domingo, 23 de agosto de 2026

"A Igreja precisa ler seus próprios documentos" - Por Barros Alves

                                                         


         

A sociedade passa por uma crise moral e religiosa sem precedentes. O neopaganismo e outros "ismos" têm carcomido vários segmentos, a Igreja, inclusive. Nesses momentos tempestuosos, que não poucos vêem como apenas um passageiro redemoinho,  no âmbito da Igreja não basta repetir fórmulas de esperança. É preciso voltar às fontes, reler os documentos do Magistério e recuperar aquela capacidade de discernimento que permite distinguir a verdadeira renovação da simples adaptação ao espírito do mundo. Quero crer que estejamos navegando em  um desses momentos em que a Barca de Pedro precisa consertar o rumo. Retornemos às fontes.

Entre os documentos-fonte  que merecem ser novamente estudados estão a Encíclica "Pascendi Dominici Gregis", de São Pio X, publicada em 8 de setembro de 1907, e o Motu Proprio "Sacrorum Antistitum", de 1º de setembro de 1910. Não se trata de ressuscitar controvérsias de outro século, mas de perguntar se alguns dos fenômenos denunciados por São Pio X desapareceram realmente ou apenas assumiram novas linguagens.

A advertência da "Pascendi" permanece impressionantemente atual. São Pio X não se limitou a denunciar os adversários externos da Igreja. Seu diagnóstico mais grave dizia respeito àqueles que se encontravam dentro dela. O Papa advertiu que os fautores do erro não deveriam ser procurados apenas entre os inimigos declarados, pois alguns se ocultavam "no próprio seio da Igreja". E acrescentava, com especial tristeza, que entre eles havia também membros do clero. É uma passagem que deveria ser lida sem precipitação e, sobretudo, sem instrumentalização. O Papa não autorizava ninguém a transformar suspeitas pessoais em condenações. Ele próprio lembrava que somente Deus conhece as intenções interiores. Seu critério era examinar a doutrina, a linguagem e a conduta.

O problema não é simplesmente descobrir "quem é o inimigo", mas identificar o erro que se infiltra na inteligência católica, enfraquece a fé, relativiza o dogma, despreza a Tradição e diminui a autoridade do Magistério.

São Pio X considerava particularmente perigoso aquele que, permanecendo dentro da Igreja, pretendesse reformá-la segundo categorias estranhas ao depósito da fé. Para ele, o perigo era maior justamente porque vinha de pessoas que conheciam a estrutura e a linguagem da própria Igreja.

Três anos depois, São Pio X voltou ao problema no Moto Próprio "Sacrorum Antistitum". O documento nasceu da constatação de que, apesar da "Pascendi", os modernistas não haviam abandonado seus métodos. Segundo o Papa, continuavam a procurar novos adeptos e a disseminar suas ideias por meio de livros, revistas e outros instrumentos de formação.

A preocupação de São Pio X alcançava, portanto, especialmente os lugares onde a formação intelectual e espiritual da Igreja se  realizava: seminários, universidades, centros de estudos e ambientes de formação do clero.

A razão estava evidente. Uma crise doutrinal que contamina os formadores inevitavelmente alcança as gerações seguintes de sacerdotes, religiosos e leigos. Por isso, a "Pascendi" insiste na escolha criteriosa de professores dos seminários e instituições católicas e pede especial vigilância sobre aqueles que difundissem doutrinas incompatíveis com o Magistério.

Nos dias atuais essa preocupação não perdeu a atualidade. Com efeito, os princípios e orientações da "Pascendi" devem ser reafirmados com vigor.

Décadas mais tarde, em 29 de junho de 1972, Paulo VI pronunciou uma das frases mais dramáticas da história recente da Igreja. Ao falar da situação eclesial depois do Concílio Vaticano II, referiu-se à impressão de que, por alguma fresta, "a fumaça de Satanás entrou no templo de Deus".

O contexto é importante. Paulo VI falava de dúvida, incerteza, inquietação, confronto e crise dentro da própria Igreja. A expressão não pode ser reduzida a um slogan utilizado contra o Concílio Vaticano II. Ela nasceu da angústia de um Papa diante de uma crise que ele próprio percebia no interior da comunidade eclesial. É impossível não perceber a impressionante consonância entre a preocupação de Paulo VI e a de São Pio X.

Um Papa, em 1907, advertia para o perigo que penetrava "nas veias e entranhas" da Igreja. Outro, em 1972, lamentava a entrada da "fumaça de Satanás" no templo de Deus. São linguagens diferentes para expressar uma mesma realidade espiritual: a Igreja pode ser combatida de fora, mas também pode sofrer profundamente quando seus próprios membros deixam de pensar, ensinar e agir segundo a fé que receberam.

Nessa crise que alastra no seio da Igreja cristã há mais de cem anos, onde entra a Teologia da Libertação? Aqui é necessário fazer uma distinção histórica e teológica indispensável. Não se pode afirmar simplesmente que toda Teologia da Libertação seja herética. O próprio Magistério posterior distinguiu entre uma legítima reflexão cristã sobre a libertação e determinadas correntes que incorporaram elementos incompatíveis com a fé cristã. O Dicastério (ex-Congregação) para a Doutrina da Fé, sob a direção do então cardeal Joseph Ratzinger, publicou em 1984 a "Libertatis Nuntius", advertindo contra determinadas formas de Teologia da Libertação que utilizavam, de modo insuficientemente crítico, conceitos provenientes de correntes do pensamento marxista e que podiam conduzir a desvios prejudiciais à fé e à vida cristã.

Dois anos depois, a "Libertatis Conscientia" chama a atenção para a verdadeira libertação, ressaltando a dimensão cristã da libertação, deixando claro que a libertação cristã nasce primordialmente da redenção realizada por Cristo e não pode ser reduzida a uma transformação meramente econômica, social ou política.

João Paulo II, ao dirigir-se aos bispos brasileiros em 1986, foi igualmente explícito ao reafirmar o óbvio, ou seja, a verdadeira libertação cristã é, antes de tudo, soteriológica, e somente depois possui consequências ético-sociais e ético-políticas. Reduzir a primeira à segunda seria desnaturar a própria libertação cristã. Portanto, o problema não está em a Igreja defender os pobres, combater a injustiça ou promover a dignidade humana, pois isso sempre realizou cumprindo o mandamento evangélico. Tudo isso pertence profundamente à tradição cristã. O problema surge quando a salvação é substituída pela emancipação política; o pecado pessoal pelo conflito de classes; a conversão por uma revolução social; Cristo por uma ideologia; e o Reino de Deus por um projeto político terrestre.

Nesse ponto, a advertência do Magistério torna-se absolutamente pertinente. O maior perigo talvez não esteja na existência de ideologias fora da Igreja. O mundo sempre produziu ideologias. O perigo começa quando categorias ideológicas passam a determinar a leitura do Evangelho; quando a luta política se transforma em critério para interpretar o pecado; quando determinados grupos sociais são tratados como naturalmente bons e outros como estruturalmente maus; quando a Doutrina Social da Igreja é substituída por uma visão de mundo importada de sistemas políticos; quando a pessoa de Cristo deixa de ocupar o centro da evangelização; quando a Santa Missa é transformada predominantemente em assembleia sociológica; quando o sacerdote deixa de ser visto antes de tudo como ministro do altar e passa a ser apresentado como agente político; quando a catequese perde a transcendência, o pecado, a graça, a redenção, o juízo, a vida eterna e a necessidade da conversão.

É justamente nesse ponto que a Igreja precisa voltar para São Pio X. Não para retornar um século no tempo,, mas para recuperar o princípio do discernimento doutrinal a fim de manter a eterna juventude do ensinamento da Igreja.

 Nos dias atuais a Igreja sofre um processo de apostasia? Certamente não é correto declarar que o Corpo se Cristo presente na Igreja Católica tenha apostatado. A promessa de Cristo permanece: as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Mas pode-se, sim, reconhecer que há fenômenos de apostasia, relativização da fé, abandono da prática religiosa e perda da identidade católica em determinados ambientes e segmentos da Igreja. E  isso é suficientemente grave. Quando um cristão deixa de acreditar na divindade de Cristo, na realidade do pecado, na necessidade da graça, na Ressurreição, na presença real de Cristo na Eucaristia ou na autoridade do Magistério, não estamos diante de uma simples mudança pastoral, mas em face de uma crise da própria fé. Por isso, o caminho não pode ser esconder o problema. Tampouco pode ser transformar toda divergência em acusação de heresia. O caminho é voltar àquilo que São Pio X recomendava: doutrina sólida, filosofia sã, teologia verdadeira, fidelidade à Escritura, aos Padres, à Tradição e ao Magistério. A "Pascendi" é explícita ao exigir especial atenção à formação dos sacerdotes e professores. Talvez a crise seja mais grave  precisamente porque é mais sutil. Não seria precipitado afirmar simplesmente que vivemos uma situação pior do que a enfrentada por São Pio X. Há pelo menos uma razão para considerar nossa época particularmente desafiadora: o erro contemporâneo frequentemente não se apresenta como negação da fé, mas como sua releitura.

O modernismo denunciado por São Pio X procurava acomodar a fé às exigências intelectuais do seu tempo. Hoje, em alguns ambientes, podemos encontrar fenômeno semelhante sob novas formas: a fé reinterpretada à luz da ideologia; a moral subordinada à cultura dominante; a tradição apresentada como obstáculo; o dogma considerado mera linguagem histórica e a autoridade eclesiástica relativizada.

Por isso, a "Pascendi" continua sendo uma espécie de exame de consciência. Não porque tudo aquilo que São Pio X condenou possa ser simplesmente identificado com qualquer corrente teológica contemporânea, mas porque o método de discernimento continua válido.

A pergunta fundamental continua sendo sobre se Cristo está sendo recebido como Senhor, Salvador e Verdade única, ou está sendo reinterpretado para caber nas categorias intelectuais de cada época. Talvez uma das grandes necessidades da Igreja contemporânea seja voltar a ler os documentos da própria Igreja.

Ler São Pio X;

Ler Leão XIII;

Ler Pio XII;

Ler São Paulo VI;

Ler São João Paulo II;

Ler o extraordinário teólogo Bento XVI;

Ler os documentos do Concílio Vaticano II, não com o olhar enviesado de idrologias malsãs, não  fragmentos selecionados, mas integralmente; 

Ler o Catecismo da Igreja Católica, imprescindível;

Ler os documentos do Dicastério para a Doutrina da Fé;

Ler os Padres da Igreja;

Ler Santo Tomás;

E, sobretudo, ler o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Uma Igreja que deixa de conhecer sua própria tradição fica vulnerável a qualquer novidade apresentada como descoberta. São Pio X compreendeu isso perfeitamente e o disse há mais de um século. Sua preocupação não era simplesmente com determinadas ideias, mas com um processo pelo qual a fé poderia ser lentamente corroída por dentro. Por isso sua advertência continua a interpelar a consciência católica. Com efeito, não devemos procurar inimigos em todos os lugares; não devemos suspeitar de todos; não devemos transformar divergências prudenciais em heresias; mas também não devemos ser ingênuos. O erro deve ser combatido onde quer que esteja, inclusive e principalmente quando se apresenta com linguagem religiosa, veste clerical, título acadêmico ou autoridade institucional.

A fidelidade à Igreja não consiste em negar suas crises. Consiste em enfrentá-las com a própria verdade da Igreja. E talvez seja precisamente por isso que a leitura da "Pascendi Dominici Gregis" e do "Sacrorum Antistitum" seja tão necessária hoje. Eu diria imprescindivel. 

Porque, em tempos de confusão, voltar às fontes não é voltar ao passado.

É voltar à verdade.

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

"Romantismo, cognição e política" - Por Rui Martinho Rodrigues

                                                       


O romantismo, como movimento artístico e literário, guarda íntima relação com a Filosofia romântica alemã. Ambos surgiram em fins do séc. XVIII e cresceram no séc. XIX, quando alcançaram grande expressão. Foi uma reação à razão mecanicista do Iluminismo, ênfase na subjetividade e um apelo ao nacionalismo ligado à afirmação da identidade alemã. O titanismo evoca a mitologia grega, na figura dos titãs e de Prometeu, expressa a inconformidade com a realidade e a disposição para romper regras e limites, que é uma das marcas do romantismo.

Friedrich Schlegel (1772 – 1829), na obra "Conversa sobre poesia", aproxima a Filosofia da obra poética, fragilizando a vigilância epistemológica, que é preciosa ao trabalho do filósofo. Mais tarde Lucio Colletti (1924 – 2001), pensador italiano, referiu-se à dialética hegeliana como uma senhora de costumes cognoscitivos fáceis. Aludiu à mistura de teses e antíteses e à cosmogonia não demonstrada.

A síntese dialética do voluntarismo romântico com sua antítese, o determinismo positivista, permitiu a Friedrich Engels (1820 – 1895) explicar tanto a natureza como os fenômenos sociais com a dialética. na obra Dialética da natureza. A senhora de costumes cognoscitivos fáceis permitiu tal inversão.

O titanismo dos românticos ensejou revolta contra regras, limites e fatos. Acabou por guardar relação com o ódio, o extremismo, e desconectado da realidade. Tudo isso foi o resultado da inconformidade em face da realidade, conforme Isaiah Berlim (1909 – 1997), na obra "Ideias políticas na era romântica".

Berlin relaciona o extremismo autoritário e a violência com o romantismo, em razão da tendência para a revolta e o desprezo pela realidade das experiências históricas. Isso é dito indiretamente, associando o romantismo a uma profunda mudança na consciência ocidental, em razão da ressignificação do que entendemos por liberdade, do indivíduo e por autoridade legítima, como consequência da extremada rejeição à racionalidade posta pelo Iluminismo.

A síntese do romantismo com outras tradições cria contradições difíceis de contornar. Surge assim a necessidade de muito contorcionismo lógico, que por sua vez resulta em obras cuja complexidade torna os textos incompreensíveis até para grandes pensadores. A Navalha de Ockham, princípio enunciado por Guilherme de Ockham (1287 – 1347), segundo o qual entre muitas explicações para um fenômeno, provavelmente a mais simples é a correta, colide frontalmente com prestigiosos autores incompreensíveis.

Dificilmente uma banca examinadora aprovaria uma tese que os professores não fossem capazes de entender. A incomunicabilidade dos paradigmas, de Thomas Kuhn, na obra "A estrutura das revoluções científicas", pode explicar a incompreensão dos seguidores de paradigmas distintos. Quando, porém, uma obra é incompreensível até para grande parte dos seguidores da mesma corrente de pensamento, a situação é diferente.

Karl Raymond Popper (1902 – 1994), na obra "Sociedade aberta, universo aberto", que é um conjunto de entrevistas e conversas com o jornalista Franz Kreuzer, afirma que a falta de clareza, quando se trata de pessoa altamente qualificada do ponto de vista intelectual, sugere fundamentação precária, sugestiva de logomaquia. Também pode significar que o véu de Maya, de fala Arthur Schopenhauer (1788 – 1860), na obra "O mundo como vontade de representação", ilusão que recobre o mundo real. Por trás do referido véu se esconde a vontade cega que move o mundo.

O declínio do debate político e filosófico, no contexto da pós-modernidade, reflete efeitos tardios da síntese dialética do espírito romântico com a relativização cognitiva e das referências axiológicas, em nome de uma cultura plural que prega a tolerância e enfatiza a falibilidade enquanto age de modo dogmático em nome do politicamente correto.

Fortaleza, 29 de julho de 2026.

Rui Martinho Rodrigues é escritor, sociólogo e historiador. Presidente de Honra da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo-ACLJ 

sábado, 15 de agosto de 2026

"A pobreza como projeto de poder " - Por Barros Alves

                                                      


Há uma pergunta que o Brasil precisa fazer sem medo, sobretudo às vésperas de mais uma eleição presidencial: por que, depois de décadas de governos e de programas destinados a combater a pobreza, milhões de brasileiros continuam dependendo do Estado para sobreviver?

As pesquisas eleitorais mais recentes acrescentam uma dimensão política inquietante a essa pergunta. No Nordeste, região que concentra alguns dos mais baixos indicadores socioeconômicos do país, Luiz Inácio Lula da Silva mantém vantagem expressiva sobre seu principal adversário, Flávio Bolsonaro. Levantamentos recentes mostram que a força eleitoral de Lula continua particularmente concentrada nessa região.

Não se trata de questionar o direito dos nordestinos de votar em quem quiserem. Democracia é justamente o direito de escolher livremente. A questão é outra: que relação se estabeleceu, ao longo de décadas, entre pobreza, dependência econômica do Estado e fidelidade eleitoral?

O Partido dos Trabalhadores construiu grande parte de sua identidade política sobre a promessa de representar os pobres e combater a desigualdade. Desde a chegada de Lula à Presidência, em 2003, essa narrativa foi reforçada por uma extensa rede de programas de transferência de renda. O Bolsa Família tornou-se o símbolo maior dessa política.

É preciso reconhecer que programas de transferência de renda podem desempenhar uma função social importante.

Mas, constatar a necessidade de assistência aos que realmente precisam não significa aceitar que assistência seja confundida com emancipação.

Uma coisa é o Estado socorrer temporariamente quem atravessa uma situação de pobreza; outra, completamente diferente, é construir uma sociedade na qual milhões de pessoas permanecem indefinidamente dependentes de benefícios públicos, enquanto o setor produtivo é submetido a uma carga tributária pesada para financiar uma máquina estatal cada vez maior.

O pobre precisa de renda, mas precisa, sobretudo, de oportunidade. Precisa de escola que ensine, de formação profissional, de emprego, de segurança para trabalhar. Precisa de saneamento, de infraestrutura, de crédito, de empreendedorismo, de liberdade para produzir. Precisa de um ambiente econômico em que seja mais vantajoso trabalhar do que permanecer eternamente dependente de uma transferência governamental.

O problema começa quando o cidadão deixa de ser visto como alguém que precisa superar a pobreza e passa a ser tratado como alguém que precisa permanecer dependente dela. O próprio Lula já declarou no melhor estilo nazi-stalinista que o pobre é um número.

É aí que a política social pode degenerar em política de dependência. A crítica, evidentemente, não deve ser dirigida ao pobre que recebe um benefício, porque o pobre não é culpado pela pobreza. Tampouco se deve demonizar programas de transferência de renda que ajudam famílias em situação de vulnerabilidade. A crítica deve dirigir-se a um modelo político que, depois de tantos anos, ainda não conseguiu transformar suficientemente assistência em autonomia. Portanto, é perfeitamente legítimo perguntar: qual é a porta de saída?

Se o Estado entrega dinheiro, mas não entrega educação de qualidade; se oferece benefício, mas não cria condições para a formalização do trabalho; se subsidia o consumo, mas não reduz os obstáculos à produção; se aumenta continuamente a arrecadação sem oferecer serviços públicos compatíveis com aquilo que cobra, então alguma coisa está profundamente errada.

E o problema não é apenas econômico. É também político. Quanto maior o contingente de pessoas que depende diretamente do Estado, maior pode ser o poder político de quem controla a máquina estatal. O eleitor deixa de enxergar o governo apenas como prestador de serviços públicos e passa a enxergá-lo como fonte direta de sua sobrevivência.

Essa relação é perigosíssima para uma democracia que se quer madura.

Porque democracia não deve funcionar com o governo concedendo e o cidadão agradecendo; assim o voto transforma-se em retribuição política.

Democracia deve necessariamente funcionar de outra maneira: o Estado cria condições para que o cidadão possa caminhar com as próprias pernas.

O Brasil precisa romper com a ideia de que combater a pobreza significa apenas distribuir dinheiro, cesta básica, vale-gás. Transferência de renda pode ser necessária; não pode, entretanto, ser confundida com projeto nacional de desenvolvimento.

O verdadeiro programa contra a pobreza deveria ser aquele que reduz progressivamente o número de pessoas que precisam do programa.

Esse é o paradoxo que o Brasil precisa enfrentar.

Se depois de décadas de governos que se apresentam como defensores dos pobres, ainda temos uma parcela enorme da população dependente de programas de transferência de renda, é legítimo perguntar se estamos diante de uma política de superação da pobreza ou de uma política de administração permanente da pobreza.

Não é preciso afirmar que o PT deseja a pobreza para fazer essa crítica. Seria impossível demonstrar uma intenção tão abrangente. A questão é mais séria e mais objetiva: o governo assistencialista pode acabar se beneficiando eleitoralmente de um problema que deveria estar empenhado em resolver.

Essa é a pergunta incômoda. E ela vale para a esquerda, para a direita e para qualquer governo.

O pobre não precisa de um político que lhe prometa eternamente um benefício. Precisa de um país que lhe permita deixar de precisar dele. O maior programa social de todos deveria ser aquele que transforma o beneficiário em trabalhador, o trabalhador em empreendedor, o empreendedor em empregador e o dependente em cidadão economicamente independente.

Enquanto isso não acontecer, continuaremos discutindo quem oferece o benefício maior, em vez de discutir por que tantos brasileiros ainda precisam dele. Um país verdadeiramente comprometido com os pobres não deveria querer administrar a pobreza para sempre. Deveria querer acabar com ela.

domingo, 9 de agosto de 2026

"Amor de pai" - Por Barros Alves

                                                   


1

Ser pai é ser abrigo em noite escura,

É ser caminho e  bússola; é ser guarida.

É dar ao filho o pão, o rumo, a vida,

É ser a esperança que perdura...


É ser presença firme na amargura,

É ser luz na chegada e na partida;

É dar a mão na senda percorrida,

Para amparar na queda ou desventura.


Mas, se a morte vier, cruel e fria,

Ceifar do pai o filho tão amado,

Seu próprio coração feneceria.


Pois antes quer o pai ser sepultado

Que contemplar, na mais  triste agonia,

O filho morto e ele inda vivo ao lado.


***


2

Ser pai é ser amparo e fortaleza,

É ser vigília à noite e à  luz do dia,

É dar ao filho o amor e a companhia

E ao seu caminho oferecer firmeza.


É ser conselho, abrigo e segurança,

Guardando o filho na adversidade.

É ensinar-lhe o bem,  fé e verdade,

E alimentar-lhe a alma de esperança.


E se a morte, com sua mão sombria,

Vier roubar-lhe o filho do seu peito,

Preferirá morrer naquele dia.


Pois não há dor que possa ter conceito

Maior, que ver jazer na campa fria

O filho amado, sem jaça e sem defeito.


***

3

Ser pai é enfrentar a aspereza,

É ser farol em noite desabrida,

É dar ao filho um rumo certo à vida,

E à sua alma o senso de grandeza.


É ser o pão, o braço e a certeza

Da confiança que o tempo convalida.

É proteger-lhe o corpo ou a alma ferida,

É transformar a dor em fortaleza.


Se a morte, em seu furor, vier um dia

Roubar-lhe o filho, fruto do seu ser,

Prefere o pai fazer-lhe  companhia.


Ao filho morto não quer sobreviver,

O filho é chama ardente que alumia.

Sem essa luz é bem melhor morrer.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

"O triunfo da mediocridade autoritária" - Por Barros Alves

                                                       


Uma das perguntas mais perturbadoras da história política é esta: como homens de inteligência comum, formação limitada e escassa grandeza moral conseguem dominar povos inteiros e levar personalidades brilhantes à submissão? Como juristas renomados, professores, jornalistas, empresários, religiosos e intelectuais renunciam ao dever de resistir, aceitando ou mesmo justificando o avanço do autoritarismo?

Alexis de Tocqueville advertia que as democracias podem ser corroídas não apenas pela força das armas, mas pela conformidade das consciências. Hannah Arendt mostrou que o totalitarismo prospera quando as pessoas deixam de pensar criticamente e passam a aceitar como normal aquilo que antes lhes parecia intolerável. George Orwell demonstrou que controlar a linguagem é um caminho para controlar a realidade. Aleksandr Soljenítsin, sobrevivente do Gulag soviético, ensinou que a primeira vitória da tirania ocorre quando os homens aprendem a viver na mentira.

Stalin, Hitler e Mussolini pertencem a contextos históricos distintos e governaram regimes totalitários responsáveis por guerras, perseguições políticas e milhões de mortes. Seria incorreto equiparar os governos lulocomunopetistas a essas ditaduras? Eu penso que, mutatis mutandis, não. A  história permite comparar métodos, estratégias e tendências autoritárias, sempre respeitando as diferenças de escala e contexto.

Ao longo dos anos recentes os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff estimularam um modelo de poder caracterizado pela concentração de influência política, pela tentativa de hegemonia ideológica, pelo aparelhamento de significativas parcelas da administração pública, pela aproximação com governos de perfil autoritário na América Latina e em outras regiões do planeta, pela desqualificação sistemática de adversários. Ainda que essas práticas tenham ocorrido dentro de um regime dito democrático, elas suscitam debates legítimos sobre os limites do poder e a necessidade de preservar instituições independentes.

O problema maior, porém, não está apenas nos governantes. Está na capitulação das elites. Ao longo da história, regimes autoritários raramente triunfaram apenas pela força. Contaram sempre com intelectuais dispostos a justificar abusos, jornalistas que relativizaram violações, empresários que preferiram a conveniência ao princípio e líderes religiosos que trocaram a verdade pelo silêncio.

A liberdade não desaparece apenas quando surgem censores oficiais. Ela também enfraquece quando o medo da reprovação social substitui a coragem da palavra livre; quando a autocensura se torna hábito; quando críticas passam a ser confundidas com discursos de ódio; quando o debate é substituído pela desqualificação moral do adversário.

Nenhum projeto político, seja de esquerda ou de direita, pode colocar-se acima da Constituição, da alternância de poder, da liberdade de expressão, da independência do Judiciário e da autonomia da sociedade civil. Esses não são privilégios concedidos pelo Estado, mas fundamentos de uma ordem verdadeiramente democrática.

A maior tragédia política não é o aparecimento de líderes com vocação autoritária, uma vez que eles sempre existiram. A verdadeira tragédia ocorre quando homens e mulheres livres, plenamente capazes de discernir o certo do errado, abandonam o combate moral, acomodam-se ao poder e passam a justificar aquilo que antes condenavam.

A história ensina que as democracias morrem menos pela força dos tiranos do que pela fraqueza daqueles que deveriam defendê-las. A liberdade exige vigilância permanente, coragem intelectual e compromisso inabalável com a verdade. Quando esses valores são substituídos pelo conformismo e pela submissão ao poder, abre-se caminho para que a mediocridade política prevaleça sobre a excelência moral.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

"O conflito entre o Vaticano e a FSSPX" - Por Barros Alves

                                                           


A história recente da Igreja Católica registra poucos episódios tão controversos quanto a excomunhão dos bispos sagrados por Dom Marcel Lefebvre em 1988. Para muitos católicos ligados à tradição, a medida adotada pelo Vaticano representou menos uma necessidade pastoral e mais uma demonstração de autoridade institucional diante de um movimento que se recusava a abandonar práticas litúrgicas e doutrinárias consideradas fundamentais para a preservação da identidade católica.

Sob essa ótica, a excomunhão mostrou-se contraproducente. Em vez de favorecer a reconciliação, aprofundou divisões e alimentou ressentimentos que poderiam ter sido evitados por meio de um diálogo mais paciente e caridoso. Afinal, a Igreja sempre soube conviver com diferentes sensibilidades espirituais e litúrgicas ao longo de sua história. Surge, então, uma pergunta legítima: por que o rito tridentino não poderia ser tratado simplesmente como mais uma expressão legítima da tradição católica?

Muitos fiéis identificam uma aparente incoerência na postura de setores da hierarquia eclesiástica. Enquanto celebrações marcadas por experiências litúrgicas heterodoxas, elementos sincréticos ou adaptações culturais questionáveis frequentemente recebem tolerância ou mesmo incentivo, comunidades profundamente ligadas à liturgia tradicional encontram resistência e restrições. Para esses católicos, o rito tridentino não representa uma ruptura com a Igreja, mas justamente o contrário: uma continuidade visível com séculos de tradição teológica, espiritual e litúrgica.

A questão das sagrações episcopais também merece uma análise mais serena. Dom Marcel Lefebvre não foi um reformador rebelde nos moldes de Martinho Lutero. Era um bispo católico, formado e reconhecido pela própria Igreja, cuja trajetória missionária e fidelidade à fé recebida dificilmente podem ser colocadas em dúvida. Seus defensores sustentam que sua decisão de sagrar bispos não nasceu de um desejo de criar uma nova igreja, mas da convicção de que era necessário preservar uma herança espiritual que julgava ameaçada.

Além disso, existe uma dimensão sacramental que não pode ser ignorada. A teologia católica ensina que o caráter episcopal é permanente. Um bispo validamente sagrado continua sendo bispo, ainda que sofra sanções canônicas. Esse fato ajuda a compreender por que muitos fiéis enxergam a questão não como um problema de validade sacramental, mas como uma disputa disciplinar e jurisdicional.

Os acontecimentos posteriores parecem reforçar essa interpretação. Se São João Paulo II considerou necessária a excomunhão dos bispos da Fraternidade, Bento XVI julgou oportuno remover esse obstáculo para favorecer o diálogo e a reconciliação. Tal decisão demonstrou que a própria Santa Sé reconhecia a conveniência de buscar caminhos menos punitivos e mais pastorais para enfrentar a questão.

Outro aspecto frequentemente ignorado é que, durante o pontificado do Papa Francisco, existiram sinais concretos de aproximação entre Roma e a Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Mesmo um pontífice identificado por muitos como representante de uma linha mais aberta e reformista compreendeu a importância de manter canais de diálogo com os tradicionalistas. Essa disposição revelava que a unidade da Igreja não pode ser construída apenas pela incorporação de correntes progressistas, mas também pelo acolhimento daqueles que desejam conservar formas tradicionais de expressão da fé.

Nesse contexto, muitos católicos ligados à tradição receberam com apreensão as mudanças ocorridas após a morte de Francisco e a eleição de Leão XIV. A preocupação não decorre de uma rejeição ao novo pontífice, mas do receio de que o processo de aproximação entre Roma e a Fraternidade encontre novos obstáculos. Para esses fiéis, a verdadeira solução não está em sanções ou exclusões, mas em um diálogo honesto que reconheça a legitimidade das preocupações levantadas pela FSSPX ao longo das últimas décadas.

A Igreja Católica sempre foi mais forte quando soube integrar diferenças legítimas em torno de uma mesma fé. Por isso, muitos acreditam que a Fraternidade Sacerdotal São Pio X não deveria ser vista como uma inimiga a ser combatida, mas como uma realidade eclesial a ser compreendida e reconciliada. A unidade autêntica nasce da verdade, mas também da caridade. E nenhuma delas prospera quando a lógica do poder se sobrepõe à lógica da comunhão.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

"O vandalismo da memória histórica" - por Barros Alves

                                                                        


Ao visitar Teixeira de Freitas, próspero município do extremo sul da Bahia, depois de longa ausência, eis que não consigo encontrar na sede municipal, a Av. Lomanto Júnior,  nomeação que prestava homenagem a um dos mais influentes líderes políticos baianos da segunda metade do século passado. Sem motivo justificável o nome de Lomanto foi substituído pelo de Zilda Arns, uma personalidade que nunca pôs os pés na cidade. A constatação do desrespeito à memória daquele que foi  governador, senador e deputado federal, leva-me às considerações que seguem.

C.S. Lewis alertava para o perigo das gerações que se julgam capazes de “refundar o mundo”. Em sua arrogância, acreditam que a história começou com elas e que tudo o que as precedeu deve ser submetido ao tribunal ideológico do presente. Lembrai-vos do jargão "nunca antes neste país..." Eis uma ilusão recorrente e profundamente destrutiva. Nenhuma sociedade se sustenta sem memória, e nenhum futuro sólido pode ser construído sobre as ruínas deliberadamente produzidas do passado.

O que se observa hoje no Brasil, e particularmente em determinados ambientes políticos e acadêmicos, é a expansão de uma verdadeira cultura de hostilidade à história. Sob o rótulo aparentemente respeitável das “releituras históricas”, promove-se, na prática, um processo de deslegitimação da memória coletiva. Não se busca compreender o passado em sua complexidade; busca-se condená-lo. Não se pretende ampliar o conhecimento histórico; pretende-se reescrevê-lo segundo os dogmas ideológicos dominantes.

Essa postura tem produzido um fenômeno preocupante: o vandalismo simbólico. Em vez de destruir estátuas com marretas ou incendiar monumentos, apagam-se nomes, eliminam-se homenagens e removem-se referências históricas por meio de atos administrativos. O método mudou; a intolerância permanece a mesma. Trata-se de uma forma de iconoclastia que, sob o discurso da modernização ou da justiça histórica, revela profundo desprezo pela memória institucional e cultural da sociedade.

No Ceará, esse fenômeno tem se manifestado de maneira particularmente inquietante. A retirada do nome de Menezes Pimentel da fachada da Biblioteca Pública do Estado constitui um gesto de ingratidão histórica. Professor, ex-governador e homem público de reconhecida relevância, Menezes Pimentel não emprestou seu nome à instituição por acaso ou favor político. A homenagem representava o reconhecimento de uma trajetória vinculada ao desenvolvimento intelectual e administrativo do Estado. Sua supressão não engrandece a biblioteca nem fortalece a cultura; apenas empobrece a memória coletiva.

Da mesma forma, causam perplexidade as iniciativas que atingem a memória do presidente Humberto de Alencar Castello Branco e do reitor Antônio Martins Filho. Este último foi o fundador e primeiro reitor da Universidade Federal do Ceará, um dos maiores construtores da educação superior cearense. Quanto a Castello Branco, pode-se concordar ou discordar de aspectos de sua atuação política, mas ninguém pode negar sua relevância histórica. A tentativa de reduzir personagens dessa dimensão a caricaturas ideológicas revela menos sobre eles do que sobre aqueles que promovem tal julgamento.

Há algo de profundamente autoritário na pretensão de selecionar quais figuras do passado merecem ser lembradas e quais devem ser lançadas ao esquecimento. Os que hoje se apresentam como defensores da diversidade frequentemente demonstram escassa tolerância diante da diversidade de interpretações históricas. Querem uma memória pública higienizada, filtrada e adaptada às conveniências de sua visão de mundo. O resultado é uma história mutilada, incapaz de ensinar porque foi previamente censurada.

Uma sociedade madura não elimina seus personagens históricos; ela os estuda, contextualiza e debate. O apagamento não produz conhecimento. Ao contrário, produz ignorância. A destruição da memória coletiva nunca foi instrumento de progresso. Dos regimes totalitários do século XX aos movimentos contemporâneos de cancelamento histórico, a lógica permanece a mesma: controlar o passado para dominar a narrativa do presente.

O Ceará e o Brasil possuem desafios muito mais urgentes do que a perseguição simbólica a nomes inscritos em prédios públicos e instituições centenárias. Quando governantes e dirigentes concentram energias em rebatizar espaços e desmontar homenagens históricas, demonstram preocupante inversão de prioridades. A história deixa de ser objeto de estudo para se transformar em alvo de ressentimentos políticos.

A preservação da memória não é um ato de saudosismo. É um dever de civilização. Povos que perdem a capacidade de respeitar sua história acabam perdendo também a capacidade de compreender a si próprios. E aqueles que imaginam estar refundando o mundo costumam descobrir, tarde demais, que estavam apenas destruindo os alicerces sobre os quais ele foi construído.