sexta-feira, 5 de junho de 2026

"Nossa Senhora, de Fulton Sheen" - Por Barros Alves

                                                                          


Recentemente algumas editoras brasileiras redescobriram uma das personalidades mais importantes da Igreja Católica no século XX, sobretudo nos EUA, onde desempenhou sua missão sacerdotal, sendo um dos primeiros prelados católicos a usar com grande sucesso os principais meios de comunicação da época, quais sejam o Rádio e a Televisão. Refiro-me ao Bispo Fulton Sheen, que alcancou enorme popularidade nos anos 1950,  ao apresentar diariamente durante vários anos, o Programa "Life is Worth Living" (A vida vale a pena ser vivida). Além de exímio pregador, Sheen era doutorado em Filosofia e Teologia, foi professor e escreveu dezenas de livros sobre  espiritualidade, apologética e vida cristã, entre eles "Nossa Senhora"  sobre o qual falarei adiante; "O Sacerdote Não Pertence a Si Mesmo", "Paz de Espírito" e "A Vida de Cristo".

Reconhecido por sua eloquência, profundidade intelectual e fervor mariano, Fulton Sheen teve papel decisivo na evangelização através dos meios de comunicação modernos. Em 2012, o Papa Bento XVI reconheceu suas virtudes heróicas, concedendo-lhe o título de Venerável, importante etapa no processo de canonização. Em 5 de julho de 2019, o Papa Francisco aprovou um milagre ocorrido pela intercessão de Fulton Sheen, mas seu processo de beatificação ainda permanece aberto. Todavia, como Deus a tudo conduz no tempo que Lhe aprouver, talvez tenha colocado um norte-americano no trono de Pedro para que também venha a reconhecer a santidade de vida de Fulton Sheen.  Aliás,  já há informações de que a beatificação do Venerável ocorrerá no dia 24 de setembro vindouro, em Saint Louis, Missouri, Estados Unidos. A celebração se dará sem a presença do Papa Leão XIV, que será representado prlo Cardeal Luís Antonio Tagle.

É sobre um dos mais admiráveis escritos desse extraordinário pregador mariano, que passarei a discorrer. Li a obra embevecido. Não estarei faltando com a verdade se disser que toda a escritura de Fulton Sheen me comove, me enleva e me eleva.

A Edições Gratia Plena, de Valadares, Minas Gerais, publicou em 2021 o livro "Nossa Senhora" (144 páginas), uma obra de espiritualidade mariana que reúne reflexões sobre a pessoa, a missão e a importância da Virgem Maria na história da salvação. Sheen, conhecido por sua extraordinária capacidade de comunicar a fé católica ao grande público, apresenta Maria não apenas como objeto de devoção, mas como modelo perfeito de fé, esperança e amor. O autor examina episódios da vida da Mãe de Jesus, suas virtudes — maternidade, virgindade, fidelidade e confiança em Deus — e também o significado espiritual das principais aparições marianas reconhecidas pela Igreja.

Um dos temas centrais do livro é a convicção de que toda autêntica devoção mariana conduz a Cristo. Para Sheen, Maria nunca ocupa o lugar de Jesus; ao contrário, sua missão é levar os fiéis ao encontro do Filho. Essa perspectiva está em plena sintonia com a tradição católica, que vê Maria como medianeira de graças por sua íntima união com a obra redentora de Cristo. Rigorosamente católico ele observa: "Maria não é nossa redenção; não caiamos no absurdo. Asdim como a mãe nao é o médico, assim Maria não é o Redentor; do mesmo modo, porém, que muitos de entre nós devem a conservação da sua vida física à mãe terrena, assim devem a conservação da sua vida espiritual à Mãe de todas as mães, a Nossa Senhora." ( pág.  118)

A obra possui um tom ao mesmo tempo teológico e pastoral.  Fundamentada na doutrina católica, é escrita em linguagem acessível, marcada pelo estilo eloquente e meditativo característico de Fulton Sheen. Por isso, pode ser apreciada tanto por estudiosos da mariologia quanto por leitores que desejam aprofundar sua vida espiritual.

"Nossa Senhora", de Sheen,  não é um tratado acadêmico de mariologia, desses chatos e herméticos que fazem o leitor não passar da décima página.  Trata-se de uma obra de contemplação e formação espiritual. Seu maior mérito está em apresentar Maria como figura viva e atual, capaz de inspirar o cristão contemporâneo em meio às crises da família, da fé e da cultura. A leitura revela a profunda devoção mariana de Fulton Sheen e sua convicção de que o caminho mais seguro para Cristo passa pela escola espiritual de Maria. A fala profética e admoestadora contra o comunismo ateu está no último capítulo, "Nossa Senhora da Rússia", que continua atualíssimo, apesar do texto haver sido escrito em tempos de Guerra Fria.

Enfim, é uma leitura amena que, apesar de ser traduzido (tradutore, traditore) conserva o estilo leve e agradável de Sheen, sem perder a densidade teológica. Daí é que tenho certeza de que constitui profícua leitura não apenas para leigos, mas também  para sacerdotes e religiosos que desejam fortalecer a devoção mariana, assim como compreender melhor o papel de Nossa Senhora na fé católica e na própria economia da salvação.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

"Kostomárov, Orwell e as revoltas dos bichos” - Por Barros Alves



Recentemente a Editora Ercolano publicou um livrinho (o diminutivo é afetuoso) até aqui desconhecido do leitor brasileiro. A pérola nos veio da velha Ucrânia.

Muitos conhecem a "A Revolução dos Bichos", do escritor inglês George Orwell; mas poucos leram o conto "A Revolta dos Bichos", de autoria do russo (ucraniano) Mykola Kostomárov, ambas as obras exercícios de ficção política com um conteúdo crítico ao poder autoritário. Embora separados por quase um século e por contextos históricos muito distintos, "A Revolta dos Bichos" ou "O Motim dos Animais"  (Skótskoi bunt), de Mykola Kostomárov, e "A Revolução dos Bichos" (Animal Farm), de George Orwell, apresentam um notável ponto de contato: as duas obras utilizam a alegoria animal para refletir sobre os vícios do poder político e as deformações dos projetos de emancipação social. Contudo, as semelhanças terminam, em grande medida, nesse recurso formal, pois os objetivos ideológicos, a profundidade da crítica e o horizonte histórico de cada obra diferem substancialmente.

Kostomárov publicou "Skótskoi bunt" por volta de 1880, período marcado pelo conservadorismo do Império Russo e pelas tensões decorrentes da servidão rural. A narrativa apresenta animais que se insurgem contra a ordem estabelecida, imaginando construir uma sociedade mais justa. Entretanto, a rebelião degenera em desordem, violência e fracasso.

Já Orwell publicou "Animal Farm" em 1945, quando o mundo saía da Segunda Guerra Mundial e começava a confrontar as contradições do regime soviético. Na obra inglesa, os animais da Granja do Solar derrubam o fazendeiro Jones para criar uma sociedade baseada na igualdade. Pouco a pouco, porém, os porcos concentram o poder, transformando a revolução em uma nova forma de tirania.

Em ambos os casos, os animais funcionam como espelhos da sociedade humana. A diferença fundamental reside no alvo da crítica. Kostomárov dirige seu olhar para os perigos da rebelião descontrolada e para a incapacidade das massas de construir uma ordem estável. Orwell, por sua vez, examina a corrupção interna dos movimentos revolucionários e a transformação dos libertadores em opressores.

A obra de Kostomárov possui forte matriz conservadora. Poeta, ensaísta e historiador  atento às revoltas camponesas e aos movimentos populares do Leste Europeu, ele via com desconfiança as explosões revolucionárias que prometiam instaurar uma nova sociedade. Em "Skótskoi bunt", a revolta dos animais sugere que a destruição da ordem tradicional pode gerar consequências ainda piores do que os problemas que se pretendia corrigir.

No caso de Orwell, crítico feroz do stalinismo, jamais abandonou seus ideais socialistas democráticos. Sua crítica não é dirigida à ideia de igualdade social, mas à burocratização e à concentração de poder que deformaram a Revolução Russa. Assim, ingenuamente, "Animal Farm" não condena a revolução em si; condena sua degeneração autoritária. Ora, a doutrina marxista que dá sustentação aos governos socialistas/comunistas é "intrinsecamente má", confirme assegurou com razão o Papa Pio XI. O stalinismo como todos os demais "ismos" filhotes do marxismo são autoritários, cruéis e criminosos.

Então, o que se constata é que enquanto Kostomárov parece advertir que a ordem é preferível ao caos revolucionário, Orwell sustenta que a revolução somente fracassa quando abandona seus princípios originais.

Outro aspecto comparativo relevante diz respeito à representação dos líderes.

Na obra de Kostomárov, os líderes da revolta aparecem frequentemente como figuras incapazes, impulsivas ou manipuladoras. O fracasso decorre tanto da irracionalidade coletiva quanto da ausência de direção política consistente.

Em Orwell, a liderança é representada sobretudo por Napoleão, figura suína que simboliza claramente Joseph Stalin. O problema não é a ausência de liderança, mas sua hipertrofia. Napoleão constrói um sistema baseado no culto à personalidade, na propaganda e na repressão.

Dessa forma, Kostomárov identifica o perigo na insuficiência de autoridade; Orwell, no excesso dela.

Se a obra de Kostomárov enfatiza a desordem provocada pela rebelião, Orwell concentra sua atenção na manipulação da linguagem.

Em "Animal Farm", os mandamentos revolucionários são continuamente alterados para justificar privilégios e abusos. Epa!!! Qualquer semelhança com o Brasil atual não é mera coincidência! A famosa máxima “Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que os outros” tornou-se uma das formulações mais célebres da literatura política do século XX.

A preocupação orwelliana antecipa discussões contemporâneas sobre propaganda, desinformação e controle ideológico. Nesse aspecto, sua obra alcança profundidade filosófica e política superior à de Kostomárov, cuja alegoria permanece mais próxima da fábula moral tradicional.

Apesar das diferenças, ambas permanecem atuais porque tratam de uma questão permanente da vida política: a distância entre os ideais proclamados e os resultados efetivamente alcançados.

Kostomárov alerta para os riscos da destruição irrefletida das instituições; Orwell adverte contra a captura das instituições por elites que se apresentam como representantes do povo.

O primeiro teme a anarquia; o segundo teme a tirania.

Destarte, podemos afirmar que "A Revolta dos Bichos", de Mykola Kostomárov; e "A Revolução dos Bichos", de George Orwell, pertencem a uma mesma tradição alegórica, mas expressam visões políticas distintas. Kostomárov, influenciado pelo conservadorismo do século XIX, enfatiza os perigos da insurreição popular e da ruptura da ordem social. Orwell, moldado pelas tragédias totalitárias do século XX, denuncia a corrupção do poder revolucionário e a metamorfose dos libertadores em novos tiranos.

Se a obra de Kostomárov pode ser lida como uma defesa da prudência política, a de Orwell constitui uma advertência universal sobre a tendência do poder a reproduzir privilégios e desigualdades. Em conjunto, os dois livros oferecem uma reflexão profunda sobre os limites das revoluções e sobre a fragilidade dos ideais humanos diante das tentações da dominação. O que não se sabe é se Orwell foi influenciado pelo quase drsconhecido ucraniano  Kostomárov, para escrever o famoso "A Revolução dos Bichos".

domingo, 31 de maio de 2026

"Corações ao Alto" - Por Barros Alves

                                                                         


Há lembranças que o tempo não desgasta. Antes, as torna mais luminosas, como aquelas estrelas antigas cuja luz continua viajando pelo firmamento mesmo depois de já não estarem entre nós. Assim são as imagens de meu pai e de meu irmão, guardadas no sacrário da memória.

Meu pai, Zé Chico da Caiana, era um homem da terra. Agricultor de mãos calejadas, rosto queimado pelo sol e alma moldada pelos rigores da seca e das esperanças da chuva. Não sabia ler nem escrever. Aos olhos do mundo, era um analfabeto. Aos olhos de Deus, porém, era um sábio.

Vejo-o ainda, já envelhecido, sentado à cabeceira da mesa. Sobre ela repousavam os alimentos arrancados do chão pelo suor do seu rosto, conforme a antiga sentença do Gênesis: “Com o suor do teu rosto comerás o teu pão” (Gn 3,19). Ao seu redor, alguns dos dezesseis filhos e outros mais da família, recolhidos em respeitoso silêncio. Então ele unia as mãos, baixava a cabeça e agradecia.

Aquele gesto simples possuía a solenidade de uma liturgia.

Não era apenas uma oração antes da refeição. Era um ato de reconhecimento de que tudo vinha de Deus: o pão, o feijão, a chuva, a colheita, os filhos e a própria vida. Naquele instante, meu pai transformava a mesa familiar em altar e os alimentos em testemunhos da providência divina.

Lembro-me das palavras do salmista: “Todos têm os olhos postos em Ti, e a seu tempo lhes dás o alimento” (Sl 145,15). Meu pai jamais  leu  esse versículo. Contudo, ele o conhecia com uma profundidade que muitos doutores desconhecem. Conhecia-o porque o vivia.

Também me visita a lembrança de meu irmão, Joca, que para mim foi igualmente um pai. Homem da roça, de poucas palavras e muitos exemplos. Quando a noite descia sobre o sertão e o silêncio se espalhava pelos caminhos escuros, eu o via ajoelhado ao lado da rede de dormir.

A luz da lamparina tremulava, projetando sombras nas paredes de barro. E ali estava ele, curvado diante do Mistério.

Rezava sem pressa.

Agradecia sem exigências.

Confiava sem reservas.

Aquele homem simples, cuja existência parecia insignificante aos olhos dos poderosos, dialogava com o Senhor do universo como quem conversa com um amigo próximo. Não pedia riquezas nem honrarias. Agradecia. Apenas agradecia. Porque sabia que Deus tudo provê.

Hoje compreendo que aquelas cenas constituíam uma verdadeira teologia vivida. Não a teologia dos tratados eruditos, mas a teologia dos joelhos dobrados. Não a ciência dos livros, mas a sabedoria do coração.

Meu pai e meu irmão eram homens rudes, sem letras, mas não eram ignorantes. Havia neles uma inteligência espiritual que ultrapassava os limites do conhecimento acadêmico. Conheciam aquilo que Santo Agostinho chamou de “a ciência do amor”, a única capaz de conduzir o ser humano ao encontro de Deus.

Neles eu contemplava uma manifestação da graça. Uma epifania silenciosa que iluminava a casa pobre mais intensamente do que qualquer lâmpada.

Por isso, quando recordo suas figuras ajoelhadas, volto meu pensamento para a oração de Cristo:

“Graças te dou, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11,25).

Quantas vezes os poderosos imaginam possuir todas as respostas, enquanto os pequeninos guardam os segredos essenciais da existência! Quantas vezes os eruditos discutem Deus, enquanto os humildes simplesmente o encontram!

Meu pai encontrou Deus à mesa.

Meu irmão encontrou Deus junto à rede.

E ambos me ensinaram que a verdadeira grandeza não consiste em acumular saberes, mas em reconhecer, com humildade, a fonte de todos os bens.

Hoje, quando a memória me conduz àquelas noites de lamparina e àquelas refeições familiares, compreendo que vivi entre sacerdotes sem batina. Homens simples que celebravam diariamente a liturgia da gratidão. Homens que fizeram da própria vida uma oração.

E se algum dia me perguntarem onde vi mais claramente o rosto de Deus, talvez eu responda sem hesitar: numa mesa sertaneja cercada de filhos, ou sob a luz vacilante de uma lamparina, onde dois homens humildes, de joelhos, agradeciam ao Pai pelos dons que descem do alto.

Porque a fé, quando é verdadeira, não precisa de palácios nem de púlpitos. Basta-lhe um coração agradecido.

Mas a galeria dessas santas lembranças não estaria completa sem a presença de minha mãe adotiva, cuja memória habita em mim com a mesma ternura e gratidão.

Eu a chamava — e ainda hoje a chamo — de Meu Amorzinho.

Quando a recordo, vejo-a sempre com um rosário entre os dedos. As contas gastas pelo uso pareciam prolongamentos de suas próprias mãos, numa intimidade tão profunda com a oração que já não se distinguia onde terminava a mulher e começava a devoção.

Enquanto os homens da casa buscavam no trabalho da roça o sustento cotidiano, Meu Amorzinho travava seus combates no território invisível da fé. Rezava incessantemente. Rezava pelos parentes e aderentes, pela família, pelos enfermos, pelos ausentes e pelos aflitos. Rezava pelos vivos e pelos mortos. Rezava porque acreditava.

Hoje, olhando para trás, para aqueles anos marcados por permanentes lutas pela sobrevivência, imagino que muitas de suas súplicas eram depositadas aos pés de Nossa Senhora das Dores. Quem mais poderia compreender tão profundamente as aflições de uma mãe senão aquela que recebeu, ao pé da cruz, a espada profetizada por Simeão: "E uma espada transpassará a tua alma" (Lc 2,35)?

Talvez por isso Meu Amorzinho encontrasse nela abrigo e consolo. As dores da vida eram confiadas à Mãe das Dores; as incertezas do amanhã, à Rainha da Esperança; os temores da pobreza, àquela que cantou no "Magnificat" a fidelidade de Deus para com os humildes.

Ainda hoje me parece ouvir o suave murmúrio de suas Ave-Marias atravessando as tardes e as noites de nossa casa. Era uma oração simples, mas carregada de uma força que os poderosos dificilmente compreenderiam. Ali estava uma mulher sem pretensões teológicas, mas profundamente mergulhada nos mistérios da fé.

Se meu pai transformava a mesa em altar de gratidão e meu irmão santificava a noite sob a luz da lamparina, Meu Amorzinho convertia o rosário em ponte entre a Terra e o Céu. E assim, cada um à sua maneira, ensinava que Deus se deixa encontrar não apenas nos templos majestosos, mas também nas casas humildes onde a oração brota sincera do coração.

Hoje compreendo que muito da fé que me sustenta nasceu dessas três testemunhas silenciosas: meu pai de mãos postas à mesa, meu irmão ajoelhado junto à rede e Meu Amorzinho com o rosário entre os dedos. Neles resplandeceu aquela sabedoria dos pequeninos de que falou Cristo; neles a graça se fez visível; neles Deus escreveu, sem tinta e sem papel, uma das mais belas páginas de Evangelho que já pude ler.



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domingo, 10 de maio de 2026

"Sonetos para aquela que mais me amou" - Por Barros Alves


 Soneto I

Quando da vida o outono me alcançou,

Voltou-me à alma um lume enternecido:

Teu doce olhar, tão manso e comovido,

Que em minhas noites trêmulas brilhou.


“Meu Amorzinho” — assim te nomeou

Meu coração de afeto estremecido,

Pois foste abrigo, amparo e chão florido

Que a mão de Deus bondosa me ofertou.


Na singeleza do labor constante,

Na fé singela erguida em cada dia,

Formaste em mim o amor ao justo e ao santo.


E hoje ao sentir a dor de estás distante 

Ainda comigo estás, luzeiro e guia

Do filho amado que inda te ama tanto!


Soneto II

Ela tinha um olhar imaculado,

A sua voz, ternura e acalanto.

Uma santa a cobrir-me com seu manto

De puro e imenso amor ornamentado.


Ela me fez sonhar mesmo acordado,

E a apreciar encanto e desencanto,

E tantas vezes enxugou meu pranto

Igual a Virgem ao do Filho Amado.


Retirando os abrolhos do caminho

Estendeu-me um tapete de carinho

A demonstrar o maternal cuidado.


Ela foi minha MÃE sem me parir,

Quando eu chorei ela me fez sorrir,

Luz que fez meu viver iluminado.


Soneto III

Cobria-me com gestos de carinho,

Amou-me desvelada, em plenitude!

Ensinou-me os caminhos da Virtude

E eu a chamava de MEU AMORZINHO.


Ela foi um luzeiro em meu caminho,

O meu sentir jamais não há quem mude

Ao relembrar a doce completude

Do amor imenso de MEU AMORZINHO.


Era uma sábia, tinha engenho e arte.

Sem letra, sem escrita, sem estudo,

Soube empunhar da vida o estandarte.


Mesmo que eu fique cego, surdo e mudo,

Eu juro, espalharei por toda parte:

-- MEU AMORZINHO para mim foi TUDO!


Soneto IV

As lágrimas que eu chorei ela chorava,

As dores que eu senti ela sentia,

O riso que sorri ela sorria,

Os sonhos que eu sonhei ela sonhava.


Ao erro cometido ela ralhava,

Na desobediência reprimia,

Porém, seu doce olhar me bendizia,

Com suas orações me abençoava.


Um rosto todo feito de bondade,

Os gestos todos feitos de carinho,

De imenso amor e generosidade...


Ela foi sempre a luz do meu caminho,

Foi minha mãe de fato e de verdade,

Eu a chamava de MEU AMORZINHO.


Soneto V

Oh, que saudade do beijo e do carinho

Que a minha mãe me dava, eu pequenino;

A doce voz soava como um hino, 

E me chamava de meu amorzinho.


O seu imenso amor, eu imagino,

Iluminou no tempo o meu caminho, 

E eu a chamava de MEU AMORZINHO 

Numa repetição de amor supino.


Seu amor era quase devoção,

E eu inda hoje a vejo num cantinho 

Rogando a Deus por mim em oração.


Deus ouviu os seus rogos direitinho! 

Ela é Santa Tereza do Sertão,

Eternamente será MEU AMORZINHO!


Soneto VI

Quando mergulho em águas já passadas

Invade-me a saudade e a tristeza...

É que me lembro de minha mãe, Tereza,

Uma das mentes mais iluminadas!


A timoneira de um lar modesto e pobre

Era um tesouro de amor e de carinho,

Eu a chamava de “Meu Amorzinho”,

Um largo coração sensível e nobre!


Quão belas as cantigas que eu ouvia!

As quais para ninar-me ela cantava

Em doce e sonorosa melodia...


Era um poema de Deus cada canção,

Era uma santa cantando e eu não sabia:

--Era Santa Tereza do Sertão!












terça-feira, 28 de abril de 2026

"Santa Gianna Beretta Molla" - Por Barros Alves



Ó Gianna, chama pura e luminosa,

Que em Deus firmaste o amor e a confiança,

Da dor fizeste um canto de esperança

A florir fé serena e corajosa.


Teu coração, oferta generosa,

Soube abraçar, na extrema circunstância,

O dom da vida em santa vigilância,

Qual luzeiro em noite silenciosa.


Entre a vida e a morte ergueste um “sim”,

Eco divino em teu sofrer profundo,

Fazendo do teu sacrifício um fim


Que abriu à filha a aurora neste mundo;

E em Deus, que é Vida, repousaste enfim,

Na Eterna Luz do Amor alto e fecundo.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

"A autoridade constitucional do STF e a crise de legitimidade" - Barros Alves

                                                                        


A estabilidade institucional de uma República repousa, em grande medida, na confiança que o povo deposita em suas instituições, com maior relevo nas Cortes supremas. No caso brasileiro, o Supremo Tribunal Federal (STF), concebido como guardião da Constituição, atravessa um momento de crescente contestação pública e jurídica. Tal cenário decorre de dois vetores principais: de um lado, decisões consideradas por parte da doutrina e de juristas como heterodoxas ou mesmo dissociadas dos limites constitucionais; de outro, controvérsias envolvendo a conduta pessoal e institucional de alguns de seus ministros, amplamente repercutidas na mídia.

O chamado “Inquérito das fake news” (Inquérito nº 4.781) constitui o epicentro dessa crise. Instaurado em 2019 por iniciativa do então presidente da Corte, sem provocação do Ministério Público, e com designação direta do relator, o procedimento rompeu com práticas tradicionais do sistema acusatório brasileiro.

A então Procuradora-Geral da República, Raquel Dodge, chegou a sustentar que a investigação seria incompatível com a Constituição, por atribuir ao próprio Judiciário funções investigativas, potencialmente comprometendo sua imparcialidade. Ainda assim, o STF, por maioria, validou a abertura do inquérito, sob o argumento de proteção institucional diante de ameaças e campanhas de desinformação.

O problema, porém, não reside apenas na origem do procedimento, mas em sua evolução. Ao longo dos anos, o inquérito ampliou seu escopo, desdobrando-se em diversas investigações conexas, frequentemente conduzidas sob sigilo e com medidas consideradas por críticos como restritivas à liberdade de expressão e ao devido processo legal. Não por acaso, o ministro Marco Aurélio Mello, atualmente um crítico contumaz da Corte,  referiu-se ao caso como “Inquérito do fim do mundo”, expressão que sintetiza a percepção de um processo sem limites claros de objeto, duração ou competência.

Outro ponto sensível diz respeito a decisões que determinaram a retirada de conteúdos jornalísticos ou o bloqueio de perfis em redes sociais. Em episódio emblemático, o STF ordenou a remoção de reportagem que citava o então presidente da Corte, decisão posteriormente revista, mas que foi amplamente criticada por entidades de imprensa como um ato de censura. Essas medidas suscitam uma questão central: até que ponto a proteção institucional pode justificar restrições a direitos fundamentais? A resposta, longe de consensual, divide a comunidade jurídica e alimenta a percepção de que o Tribunal, em certos momentos, atua como parte interessada, e não como árbitro imparcial.

A crise de legitimidade se agrava quando decisões judiciais se entrelaçam com suspeitas ou controvérsias envolvendo membros da própria Corte. Casos recentes envolvendo o ministro Dias Toffoli, por exemplo, suscitaram questionamentos sobre possível conflito de interesses em investigações nas quais atua como relator.

Ainda que tais episódios sejam objeto de apuração e defesa institucional, e que o próprio STF, em determinados momentos, tenha reafirmado a validade dos atos praticados por seus ministros, o simples surgimento dessas controvérsias já é suficiente para abalar a confiança pública. Em instituições de cúpula, a aparência de imparcialidade é quase tão relevante quanto a imparcialidade em si.

Os defensores da atuação do STF argumentam que a Corte tem exercido um papel crucial na contenção de ameaças à ordem democrática, especialmente em um contexto de radicalização política e disseminação de desinformação. De fato, a proteção das instituições é uma função legítima e necessária.

Entretanto, a crítica central reside no método: ao expandir suas próprias competências, investigar, acusar e julgar em determinados casos, o Tribunal corre o risco de concentrar poderes em grau incompatível com o modelo de separação de poderes consagrado pela Constituição. O STF não é apenas um tribunal; é o vértice do sistema constitucional brasileiro. Por isso mesmo, sua autoridade depende menos da força de suas decisões e mais da legitimidade que delas emana.

A atual crise não se resolve com o silenciamento de críticas nem com a reafirmação abstrata de poderes institucionais. Exige, antes, um movimento de autocontenção, respeito estrito às garantias processuais e transparência irrepreensível na conduta de seus membros.

Sem isso, o risco não é apenas a deterioração da imagem da Corte, mas o enfraquecimento do próprio Estado de Direito que, em última instância, depende de um Judiciário forte, mas também equilibrado, previsível e fiel à Constituição que jurou guardar.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

"Nossa Senhora da Ternura" - Por Barros Alves

                                                                 


Ó Mãe suave, doce Mãe Bondosa

Tua ternura em bálsamo vertida

E o teu imenso amor, ó Mãe querida,

São fonte pura, doce e silenciosa.


Nos braços teus, a angústia dolorosa,

Em esperança e luz é convertida;

Teu manto envolve a lágrima caída

E a torna prece humilde e luminosa.


Senhora da Ternura, em ti contemplo

O amor que, sem alarde, tudo alcança,

Qual chama viva a arder no humano templo.


Inclina, pois, teu rosto de bonança

Sobre este peito em súplica e exemplo,

E faz da dor caminho de esperança.

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Cura a dor que em silêncio me devora,

Ó Mãe de olhar tão manso e compassivo;

Faz brotar em meu peito convulsivo

A fonte clara que minh’alma implora.


Se a noite é densa e a lágrima me aflora,

Sê lume terno, abrigo sempre vivo;

Do coração cansado o lenitivo,

O alento que renasce em boa hora.


Senhora da Ternura, doce guia,

Transforma em paz o pranto que me invade,

E em fé serena esta humana agonia.


Que em teu regaço eu vença a tempestade,

E encontre, além da sombra escura e fria, 

O claro sol da eterna Caridade.