domingo, 8 de fevereiro de 2026

"São João da Mata" - Por Barros Alves

                                                                       


Tua alma resplandece, ó João da Mata,

Santo que guia a todos rumo à fé,

Que faz caídos se porem de pé,

A voz que vem de ti o povo acata.


Teu zelo pela Igreja é ouro e prata,

Teu amor por Jesus de Nazaré 

Foi o caminho para a Santa Sé

Mostrar ao mundo o quanto te é mui grata.


Alçou-te à glória dos altares. Santo

João da Mata, doce peregrino,

A semear sementes do Divino.


E semeaste o Amor por todo canto,

Levando a caridade, o acalanto

E a Palavra que salva, a do Deus Trino.

"O Evangelho não necessita da Teologia da Libertação" - Por Barros Alves

                                                                           


A missão da Igreja nasce do mandato, explícito de Cristo e encontra no próprio Evangelho os fundamentos suficientes para a promoção integral do homem, especialmente dos pobres. A afirmação de que o Evangelho necessitaria de um complemento ideológico, como o oferecido por correntes claramente heréticas da  Teologia da Libertação,  parte do pressuposto de que a Revelação seria insuficiente para orientar a ação social cristã. No entanto, a Sagrada Escritura, a Doutrina Social da Igreja e o ensinamento de eminentes teólogos demonstram que a caridade cristã e a justiça social fluem organicamente do próprio depósito da fé, sem necessidade de mediações ideológicas inspiradas em categorias estranhas ao Evangelho. 

O compromisso com os pobres não é uma invenção moderna nem um acréscimo sociológico à fé. Ele está no coração do Evangelho.

No discurso inaugural em Nazaré, Jesus proclama: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres” (Lc 4.18). No Juízo Final, Ele identifica-se com os necessitados: “Tive fome e me destes de comer” (Mt 25.35). A caridade para com os pobres não é estratégia política, mas critério escatológico.

Contudo, o mesmo Cristo afirma: “O meu Reino não é deste mundo” (Jo 18.36). Ele recusa explicitamente ser reduzido a líder político (cf. Jo 6.15) e rejeita a lógica revolucionária da violência (“Embainha tua espada”, Mt 26.52). A libertação que Ele traz é, antes de tudo, libertação do pecado (cf. Jo 8.34-36), raiz última das injustiças humanas.

São Paulo reforça essa perspectiva ao ensinar que a verdadeira transformação começa pela renovação interior: “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da mente” (Rm 12.2). A mudança social cristã é consequência da conversão, não produto de luta de classes.

A Igreja desenvolveu ao longo dos séculos uma reflexão social coerente, sistematizada especialmente a partir da "Rerum Novarum" (1891), do Santo Padre  Leão XIII. Essa doutrina não nasce de ideologias modernas, mas da aplicação dos princípios evangélicos à realidade social.

São João Paulo II, na encíclica "Centesimus Annus", advertiu contra as soluções que sacrificam a dignidade da pessoa em nome de projetos coletivistas. Ele reconheceu a “opção preferencial pelos pobres”, mas rejeitou claramente a instrumentalização da fé por ideologias marxistas, afirmando que a luta de classes como princípio interpretativo da história é incompatível com a visão cristã da pessoa humana.

O Dicastério (então Congregação) para a Doutrina da Fé, sob a presidência do então Cardeal Joseph Ratzinger, publicou em 1984 a Instrução "Libertatis Nuntius", na qual reconhece a nobre intenção de muitos teólogos da libertação, mas alerta para “desvios” quando categorias marxistas são assumidas como chave hermenêutica da fé. O documento sublinha que reduzir o pecado a estruturas sociais e a salvação à transformação política constitui grave empobrecimento da mensagem cristã.

A Doutrina Social da Igreja sustenta quatro pilares fundamentais: dignidade da pessoa humana, bem comum, subsidiariedade e solidariedade. Esses princípios permitem uma ação social vigorosa sem recorrer à dialética revolucionária.

Teólogos eminentes reforçam essa posição.

Henri de Lubac advertiu contra a tentação de transformar o cristianismo em mera força histórica intramundana, esquecendo sua dimensão sobrenatural. Para ele, quando o cristianismo é reduzido a programa político, perde-se sua essência salvífica.

Joseph Ratzinger insistiu que a fé não pode ser absorvida por análises sociológicas. Em diversas obras, como Introdução ao Cristianismo, ele recorda que o núcleo da fé é a relação pessoal com Cristo, não um projeto revolucionário.

Mesmo teólogos latino-americanos que dialogaram com a questão social reconheceram que a libertação cristã deve ser integral, ou seja,  espiritual, moral e social; e não apenas estrutural. A transformação das estruturas sem conversão do coração conduz apenas à substituição de elites, não à superação da injustiça.

A história do século XX fornece exemplos eloquentes de projetos revolucionários que, prometendo libertação, produziram novas formas de opressão. Sistemas inspirados na luta de classes frequentemente resultaram em restrição de liberdades, perseguições religiosas e graves violações da dignidade humana.

O Evangelho constrói comunhão. São Paulo afirma: “Não há judeu nem grego… pois todos sois um em Cristo Jesus” (Gl 3,28). A lógica cristã não é a do antagonismo permanente, mas a da reconciliação.

Quando a fé é instrumentalizada para fomentar divisões ideológicas, corre-se o risco de substituir a caridade pela militância e a comunhão pela polarização. A Igreja sempre atuou em favor dos pobres por meio de obras concretas: hospitais, escolas, santas casas, missões, ordens religiosas dedicadas aos marginalizados. Essa ação precede qualquer formulação moderna de teologia política. São Francisco de Assis, 

São Vicente de Paulo, Santa Teresa de Calcutá, São João Bosco, Santa Dulce dos Pobres e tantos outros demonstraram que o amor cristão transforma realidades sem necessidade de adesão a programas revolucionários.

A libertação cristã começa no coração humano, porque o mal social brota do pecado pessoal. Como ensina Bento XVI na Encíclica "Deus Caritas Est", a Igreja não propõe sistemas políticos específicos, mas purifica a razão e desperta as forças morais necessárias para uma ordem justa.

Isso não significa omissão diante da injustiça. Pelo contrário,  implica ação concreta, mas fundamentada na caridade e na verdade, não na luta ideológica. O cristão é chamado a agir na política segundo sua consciência bem formada, mas a Igreja não se identifica com projetos partidários nem revoluções de classe.

Enfim, é fácil constatar em face da história do Cristianismo, que o Evangelho não necessita da Teologia da Libertação enquanto sistema ideológico para justificar o cuidado com os pobres. Cristo já confiou à sua Igreja a missão de anunciar a salvação integral e de praticar a caridade concreta. A Doutrina Social da Igreja oferece princípios sólidos para enfrentar as injustiças, sem reduzir a fé a instrumento de transformação revolucionária.

Quando permanece fiel ao Evangelho, a Igreja promove justiça sem ódio, solidariedade sem luta de classes, transformação sem violência, e libertação sem negar a transcendência. A verdadeira revolução cristã é a conversão do coração. E dela nascem as mudanças duradouras na sociedade.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

"Nos oitent'anos do Mario Ferrario, meu preito de amizade" - Por Barros Alves

                                                                   


No terreiro da existência,

Entre a dor e a alegria,

Deus semeia a convivência

Como uma luz que alumia;

E no chão da caminhada

Brota a amizade sagrada

Com que Deus nos agracia.


Amigo é mais que palavra,

É presença verdadeira,

Mão firme que faz a lavra

Na lida mais altaneira,

É silêncio que conforta,

É prumo que não entorta,

É lenha para a fogueira.


É abraço que aproxima,

E onde a paz faz guarida,

É a voz que nos anima,

Reacende a chama da vida;

É abrigo na tempestade

É farol na escuridade, 

É empurrão na subida...


Há mistério na amizade

Que à razão não se aplica,

É ponte pra eternidade

É afeto que edifica;

Tem um valor transcendente,

É dom puro e permanente,

Milagre que não se explica.



Amizade verdadeira

É dom que Deus oferece,

Não se mede em prata ou ouro,

É riqueza que floresce,

No convívio ou na distância,

Seja em qualquer circunstância, 

Quanto mais velha, mais cresce.


Se a vida é breve jornada

Entre o ontem e o porvir,

A amizade é estrada

Onde podemos seguir

Sem alvoroço ou espanto,

Amizade é acalanto

Que nos faz sempre sorrir


A amizade é riqueza

Que nos alegra e anima 

Por isso sempre a coloco 

Na ponta da minha rima,

Como se fosse uma prece,

Amizade a quem merece

Tem valor de obra prima.


Encontrar um novo amigo

É ser bem presenteado

Com ouro, incenso e com mirra.

É tesouro abençoado,

Chamar alguém "meu amigo!"

Desde o tempo mais antigo

É gesto a ser celebrado.


Hoje aqui ergo meu verso 

Pra cantar com emoção,

Oitenta anos de um amigo,

Que ganhou minha afeição,

Pela lhaneza no trato,

Ferrario ganhou, de fato,

A minha admiração.


No estandarte da vida

Do Ferrario, eu tenho lido:

"Oitenta sóis a brilhar",

"Oitenta janeiros idos"

Combatendo o bom combate

Tem vencido, sem empate,

Esses anos bem vividos.


Cada ruga é um caminho

De experiência vivida,

Cada passo é pergaminho

Da vitória construída.

Tua trajetória ensina

Que os bons Deus ilumina,

Faz melhor o dom da vida.


Oitenta anos celebrados

Com gratidão e ternura,

Tesouros acumulados

Guardam memória segura

De uma vida valorosa

Que escrita em verso ou prosa

É relato de bravura.


Aqui alegres contigo

Reunidos nesta hora,

Somos frutos da amizade

Que da tua alma aflora.

Recebe, pois, meu abraço

Nestes versos que ora faço 

E que te dedico agora.


Nas relações de amizade 

Ferrario é capitão-mor.

Há um antigo ditado 

Que todos sabem de cor,

Com esse ditado eu me alinho:

O Ferrario é como o vinho

Quanto mais velho, melhor!

domingo, 1 de fevereiro de 2026

"A idade de Fortaleza: fundação, mito e construção da memória histórica" - Por Barros Alves

                                                                                   

A questão da “idade” de Fortaleza não é meramente cronológica; é, antes, historiográfica e política. O debate sobre quem deve ser reconhecido como fundador — e, por consequência, qual marco deve fixar a origem da cidade — revela tensões entre documentação, tradição, literatura e identidade regional. A narrativa consagrada pela memória popular e por atos oficiais nem sempre coincide com os dados históricos mais antigos. À luz das fontes e da historiografia cearense clássica, impõe-se reexaminar o papel de Matias Beck, Martim Soares Moreno e, sobretudo, de Pero Coelho de Sousa. A presença de Matias Beck no Ceará insere-se no contexto da expansão holandesa no Nordeste, sob a égide da Companhia das Índias Ocidentais (WIC). Em 1649, Beck fundou o Forte Schoonenborch às margens do riacho Pajeú, estrutura militar destinada a consolidar o domínio batavo na capitania do Siará Grande. Contudo, essa iniciativa ocorreu num momento em que a Companhia já enfrentava dificuldades financeiras e militares, após as reações luso-brasileiras que culminariam na expulsão dos holandeses em 1654.

Do ponto de vista histórico-jurídico, Beck não fundou Fortaleza como núcleo luso-brasileiro estável, mas implantou uma fortificação estrangeira em território disputado. Após a retomada portuguesa, o forte foi rebatizado como Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, origem do topônimo da cidade. Assim, o elemento urbano permanente derivou da ocupação portuguesa subsequente, e não do projeto holandês, que foi efêmero e politicamente descontinuado.

A historiografia cearense é clara ao distinguir entre fundação política estável e ocupação militar transitória. Beck, nesse sentido, é personagem relevante da fase holandesa, mas não fundador do Ceará ou de Fortaleza como realidade luso-brasileira.

        Martim Soares Moreno (c. 1586–1648) desempenhou papel importante na consolidação do domínio português no Ceará. Nomeado capitão-mor em 1612, procurou reorganizar a ocupação e fortalecer alianças com grupos indígenas, notadamente os potiguaras. Seu prestígio histórico, porém, foi amplificado no século XIX pela literatura romântica, especialmente por José de Alencar.

Em Iracema (1865), Alencar constrói a figura simbólica do “guerreiro branco”, representante da fusão entre o colonizador e a terra americana. Ainda que Moreno não seja personagem central do romance, a tradição literária e historiográfica passou a identificá-lo como herói fundador, reforçando a imagem de um pioneiro civilizador. Contudo, a documentação mostra que Moreno chegou ao Ceará quando já existiam tentativas anteriores de ocupação e fortificação. Seu governo foi relativamente breve e marcado por dificuldades estruturais. Ele não inaugurou a presença portuguesa, mas deu continuidade a um processo já iniciado. Sua mitificação decorre menos da cronologia factual e mais da construção simbólica do século XIX, quando o Ceará buscava heróis para afirmar sua identidade histórica.

A documentação seiscentista aponta Pero Coelho de Sousa como protagonista da primeira tentativa sistemática de colonização do Ceará. Fidalgo açoriano e militar experiente, participou de campanhas ultramarinas antes de liderar, às próprias expensas, expedição destinada originalmente ao combate a franceses no Maranhão. Em 1603, estabeleceu-se na Barra do Ceará, onde construiu o Forte de São Tiago e batizou o núcleo de Nova Lisboa. Denominou ainda o território circundante de Nova Lusitânia, gesto revelador de intenção colonizadora e política de posse.

Essa fundação precede tanto a atuação de Moreno quanto a ocupação holandesa. A iniciativa de Pero Coelho representou o primeiro esforço organizado de implantação da autoridade portuguesa na região. Apesar das adversidades — secas, hostilidades indígenas e carência de apoio metropolitano —, sua empresa marcou o início formal da colonização do Ceará.

O reconhecimento dessa primazia não é recente. Em 1903, o Barão de Studart mobilizou autoridades e intelectuais para celebrar o tricentenário do Ceará, tomando como marco justamente a chegada de Pero Coelho em 1603. A escolha não foi casual, mas baseada em documentação histórica. Esse dado demonstra que, no início do século XX, a elite intelectual cearense reconhecia explicitamente Pero Coelho como iniciador do processo colonizador. A posterior predominância simbólica de Moreno deve-se mais à força do romantismo literário e à necessidade de heróis identitários do que à cronologia factual.

Outro ponto relevante é o critério oficial de “idade” de Fortaleza. A data de 13 de abril de 1726, celebrada legalmente, corresponde à instalação do povoado à categoria da Vila de Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, cujo decreto régio com tal desiderato fora assinado em 11 de março de 1725. Trata-se, portanto, de marco administrativo e jurídico, não da origem efetiva da ocupação.

A definição legal privilegia a institucionalização municipal, não o início da presença europeia. Isso cria uma dissociação entre nascimento histórico e reconhecimento administrativo. Se considerarmos 1603 como marco inicial da fundação territorial portuguesa, a idade histórica do Ceará e, indiretamente, do núcleo que evoluiria para Fortaleza, é substancialmente anterior à data oficial.

Os fatos históricos sugerem distinção clara: Pero Coelho de Sousa (1603) foi primeiro a fundar núcleo organizado e a reivindicar formalmente o território para a Coroa portuguesa; Martim Soares Moreno (1612), continuador do processo colonizador, posteriormente elevado à condição de herói fundador por construção literária e simbólica; Matias Beck (1649) foi o construtor de fortificação holandesa, temporária, em localidade já explorada, sem continuidade política portuguesa imediata. Segundo Câmara Cascudo, o flibusteiro Matias Beck apenas patinou na praia.

Sob esse prisma, me parece historicamente consistente reconhecer Pero Coelho como o fundador do Ceará e, por extensão, o primeiro a lançar as bases do que viria a ser Fortaleza. Moreno foi colonizador relevante e figura simbólica poderosa; Beck, ocupante estrangeiro em contexto de guerra colonial.

A idade de Fortaleza é resultado de opção legislativa, não de consenso historiográfico sobre sua origem. A elevação a vila em 1726 fixou a data oficial, mas a gênese histórica remonta a iniciativas anteriores, especialmente à expedição de Pero Coelho de Sousa em 1603.

A memória coletiva, moldada pela literatura romântica e por escolhas políticas posteriores, consagrou Moreno como herói maior. Entretanto, à luz da documentação histórica e das comemorações tricentenárias promovidas pelo Barão de Studart, a primazia fundadora pertence a Pero Coelho. Reconhecer isso não diminui o valor de Moreno nem ignora a relevância do episódio holandês; apenas restitui a cronologia e a hierarquia dos fatos. A história, quando depurada de mitificações, não destrói símbolos, apenas os reposiciona.

 

Bibliografia consultada

ABREU, Capistrano de. Capítulos de História Colonial (1500–1800). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1935.

ALENCAR, José de. Iracema. Rio de Janeiro: Garnier, 1865.

GIRÃO, Raimundo. História Econômica do Ceará. Fortaleza: Imprensa Universitária, 1959.

GIRÃO, Raimundo. Pequena História do Ceará. Fortaleza: UFC, 1971.

STUDART, Guilherme (Barão de Studart). Datas e Fatos para a História do Ceará. Fortaleza: Tipografia Studart, 1910.

STUDART, Guilherme. Tricentenário do Ceará (1603–1903). Fortaleza: 1903.

POMPEU SOBRINHO, Thomaz. História do Ceará. Fortaleza: Instituto do Ceará, 1953.

INSTITUTO DO CEARÁ (Histórico, Geográfico e Antropológico). Revista do Instituto do Ceará, diversos números sobre a colonização seiscentista.

 

 



quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

"Santo Tomás de Aquino, o Boi Mudo" - Por Barros Alves

                                                                      


Qual boi silente, à sombra do convento,

Tomás rumina o Verbo eterno e puro,

É um  luzeiro aceso em  claustro escuro,

A unir fé e razão num só intento.


Da graça e lei sondara o fundamento,

Luz acendera em face do obscuro;

Razão e fé, caminho mais seguro 

Para alcançar maior conhecimento...


Do ente ao "Ipsum Esse": elevação!

Mostrando em Deus essência e ser idênticos;

Nos sacramentos, os sinais autênticos.


Quais duas naturezas: fé, razão!

E mais o Cristo vivo ali no pão...

Eis mistérios sagrados e... helênicos!

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

"O CARIRI – RAÍZES E CENÁRIOS: memória, identidade e permanência histórica" - Por Barros Alves

                                                                                 
 
Armando Lopes Rafael é um dos mais lúcidos intérpretes da história e da cultura do Cariri cearense. Historiador de sólida formação, cronista atento às sutilezas da vida regional e pesquisador dedicado às fontes documentais e orais, ele alia erudição e sensibilidade narrativa. Seu texto transita com naturalidade entre o dado histórico rigoroso e a evocação literária, revelando não apenas conhecimento técnico, mas profundo amor pela terra caririense. Essa combinação de método e pertencimento confere autoridade intelectual à sua obra e a torna leitura indispensável para quem deseja compreender a alma do sul do Ceará.
No livro "O Cariri – Raízes e Cenários", o autor realiza um amplo painel histórico-cultural da região, revelando-a como espaço privilegiado da formação cearense e, em muitos momentos, da própria história nacional. O Cariri não é apresentado apenas como recorte geográfico, mas como território simbólico, onde se entrelaçam fé, tradição, política, imaginário popular e movimentos sociais de grande repercussão.
Desde o início, a obra reafirma que o Cariri foi — e continua a ser — cenário de fatos de grande relevo. Ali floresceram experiências religiosas singulares, conflitos políticos marcantes, movimentos culturais originais e personagens cuja influência ultrapassou as fronteiras estaduais. A região, como um oásis verde em meio ao semiárido, sempre foi polo de atração populacional e cultural, tornando-se um núcleo irradiador de identidade.
Entre os temas abordados no livro em apreço, destaca-se a reflexão sobre a "pequenina e belíssima escultura de madeira" imagem de Nossa Senhora, na Catedral do Crato, invocada como “A Mãe do Belo Amor”. Armando Lopes Rafael não se limita à descrição artística ou devocional da imagem; ele a situa na projeção histórica como eixo formador da espiritualidade regional. De par com Nossa Senhora da Penha, a  devoção mariana, nesse contexto, aparece como força civilizadora, elemento agregador das primeiras comunidades e símbolo da delicadeza espiritual que convive com a dureza do sertão. A imagem é, portanto, mais que objeto sacro: é signo histórico da consolidação do povoamento e da cultura local.
Outro ponto instigante da obra é a tese de que uma “mentalidade medieval” plasmou o povoamento do Cariri. O autor sugere que valores como honra, religiosidade intensa, estrutura patriarcal, apego à tradição e visão sacramental do mundo moldaram as relações sociais na região. Essa herança cultural, trazida pelos colonizadores portugueses e reinterpretada no sertão, explica muitos dos comportamentos políticos, religiosos e sociais que marcaram a história caririense. O Cariri, nesse sentido, conserva traços de longa duração histórica, onde o passado permanece vivo nas práticas cotidianas.
A análise do patrimônio imaterial do Cariri é outro mérito do livro. Armando Lopes Rafael valoriza as manifestações orais, as festas religiosas, os ritos populares, as tradições artesanais, as cantorias e narrativas transmitidas de geração em geração. Ele demonstra que a identidade regional não se sustenta apenas em monumentos ou documentos oficiais, mas sobretudo na memória coletiva. Ao registrar esse patrimônio, o autor contribui para sua preservação, reconhecendo-o como riqueza cultural de valor inestimável.
No campo político, chama atenção o estudo sobre os monarquistas do Cariri, com destaque para Barbalha como a cidade mais monarquista do Ceará. O autor revela que, mesmo após a Proclamação da República, permaneceram na região núcleos de resistência simbólica e ideológica ao novo regime. Essa peculiaridade histórica evidencia a força das tradições e o conservadorismo de parte das elites locais, reforçando a ideia de que o Cariri sempre dialogou intensamente com os grandes debates nacionais, ainda que à sua maneira.
Entretanto, é na abordagem da religiosidade intrínseca do povo caririense que o livro atinge uma de suas expressões mais significativas. A devoção ao Padre Cícero Romão Batista emerge como fenômeno central da história regional, projetando Juazeiro do Norte no cenário nacional. Ao lado dele, a figura da Beata Benigna representa a continuidade da santidade popular, nascida do testemunho de fé e sofrimento. Ambos caminham "pari passu" com o universo de lendas, mitos e ritos que enriquecem o imaginário do Cariri. A religiosidade, ali, não é elemento periférico: é fundamento estruturante da vida social, política e cultural.
Ao reunir esses múltiplos aspectos, quais sejam, a arte sacra, mentalidade histórica, patrimônio imaterial, tradição política e misticismo popular, "O Cariri – Raízes e Cenários" consolida-se como obra de referência para o conhecimento da história local. Mais que uma narrativa cronológica, o livro é interpretação abrangente de uma região que desempenhou papel decisivo na formação do Ceará e cuja influência ultrapassou fronteiras.
Armando Lopes Rafael, com rigor e sensibilidade, demonstra que compreender o Cariri é compreender parte essencial da identidade nordestina e brasileira. Sua obra reafirma que o sul cearense não é periferia da história, mas um de seus palcos mais expressivos, onde tradição e permanência dialogam continuamente com transformação e protagonismo.


domingo, 25 de janeiro de 2026

"Liturgia, silêncio e o sentido do sagrado" - Por Barros Alves

                                                              

Recentemente, ao participar de missas em Cracóvia, Milão, Florença, Roma e, inclusive, no  Vaticano, chamou-me a atenção um traço comum às celebrações: a sobriedade. Não houve palmas. A música sacra era solene, normalmente executada por coros, com forte presença do repertório tradicional da Igreja, do canto gregoriano à polifonia clássica, e, sobretudo, com um claro sentido de transcendência. O ambiente favorecia a oração e a reflexão. Havia silêncio antes, durante e depois da celebração. A liturgia parecia conduzir naturalmente ao mistério.

A comparação com muitas realidades brasileiras suscita uma reflexão necessária. Em não poucas paróquias, a música assume caráter excessivamente ruidoso, com forte influência de estilos e instrumentos típicos da cultura popular contemporânea. Não se trata de negar o valor da inculturação, princípio caro à tradição missionária da Igreja, mas de reconhecer que há uma linha tênue entre adaptar a linguagem e descaracterizar o sentido do sagrado. Quando o espaço litúrgico perde a atmosfera de recolhimento, corre-se o risco de transformar a celebração em espetáculo. A influência da música mundana, quando não devidamente filtrada pelo espírito litúrgico, pode conduzir a uma espécie de “carnavalização” do ambiente sagrado, esvaziando sua dimensão contemplativa.

O Concílio Vaticano II, na "Sacrosanctum Concilium", afirma que a música sacra será tanto mais santa quanto mais intimamente estiver unida à ação litúrgica. A finalidade da música na missa não é entreter, mas elevar a alma, servir ao rito e expressar a fé da Igreja. O protagonismo não pertence ao grupo musical, mas ao Mistério celebrado. Nesse sentido, a tradição europeia, especialmente nas grandes cidades mencionadas, parece conservar com maior rigor a consciência de que a liturgia é, antes de tudo, culto a Deus e participação no sacrifício eucarístico.

Outro aspecto observado foi a discrição dos serviços auxiliares. Não se notavam vestimentas distintivas para leigos encarregados de funções litúrgicas, nem uma multiplicidade de ministros extraordinários da Sagrada Comunhão. Nas celebrações presenciadas, a distribuição da Eucaristia era realizada ordinariamente pelo sacerdote e, quando necessário, por ministros devidamente instituídos, de modo simples e sem qualquer destaque visual que os diferenciasse excessivamente dos demais fiéis.

No Brasil, ao contrário, consolidou-se a figura do “ministro da Eucaristia” com identidade própria e, por vezes, com sinais externos que o distinguem da assembleia. É preciso reconhecer que, em um país de dimensões continentais e com escassez de clero em muitas regiões, os ministros extraordinários desempenham papel pastoral relevante. Contudo, o caráter “extraordinário” do ministério não pode ser diluído. Quando o recurso excepcional se torna prática ordinária, altera-se também a percepção simbólica da centralidade do sacerdócio ministerial e do próprio mistério eucarístico.

Essas observações não pretendem idealizar a Europa nem desmerecer a vitalidade da Igreja no Brasil. Nosso país possui uma religiosidade vibrante, marcada por forte participação popular e por expressões culturais riquíssimas. Entretanto, vitalidade não deve ser confundida com agitação, nem participação com protagonismo individual. A liturgia não é criação da comunidade local; ela é patrimônio da Igreja universal.

Talvez o desafio brasileiro esteja em reencontrar o equilíbrio entre inculturação e fidelidade à tradição. O silêncio, a solenidade, a sobriedade e a beleza não são elementos acessórios, mas dimensões constitutivas da experiência do sagrado. Em um mundo saturado de ruídos e estímulos, a Igreja pode e, talvez deva, oferecer um espaço radicalmente distinto, um lugar onde o homem reencontra o Mistério, não pela exaltação dos sentidos, mas pela contemplação.

Redescobrir a força do silêncio litúrgico, a centralidade do altar e a função verdadeiramente sagrada da música pode ser um caminho fecundo para aprofundar a fé. A liturgia, quando vivida com reverência e consciência, não precisa de artifícios para tocar o coração humano. Ela mesma, na sua forma autêntica, já é beleza que salva, verdade que ilumina e mistério que transforma.