não se defende ocultando as feridas de seus membros, e sim tratando-as com verdade, justiça e penitência.
O rebanho tem direito a pastores que não fujam diante dos lobos, não se tornem cúmplices deles e não transformem a misericórdia em desculpa para a impunidade.
A palavra final pertence ao próprio Cristo: "Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me" (Mateus 16.24). Não existe reforma verdadeira sem renúncia, nem santidade sem combate espiritual. E não existe fidelidade ao Evangelho quando a vontade de agradar aos homens prevalece sobre o dever de agradar a Deus.









