domingo, 18 de outubro de 2026

"A Polônia e as lições sobre segurança, imigração e liberdade" - Barros Alves

Entre a tranquilidade de Cracóvia e a insegurança que inquieta grandes cidades europeias, impõe-se uma reflexão sobre os limites da imigração, a preservação da identidade nacional e a responsabilidade dos governantes na defesa da ordem pública. Há alguns meses tive uma  experiência de viagem que ultrapassou o prazer de conhecer novas paisagens e monumentos, em especial os templos religiosos, que me encantam e inspiram. Essas vivências nos levam a refletir sobre os rumos das sociedades, as escolhas políticas de seus governantes e os valores que sustentam uma civilização. Foi o que aconteceu comigo há alguns meses, quando estive na Polônia, mais precisamente em Cracóvia, uma das cidades mais belas e historicamente significativas da Europa. Foi uma graça, porque a Polônia nem estava na minha agenda. Coloquei-a por exigencia  irrevogável da minha neta Sofia, que insistiu em visitar os campos de concentração de Auschwitz e Birkenau (Auschwitz II). Louvo-lhe agora a decisão acertadíssima.

Cracóvia encanta pela arquitetura, pela limpeza de suas ruas, pela hospitalidade de seus habitantes e pela extraordinária presença da tradição cristã. Existe naquele ambiente algo que transcende a beleza material. Sente-se uma atmosfera de espiritualidade que convida à contemplação e desperta a percepção de que uma cidade não se constrói apenas com edifícios, estradas e praças, mas também com valores, memória e identidade. Entretanto, uma característica me impressionou particularmente, que foi a segurança pública. Durante a madrugada, caminhei pelas ruas centrais e encontrei pessoas tranquilamente reunidas nas praças, admirando os monumentos e desfrutando da cidade como se fosse pleno dia. Não percebi aquele clima de apreensão que, infelizmente, passou a acompanhar a experiência urbana em tantas outras partes da Europa.

Então, naturalmente vem a pergunta: por que a Polônia transmite uma sensação de segurança que parece cada vez mais rara em determinadas metrópoles europeias? A resposta não pode ser reduzida a uma única causa, porque segurança pública resulta de uma combinação de fatores, quais sejam  atuação policial, eficácia da Justiça, condições socioeconômicas, integração cultural, políticas migratórias e respeito às leis. Ainda assim, as escolhas políticas de cada país merecem ser examinadas, sobretudo quando seus resultados parecem produzir realidades tão distintas.

A história da Polônia é uma sucessão de sofrimentos, resistências e renascimentos. Seu povo conheceu a brutalidade da ocupação nazista e, depois da Segunda Guerra Mundial, viveu sob um regime comunista imposto pela influência soviética, que restringiu liberdades, perseguiu opositores e submeteu a sociedade a décadas de autoritarismo. Uma nação que experimentou os horrores de dois totalitarismos aprendeu, a duras penas, o preço da perda da liberdade e da submissão da sociedade a projetos políticos que desprezam a dignidade humana.

A Polônia de São João Paulo II, o papa que enfrentou moralmente o comunismo; e de Santa Faustina Kowalska, apóstola da Divina Misericórdia, conserva uma identidade religiosa e cultural profundamente enraizada. O catolicismo, a memória histórica e o sentimento nacional continuam exercendo influência significativa na formação de sua sociedade, embora o país também experimente transformações culturais e religiosas. No campo migratório, os governos poloneses adotaram, em diferentes momentos, políticas restritivas à imigração, particularmente em relação à entrada de pessoas provenientes de regiões distantes de sua realidade cultural. Essas decisões suscitaram controvérsias, mas refletem uma preocupação política legítima, que é a de que a imigração precisa ser administrada pelo Estado, e não simplesmente aceita como um fenômeno inevitável, imune ao debate público. Nenhum país é obrigado a renunciar ao controle de suas fronteiras. Acolher estrangeiros não significa abdicar da responsabilidade de verificar sua entrada, combater organizações criminosas, prevenir ameaças terroristas e exigir o cumprimento das leis nacionais.

A solidariedade internacional não elimina a soberania nacional, assim como o respeito aos direitos dos imigrantes não suprime o dever dos governantes de proteger seus próprios cidadãos. Essa é uma distinção fundamental que parte da elite política europeia parece ter negligenciado durante anos.

Minha passagem por Paris proporcionou uma experiência bastante diferente. Ao entrar no metrô da capital francesa, deparei-me com uma composição humana e cultural que me causou forte estranhamento. A diversidade de origens, idiomas, costumes e vestimentas era tão marcante que, naquele primeiro momento, tive a impressão de estar em uma realidade completamente distinta daquela que imaginava encontrar na França. Não se trata de negar a dignidade de quem vem de outros países, tampouco de atribuir criminalidade a uma nacionalidade, etnia ou religião. Trata-se de reconhecer que a transformação demográfica e cultural de uma sociedade pode suscitar questões legítimas sobre integração, identidade nacional e convivência. Uma cidade histórica como Paris não deixa de ser francesa por receber imigrantes. Tampouco a presença de muçulmanos ou de pessoas provenientes da África constitui, por si mesma, uma ameaça à segurança. O problema começa quando os poderes públicos não conseguem assegurar a integração, combater a criminalidade e exigir de todos, nacionais ou estrangeiros, o respeito às normas comuns.

Na Itália, especialmente em Milão, tive uma impressão semelhante, embora o ambiente me parecesse culturalmente menos distante daquele que eu esperava encontrar na Europa. Essas experiências me levaram a refletir sobre uma questão que ultrapassa as fronteiras francesas e italianas, ou seja, até que ponto governos que estimularam ou toleraram fluxos migratórios intensos avaliaram adequadamente suas consequências para a habitação, os serviços públicos, a integração cultural e a segurança? A meu modesto compreender, a  imigração pode contribuir para a economia, renovar a força de trabalho e enriquecer a vida cultural de uma nação. Mas, quando ocorre sem planejamento adequado, sem mecanismos eficientes de integração e sem controle suficiente das fronteiras, pode agravar tensões sociais e sobrecarregar estruturas públicas já fragilizadas. O equívoco está em tratar qualquer preocupação com esses problemas como manifestação automática de xenofobia ou racismo. Democracias maduras precisam permitir o debate sobre imigração sem estigmatizar os estrangeiros, mas também sem intimidar os cidadãos que desejam discutir os efeitos das políticas adotadas.

A experiência histórica polonesa oferece outra lição importante. A liberdade precisa ser protegida contra todas as formas de totalitarismo. O nazismo e o comunismo, apesar de suas diferenças ideológicas, sempre foram irmanados para  produzirem regimes de perseguição, supressão das liberdades e violência contra os adversários.

 A Polônia conheceu essas duas tragédias de maneira particularmente dolorosa. Sua legislação estabelece mecanismos de proteção da ordem constitucional contra organizações que promovam ideologias totalitárias. A Constituição polonesa, em seu artigo 13, proíbe partidos e organizações cujos programas ou atividades admitam métodos totalitários e práticas como o ódio racial ou nacional. Lembre-se por pertinente e necessário que o combate ao totalitarismo não pode converter-se em justificativa para um novo autoritarismo. Como normalmente ocorre em democracias que criminalizam toda a manifestação que considera nazifascista, mas paradoxalmente  escancaram as portas da liberdade para a propaganda e estabelecimento de organizações e partidos marxistas/socialistas/comunistas, que têm causado malefícios insanaveis a todas as sociedades onde se estabeleceram no poder. 

A verdadeira lição polonesa não é a de que o Estado deva silenciar indiscriminadamente seus adversários ideológicos. É a de que nenhuma ideologia pode receber licença para destruir a liberdade alheia.

A Europa não está condenada à insegurança, assim como a imigração não conduz inevitavelmente à desordem.  Mas  os governantes não devem ignorar problemas concretos por receio de desagradar aos setores mais influentes da opinião pública. Quando bairros se tornam perigosos, quando mulheres e idosos sentem medo de circular à noite, quando o transporte público deixa de transmitir confiança e quando a população percebe que determinadas regras não são aplicadas de maneira uniforme, há uma falha de responsabilidade estatal que precisa ser enfrentada. A segurança é uma condição indispensável para o exercício da liberdade. Não basta proclamar direitos em documentos oficiais se o cidadão não pode usufruir deles nas ruas de sua própria cidade. O Estado que não protege seus habitantes compromete sua própria legitimidade. E o governante que prefere defender a imagem de suas políticas (lembrai-vos do incompetente Macron) a reconhecer seus resultados negativos abdica de uma de suas principais obrigações, que é servir ao bem comum.

A experiência da Polônia merece atenção por demonstrar que soberania, identidade nacional, preservação da memória histórica e defesa da ordem pública podem ocupar lugar central no debate democrático.

Voltei da Polônia com a lembrança de Cracóvia, de suas igrejas, de suas praças e de suas ruas tranquilas durante a madrugada. A experiência reforçou minha convicção de que a qualidade de uma sociedade não se mede apenas por sua riqueza material ou pelo brilho de seus monumentos, mas também pela capacidade de proporcionar segurança, preservar sua memória e transmitir confiança aos cidadãos. A França e a Itália, com suas extraordinárias contribuições à civilização ocidental, não perderam sua importância histórica. Mas os desafios enfrentados por algumas de suas grandes cidades justificam uma reflexão séria sobre as escolhas políticas que contribuíram para a situação atual e sobre as medidas necessárias para enfrentá-la. Importa  compreender que a generosidade precisa caminhar com a prudência, que a acolhida exige responsabilidade e que a diversidade somente pode florescer de maneira duradoura quando acompanhada de integração, respeito às leis e compromisso com o bem comum.

A Polônia, com sua história de sofrimento e resistência, oferece elementos importantes para essa reflexão. Que as demais nações europeias tenham a sabedoria de aprender com os acertos e os erros de suas próprias experiências antes que problemas administráveis se transformem em crises de difícil solução. Porque a liberdade não consiste apenas em poder entrar em qualquer lugar ou professar qualquer ideia. Consiste também em poder caminhar pelas ruas, de dia ou de madrugada, sem medo de ser vítima da violência. E assegurar essa liberdade é, antes de tudo, um dever inalienável do Estado.

sábado, 17 de outubro de 2026

"Fernando Furtado e o resgate de uma vida exemplar" - Por Barros Alves

Ao estrear na literatura, o médico Fernando Furtado presta um relevante serviço à memória histórica do Ceará, resgatando a trajetória de um profissional da Medicina e homem público cuja vida permanece como exemplo de dedicação ao próximo, espírito público e dignidade. Alguns livros são escritos em razão da necessidade de contar uma história; outros surgem do imperativo moral de impedir que o tempo condene ao esquecimento aqueles que merecem permanecer na memória coletiva. É nessa segunda categoria que se insere a obra AMADEU FURTADO — UM LEGADO DE HUMANISMO E COMPETÊNCIA NA HISTÓRIA DO CEARÁ, por intermédio da qual o médico Fernando Furtado estreia como escritor, oferecendo aos leitores uma contribuição de inegável valor histórico, cultural e humano.

Ao escolher como personagem de sua primeira incursão literária uma figura que honra a Medicina e a Política cearense, Fernando Furtado demonstra sensibilidade histórica e consciência da importância de preservar os exemplos virtuosos de nosso passado. Mais do que escrever uma biografia, o autor assume a tarefa de resgatar uma trajetória digna de ser conhecida pelas gerações atuais e pelas que ainda virão. A memória de um povo não se constrói apenas com os grandes acontecimentos de sua história, mas também com a lembrança daqueles que souberam servir à coletividade com competência, generosidade e honradez. É precisamente nesse contexto que se inscreve a vida de Amadeu Furtado. De ele foi daqueles médicos para quem a profissão jamais se limitou ao exercício de uma atividade técnica ou à obtenção de reconhecimento social. Seu trabalho tinha uma dimensão humana que ultrapassava os limites do consultório. Ele tinha a compreensão de que o sofrimento alheio exige não apenas conhecimento científico, mas também compaixão, disponibilidade e solidariedade. Sua dedicação aos pacientes mais pobres, muitos dos quais atendidos gratuitamente, revela uma concepção elevada da Medicina. Em sua trajetória, o saber adquirido nos bancos universitários encontrava sua expressão mais nobre no cuidado com o próximo.

Essa disposição para servir constitui uma das mais belas lições que a história de Amadeu Furtado oferece aos profissionais da saúde. Em uma sociedade na qual tantas vezes se discutem os custos da assistência médica, as exigências do mercado e os desafios da administração dos serviços de saúde, recordar um médico que fez da solidariedade uma marca de sua atuação significa reafirmar a dimensão ética e humanitária da profissão. O verdadeiro médico não trata apenas de doenças.  Acolhe pessoas, compreende sofrimentos e reconhece a dignidade de cada ser humano. A trajetória de Amadeu Furtado ajuda a ilustrar essa verdade fundamental.

Se na Medicina Amadeu Furtado encontrou uma forma direta de servir ao próximo, na vida pública teve a oportunidade de ampliar sua contribuição à sociedade cearense. Sua atuação parlamentar, sua participação na Constituinte estadual de 1947 e seu exercício de funções de responsabilidade política demonstram que sua presença na vida pública não se restringiu à atividade profissional. Ele também participou dos debates e das decisões que contribuíram para a organização institucional do Ceará. A política, quando exercida com responsabilidade, constitui uma das mais importantes formas de serviço à comunidade. Exige conhecimento dos problemas coletivos, disposição para o diálogo, compromisso com as instituições e, sobretudo, consciência de que o mandato público não representa um patrimônio particular, mas uma responsabilidade perante a sociedade. Por isso, recuperar a história de Amadeu Furtado significa também trazer à reflexão contemporânea um exemplo de aproximação entre competência profissional, participação política e dedicação ao bem comum.

Em tempos nos quais a atividade política enfrenta frequentes questionamentos quanto à conduta de seus representantes, biografias dessa natureza adquirem especial relevância. Elas recordam que a vida pública pode e deve ser orientada por valores superiores aos interesses individuais, pelas exigências da ética e pelo compromisso com a coletividade. Não se trata de idealizar personagens históricos ou ignorar as circunstâncias de sua época, mas de reconhecer os méritos documentados de uma trajetória e compreender o que ela pode ensinar às gerações seguintes.

A iniciativa de Fernando Furtado merece elogio não apenas pela escolha do biografado, mas também pelo significado cultural de seu empreendimento. Ao estrear como escritor, o médico volta seu olhar para a história de um colega de profissão cuja atuação alcançou igualmente o campo político. Essa escolha estabelece uma aproximação particularmente significativa entre duas gerações de médicos: uma representada por Amadeu Furtado, cuja vida é objeto da pesquisa biográfica, e outra por Fernando Furtado, que se empenha em preservar e transmitir esse legado. A Medicina, afinal, não se constitui apenas de conhecimentos científicos transmitidos entre profissionais. Também possui uma história de homens e mulheres que, por suas atitudes, ajudaram a definir o significado ético e social da profissão. Ao registrar a trajetória de Amadeu Furtado, o autor contribui para que essa dimensão humana da Medicina não se perca entre datas, títulos e informações biográficas. Sua iniciativa permite que a memória individual se transforme em patrimônio coletivo.

Há, nesse trabalho, uma responsabilidade que merece ser destacada, qual seja a de escrever sobre uma personalidade histórica e também assumir o compromisso de transmitir às novas gerações referências capazes de inspirar condutas e despertar consciências.

É nesse sentido que a estreia literária de Fernando Furtado ultrapassa o âmbito de uma realização pessoal. Seu livro oferece ao Ceará uma oportunidade de reencontro com uma personalidade que merece ocupar lugar de destaque na memória da Medicina e da vida pública. O subtítulo escolhido para a obra — "Um Legado de Humanismo e Competência na História do Ceará" — sintetiza duas qualidades cuja associação é indispensável ao exercício responsável de qualquer profissão, assim entendido como  a capacidade de realizar bem o próprio trabalho e a disposição de colocá-lo a serviço de valores humanos.

Competência sem humanidade pode converter-se em mero instrumento de afirmação individual. Humanismo sem preparo, por sua vez, pode carecer dos meios necessários para produzir resultados concretos. Na trajetória de Amadeu Furtado, tal como apresentada pela proposta biográfica de Fernando Furtado, essas duas dimensões são colocadas em perspectiva como elementos complementares de uma vida dedicada à sociedade.

Uma sociedade que esquece seus homens e mulheres de valor corre o risco de empobrecer suas próprias referências morais e históricas. O Ceará possui uma tradição intelectual, médica, política e cultural construída por gerações que, com suas realizações, ajudaram a formar a identidade do Estado. Preservar a memória dessas personalidades não constitui simples exercício de saudosismo, mas uma forma de compreender o presente e transmitir experiências às gerações futuras.

É nesse trabalho de preservação que a biografia assume sua importância. Ao investigar e registrar uma trajetória individual, o biógrafo também ilumina aspectos da sociedade em que viveu seu personagem, os desafios de sua época e as contribuições que deixou. O mérito de Fernando Furtado consiste em dirigir sua atenção a uma figura cuja história merece ser conhecida para além dos círculos profissionais ou políticos com os quais esteve relacionada. Seu empreendimento ajuda a aproximar o leitor contemporâneo de um período da história cearense e de um homem que fez da Medicina e da participação pública dois campos de atuação.

Naturalmente, o alcance histórico de uma biografia depende também da consistência documental da pesquisa, da fidelidade às fontes e da capacidade de distinguir fatos comprovados de interpretações. É justamente por isso que o trabalho de investigação biográfica merece ser valorizado, posto que exige dedicação, paciência e disposição para reunir informações que, dispersas ou esquecidas, poderiam desaparecer da memória coletiva. Quando realizado com rigor e sensibilidade, esse trabalho converte-se em contribuição duradoura à cultura de um povo.

A obra de estreia de Fernando Furtado representa, portanto, mais do que a apresentação de uma  personagem histórica  ao público leitor. Ela constitui um gesto de reconhecimento a um cearense cuja trajetória, marcada pela atuação médica, pela dedicação aos necessitados e pela participação na vida política, merece ser transmitida às novas gerações. Amadeu Furtado pertence àquela categoria de personalidades cuja lembrança nos convida a refletir sobre o sentido do trabalho, a responsabilidade social das profissões e a finalidade da participação política. Sua história recorda que o prestígio mais duradouro não decorre apenas dos cargos ocupados ou dos títulos conquistados, mas também dos serviços prestados e das vidas alcançadas pela ação de um indivíduo.

Ao resgatar essa trajetória, Fernando Furtado presta uma homenagem ao biografado e, simultaneamente, oferece sua contribuição à memória do Ceará. Sua estreia literária demonstra que a escrita pode ser também uma forma de gratidão, reconhecimento e serviço público.

Que o livro encontre leitores entre médicos, estudantes, pesquisadores, parlamentares e todos aqueles que compreendem a importância de conhecer os exemplos de nosso passado. Que sua publicação estimule novas pesquisas sobre a história da Medicina cearense e sobre os homens públicos que ajudaram a construir as instituições estaduais. E que as novas gerações encontrem na história de Amadeu Furtado motivos para compreender que o conhecimento deve caminhar ao lado da consciência moral, que o exercício da política exige compromisso com o bem comum e que a competência profissional alcança sua expressão mais elevada quando se coloca a serviço da dignidade humana.

Ao estrear como escritor, Fernando Furtado faz mais do que perpetuar o nome de Amadeu Furtado. Ele contribui para perpetuar os valores que justificam sua presença na história do Ceará. E esse talvez seja o maior mérito de uma obra biográfica, isto é, transformar a recordação de uma vida em ensinamento para muitas outras. Porque os anos passam, os cargos ficam para trás e as gerações se sucedem. Mas as vidas verdadeiramente dedicadas ao próximo continuam a falar à consciência dos homens. E os livros que preservam essas vidas ajudam a garantir que essa voz não se perca no silêncio do tempo.

sábado, 10 de outubro de 2026

"São Pedro Damião e a crise moral e doutrinária da Igreja Católica" - Por Barros Alves

O Evangelho não muda para agradar ao mundo, e o sacerdócio não pode transformar-se em instrumento de legitimação dos vícios que deveria combater.

A Igreja Católica atravessa tempos de inquietação, conflitos doutrinários e divisões que não podem ser enfrentados com discursos complacentes, silêncios calculados ou concessões à mentalidade secularizada. Quando aqueles que receberam a missão de ensinar, santificar e conduzir o povo de Deus passam a relativizar os mandamentos, enfraquecer a disciplina e tratar a verdade revelada como matéria sujeita às preferências de cada época, a crise deixa de ser apenas administrativa e se  torna espiritual e moral.

Não se trata de exigir que os sacerdotes sejam homens sem fraquezas. Trata-se de exigir que reconheçam o pecado, combatam-no em si mesmos e não convertam a misericórdia divina em pretexto para a impunidade moral.

Nos Evangelhos, Nosso Senhor Jesus Cristo não poupou palavras ao denunciar a hipocrisia dos dirigentes religiosos. Em Mateus 23.27, compara os escribas e fariseus a sepulcros caiados, exteriormente belos, mas interiormente cheios de impureza. E adverte, em Lucas 12.48: "A quem muito foi dado, muito será exigido". Essas palavras devem ressoar com particular força na consciência de todo bispo, sacerdote e religioso. Quanto maior a responsabilidade espiritual, maior o dever de fidelidade. O altar não é palco para vaidades pessoais; a homilia não é palanque para ideologias; o ministério sacerdotal não é licença para viver segundo conveniências particulares.

A advertência de Cristo em Mateus 5.13 — "Vós sois o sal da terra" — contém uma pergunta incômoda, qual seja que utilidade terá o sal se perder o sabor? Se o clero deixa de anunciar a conversão, de ensinar a doutrina e de testemunhar a santidade, como poderá conduzir os fiéis à vida eterna?

O sacerdote que proclama a necessidade de conversão, mas se recusa a converter-se, contradiz com a própria vida aquilo que ensina. O Beato Fulton Sheen diz em sua autobiografia, que pouco pregava sobre jejum, porque nesse quesito ele não dava bom exemplo. E aquele que, por medo de desagradar, silencia sobre os pecados graves não pratica necessariamente a caridade, pois pode estar abandonando as almas à própria sorte.

No século XI, São Pedro Damião enfrentou uma realidade que demonstra não ser nova a tentação de acomodar o sacerdócio às paixões humanas. Em seu *Liber Gomorrhianus*, ("O Livro de Gomorra e a luta de São Pedro Damião contra a Corrupção Eclesiástica"), com recente edição em vernáculo pela editora Ecclesiae, escrito por volta de 1049 e dirigido ao Papa Leão IX, São Pedro Damião denunciou graves desordens sexuais entre membros do clero e a insuficiência das respostas disciplinares diante de determinados abusos. O santo não tratava a corrupção dos ministros como assunto secundário, a ser escondido para preservar a reputação institucional. Entendia que a reforma da Igreja exigia a correção dos culpados, a responsabilidade dos superiores e a recuperação da dignidade do ministério sagrado. Sua obra tornou-se um importante testemunho da luta medieval pela reforma moral do clero.

São Pedro Damião ensina, por seu exemplo, que a verdadeira fidelidade à Igreja não consiste em encobrir os pecados de seus ministros, mas em desejar sua purificação. Amar a Igreja não é proteger a imagem de homens culpados; é defender a santidade da missão que lhes foi confiada. Essa coragem continua uma necessidade premente no seio da Igreja Católica adoentada pelas liberadades dos padres e teólogos partidários da Teologia da Libertação. Diante de abusos sexuais, violações do celibato, escândalos financeiros, abuso de autoridade ou encobrimento de crimes, não basta lamentar os acontecimentos. São necessárias investigação, justiça, proteção das vítimas, responsabilização dos culpados e penitência sincera. A dignidade sacerdotal não pode servir de escudo contra a lei moral ou a justiça civil.

Grande motivo de preocupação é, portanto, o liberalismo doutrinário entendido como a pretensão de submeter a fé às opiniões dominantes, como se as verdades do Cristianismo fossem provisórias e pudessem ser remodeladas conforme as mudanças culturais.

A Igreja deve dialogar com o mundo, compreender os sofrimentos humanos e anunciar o Evangelho a todas as pessoas. Mas, diálogo não significa renúncia à verdade; acolhimento não significa aprovação automática de toda conduta; misericórdia não significa declarar irrelevante o arrependimento e a sincera conversão.

Cristo não disse à mulher surpreendida em adultério que o pecado não importava. Depois de protegê-la da condenação hipócrita, ordenou-lhe: "Vai e não tornes a pecar" (João 8,11). A passagem reúne duas exigências inseparáveis, que são a misericórdia para com o pecador e o  abandono do pecado.

Quando a primeira é proclamada e a segunda convenientemente esquecida, mutila-se a mensagem evangélica. Uma pastoral que acolhe sem jamais chamar à conversão torna-se incapaz de explicar por que Cristo morreu na cruz e se não há pecado do qual ser libertado, a Redenção perde, aos olhos dos homens, seu significado prático. A mesma advertência vale para as liberalidades morais, tais como a flexibilização indiscriminada dos compromissos sacerdotais, a banalização da castidade, a transformação da liturgia em espetáculo e a substituição da formação doutrinária por slogans ideológicos. Não se deve presumir que todo sacerdote que discorda de determinada interpretação seja corrupto, nem confundir legítimo desenvolvimento doutrinário com abandono da fé. O critério, porém, não pode ser a popularidade de uma ideia, mas sua coerência com o Evangelho e a doutrina da Igreja.

Há também um escândalo particularmente doloroso quando alguns representantes do clero se deixam absorver por disputas partidárias, projetos ideológicos ou discursos de natureza predominantemente política, relegando a segundo plano a salvação das almas. A preocupação com os pobres, a defesa dos injustiçados e a denúncia da corrupção são deveres compatíveis com o Evangelho e o próprio Cristo manifesta compaixão pelos necessitados. 

O desvio começa quando a missão sobrenatural da Igreja é reduzida a um programa político, quando a justiça social é separada da conversão pessoal ou quando a linguagem da libertação passa a obscurecer a libertação do pecado. Colocar os pobres no lugar do Cristo não leva à libertação, mas à condenação. A Igreja existe não para servir de capelania a partidos, movimentos revolucionários ou projetos de poder, pois  sua missão ultrapassa as fronteiras das ideologias. Nenhuma corrente política pode reivindicar para si o Evangelho inteiro, e nenhuma preferência partidária autoriza um ministro a silenciar sobre as verdades morais que contrariam seus aliados.

A fidelidade à doutrina não impede a caridade social; antes, oferece-lhe fundamento moral. O problema não é defender os pobres, mas instrumentalizá-los, venerá-los, deificá-los como se pobres não cometessem erros e pecados. Não é combater a injustiça, mas transformar a Igreja em extensão de uma organização político-ideológica. Não é dialogar com a sociedade, mas permitir que os critérios do mundo substituam os critérios da fé. 

Alguns procuram justificar toda concessão como sinal de abertura, como se a disciplina eclesiástica fosse uma relíquia autoritária e a exigência moral, uma forma de intolerância. Essa oposição é falsa.

A misericórdia autêntica não humilha o pecador nem o abandona à sua condição. Ela o procura, oferece-lhe o perdão e o convida à mudança de vida. A disciplina, quando exercida com justiça, prudência e caridade, protege a comunidade e preserva a integridade do ministério.

O próprio Cristo adverte em Mateus 7.15: "Guardai-vos dos falsos profetas". E, em Mateus 7,16, ensina que eles serão reconhecidos pelos frutos. Não basta ostentar títulos, paramentos, eloquência ou prestígio. É preciso examinar a coerência entre o que se ensina e o que se pratica.

Isso vale igualmente para a autoridade episcopal. A omissão diante de desvios comprovados, a proteção de pessoas influentes e a aplicação seletiva das normas destroem a confiança dos fiéis. A autoridade que não corrige quando deve corrigir torna-se cúmplice do problema que deveria resolver.

A crise da Igreja não será superada pela simples multiplicação de documentos, pela propaganda institucional ou pela tentativa de silenciar toda crítica. Tampouco será resolvida por ataques indiscriminados contra o clero, como se todos os sacerdotes fossem responsáveis pelos pecados de alguns. Muitos vivem com generosidade, castidade, humildade e dedicação, servindo aos fiéis longe dos holofotes. O caminho da reforma passa pela santidade pessoal, pela formação doutrinária sólida, pela celebração reverente da liturgia, pela observância dos compromissos sacerdotais e pela aplicação imparcial das normas canônicas.

A advertência de São Paulo em Romanos 12.2 permanece atual: "Não vos conformeis com este mundo..." O cristão não foi chamado a reproduzir todas as tendências de sua época, mas a discernir o que corresponde à vontade de Deus. O clero, por sua responsabilidade particular, deve ser exemplo dessa resistência espiritual.

A Igreja não precisa de pastores que adaptem o Evangelho a todas as conveniências humanas; precisa de pastores que tenham coragem de anunciá-lo integralmente, começando por aplicá-lo a si próprios.

A maior crise não é a de uma Igreja perseguida por permanecer fiel à verdade, mas a de ministros que, receosos de contrariar o mundo, deixam de anunciar aquilo que receberam a missão de transmitir.

São Pedro Damião compreendeu que a reforma exige coragem para denunciar os vícios, humildade para reconhecer os pecados e firmeza para exigir a correção. Os séculos passaram, mas a lição permanece: a santidade da Igreja não se defende ocultando as feridas de seus membros, e sim tratando-as com verdade, justiça e penitência.

O rebanho tem direito a pastores que não fujam diante dos lobos, não se tornem cúmplices deles e não transformem a misericórdia em desculpa para a impunidade.

A palavra final pertence ao próprio Cristo: "Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me" (Mateus 16.24). Não existe reforma verdadeira sem renúncia, nem santidade sem combate espiritual. E não existe fidelidade ao Evangelho quando a vontade de agradar aos homens prevalece sobre o dever de agradar a Deus.

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

"Mulheres direitas na Assembleia Legislativa do Ceará" - Por Barros Alves

A próxima legislatura da Assembleia Legislativa do Ceará contará com uma presença feminina que merece ser destacada não apenas pela condição de mulheres públicas, mas sobretudo pela firmeza de suas convicções e pela disposição de defendê-las no campo democrático da política.

A eleição da médica Mayra Pinheiro, pelo PL, e a reeleição das deputadas Emília Pessoa, pelo PSDB, e Dra. Silvana, pelo PL, representam o fortalecimento, no Parlamento estadual, de mulheres identificadas com a direita e com valores que encontram profundas raízes na tradição cristã e na própria formação moral da sociedade cearense.

Entre elas, merece especial destaque a deputada Dra. Silvana, que acaba de conquistar a reeleição para exercer o seu quarto mandato. Ao longo de sua trajetória parlamentar, ela transformou o mandato em verdadeira trincheira de defesa da família, da vida, da liberdade religiosa e dos valores cristãos.

Não se trata apenas de uma posição política circunstancial. É uma luta permanente e persistente. No Plenário da Assembleia, Dra. Silvana tem sido uma voz vibrante contra propostas que, em seu entendimento, atentam contra princípios fundamentais da sociedade e contra aquilo que considera patrimônio moral e espiritual do povo brasileiro.

Sua atuação tem sido marcada pela coragem de estabelecer barreiras políticas e institucionais ao avanço de proposituras que julga inspiradas por ideologias malsãs e incompatíveis com os valores que defende. Em uma época em que muitas vezes se procura relativizar convicções e transformar princípios em matéria de conveniência política, a deputada prefere assumir claramente suas posições.

É justamente essa coerência que explica a importância de sua presença na Assembleia Legislativa.

Mas a próxima legislatura trará uma novidade igualmente significativa: à voz guerreira de Dra. Silvana unir-se-ão as vozes corajosas de Mayra Pinheiro e Emília Pessoa.

Mayra Pinheiro chega ao Parlamento trazendo a experiência de uma médica que se tornou conhecida nacionalmente por suas posições firmes em temas relacionados à saúde pública, à liberdade e à defesa de suas convicções. Sua eleição pelo PL amplia a representação de um pensamento político que reivindica espaço no debate estadual.

Emília Pessoa, por sua vez, retorna à Assembleia com a experiência de quem já conhece os caminhos do Parlamento e demonstrou, em sua atuação pública, disposição para defender posições identificadas com o campo conservador.

São três trajetórias distintas, mas que poderão convergir na defesa de princípios comuns.

E é precisamente aí que reside a importância política dessa nova composição.

A democracia não se fortalece quando todos pensam da mesma maneira. Ao contrário, ela se fortalece quando diferentes correntes de pensamento podem manifestar-se livremente, disputar ideias e apresentar à sociedade os seus projetos. A Assembleia Legislativa deve ser, por excelência, o espaço desse confronto civilizado de concepções.

Nesse cenário, Dra. Silvana, Mayra Pinheiro e Emília Pessoa poderão desempenhar papel relevante na defesa das pautas que consideram essenciais à família e aos valores cristãos.

A família, aliás, não é uma invenção de partido político nem uma construção passageira de determinada ideologia. Para milhões de brasileiros, constitui a primeira comunidade humana, lugar de nascimento, educação, transmissão de valores, responsabilidade e amor. E, para os cristãos, possui ainda uma dimensão sagrada, inseparável da própria compreensão da dignidade humana.

Defender esses valores no Parlamento não significa negar o pluralismo. Significa, antes, participar dele com convicção.

É alentador, portanto, saber que três mulheres de personalidade forte, independentes em suas posições e dispostas a enfrentar o debate público estarão juntas na próxima legislatura.

Dra. Silvana já demonstrou que não se intimida diante das dificuldades. Mayra Pinheiro chega com a experiência adquirida em uma trajetória de grande exposição nacional. Emília Pessoa retorna trazendo a experiência parlamentar. Cada uma, a seu modo, poderá contribuir para que a Assembleia seja também um espaço de resistência àquilo que consideram ofensivo aos valores mais caros de nossa sociedade.

Não tenho dúvida de que elas farão a diferença.

E, para concluir, nada melhor do que recordar os versos do poeta mineiro Belmiro Braga, que traduzem, com graça e força, a determinação feminina:

“Quando a mulher quer, eu acho,

Que só Deus a desanima:

É água de morro abaixo

Ou fogo de morro acima.”

Na Assembleia Legislativa do Ceará, haverá mulheres dispostas a lutar por aquilo em que acreditam. E, quando mulheres determinadas entram em uma batalha política movidas por convicções profundas, não há dúvida de que o debate parlamentar ganha outra dimensão.

Mayra Pinheiro, Emília Pessoa e Dra. Silvana: três mulheres, três trajetórias e uma presença que promete marcar a próxima legislatura.

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

"A democracia de tribuna vazia" - Por Barros Alves

Ontem o eleitor brasileiro foi impedido de assistir ao debate que há meses estava marcado para ser transmitido pela TV Globo, segundo as normas determinadas pela Justiça Eleitoral. O cancelamento do debate revela, mais uma vez, uma perigosa hipertrofia do Poder Judiciário sobre o processo eleitoral. O episodio tem um simbolismo que aponta para a realidade caótica do processo eleitoral brasileiro, sob um Poder Judiciário que parece se mover na dança do crioulo doido. O que aconteceu nesta quinta-feira, 1º de outubro, com o debate presidencial da TV Globo, é um desses momentos que podem ser tidos como temerários.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu não comparecer ao confronto com os demais candidatos à Presidência da República. Não se pode obrigá-lo juridicamente a participar. Mas a ausência de um candidato é um fato político, e o eleitor tem o direito de conhecê-lo e interpretá-lo livremente. Lula, amedrontado em face das pesquisas de opinião e diante dos inúmeros escândalos de que seu governo tem sido acusado recentemente, preferiu não enfrentar os demais candidatos no debate. É uma decisão questionável, mas é uma decisão individual. O que veio depois, porém, é muito mais grave. A ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral, determinou que a Globo não exibisse a tribuna  vazia reservada a Lula e proibiu também que os candidatos presentes lhe dirigissem perguntas durante o debate. Destarte, a Justiça Eleitoral não apenas regulou o processo eleitoral. Ela interferiu no próprio conteúdo de um debate político. A tribuna vazia não era uma montagem, uma mentira, uma acusação ou uma peça de propaganda. Era simplesmente uma tribuna vazia, porque o candidato a quem ela estava destinada decidiu não comparecer. Mostrar o espaço vazio significaria mostrar uma realidade. É difícil compreender por que uma democracia madura precisaria esconder do eleitor, em evidente censura prévia, aquilo que efetivamente aconteceria diante das câmeras.

Se um candidato não comparece, por que o eleitor não pode saber que ele não compareceu? Se os adversários querem perguntar por que ele não está ali, por que não podem fazê-lo? E se o candidato ausente não quer responder, por que essa escolha deveria ser protegida pelo Poder Judiciário? A Justiça não deve transformar ausência em presença, silêncio em resposta, nem púlpito vazio em segredo de Estado. O mais preocupante é que se criou uma espécie de tutela judicial do eleitor. Como se o cidadão brasileiro fosse incapaz de assistir a uma tribuna vazia e tirar suas próprias conclusões.  Mas, o eleitor não é incapaz; ele é soberano e quem primeiro deve respeitar suas escolhas são aqueles togados ali postos para guardar as leis e a ordem democrática.

É justamente para o eleitor que existem eleições, debates, entrevistas, jornais, televisão, rádio e liberdade de expressão. O cidadão pode ouvir uma pergunta e julgá-la injusta; considerar uma resposta convincente ou desastrosa;  compreender uma ausência como prudência ou como evasão covarde. Essa avaliação pertence tão somente ao eleitor, não ao magistrado. Daí a temeridade da infeliz decisão da magistrada. De fato, a Justiça acabou produzindo um desequilíbrio condenável ao retirar  do público uma informação verdadeira sobre o comportamento de um dos candidatos. Mais grave o fato se torna quando se sabe das relações da ministra com partidos de esquerda,  o PT, inclusive; assim como com o Ministro Flávio Dino, notório desafeto do candidato de oposição e que há se transformado um cabo eleitoral do candidato Lula na Suprema Corte. Basta examinar o efeito objetivo de  decisões adotadas recentemente no âmbito do STF.

O eleitor deixou de ver aquilo que aconteceria naturalmente se Lula não comparecesse, ou seja, o óbvio: o lugar destinado a ele permaneceria vazio.

É surreal e até hilariante que esse simples vazio tornara-se, por determinação judicial, uma imagem proibida. Decisão digna de uma peça de ficção novelesca própria de obras como "O Bem Amado". Se Stanislaw Ponte Preta vivo estivesse, teria um bom material para uma crônica da série que batizou de FEBEAPÁ - Festival de Besteira que Assola o País. Surrealismo tupiniquim em estado de pureza, foi o que escreveu a magistrada.

A democracia brasileira chegou ao ponto em que um tribunal precisa dizer a uma emissora de televisão que ela não pode mostrar uma cadeira ou uma tribuna vazia porque a imagem poderia influenciar o eleitor. Mas tudo em uma eleição pode influenciar o eleitor.

Uma entrevista, um discurso, uma pergunta, uma resposta, uma ausência, uma gafe, uma demonstração de conhecimento ou de desconhecimento; enfim, muitos fatos  podem influenciar a escolha do eleitor. Mas, é precisamente disso que é feita uma eleição: do encontro do cidadão com os fatos e com as manifestações dos candidatos. Pretender retirar dos olhos do eleitor aquilo que possa influenciá-lo é caminhar por uma estrada perigosa. E, no caso especifico, a  consequência veio rapidamente. Flávio Bolsonaro também anunciou que não participaria do debate, alegando, com propriedade, a  interferência judicial e contestando as novas condições impostas ao programa. Para piorar, o cabo eleitoral de Lula no STF determinou em decisão de última hora,  que um inexpressivo candidato deveria participar de um debate cujas normas estavam anteriormente estabelecidas. Então, aconteceu o inevitável: sem Lula e sem Flávio Bolsonaro, a TV Globo cancelou o debate. A emissora informou que decisões judiciais haviam alterado as condições inicialmente previstas para o programa, produzindo insegurança jurídica. Lamentável! Profundamente lamentável.

Nesse imbróglio, que mais parece uma armação fraudulenta no processo eleitoral, só quem perdeu foi a cidadania do brasileiro.

O Poder Judiciário tem uma função essencial no Estado democrático, qual seja a de garantir o cumprimento da Constituição e das leis, assegurar igualdade perante as regras eleitorais e impedir abusos. Mas, existe uma diferença gigantesca entre garantir as regras do jogo e começar a decidir como o jogo deve ser jogado. Quando a Justiça passa a determinar o que uma emissora pode ou não mostrar no cenário de um debate, quais perguntas podem ser formuladas e quais efeitos visuais podem chegar ao eleitor, já não estamos diante de uma simples fiscalização jurídica. Estamos diante de uma intervenção direta no espaço público da disputa eleitoral. E há algo que precisa ser dito com toda clareza: o Poder Judiciário não recebeu do eleitor brasileiro um mandato para escolher quais fatos podem ou não ser vistos durante uma eleição. Juízes devem-se colocar no lugar que lhes é devido ficar constitucionalmente, que é garantir a liberdade do eleitor de escolher. Escolher por ele aquilo que poderá conhecer por si mesmo é abuso, não exercício democrático da magistratura; é avançar o sinal vermelho. E, por mais que o sujeito se dê bem politicamente  com a cor púrpura,  quem avança o sinal vermelho pode ser atropelado.

A democracia não precisa de eleitor protegido contra a realidade; precisa de eleitor livre diante da realidade. O que ocorreu na noite passada no Brasil é ainda mais grave porque aconteceu a apenas três dias do primeiro turno de um pleito dos mais importantes para o futuro da nossa nação. O próprio calendário oficial do TSE estabelece 1º de outubro como último dia para debates no rádio e na televisão. Isso significa dizer que quando o eleitor estava prestes a receber uma das últimas oportunidades de confrontar os candidatos, decisões judiciais modificaram as condições do programa e o debate acabou não acontecendo. Foi colocada uma pá de cal sobre um dos mais importantes instrumentos de esclarecimento do eleitorado. Não se pode construir uma democracia forte mediante tutela permanente, nem defender a democracia retirando do cidadão o direito de enxergar a realidade.

Combater a propaganda política censurando fatos não é o mesmo que combater erros de campanha eleitoral. Não se pode proteger um candidato de uma imagem verdadeira — a imagem de seu lugar vazio — sem produzir, paradoxalmente, uma interferência ainda maior no processo eleitoral. Esse episódio deveria servir de alerta para todos os Poderes. Aos candidatos, para que não fujam do contraditório; às emissoras, para que preservem sua liberdade jornalística e, sobretudo, ao Judiciário, para que compreenda os limites de sua atuação. Juiz eleitoral não é diretor do espetáculo eleitoral, pois sua missão precípua é garantir que o espetáculo — se essa for a metáfora — tenha regras legítimas e iguais para todos. Os protagonistas precisam permanecer sendo os candidatos, a imprensa e, principalmente, o eleitor. Quando o Judiciário passa a decidir o que pode aparecer no cenário, o que pode ser perguntado, quem pode participar e quais fatos podem ser mostrados, corre-se o risco de transformar a Justiça Eleitoral de árbitro em participante indireto do processo. E árbitro que entra no campo para jogar deixa de ser árbitro, perde a legitimidade. O debate poderia ter inscrito na história política brasileira uma grande noite democrática, onde teria assomado a riqueza do confronto de ideias. Mas, foi a noite do silêncio. Silêncio puxado pela covardia do candidato que passou a vida inteira falando em democracia e que em razão do cargo que ocupa, a mais elevada magistratura da nação, deveria ser o primeiro a dar o bom exemplo, assegurando presença.

A tribuna vazia foi proibida de ser mostrada, o que configura uma imagem metafórica  poderosa para o estado em que se encontra a nossa democracia. Com efeito, uma democracia não morre necessariamente com tanques nas ruas, quartéis ocupados ou instituições fechadas. Ela já demonstra que está doente quando o contraditório desaparece, quando o cidadão é tratado como incapaz de formar seu próprio juízo e quando instituições que deveriam apenas garantir a liberdade começam, pouco a pouco, a administrar aquilo que o cidadão pode ver, ouvir e discutir. A democracia brasileira ainda está viva, mas claramente arquejante. Na noite passada recebeu um soco na cara da própria Justiça Eleitoral.

Se nossa democracia vier em breve sofrer uma verdadeira asfixia institucional, aqueles que hoje ampliam, sem a devida contenção, os limites da intervenção judicial no processo político, terão de responder perante a História.

Porque a democracia pertence ao povo; não  pertence ao governo, nem aos candidatos, nem a emissoras midiáticas e, muito menos, pertence aos tribunais.

A democracia pertence ao eleitor e o eleitor tem o direito de ver tudo. Aquilo que alguns preferem arbitrariamentre  esconder sob uma toga,  inclusive.

domingo, 27 de setembro de 2026

"O voto do cristão diante de Deus" - Por Barros Alves

No próximo dia 4 de outubro, os brasileiros irão às urnas. Para o cristão, e particularmente para o católico, esse momento não pode ser reduzido a uma disputa entre partidos, candidatos, interesses ou ideologias. O voto é um ato civil, mas também envolve a consciência moral de quem o deposita. O cristão não deixa sua fé na porta da seção eleitoral. A Igreja ensina que a política deve estar ordenada ao bem comum e que a consciência cristã não pode deliberadamente escolher aquilo que contradiz princípios fundamentais da fé e da moral. São Paulo é categórico: “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que possais discernir qual é a vontade de Deus” (Rm 12,2).

É precisamente nesse ponto que a tradição católica oferece aos fiéis uma orientação histórica que não pode ser simplesmente esquecida. Em 1º de julho de 1949, durante o pontificado de Pio XII, o Santo Ofício publicou um decreto especificamente dedicado ao comunismo. O documento foi aprovado pelo próprio Pio XII e promulgado nos "Acta Apostolicae Sedis". As perguntas formuladas ao então Santo Ofício, depois Congregação para a Doutrina da Fé e agora Dicastério, eram inequívocas.

Primeira: é lícito aos católicos aderir aos partidos comunistas ou prestar-lhes qualquer forma de apoio? A resposta foi: NÃO.

E a razão apresentada pelo próprio documento também foi inequívoca: “o comunismo é materialista e anticristão”; seus dirigentes, ainda que por vezes afirmassem não combater a religião, demonstravam, por sua doutrina e por sua ação, hostilidade a Deus, à verdadeira religião e à Igreja de Cristo.

Segunda indagação: é lícito publicar, propagar ou ler escritos que defendessem a doutrina ou a ação comunista, ou colaborar em tais publicações?Novamente a resposta peremptória é NÃO.

Terceira pergunta: poderão receber os sacramentos aqueles que, consciente e livremente, pratiquem  os atos mencionados nas duas primeiras questões? A resposta também foi taxativamente NEGATIVA, segundo os princípios vigentes sobre a admissão aos sacramentos.

Quarta pergunta: os fiéis que professem a doutrina materialista e anticristã do comunismo, especialmente aqueles que a defendem ou propaguem, incorrem  "ipso facto", como apóstatas da fé católica, na excomunhão reservada à Sé Apostólica?

A resposta foi: SIM.

Essas determinações não se tratavam de uma opinião particular de um líder eclesiástico. Em 30 de junho de 1949, Pio XII aprovou a deliberação do Santo Ofício e ordenou sua publicação oficial.

Dez anos depois, uma questão ainda mais diretamente relacionada às eleições foi apresentada ao Santo Ofício. Em 25 de março de 1959, perguntou-se se os cidadãos católicos poderiam, ao escolher representantes do povo, votar em partidos ou candidatos que, embora não professassem princípios formalmente contrários à doutrina católica, e mesmo que reivindicassem o nome de cristãos, se associassem de fato aos comunistas e os favorecessem por sua atuação. A resposta foi novamente inequívoca:

“NÃO, segundo a norma do Decreto do Santo Ofício de 1º de julho de 1949.” A decisão foi aprovada pelo Papa João XXIII em 2 de abril de 1959 e publicada oficialmente nos "Acta Apostolicae Sedis", vol. 51, 1959, pp. 271-272.

Os católicos devem observar com especial atenção, que a Igreja não examinou apenas o rótulo que um partido ou candidato atribui  a si próprio. O documento de 1959 considerou também a realidade de suas alianças e de sua atuação. Isso significa que o discernimento cristão não pode ser superficial. Não basta perguntar: “Ele se diz cristão?” É preciso perguntar: o que realmente defende?Com quem se alia? Que princípios promove? Que consequências terão suas decisões para a vida humana, a família, a liberdade religiosa, a educação dos filhos e o bem comum?

A posição do Santo Ofício não surgiu do nada. Em "Divini Redemptoris", de 1937, Pio XI dedicou-se expressamente ao comunismo ateu. O Papa identificou no sistema comunista uma concepção materialista do homem incompatível com a fé cristã. O homem, para o Cristianismo, não é simples matéria destinada à produção econômica: possui alma espiritual, dignidade transcendente e destino eterno. A Igreja não pode aceitar uma filosofia que elimine Deus do horizonte da existência humana.

Leão XIII já havia demonstrado antes,  na famosa Encíclica "Rerum Novarum", tão  ao gosto da hermenêutica vesga da Teologia da Libertação e da parcialidade dos comunistas, que a resposta cristã às injustiças sociais não consiste em substituir uma injustiça por outra, nem em destruir a propriedade, a família e a ordem moral, mas em submeter a economia e a política à justiça e à dignidade da pessoa humana.

Pio XI, na Encíclica  "Quadragesimo Anno", reafirmou a Doutrina Social da Igreja e advertiu contra sistemas que, sob diferentes denominações, contrariassem os fundamentos da ordem cristã.

E Paulo VI, na Encíclica "Octogesima Adveniens", analisou novamente o marxismo, distinguindo seus diferentes elementos, mas advertindo o cristão contra a adesão a uma ideologia que contenha uma concepção materialista e ateia incompatível com a fé. A Igreja, portanto, não permite que o católico entregue sua consciência a uma ideologia que negue aquilo que ele professa diante do altar.

O cristão, em especial os católicos, deve ter grande responsabilidade enquanto eleitor. É claro que não cabe à Igreja substituir a consciência dos fiéis nas escolhas concretas entre candidatos. Mas, cabe à Igreja formar essa consciência, recordando princípios que nenhum católico pode tratar como irrelevantes. A vida humana é sagrada e a  família não é uma construção descartável como defendem com imenso relativismo os comunistas, ateus, partidários de modernismos amorais. Os pais possuem responsabilidades próprias na educação dos filhos e a liberdade religiosa não é concessão graciosa do Estado; a dignidade da pessoa humana não depende de sua utilidade econômica. A moral não nasce de uma votação e a verdade não muda porque uma maioria parlamentar decidiu o contrário. A lei civil não transforma em moralmente bom aquilo que é objetivamente contrário à lei natural e à doutrina cristã. Por isso, diante de propostas que envolvam aborto, destruição deliberada da vida humana, relativização radical da família, perseguição ou restrição à liberdade religiosa, promoção de ideologias materialistas ou alianças políticas com organizações que tenham por fundamento a hostilidade à religião, o católico não pode simplesmente lavar as mãos e dizer: “Minha fé nada tem a ver com meu voto.” Tem sim! Porque a fé e o voto têm consequências.

Santo Agostinho ensinava que a ordem da sociedade depende, em última análise, daquilo que os homens amam. Santo  Tomás de Aquino ensinava que a lei humana deve guardar relação com a razão e com o bem comum. São João Crisóstomo lembrava aos governantes que o poder é uma responsabilidade diante de Deus. O cristão, portanto, não pode transformar seu voto em instrumento de apostasia prática. Isso não significa que todo candidato não católico seja automaticamente indigno do voto católico; tampouco significa que todo candidato que se apresenta como cristão seja, por esse simples fato, digno de confiança. A tradição católica exige discernimento, conhecimento das propostas e exame da realidade. O decreto de 1959 é particularmente eloquente justamente porque não se deixou enganar pelo simples nome de “cristão”. Tratou a situação daquele que, embora reivindicasse esse nome, se associasse de fato aos comunistas e os favorecesse por sua ação. Eis, portanto, uma regra de ouro para o eleitor católico: não votar de maneira impensada, automática, simplesmente partidária ou meramente emocional. Deve obrigatoriamente examinar, comparar, discernir. E jamais separar a consciência política da consciência cristã.

No dia 4 de outubro, cada eleitor poderá permanecer anônimo diante dos homens. Mas, ninguém permanece anônimo diante de Deus. E “Importa obedecer antes a Deus que aos homens” (At 5,29). Que o católico adentre na cabine eleitoral com a mesma consciência com que se aproxima do altar: sabendo que há escolhas que podem favorecer o bem e outras que podem contribuir para sua destruição.

O voto é secreto; a consciência não.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

"O Ministro Flávio Dino segue o método de Satanás" - Por Barros Alves

Com o claro intuito de ironizar a crença do ministro André Mendonça, que professa a fé cristã, o ministro Flávio Dino vive a citar textos bíblicos em seus argumentos para contraditar o magistrado evangélico.

Porém Dino, comunista militante e, portanto, ateu segundo os pressupostos do marxismo, deveria considerar com a seriedade que qualquer intelectual ou estudioso preocupado com a verdade deve ter, é  que até o demônio conhece a Bíblia e é capaz de citá-la. O Evangelho de São Mateus narra que, durante a tentação no deserto, Satanás levou Jesus ao pináculo do Templo e lhe disse: “Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo”. E, para dar aparência de autoridade à tentação, acrescentou: “Pois está escrito”, passando então a citar o Salmo 91: “A seus anjos dará ordens a teu respeito, e eles te sustentarão nas mãos” (Mt 4,5-6). São Lucas registra a mesma cena (Lc 4,9-11).

Existe um detalhe muito importante a ser levado em consideração na narrativa evangélica, qual seja a constatação de que Satanás não inventa uma passagem bíblica, ele cita a Escritura. O problema reside no uso que faz da Palavra Revelada. Toma uma palavra verdadeira, arranca-a de seu sentido e procura utilizá-la contra a própria vontade de Deus. Porém, Jesus, o Deus encarnado, não se deixa enganar. Responde com outra passagem da Escritura: “Não tentarás o Senhor teu Deus” (Mt 4,7; Dt 6,16). Está aí uma das mais profundas advertências da Bíblia. Uma pessoa pode conhecer palavras da Escritura e, entretanto, empregá-las de maneira desonesta, irônica ou manipuladora.

Por isso, quando um ateu igual ao Flávio Dino utiliza versículos bíblicos, não para compreendê-los, mas para ridicularizar aquele que neles crê, há uma curiosa semelhança de método com  o usado por Satanás na cena narrada pelos Evangelhos. Assim como Satanás disse “está escrito” para transformar a Palavra de Deus em instrumento de tentação, o escarnecedor pode dizer “está escrito” para transformar a Bíblia em instrumento de zombaria.

É intelectualmente desonesto atacar uma crença por meio da caricatura de seus próprios textos, especialmente quando esses textos são deliberadamente retirados de seu contexto. A Bíblia pode e deve ser estudada e  debatida; ser objeto de crítica histórica, filológica, filosófica e teológica. E o  crente, em especial um mestre do escopo intelectual do Ministro Mendonça, não se desvia de um sério debate acadêmico nem teme perguntas difíceis. Desde que o interlocutor trate o assunto com a seriedade que o tema requer. A própria tradição cristã está cheia de homens que fizeram perguntas profundas sobre a fé e também as responderam com sapiência. Mas uma coisa é questionar a Escritura; outra é usar a Escritura contra aquele que crê nela, mediante a mutilação de seu significado.

São Paulo já advertia que “o próprio Satanás se disfarça em anjo de luz” (2Cor 11,14). A imagem é poderosa! Aquilo que parece luminoso pode ser utilizado para conduzir ao erro. E nada seria mais apropriado à cena do deserto do que perceber que o tentador não aparece necessariamente como alguém que despreza a Palavra de Deus. O diabo pode aparecer como alguém que a conhece, cita-a e, justamente por isso, tenta manipulá-la. Foi o que intentou Flávio Dino, que em várias ocasiões tem agido igualmente ao Coisa Ruim toda vez que cita as Escrituras Sagradas. O episódio contém, portanto, uma lição que ultrapassa a discussão entre crentes e ateus. Conhecer uma passagem bíblica não significa compreender a Bíblia e citar um versículo não significa ter compreendido sua verdade e seu contexto, que requer para tanto boa exegese. Utilizar a Escritura para zombar da fé não é refutar a Escritura, mas agredir e desrespeitar a crença do outro. Jesus respondeu a Satanás sem abandonar a Bíblia. Fê-lo com a própria Bíblia, recolocando a Palavra em seu verdadeiro sentido. É essa a diferença fundamental entre quem procura a verdade e quem procura apenas uma arma para vencer uma discussão de forma sofista e até fraudulenta.

O debatedor sério que tem a Bíblia a seu dispor para dar sustentação ao seu argumento, indaga: “O que este texto realmente significa?” O de má fé pergunta  apenas como pode usar o texto contra quem acredita nele. Então, surge clara a advertência do Evangelho, qual seja a de que até o diabo pode dizer “está escrito”. O que distingue a verdade da tentação não é simplesmente citar a Escritura, mas respeitar aquilo que ela realmente diz. Por isso, diante daquele que utiliza a Bíblia para ridicularizar a fé alheia, urge recordar as palavras do Cristo: “Não tentarás o Senhor teu Deus.” A  inteligência, se há de fato em mentalidades como a do ministro Flávio Dino, não deveria transformar a Palavra de Deus em objeto de escárnio mediante citações arrancadas de seu contexto. Porque a Escritura mal utilizada pode continuar sendo escritura nas palavras, mas já não está sendo tratada como Palavra de Deus no coração de quem a manipula.