sexta-feira, 30 de outubro de 2026

"Por que as democracias devem criminalizar o comunismo" - Por Barros Alves

Por primeiro, devo dizer que o Brasil deve adotar uma legislação contrária ao comunismo, tão rigorosa quanto a que adota a respeito do nazismo. Pelo simples fato de que ambas as ideologias são totalitárias e criminosas. Nazismo e socialismo/comunismo são irmãos siameses na maldade e no exercício criminoso das funções públicas, sobretudo quando ascendem ao comando do Estado.

Pretendo, pois, elaborar uma reflexão histórica, moral e política sobre os crimes cometidos por esses totalitarismos e a necessidade de proteger a liberdade e a dignidade humana. Esta breve reflexão pode servir de subsídio para uma efetiva ação parlamentar.

A História não pode ser seletiva e em nenhuma hipótese se pode condenar uma ideologia pelos crimes que praticou e, ao mesmo tempo, conceder indulgência a outra que, em nome de seus postulados, produziu perseguições, massacres, campos de concentração, fome deliberadamente provocada, supressão das liberdades e a eliminação sistemática de adversários políticos. Se o nazismo foi justamente banido de diversas manifestações políticas e públicas por representar uma ideologia totalitária responsável por atrocidades indescritíveis, é legítimo perguntar: por que o comunismo, igualmente associado a regimes responsáveis por milhões de mortes, continua desfrutando de tolerância política e simbólica em tantas sociedades democráticas?

Importa observar wue a questão não é impedir o estudo do marxismo, proibir pesquisas acadêmicas ou cercear a liberdade de pensamento. É discutir a legitimidade de organizações que defendem a implantação de regimes totalitários e a utilização de métodos historicamente responsáveis por crimes contra a humanidade. A liberdade democrática não pode ser confundida com a obrigação de tolerar projetos destinados a destruí-la.

A Igreja Catolica, pela voz dos seus mais preclaros líderes, já advertiu claramente os desviados da democracia e dos valores cristãos que exigem respeito à dignidade humana. Em 1937, o papa Pio XI publicou a encíclica *Divini Redemptoris*, na qual condenou vigorosamente o comunismo ateu. O pontífice empregou uma expressão contundente: "o comunismo é intrinsecamente perverso". Não se tratava de uma manifestação de preferência partidária, mas de um juízo moral fundamentado na incompatibilidade entre o materialismo marxista e a concepção cristã da pessoa humana. Para a doutrina católica, o homem não é simples instrumento de produção, peça descartável de uma engrenagem econômica ou propriedade do Estado. É criatura de Deus, dotada de dignidade, liberdade e direitos que nenhuma autoridade política pode legitimamente suprimir.

O comunismo, em sua formulação marxista-leninista, pretendeu subordinar a sociedade a uma concepção materialista da História, eliminar a propriedade privada dos meios de produção e submeter a vida política, econômica, cultural e religiosa ao partido revolucionário. Na prática dos regimes que adotaram esse modelo, a promessa de emancipação dos trabalhadores frequentemente se converteu em sua submissão a uma nova classe dirigente, burocrática,  privilegiada e criminosa.

Hitler e Stalin são dois inegáveis exemplares desse tipo de liderança assentada  no pensamento totalitário que se arrima em ideologias irmãs. A História registra um episódio que deveria ser permanentemente lembrado por aqueles que procuram apresentar o comunismo como uma força naturalmente oposta ao nazismo. Trata-se do pacto germano-soviético, assinado em Moscou, em 23 de agosto de 1939, pelos ministros das Relações Exteriores Joachim von Ribbentrop e Viatcheslav Molotov. É o famoso "Pacto Ribbentrop-Molotov". 

O acordo de não agressão entre Adolf Hitler e Josef Stalin continha protocolos secretos que estabeleciam áreas de influência na Europa Oriental, incluindo a divisão territorial da Polônia. Em 1º de setembro de 1939, a Alemanha nazista invadiu a Polônia pelo Ocidente. Em 17 de setembro, tropas soviéticas invadiram o território polonês pelo Oriente. O país foi repartido entre os dois regimes totalitários, numa demonstração inequívoca de que, naquele momento, os interesses expansionistas de Hitler e Stalin podiam caminhar lado a lado. A aliança somente terminou quando Hitler, em 22 de junho de 1941, lançou a Operação Barbarossa, invadindo a União Soviética. Não foi uma súbita descoberta de incompatibilidade moral que separou os dois ditadores. Foi o choque de ambições imperiais que tornou impossível a continuidade daquela parceria.

O episódio desmonta a narrativa simplificadora segundo a qual comunismo e nazismo teriam sido, desde o princípio, inimigos irreconciliáveis. Ambos foram regimes totalitários, ambos desprezaram a liberdade individual e ambos recorreram ao terror de Estado como instrumento de dominação.

Entre os crimes mais aterradores do regime soviético encontra-se o HOLODOMOR, a grande fome que devastou a Ucrânia em 1932 e 1933, durante o governo de Stalin. A coletivização forçada da agricultura, o confisco de alimentos, as requisições compulsórias de cereais e as restrições à circulação da população contribuíram para uma catástrofe humanitária de proporções gigantescas. Milhões de pessoas morreram de fome, inclusive camponeses, trabalhadores rurais, mulheres e crianças.

 Estudos demográficos estimam em aproximadamente 3,9 milhões as mortes excedentes na Ucrânia durante a fome de 1932–1933, além de 600 mil nascimentos que deixaram de ocorrer. Não se tratou simplesmente de uma calamidade natural. As políticas de Stalin agravaram deliberadamente a fome e impediram que milhões de pessoas encontrassem meios de sobrevivência. O Holodomor permanece como uma das mais dolorosas demonstrações do que acontece quando o Estado se atribui poderes absolutos sobre a vida e a propriedade dos cidadãos. O trabalhador, que a propaganda comunista dizia ser o protagonista da nova sociedade, tornou-se vítima de um sistema que lhe confiscava a produção, submetia sua família à miséria e, em numerosas circunstâncias, o condenava à morte.

Outro aspecto que merece ser examinado é a perseguição aos judeus na União Soviética. Se houve o antissemitismo racial do nazismo, houve até em grau mais cruel  porque durante mais tempo, as manifestações de antissemitismo político e estatal ocorridas na União Soviética. As doutrinas que deram suporte ao crime nao são idênticas em sua fundamentação, mas isso não diminui a gravidade dos crimes cometidos pelo regime soviético contra a população judaica. Durante o governo de Stalin, especialmente entre 1948 e 1953, desenvolveu-se uma violenta campanha contra intelectuais, artistas, médicos e organizações judaicas. Até o Comitê Judaico Antifascista foi perseguido, suas atividades foram reprimidas e seus integrantes sofreram prisões e execuções. Em agosto de 1952, 24 escritores, intelectuais e artistas judeus foram executados em Moscou, episódio conhecido como a "Noite dos Poetas Assassinados".

O chamado "Processo dos Médicos", em 1953, constituiu outro capítulo vergonhoso. Médicos, muitos deles judeus, foram acusados de participar de uma suposta conspiração contra dirigentes soviéticos. A campanha tinha forte conteúdo antissemita e somente foi interrompida depois da morte de Stalin.

Portanto, é historicamente correto atribuir ao comunismo soviético o assassinato de milhões de judeus por razões antissemitas, assim como milhões de judeus soviéticos foram assassinados durante a Segunda Guerra Mundial, sobretudo pelo nazismo e seus colaboradores. Destarte, é igualmente inadmissível ocultar as perseguições, execuções e discriminações de judeus e outras raças e etnias, promovidas pelo Estado soviético. A lição histórica é que nenhuma ideologia pode receber imunidade moral quando persegue uma população por sua origem, identidade ou convicções.

A perseguição aos homossexuais é outra face escamoteada pelos propagandistas dos "paraísos" socialistas/comunistas. Porém, a  propaganda comunista também não pode apagar a repressão praticada contra pessoas homossexuais em diferentes experiências socialistas. Na União Soviética, Stalin restabeleceu, em 1934, a criminalização das relações sexuais entre homens. Milhares foram condenados à prisão, trabalhos forçados e, em determinados casos, submetidos a tratamentos psiquiátricos coercitivos. Na Albânia de Enver Hoxha, a homossexualidade foi criminalizada e utilizada como fundamento para perseguições e condenações. Em Cuba, durante a década de 1960, as Unidades Militares de Ajuda à Produção (UMAP) serviram como campos de trabalho forçado e reeducação ideológica. Homossexuais, religiosos, intelectuais e outros indivíduos considerados incompatíveis com o modelo revolucionário foram submetidos a confinamento, humilhações e maus-tratos. Alguns estudos dão conta de que centenas de homossexuais foram executados nos países que adotaram o modelo comunista de governar. A documentação comprova a criminalização, o encarceramento e a violência institucional contra iomossexuais. 

Um problema fundamental permanece nesses países que escolheram regimes totalitários por intermédio do viés cultural ou a eles foram impostos à força por movimentos revolucionários, qual seja o de que  um Estado que se proclama libertador dos oprimidos não pode transformar diferenças pessoais em motivo de perseguição.

A Coreia do Norte, Cuba, China e Nicarágua são exemplos patente da permanência do autoritarismo imposto à sociedade por regimes comunistas. O desaparecimento da União Soviética, em 1991, não significou o desaparecimento do comunismo autoritário.

A Coreia do Norte constitui uma das expressões mais extremas do totalitarismo contemporâneo. Sob a dinastia Kim, o país construiu um sistema de poder hereditário, culto à personalidade, censura, vigilância generalizada e campos de prisioneiros políticos. A população vive submetida a um regime que não admite oposição efetiva.

A China, governada pelo Partido Comunista Chinês, apresenta uma realidade econômica diferente daquela da antiga economia soviética, mas preserva o monopólio político do partido, a repressão aos dissidentes, a censura e a vigilância estatal. Sua modernização econômica não elimina as graves violações de direitos humanos.

Cuba mantém um sistema de partido único, com restrições à liberdade política, perseguição de opositores e encarceramento de manifestantes.

Na Nicarágua, Daniel Ortega e seu governo promoveram a concentração do poder, a perseguição de opositores, o fechamento de organizações civis e a repressão à liberdade religiosa e de expressão.

Esses países demonstram que a nomenclatura revolucionária não é garantia de justiça social. O discurso em defesa dos trabalhadores e dos pobres não absolve governos que privam seus cidadãos de direitos fundamentais e a liberdade não pode ser considerada um privilégio concedido pelo partido, pois constitui um direito inerente à condição humana.

Por que, então, a suástica nazista é proibida e a foice e o martelo comunistas  continuam tolerados?Eis uma questão que merece reflexão por parte de todas as democracias. Repitamos à saciedade: sendo a suástica nazista  proibida em diversos países por representar uma ideologia totalitária responsável por genocídios, perseguições e crimes contra a humanidade, por que a foice e o martelo, símbolos históricos do comunismo soviético, cruel e desumano, não recebem tratamento jurídico equivalente?

Não se está discutindo a proibição de um desenho ou de um objeto isoladamente. Os símbolos representam movimentos políticos, organizações e regimes que fizeram deles instrumentos de propaganda e identificação ideológica. A foice e o martelo não são símbolos inocentes quando empregados para exaltar o regime de Stalin, seus expurgos, seus campos de trabalhos forçados e suas políticas de terror. É preciso reconhecer que existem diferenças entre os ordenamentos jurídicos e que a exibição de um símbolo para fins históricos, jornalísticos, artísticos ou acadêmicos não deve ser confundida com a propaganda de uma ideologia totalitária. Mas a pergunta permanece: por que a exaltação pública do nazismo deve ser tratada como uma ameaça à democracia, enquanto a glorificação de regimes comunistas responsáveis por atrocidades semelhantes pode ser apresentada como simples manifestação de liberdade política?

A Europa que conheceu o comunismo está dando respostas. Os países que experimentaram diretamente as ditaduras comunistas compreenderam a importância de preservar a memória histórica e impedir a reabilitação política de seus antigos opressores. A Polônia oferece um exemplo particularmente expressivo. O artigo 13 de sua Constituição, promulgada em 1997, proíbe a existência de partidos políticos e organizações cujos programas se fundamentem nos métodos totalitários e nas práticas do nazismo, do fascismo e do comunismo.

Na Polônia a proibição inscreve-se não em uma simples lei ordinária, mas em uma disposição constitucional.

Outros países europeus também adotaram restrições aos símbolos e à propaganda dos regimes totalitários:


Polônia: proibição constitucional de organizações que adotem métodos e práticas totalitárias do nazismo, fascismo e comunismo.


Lituânia: restrições legais à utilização de símbolos de regimes totalitários e autoritários.


Letônia: legislação que restringe a utilização pública de determinados símbolos soviéticos e nazistas.


Hungria: proibição de determinados símbolos associados às ditaduras totalitárias, incluindo a estrela vermelha e a foice e o martelo.


Ucrânia: legislação de 2015 sobre a condenação dos regimes totalitários comunista e nacional-socialista e a proibição de sua propaganda e de determinados símbolos.


República Tcheca: em 2025, o Parlamento aprovou alteração legislativa para incluir expressamente a promoção e a propaganda do movimento comunista entre as condutas passíveis de punição criminal.

Cada país legisla de acordo com suas peculiaridades históricas necessidades atuais em face da violência que causam neonazistas e neocomunistas onde atuam. Algumas leis  restringem símbolos, outras estabelecem condições para a existência de organizações políticas e outras criminalizam determinadas formas de propaganda totalitária. 

A experiência europeia, contudo, demonstra que a memória dos crimes do comunismo não precisa ser sacrificada em nome de uma interpretação ilimitada da liberdade política. A democracia tem o direito e o dever de defender seus próprios fundamentos. Urge criminalizar o totalitarismo, não o pensamento. Não se deve criminalizar uma pessoa simplesmente por estudar Marx, ler Lenin, pesquisar a Revolução Russa ou defender, pacificamente, determinadas ideias econômicas. A liberdade intelectual e a liberdade de expressão são conquistas que precisam ser preservadas. O que se deve combater vom firmeza é a propaganda de regimes totalitários, a exaltação de seus crimes, a organização de movimentos que defendam a implantação de ditaduras e a utilização de métodos violentos para destruir a ordem democrática.

A legislação brasileira ainda não possui instrumentos para combater organizações políticas que criminosas como partidos comunistas cujo objetivo último é tomar o poder do Estado a qualquer custo. Em países comunistas, como os acima citados, o  Estado pode ser de Direito, mas um direito imposto, autoritário, jamais democrático. No Brasip se faz necessário uma legislação específica, dentro dos parâmetros de nossa Constituição, exatamente para preservar a liberdade e os direitos humanos, o que não existevem sociedades dominadas por governos autoritários, sobretudo nos Estados comunistas.

O modelo polonês merece ser estudado pelo Congresso Nacional brasileiro. Não se pode admitir que a democracia seja utilizada como instrumento para permitir a organização de movimentos cuja finalidade seja justamente extingui-la.

A História não pode ter dois pesos e duas medidas. O século XX deixou uma advertência que não podemos ignorar, qyal seja a constatação de que o nazismo e o comunismo soviético produziram experiências totalitárias de violência extrema. Possuíam superficialmente fundamentos ideológicos diferentes, a essência do modus operandi de governar é o mesmo. Os marxistas foram mais ladinos, mais sagazes e mais ousados na adoção de estratégias de convencimento das massas, conseguindo passar a imagem de bons moços ao tempo em que se eximem dos crimes que cometeram e ainda cometem.

O nazismo promoveu uma política racial de extermínio, cujo exemplo mais terrível foi o Holocausto. O comunismo soviético, por sua vez, produziu expurgos, deportações, fomes provocadas ou agravadas por políticas de Estado, campos de concentração e perseguições religiosas e políticas. Os crimes não se tornam menos graves porque foram praticados sob uma bandeira vermelha, em nome da igualdade social ou em defesa de uma suposta revolução proletária. Não podemos aceitar que a memória das vítimas do nazismo seja respeitada enquanto a memória das vítimas do comunismo seja relativizada. Os milhões de camponeses mortos na coletivização forçada, os prisioneiros do Gulag, os religiosos perseguidos, os dissidentes executados, os ucranianos vitimados pelo Holodomor e os cidadãos submetidos às ditaduras comunistas merecem a mesma consideração histórica e humana.

A condenação que o Santo Padre Pio XI formulou no documento citado,  advertindo o mundo cristão sobre os perigos do comunismo ateu, não perdeu atualidade. Pelo contrário, a experiência histórica demonstrou a gravidade de sua advertência. Uma sociedade verdadeiramente democrática não pode escolher quais vítimas merecem ser lembradas e quais podem ser esquecidas por conveniência ideológica.

Se a suástica representa uma ideologia cuja exaltação é corretamente combatida pelas democracias; a foice e o martelo, quando utilizados para glorificar os regimes totalitários que os adotaram, também devem ser submetidos a uma rigorosa avaliação moral, histórica e jurídica. Não se trata de vingança contra o passado. Trata-se de impedir que ele se repita. A liberdade não é propriedade de partidos, governos ou revoluções, mas um direito da pessoa humana. E nenhuma ideologia, por mais sedutoras que sejam suas promessas de igualdade, justiça ou fraternidade, pode reivindicar o direito de destruir a liberdade em nome de um paraíso terrestre. O comunismo precisa ser julgado pelos mesmos critérios morais e democráticos pelos quais julgamos o nazismo. A História não pode ter dois pesos e duas medidas.

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Breves referências bibliográficas


APPLEBAUM, Anne. "Gulag: Uma História dos Campos de Prisioneiros Soviéticos". Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.

-------- "A Fome Vermelha - A Guerra de Stalin na Ucrânia" , Editora Record, RJ, 2019.

Constituição da República da Polônia, de 2 de abril de 1997, artigo 13. Texto oficial atualizado.

COURTOIS, Stéphane et al. "O Livro Negro do Comunismo: Crimes, Terror e Repressão". Editora Bertrand Brasil, RJ, 1999.

KENGOR, Paul. "Karl Marx e o Diabo - O Comunismo e sua Longa Marcha de Morte, Falsidade e Infiltração". Vide Editorial, Campinas-SP, 2022.

KERSHAW, Ian. "Hitler". Editora Cia. das Letras, SP, 2010.

LECOMTE, Bernard. "João Paulo II  - Biografia". Editora Record, RJ, 2005.

MONTEFIORE, Simon Sebag. "O Jovem Stalin". Editora Cia. das Letras, SP, 2008.

---------- "Stalin - A Corte do Czar Vermelho". Editora Cia. das Letras, SP, 2006.

PIO XI. "Divini Redemptoris". Sobre o Comunismo Ateu. Carta Encíclica, 19 de março de 1937, especialmente números 9, 14, 20, 22 e 58.

------- "Quadragesimo Anno". Carta Encíclica, 15 de maio de 1931. Sobre a questão social e a crítica aos sistemas econômicos.

REES, Laurence. "Hitler e Stalin - Os Tiranos e a Segunda Guerra Mundial". Editora Planeta do Brasil, SP, 2021.

ROBERTS, Geoffrey. Editora Caravelas, São José dos Campos-SP, 2026

SHIRER, William L. "Ascensão e Queda do III Reich". 4 vols. Editora Civilização Brasileira S.A., RJ, 1962.

SNYDER, Timothy. Terras de Sangue: A Europa entre Hitler e Stalin. Rio de Janeiro: Record, 2012.

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

"O Massacre moral de Marica Lessa": literatura, história e justiça*** - Por Barros Alves

Os livros, normalmente, nos conduzem por caminhos inéditos. Uns nos encaminham para a fantasia, para o sonho, para o mistério ou para duras realidades. Outros conseguem  ultrapassar os limites da criação literária para se converterem em instrumentos de resgate da memória, de investigação do passado e de reflexão sobre os valores fundamentais da justiça. "O Massacre Moral de Marica Lessa", da escritora Célia Maria Leite, inscreve-se nessa categoria de obras que, ao revisitar uma tragédia humana, não se contentam em reconstituir acontecimentos, mas  procuram compreender suas circunstâncias, interrogar suas versões consagradas e devolver dignidade à memória de quem foi atingido pelas vicissitudes da narrativa histórica.

A obra representa um expressivo contributo à literatura cearense, sobretudo pela conjugação de pesquisa histórica, sensibilidade humana e reflexão jurídica. Ao trazer para o universo da ficção a dramática trajetória de Maria Francisca de Paula Lessa, que a memória coletiva do Ceará perpetuou sob o nome de Marica Lessa, Célia Maria Leite realiza um trabalho de notável relevância cultural. Seu livro constitui, por assim dizer, um diamante lapidado no esforço de recuperar uma existência marcada pela tragédia e pela dor, lançando luzes sobre aspectos de um episódio cuja interpretação permanece aberta ao exame crítico.

A autora merece especial reconhecimento por não se limitar à reprodução passiva das narrativas transmitidas ao longo do tempo. Ao contrário, sua investigação procura penetrar nos escaninhos das versões históricas e literárias, examinando os elementos que contribuíram para a construção da imagem de Marica Lessa e para a perpetuação de sua história na consciência dos cearenses. É justamente nessa disposição para investigar, comparar e questionar que reside uma das maiores virtudes do livro.

Célia Maria Leite demonstra compreender que o passado não pode ser tratado como um território imune à revisão. A história exige documentos, confrontação de testemunhos, contextualização e rigor interpretativo. A literatura, por sua vez, permite explorar as dimensões humanas que os registros documentais nem sempre conseguem alcançar. Quando esses dois campos dialogam com equilíbrio, o resultado pode ser uma obra capaz de ultrapassar a mera reconstituição de fatos e alcançar uma compreensão mais profunda das paixões, dos conflitos e das injustiças que atravessam a experiência humana.

É nesse ponto que "O Massacre Moral de Marica Lessa" revela sua força particular. A narrativa, conforme a interpretação defendida pela autora, põe em discussão uma decisão judicial que ela considera profundamente injusta, abrindo espaço para uma reflexão sobre os perigos inerentes ao exercício do poder quando este deixa de corresponder às exigências da prudência, da imparcialidade e da responsabilidade. A possibilidade de um erro judiciário de consequências devastadoras constitui uma questão de permanente atualidade, pois nenhuma sociedade pode considerar-se verdadeiramente civilizada se não admitir que suas instituições, embora necessárias à preservação da ordem, também estão sujeitas à falibilidade humana.

A justiça não se realiza apenas pela autoridade de uma sentença. Depende, sobretudo, da fidelidade aos fatos, da apreciação criteriosa das provas, do respeito às garantias individuais e da disposição de reconhecer os próprios erros. Quando essas exigências são negligenciadas, o processo judicial pode converter-se, ele próprio, em fonte de sofrimento e de desonra. A reflexão suscitada pelo livro ganha, assim, dimensão que ultrapassa a história particular de Marica Lessa: alcança o problema universal da relação entre poder, verdade e dignidade humana.

É importante ressaltar que a tese sustentada pela escritora deve ser compreendida como resultado de sua interpretação e de sua investigação, merecendo exame à luz das fontes históricas e jurídicas pertinentes. Esse cuidado, longe de diminuir o valor da obra, reforça sua relevância, pois a pesquisa histórica séria não teme a controvérsia. Ao contrário, encontra nela uma oportunidade de aprofundamento, revisão de conceitos e enriquecimento do conhecimento coletivo.

A presença da literatura nesse debate é igualmente significativa. O escritor não substitui o historiador nem o jurista, mas pode contribuir para que a sociedade perceba, em toda a sua extensão, as consequências humanas dos acontecimentos. Por meio da construção narrativa, das personagens e da reconstituição das circunstâncias, a ficção histórica torna perceptível aquilo que, muitas vezes, permanece oculto sob a frieza das datas, dos autos e das decisões oficiais. É essa capacidade de restituir humanidade ao passado que confere à literatura uma função cultural insubstituível.

A dimensão intelectual de Célia Maria Leite torna-se ainda mais admirável quando se considera a diversidade de seus interesses e de sua produção. Escritora de reconhecida vocação investigativa, ela também estende seu talento ao universo das artes plásticas e à pesquisa histórica, tendo incursionado, igualmente, pelos campos da etnografia e da paleontologia. Essa pluralidade de experiências revela uma personalidade movida pela curiosidade intelectual e pela disposição de explorar diferentes caminhos do conhecimento.

Não se trata de uma diversidade meramente ornamental. O trânsito por distintas áreas de investigação amplia horizontes, estimula a observação e favorece o desenvolvimento de uma sensibilidade atenta às múltiplas manifestações da experiência humana. Na pesquisa histórica, a paciência diante das fontes; na etnografia, a atenção aos costumes, às tradições e à memória dos povos; nas artes plásticas, o apuro do olhar e a percepção das formas; na literatura, a capacidade de transformar observação e conhecimento em expressão estética. Todas essas dimensões podem convergir para uma obra mais rica, na qual o rigor da investigação se associa à liberdade criadora.

Outro mérito que merece ser ressaltado é a maneira como a autora dialoga com a tradição literária cearense. A história de Marica Lessa remete a um universo de conflitos sociais, relações de poder, convenções morais e dramas individuais que também encontrou expressão na ficção regionalista. Nesse contexto, a lembrança de "Dona Guidinha do Poço", romance de Oliveira Paiva, é particularmente pertinente. Publicada postumamente em livro em 1952, a narrativa constitui uma referência fundamental da literatura cearense, tanto pela construção de suas personagens quanto pela representação dos costumes e das tensões sociais de seu tempo.

Embora não se devam confundir personagens ficcionais, acontecimentos documentados e interpretações posteriores, o diálogo entre a obra de Oliveira Paiva e as narrativas relacionadas a Marica Lessa evidencia a riqueza das relações entre história e literatura. Ambas as esferas podem iluminar aspectos da sociedade cearense, revelando mentalidades, conflitos e valores que ajudam a compreender o passado. A investigação empreendida por Célia Maria Leite insere-se nesse horizonte de reflexão, procurando ir além das versões recebidas e reexaminar, com independência intelectual, uma história marcada pelo sofrimento.

A grande literatura, afinal, não se limita a entreter. Ela inquieta, provoca perguntas, desafia certezas e convida o leitor a reconsiderar julgamentos. Ao recuperar a trajetória de Marica Lessa e apresentar uma interpretação crítica dos acontecimentos que a envolveram, a escritora oferece ao público a oportunidade de refletir sobre a fragilidade da reputação humana, o peso das convenções sociais e os efeitos devastadores que uma injustiça pode produzir na vida de uma pessoa e na memória de uma comunidade.

Por tudo isso, a escritura de Célia Maria Leite merece elogios não apenas pelo tema escolhido, mas também pela ambição intelectual que sustenta o projeto. Sua prosa límpida e escorreita, aliada à sensibilidade com que aborda o sofrimento humano e à disposição de investigar os recônditos da história, confere à obra uma dignidade que ultrapassa os limites de uma narrativa circunstancial. A autora demonstra que a literatura pode ser, simultaneamente, expressão artística, exercício de consciência e contribuição ao patrimônio cultural de um povo.

"O Massacre Moral de Marica Lessa" é, portanto, uma obra que merece atenção dos leitores, dos estudiosos da história do Ceará, dos pesquisadores da literatura regional e de todos aqueles que se interessam pelas relações entre justiça, memória e dignidade humana. Seu valor reside também na capacidade de estimular novas investigações e de suscitar o debate responsável sobre um episódio cuja compreensão exige a consideração cuidadosa das fontes e das interpretações disponíveis.

Ao final desta apreciação, cabe saudar Célia Maria Leite pela coragem intelectual de enfrentar um tema delicado, pela dedicação à pesquisa e pelo talento com que transforma matéria histórica em criação literária. A autora oferece ao Ceará uma contribuição que honra suas tradições culturais e reafirma a importância de revisitar criticamente o passado. Que seu trabalho encontre a acolhida que merece e que seu nome, pela consistência de sua produção e pela amplitude de seus interesses, venha a ocupar lugar de relevo nos anais da literatura cearense.

Porque preservar a memória não significa apenas recordar os acontecimentos: significa também examiná-los, compreendê-los e reconhecer que nenhuma sociedade pode construir um futuro digno sem a disposição de olhar honestamente para as páginas dolorosas de sua própria história.

Vamos à leitura do livro que será deveras proveitosa e enriquecedora.


*** Discurso de apresentação proferido na solenidade de lançamento, no auditório da Escola Superior de Advocacia da OAB-CE, em 28/10/2026, às 19 horas.

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

"Liderança e liberdade" - Por Barros Alves

"Bendito seja o Senhor, que não nos entregou como presa aos dentes do ímpio. Nossa alma escapou como um pássaro, dos laços do caçador. Rompeu-se a armadilha, e nos achamos livres. Nosso socorro está no nome do Senhor, criador do céu e da terra". (Salmos 124.6-8)

Flávio Bolsonaro fugiu como um covarde, tronitoam vozes maldosas que vão aos poucos cevando uma ditadura de toga no Brasil. Essas vozes sucumbem diante de verdades insofismáveis que escancaram os atos imediatos e ilegais de perseguição política ao candidato à presidência da República laureado com dezenas de milhões de votos.

Ser líder exige inteligência, sagacidade e coragem para permanecer livre e vivo. Ser líder não significa apenas ter coragem para enfrentar os poderosos, denunciar injustiças ou levantar a voz em defesa dos oprimidos. Ser líder exige também inteligência para compreender a realidade, sagacidade para antecipar os perigos e prudência para reconhecer o momento certo de agir. Afinal, de que vale a coragem daquele que, por imprudência, se deixa silenciar antes de cumprir sua missão?

A História está repleta de homens e mulheres que, movidos por ideais de justiça e liberdade, enfrentaram regimes autoritários, desafiaram tiranias e pagaram um preço elevado por sua ousadia. Muitos foram presos, torturados, exilados ou assassinados. Outros, graças à inteligência e à capacidade de avaliar os riscos, conseguiram escapar das garras de seus perseguidores, preservando a própria vida para continuar a luta.

A liberdade exige coragem, mas também lucidez. A coragem nos impulsiona a lutar; a inteligência nos ensina como lutar; e a prudência nos ajuda a permanecer vivos para que a luta não termine conosco.

Não se trata de covardia, muito menos de renunciar aos próprios princípios. Trata-se de compreender que um ideal não deve ser sacrificado no altar da imprudência. Há momentos em que avançar é necessário; em outros, recuar estrategicamente é a única maneira de continuar avançando no futuro. O líder verdadeiramente comprometido com uma causa sabe distinguir a bravura do gesto inconsequente e o sacrifício necessário da morte inútil.

Permanecer livre é resistir à submissão. Permanecer vivo, quando a vida é ameaçada pela tirania, é preservar a possibilidade de continuar combatendo. Porque os ideais de justiça e liberdade não pertencem apenas aos que tombam em sua defesa, mas também aos que sobrevivem para testemunhar, denunciar, reconstruir e vencer.

O verdadeiro líder não luta para morrer pela liberdade; luta para que a liberdade possa viver. E, quando as circunstâncias exigem, sabe proteger a própria vida sem abdicar da própria consciência. 

Afinal, enquanto houver vida, haverá esperança; enquanto houver esperança, haverá resistência; e enquanto houver homens dispostos a defender a verdade, a justiça e a liberdade, nenhuma tirania poderá considerar definitiva a sua vitória.

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

"Carta aos cristãos, principalmente aos católicos" - Por Barros Alves

Caros irmãos em Cristo,

Escrevo-vos movido pela preocupação com os rumos espirituais e morais de nossa sociedade e, sobretudo, com a responsabilidade dos cristãos diante dos acontecimentos políticos. Não pretendo ditar escolhas eleitorais, mas recordar uma verdade que jamais deveria ser esquecida: não se pode separar a fé das consequências morais das escolhas que fazemos.

Um cristão comprometido com a integridade do Evangelho não deveria festejar, sem reservas, a eleição de um presidente que mantém alianças com partidos, grupos e lideranças empenhados em promover pautas frontalmente contrárias à doutrina cristã e aos fundamentos éticos e morais do Catolicismo. A política não está acima da consciência, e a conveniência partidária não pode se sobrepor à Lei de Deus.

Não se trata de exigir que os governantes sejam santos, nem de imaginar que um partido humano possa representar perfeitamente o Reino de Deus. Trata-se de reconhecer que existem limites morais inegociáveis. Quando a defesa de interesses eleitorais nos leva a relativizar princípios fundamentais da fé, já não estamos apenas diante de uma divergência política, nos colocamos diante de uma grave questão de consciência.

Dirijo-me, particularmente, aos católicos que, em nome de uma suposta justiça social, aderem a projetos ideológicos incompatíveis com a fé que professam. A Teologia da Libertação, claramente influenciada pelo marxismo, foi objeto de severas advertências da Congregação para a Doutrina da Fé, especialmente na instrução *Libertatis nuntius*, de 1984. Isso significa que a Igreja não pode aceitar a instrumentalização do Evangelho por ideologias que subordinem a salvação cristã à luta política de classes.

A caridade cristã não precisa do marxismo para reconhecer a dignidade dos pobres. A defesa dos trabalhadores não exige a negação de Deus, da propriedade legitimamente adquirida ou da ordem moral. A Igreja possui sua própria doutrina social, fundada na dignidade da pessoa humana, na solidariedade, na subsidiariedade e na destinação universal dos bens.

Aos que transformam o altar em palanque ideológico, subordinam a verdade revelada a projetos revolucionários ou confundem a missão da Igreja com a militância partidária, cabem as advertências de São Paulo: “Não vos conformeis com este mundo” (Romanos 12.2). A expressão “fumaça de Satanás”, empregada por São Paulo VI em 1972 ao falar das dificuldades que atingiam a Igreja, deve servir-nos de alerta espiritual.

Portanto, é sobretudo aos cristãos católicos  que desejam permanecer fiéis à totalidade da fé católica, que dirijo esta carta.

Não tenhais medo! São João Paulo II fez desse apelo uma das marcas de seu pontificado, ecoando a exortação de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não tenhais medo das perseguições, das pressões sociais, das ameaças profissionais ou do isolamento que podem atingir aqueles que se recusam a negociar suas convicções. A fidelidade a Cristo nunca foi garantia de aplausos neste mundo. Muitas vezes, foi precisamente a causa da rejeição.

Se tempos tenebrosos vierem, não será a covardia que nos salvará, tampouco o silêncio diante da injustiça nos tornará inocentes. O cristão deve respeitar as autoridades legítimas, mas não pode transformar a obediência civil em submissão moral absoluta. Quando os homens exigem aquilo que contraria a Lei de Deus, permanece válida a resposta dos apóstolos: “Importa obedecer antes a Deus do que aos homens” (Atos 5.29).

A história sagrada está repleta de advertências. Israel, repetidas vezes, fechou os ouvidos à voz dos profetas, abandonou a Aliança e sofreu as consequências de sua infidelidade. O cativeiro na Babilônia foi uma dessas grandes tragédias, interpretada pelos profetas bíblicos como consequência do pecado, da idolatria e da injustiça. O próprio Jesus lamentou a resistência de Jerusalém aos mensageiros de Deus.

Não devemos, porém, transformar esses acontecimentos em fórmulas simplistas para explicar toda desgraça histórica. A Bíblia também nos ensina, no Livro de Jó e no Evangelho, que o sofrimento não pode ser atribuído automaticamente à culpa de quem o enfrenta. O que podemos afirmar é que uma sociedade que despreza persistentemente a verdade, a justiça e a dignidade humana prepara o terreno para a própria ruína.

E que dizer do Holocausto, uma das páginas mais abomináveis da história humana? Não seria justo atribuí-lo ao castigo de Deus contra os cristãos, nem responsabilizar as vítimas por sua perseguição. O extermínio dos judeus foi um crime perpetrado pelo regime nazista e seus colaboradores. Sua memória, contudo, deve advertir-nos sobre o que acontece quando o totalitarismo, o racismo e a indiferença moral 

encontram espaço na sociedade. De igual modo  o socialismo/comunismo infligiu e ainda inflige a várias nações o terror, o medo, a dor, a castração das liberdades minimas. O silêncio dos que poderiam resistir, a cumplicidade dos que se acomodam e a omissão dos que preferem a conveniência à justiça podem contribuir para a expansão do mal.

Precisamos acolher a advertência que se impõe. Quando nos calamos diante da injustiça, quando aplaudimos governantes injustos por conveniência partidária e quando sacrificamos a verdade no altar da ideologia, comprometemos nossa própria fidelidade ao Evangelho.

Não afirmo conhecer os desígnios ocultos da Providência, nem pretendo declarar que a eleição de determinado governante seja, por si só, uma sentença divina. Afirmo, entretanto, que os acontecimentos políticos podem servir de ocasião para um rigoroso exame de consciência. Se um povo consente com a injustiça, normaliza a mentira e despreza os princípios que sustentam a vida moral, deve perguntar a si mesmo que futuro está construindo diante de Deus.

Por isso, não vos deixeis seduzir pelas promessas do poder, nem vos torneis cúmplices de projetos que afrontam a dignidade humana e a Lei divina. Não confundais a vitória eleitoral com a vitória da verdade. As urnas podem conferir legitimidade política a um governante, mas não transformam o erro em verdade, o pecado em virtude ou a injustiça em justiça.

Católicos, voltai os olhos para Cristo. Recorrei às Escrituras, à Tradição e ao Magistério da Igreja. Formai vossas consciências, examinai os programas e as alianças políticas à luz da doutrina católica e não permitais que a paixão partidária obscureça a razão iluminada pela fé.

Que Nossa Senhora, Mãe da Igreja, nos alcance a graça da fortaleza nos momentos de provação e da sabedoria nos momentos de decisão.

E, quando a fidelidade parecer custosa, recordemos que não fomos chamados a servir aos poderosos deste mundo, mas a seguir Nosso Senhor Jesus Cristo, que é Caminho, Verdade e Vida.

Melhor perder o aplauso dos homens do que a fidelidade a Deus. Melhor suportar a perseguição por amor à verdade do que conquistar honrarias à custa da própria consciência.

Que o Senhor nos conceda a coragem de permanecer firmes, a humildade de reconhecer nossos erros e a caridade de combater o mal sem abandonar o caminho da verdade. Porque, no fim, não seremos julgados pela bandeira partidária que empunhamos, mas pela verdade que acolhemos, pela justiça que praticamos e pelo amor com que vivemos a fé que professamos na Trindade Santa.

domingo, 18 de outubro de 2026

"A Polônia e as lições sobre segurança, imigração e liberdade" - Barros Alves

Entre a tranquilidade de Cracóvia e a insegurança que inquieta grandes cidades europeias, impõe-se uma reflexão sobre os limites da imigração, a preservação da identidade nacional e a responsabilidade dos governantes na defesa da ordem pública. Há alguns meses tive uma  experiência de viagem que ultrapassou o prazer de conhecer novas paisagens e monumentos, em especial os templos religiosos, que me encantam e inspiram. Essas vivências nos levam a refletir sobre os rumos das sociedades, as escolhas políticas de seus governantes e os valores que sustentam uma civilização. Foi o que aconteceu comigo há alguns meses, quando estive na Polônia, mais precisamente em Cracóvia, uma das cidades mais belas e historicamente significativas da Europa. Foi uma graça, porque a Polônia nem estava na minha agenda. Coloquei-a por exigencia  irrevogável da minha neta Sofia, que insistiu em visitar os campos de concentração de Auschwitz e Birkenau (Auschwitz II). Louvo-lhe agora a decisão acertadíssima.

Cracóvia encanta pela arquitetura, pela limpeza de suas ruas, pela hospitalidade de seus habitantes e pela extraordinária presença da tradição cristã. Existe naquele ambiente algo que transcende a beleza material. Sente-se uma atmosfera de espiritualidade que convida à contemplação e desperta a percepção de que uma cidade não se constrói apenas com edifícios, estradas e praças, mas também com valores, memória e identidade. Entretanto, uma característica me impressionou particularmente, que foi a segurança pública. Durante a madrugada, caminhei pelas ruas centrais e encontrei pessoas tranquilamente reunidas nas praças, admirando os monumentos e desfrutando da cidade como se fosse pleno dia. Não percebi aquele clima de apreensão que, infelizmente, passou a acompanhar a experiência urbana em tantas outras partes da Europa.

Então, naturalmente vem a pergunta: por que a Polônia transmite uma sensação de segurança que parece cada vez mais rara em determinadas metrópoles europeias? A resposta não pode ser reduzida a uma única causa, porque segurança pública resulta de uma combinação de fatores, quais sejam  atuação policial, eficácia da Justiça, condições socioeconômicas, integração cultural, políticas migratórias e respeito às leis. Ainda assim, as escolhas políticas de cada país merecem ser examinadas, sobretudo quando seus resultados parecem produzir realidades tão distintas.

A história da Polônia é uma sucessão de sofrimentos, resistências e renascimentos. Seu povo conheceu a brutalidade da ocupação nazista e, depois da Segunda Guerra Mundial, viveu sob um regime comunista imposto pela influência soviética, que restringiu liberdades, perseguiu opositores e submeteu a sociedade a décadas de autoritarismo. Uma nação que experimentou os horrores de dois totalitarismos aprendeu, a duras penas, o preço da perda da liberdade e da submissão da sociedade a projetos políticos que desprezam a dignidade humana.

A Polônia de São João Paulo II, o papa que enfrentou moralmente o comunismo; e de Santa Faustina Kowalska, apóstola da Divina Misericórdia, conserva uma identidade religiosa e cultural profundamente enraizada. O catolicismo, a memória histórica e o sentimento nacional continuam exercendo influência significativa na formação de sua sociedade, embora o país também experimente transformações culturais e religiosas. No campo migratório, os governos poloneses adotaram, em diferentes momentos, políticas restritivas à imigração, particularmente em relação à entrada de pessoas provenientes de regiões distantes de sua realidade cultural. Essas decisões suscitaram controvérsias, mas refletem uma preocupação política legítima, que é a de que a imigração precisa ser administrada pelo Estado, e não simplesmente aceita como um fenômeno inevitável, imune ao debate público. Nenhum país é obrigado a renunciar ao controle de suas fronteiras. Acolher estrangeiros não significa abdicar da responsabilidade de verificar sua entrada, combater organizações criminosas, prevenir ameaças terroristas e exigir o cumprimento das leis nacionais.

A solidariedade internacional não elimina a soberania nacional, assim como o respeito aos direitos dos imigrantes não suprime o dever dos governantes de proteger seus próprios cidadãos. Essa é uma distinção fundamental que parte da elite política europeia parece ter negligenciado durante anos.

Minha passagem por Paris proporcionou uma experiência bastante diferente. Ao entrar no metrô da capital francesa, deparei-me com uma composição humana e cultural que me causou forte estranhamento. A diversidade de origens, idiomas, costumes e vestimentas era tão marcante que, naquele primeiro momento, tive a impressão de estar em uma realidade completamente distinta daquela que imaginava encontrar na França. Não se trata de negar a dignidade de quem vem de outros países, tampouco de atribuir criminalidade a uma nacionalidade, etnia ou religião. Trata-se de reconhecer que a transformação demográfica e cultural de uma sociedade pode suscitar questões legítimas sobre integração, identidade nacional e convivência. Uma cidade histórica como Paris não deixa de ser francesa por receber imigrantes. Tampouco a presença de muçulmanos ou de pessoas provenientes da África constitui, por si mesma, uma ameaça à segurança. O problema começa quando os poderes públicos não conseguem assegurar a integração, combater a criminalidade e exigir de todos, nacionais ou estrangeiros, o respeito às normas comuns.

Na Itália, especialmente em Milão, tive uma impressão semelhante, embora o ambiente me parecesse culturalmente menos distante daquele que eu esperava encontrar na Europa. Essas experiências me levaram a refletir sobre uma questão que ultrapassa as fronteiras francesas e italianas, ou seja, até que ponto governos que estimularam ou toleraram fluxos migratórios intensos avaliaram adequadamente suas consequências para a habitação, os serviços públicos, a integração cultural e a segurança? A meu modesto compreender, a  imigração pode contribuir para a economia, renovar a força de trabalho e enriquecer a vida cultural de uma nação. Mas, quando ocorre sem planejamento adequado, sem mecanismos eficientes de integração e sem controle suficiente das fronteiras, pode agravar tensões sociais e sobrecarregar estruturas públicas já fragilizadas. O equívoco está em tratar qualquer preocupação com esses problemas como manifestação automática de xenofobia ou racismo. Democracias maduras precisam permitir o debate sobre imigração sem estigmatizar os estrangeiros, mas também sem intimidar os cidadãos que desejam discutir os efeitos das políticas adotadas.

A experiência histórica polonesa oferece outra lição importante. A liberdade precisa ser protegida contra todas as formas de totalitarismo. O nazismo e o comunismo, apesar de suas diferenças ideológicas, sempre foram irmanados para  produzirem regimes de perseguição, supressão das liberdades e violência contra os adversários.

 A Polônia conheceu essas duas tragédias de maneira particularmente dolorosa. Sua legislação estabelece mecanismos de proteção da ordem constitucional contra organizações que promovam ideologias totalitárias. A Constituição polonesa, em seu artigo 13, proíbe partidos e organizações cujos programas ou atividades admitam métodos totalitários e práticas como o ódio racial ou nacional. Lembre-se por pertinente e necessário que o combate ao totalitarismo não pode converter-se em justificativa para um novo autoritarismo. Como normalmente ocorre em democracias que criminalizam toda a manifestação que considera nazifascista, mas paradoxalmente  escancaram as portas da liberdade para a propaganda e estabelecimento de organizações e partidos marxistas/socialistas/comunistas, que têm causado malefícios insanaveis a todas as sociedades onde se estabeleceram no poder. 

A verdadeira lição polonesa não é a de que o Estado deva silenciar indiscriminadamente seus adversários ideológicos. É a de que nenhuma ideologia pode receber licença para destruir a liberdade alheia.

A Europa não está condenada à insegurança, assim como a imigração não conduz inevitavelmente à desordem.  Mas  os governantes não devem ignorar problemas concretos por receio de desagradar aos setores mais influentes da opinião pública. Quando bairros se tornam perigosos, quando mulheres e idosos sentem medo de circular à noite, quando o transporte público deixa de transmitir confiança e quando a população percebe que determinadas regras não são aplicadas de maneira uniforme, há uma falha de responsabilidade estatal que precisa ser enfrentada. A segurança é uma condição indispensável para o exercício da liberdade. Não basta proclamar direitos em documentos oficiais se o cidadão não pode usufruir deles nas ruas de sua própria cidade. O Estado que não protege seus habitantes compromete sua própria legitimidade. E o governante que prefere defender a imagem de suas políticas (lembrai-vos do incompetente Macron) a reconhecer seus resultados negativos abdica de uma de suas principais obrigações, que é servir ao bem comum.

A experiência da Polônia merece atenção por demonstrar que soberania, identidade nacional, preservação da memória histórica e defesa da ordem pública podem ocupar lugar central no debate democrático.

Voltei da Polônia com a lembrança de Cracóvia, de suas igrejas, de suas praças e de suas ruas tranquilas durante a madrugada. A experiência reforçou minha convicção de que a qualidade de uma sociedade não se mede apenas por sua riqueza material ou pelo brilho de seus monumentos, mas também pela capacidade de proporcionar segurança, preservar sua memória e transmitir confiança aos cidadãos. A França e a Itália, com suas extraordinárias contribuições à civilização ocidental, não perderam sua importância histórica. Mas os desafios enfrentados por algumas de suas grandes cidades justificam uma reflexão séria sobre as escolhas políticas que contribuíram para a situação atual e sobre as medidas necessárias para enfrentá-la. Importa  compreender que a generosidade precisa caminhar com a prudência, que a acolhida exige responsabilidade e que a diversidade somente pode florescer de maneira duradoura quando acompanhada de integração, respeito às leis e compromisso com o bem comum.

A Polônia, com sua história de sofrimento e resistência, oferece elementos importantes para essa reflexão. Que as demais nações europeias tenham a sabedoria de aprender com os acertos e os erros de suas próprias experiências antes que problemas administráveis se transformem em crises de difícil solução. Porque a liberdade não consiste apenas em poder entrar em qualquer lugar ou professar qualquer ideia. Consiste também em poder caminhar pelas ruas, de dia ou de madrugada, sem medo de ser vítima da violência. E assegurar essa liberdade é, antes de tudo, um dever inalienável do Estado.

sábado, 17 de outubro de 2026

"Fernando Furtado e o resgate de uma vida exemplar" - Por Barros Alves

Ao estrear na literatura, o médico Fernando Furtado presta um relevante serviço à memória histórica do Ceará, resgatando a trajetória de um profissional da Medicina e homem público cuja vida permanece como exemplo de dedicação ao próximo, espírito público e dignidade. Alguns livros são escritos em razão da necessidade de contar uma história; outros surgem do imperativo moral de impedir que o tempo condene ao esquecimento aqueles que merecem permanecer na memória coletiva. É nessa segunda categoria que se insere a obra AMADEU FURTADO — UM LEGADO DE HUMANISMO E COMPETÊNCIA NA HISTÓRIA DO CEARÁ, por intermédio da qual o médico Fernando Furtado estreia como escritor, oferecendo aos leitores uma contribuição de inegável valor histórico, cultural e humano.

Ao escolher como personagem de sua primeira incursão literária uma figura que honra a Medicina e a Política cearense, Fernando Furtado demonstra sensibilidade histórica e consciência da importância de preservar os exemplos virtuosos de nosso passado. Mais do que escrever uma biografia, o autor assume a tarefa de resgatar uma trajetória digna de ser conhecida pelas gerações atuais e pelas que ainda virão. A memória de um povo não se constrói apenas com os grandes acontecimentos de sua história, mas também com a lembrança daqueles que souberam servir à coletividade com competência, generosidade e honradez. É precisamente nesse contexto que se inscreve a vida de Amadeu Furtado. De ele foi daqueles médicos para quem a profissão jamais se limitou ao exercício de uma atividade técnica ou à obtenção de reconhecimento social. Seu trabalho tinha uma dimensão humana que ultrapassava os limites do consultório. Ele tinha a compreensão de que o sofrimento alheio exige não apenas conhecimento científico, mas também compaixão, disponibilidade e solidariedade. Sua dedicação aos pacientes mais pobres, muitos dos quais atendidos gratuitamente, revela uma concepção elevada da Medicina. Em sua trajetória, o saber adquirido nos bancos universitários encontrava sua expressão mais nobre no cuidado com o próximo.

Essa disposição para servir constitui uma das mais belas lições que a história de Amadeu Furtado oferece aos profissionais da saúde. Em uma sociedade na qual tantas vezes se discutem os custos da assistência médica, as exigências do mercado e os desafios da administração dos serviços de saúde, recordar um médico que fez da solidariedade uma marca de sua atuação significa reafirmar a dimensão ética e humanitária da profissão. O verdadeiro médico não trata apenas de doenças.  Acolhe pessoas, compreende sofrimentos e reconhece a dignidade de cada ser humano. A trajetória de Amadeu Furtado ajuda a ilustrar essa verdade fundamental.

Se na Medicina Amadeu Furtado encontrou uma forma direta de servir ao próximo, na vida pública teve a oportunidade de ampliar sua contribuição à sociedade cearense. Sua atuação parlamentar, sua participação na Constituinte estadual de 1947 e seu exercício de funções de responsabilidade política demonstram que sua presença na vida pública não se restringiu à atividade profissional. Ele também participou dos debates e das decisões que contribuíram para a organização institucional do Ceará. A política, quando exercida com responsabilidade, constitui uma das mais importantes formas de serviço à comunidade. Exige conhecimento dos problemas coletivos, disposição para o diálogo, compromisso com as instituições e, sobretudo, consciência de que o mandato público não representa um patrimônio particular, mas uma responsabilidade perante a sociedade. Por isso, recuperar a história de Amadeu Furtado significa também trazer à reflexão contemporânea um exemplo de aproximação entre competência profissional, participação política e dedicação ao bem comum.

Em tempos nos quais a atividade política enfrenta frequentes questionamentos quanto à conduta de seus representantes, biografias dessa natureza adquirem especial relevância. Elas recordam que a vida pública pode e deve ser orientada por valores superiores aos interesses individuais, pelas exigências da ética e pelo compromisso com a coletividade. Não se trata de idealizar personagens históricos ou ignorar as circunstâncias de sua época, mas de reconhecer os méritos documentados de uma trajetória e compreender o que ela pode ensinar às gerações seguintes.

A iniciativa de Fernando Furtado merece elogio não apenas pela escolha do biografado, mas também pelo significado cultural de seu empreendimento. Ao estrear como escritor, o médico volta seu olhar para a história de um colega de profissão cuja atuação alcançou igualmente o campo político. Essa escolha estabelece uma aproximação particularmente significativa entre duas gerações de médicos: uma representada por Amadeu Furtado, cuja vida é objeto da pesquisa biográfica, e outra por Fernando Furtado, que se empenha em preservar e transmitir esse legado. A Medicina, afinal, não se constitui apenas de conhecimentos científicos transmitidos entre profissionais. Também possui uma história de homens e mulheres que, por suas atitudes, ajudaram a definir o significado ético e social da profissão. Ao registrar a trajetória de Amadeu Furtado, o autor contribui para que essa dimensão humana da Medicina não se perca entre datas, títulos e informações biográficas. Sua iniciativa permite que a memória individual se transforme em patrimônio coletivo.

Há, nesse trabalho, uma responsabilidade que merece ser destacada, qual seja a de escrever sobre uma personalidade histórica e também assumir o compromisso de transmitir às novas gerações referências capazes de inspirar condutas e despertar consciências.

É nesse sentido que a estreia literária de Fernando Furtado ultrapassa o âmbito de uma realização pessoal. Seu livro oferece ao Ceará uma oportunidade de reencontro com uma personalidade que merece ocupar lugar de destaque na memória da Medicina e da vida pública. O subtítulo escolhido para a obra — "Um Legado de Humanismo e Competência na História do Ceará" — sintetiza duas qualidades cuja associação é indispensável ao exercício responsável de qualquer profissão, assim entendido como  a capacidade de realizar bem o próprio trabalho e a disposição de colocá-lo a serviço de valores humanos.

Competência sem humanidade pode converter-se em mero instrumento de afirmação individual. Humanismo sem preparo, por sua vez, pode carecer dos meios necessários para produzir resultados concretos. Na trajetória de Amadeu Furtado, tal como apresentada pela proposta biográfica de Fernando Furtado, essas duas dimensões são colocadas em perspectiva como elementos complementares de uma vida dedicada à sociedade.

Uma sociedade que esquece seus homens e mulheres de valor corre o risco de empobrecer suas próprias referências morais e históricas. O Ceará possui uma tradição intelectual, médica, política e cultural construída por gerações que, com suas realizações, ajudaram a formar a identidade do Estado. Preservar a memória dessas personalidades não constitui simples exercício de saudosismo, mas uma forma de compreender o presente e transmitir experiências às gerações futuras.

É nesse trabalho de preservação que a biografia assume sua importância. Ao investigar e registrar uma trajetória individual, o biógrafo também ilumina aspectos da sociedade em que viveu seu personagem, os desafios de sua época e as contribuições que deixou. O mérito de Fernando Furtado consiste em dirigir sua atenção a uma figura cuja história merece ser conhecida para além dos círculos profissionais ou políticos com os quais esteve relacionada. Seu empreendimento ajuda a aproximar o leitor contemporâneo de um período da história cearense e de um homem que fez da Medicina e da participação pública dois campos de atuação.

Naturalmente, o alcance histórico de uma biografia depende também da consistência documental da pesquisa, da fidelidade às fontes e da capacidade de distinguir fatos comprovados de interpretações. É justamente por isso que o trabalho de investigação biográfica merece ser valorizado, posto que exige dedicação, paciência e disposição para reunir informações que, dispersas ou esquecidas, poderiam desaparecer da memória coletiva. Quando realizado com rigor e sensibilidade, esse trabalho converte-se em contribuição duradoura à cultura de um povo.

A obra de estreia de Fernando Furtado representa, portanto, mais do que a apresentação de uma  personagem histórica  ao público leitor. Ela constitui um gesto de reconhecimento a um cearense cuja trajetória, marcada pela atuação médica, pela dedicação aos necessitados e pela participação na vida política, merece ser transmitida às novas gerações. Amadeu Furtado pertence àquela categoria de personalidades cuja lembrança nos convida a refletir sobre o sentido do trabalho, a responsabilidade social das profissões e a finalidade da participação política. Sua história recorda que o prestígio mais duradouro não decorre apenas dos cargos ocupados ou dos títulos conquistados, mas também dos serviços prestados e das vidas alcançadas pela ação de um indivíduo.

Ao resgatar essa trajetória, Fernando Furtado presta uma homenagem ao biografado e, simultaneamente, oferece sua contribuição à memória do Ceará. Sua estreia literária demonstra que a escrita pode ser também uma forma de gratidão, reconhecimento e serviço público.

Que o livro encontre leitores entre médicos, estudantes, pesquisadores, parlamentares e todos aqueles que compreendem a importância de conhecer os exemplos de nosso passado. Que sua publicação estimule novas pesquisas sobre a história da Medicina cearense e sobre os homens públicos que ajudaram a construir as instituições estaduais. E que as novas gerações encontrem na história de Amadeu Furtado motivos para compreender que o conhecimento deve caminhar ao lado da consciência moral, que o exercício da política exige compromisso com o bem comum e que a competência profissional alcança sua expressão mais elevada quando se coloca a serviço da dignidade humana.

Ao estrear como escritor, Fernando Furtado faz mais do que perpetuar o nome de Amadeu Furtado. Ele contribui para perpetuar os valores que justificam sua presença na história do Ceará. E esse talvez seja o maior mérito de uma obra biográfica, isto é, transformar a recordação de uma vida em ensinamento para muitas outras. Porque os anos passam, os cargos ficam para trás e as gerações se sucedem. Mas as vidas verdadeiramente dedicadas ao próximo continuam a falar à consciência dos homens. E os livros que preservam essas vidas ajudam a garantir que essa voz não se perca no silêncio do tempo.

sábado, 10 de outubro de 2026

"São Pedro Damião e a crise moral e doutrinária da Igreja Católica" - Por Barros Alves

O Evangelho não muda para agradar ao mundo, e o sacerdócio não pode transformar-se em instrumento de legitimação dos vícios que deveria combater.

A Igreja Católica atravessa tempos de inquietação, conflitos doutrinários e divisões que não podem ser enfrentados com discursos complacentes, silêncios calculados ou concessões à mentalidade secularizada. Quando aqueles que receberam a missão de ensinar, santificar e conduzir o povo de Deus passam a relativizar os mandamentos, enfraquecer a disciplina e tratar a verdade revelada como matéria sujeita às preferências de cada época, a crise deixa de ser apenas administrativa e se  torna espiritual e moral.

Não se trata de exigir que os sacerdotes sejam homens sem fraquezas. Trata-se de exigir que reconheçam o pecado, combatam-no em si mesmos e não convertam a misericórdia divina em pretexto para a impunidade moral.

Nos Evangelhos, Nosso Senhor Jesus Cristo não poupou palavras ao denunciar a hipocrisia dos dirigentes religiosos. Em Mateus 23.27, compara os escribas e fariseus a sepulcros caiados, exteriormente belos, mas interiormente cheios de impureza. E adverte, em Lucas 12.48: "A quem muito foi dado, muito será exigido". Essas palavras devem ressoar com particular força na consciência de todo bispo, sacerdote e religioso. Quanto maior a responsabilidade espiritual, maior o dever de fidelidade. O altar não é palco para vaidades pessoais; a homilia não é palanque para ideologias; o ministério sacerdotal não é licença para viver segundo conveniências particulares.

A advertência de Cristo em Mateus 5.13 — "Vós sois o sal da terra" — contém uma pergunta incômoda, qual seja que utilidade terá o sal se perder o sabor? Se o clero deixa de anunciar a conversão, de ensinar a doutrina e de testemunhar a santidade, como poderá conduzir os fiéis à vida eterna?

O sacerdote que proclama a necessidade de conversão, mas se recusa a converter-se, contradiz com a própria vida aquilo que ensina. O Beato Fulton Sheen diz em sua autobiografia, que pouco pregava sobre jejum, porque nesse quesito ele não dava bom exemplo. E aquele que, por medo de desagradar, silencia sobre os pecados graves não pratica necessariamente a caridade, pois pode estar abandonando as almas à própria sorte.

No século XI, São Pedro Damião enfrentou uma realidade que demonstra não ser nova a tentação de acomodar o sacerdócio às paixões humanas. Em seu *Liber Gomorrhianus*, ("O Livro de Gomorra e a luta de São Pedro Damião contra a Corrupção Eclesiástica"), com recente edição em vernáculo pela editora Ecclesiae, escrito por volta de 1049 e dirigido ao Papa Leão IX, São Pedro Damião denunciou graves desordens sexuais entre membros do clero e a insuficiência das respostas disciplinares diante de determinados abusos. O santo não tratava a corrupção dos ministros como assunto secundário, a ser escondido para preservar a reputação institucional. Entendia que a reforma da Igreja exigia a correção dos culpados, a responsabilidade dos superiores e a recuperação da dignidade do ministério sagrado. Sua obra tornou-se um importante testemunho da luta medieval pela reforma moral do clero.

São Pedro Damião ensina, por seu exemplo, que a verdadeira fidelidade à Igreja não consiste em encobrir os pecados de seus ministros, mas em desejar sua purificação. Amar a Igreja não é proteger a imagem de homens culpados; é defender a santidade da missão que lhes foi confiada. Essa coragem continua uma necessidade premente no seio da Igreja Católica adoentada pelas liberadades dos padres e teólogos partidários da Teologia da Libertação. Diante de abusos sexuais, violações do celibato, escândalos financeiros, abuso de autoridade ou encobrimento de crimes, não basta lamentar os acontecimentos. São necessárias investigação, justiça, proteção das vítimas, responsabilização dos culpados e penitência sincera. A dignidade sacerdotal não pode servir de escudo contra a lei moral ou a justiça civil.

Grande motivo de preocupação é, portanto, o liberalismo doutrinário entendido como a pretensão de submeter a fé às opiniões dominantes, como se as verdades do Cristianismo fossem provisórias e pudessem ser remodeladas conforme as mudanças culturais.

A Igreja deve dialogar com o mundo, compreender os sofrimentos humanos e anunciar o Evangelho a todas as pessoas. Mas, diálogo não significa renúncia à verdade; acolhimento não significa aprovação automática de toda conduta; misericórdia não significa declarar irrelevante o arrependimento e a sincera conversão.

Cristo não disse à mulher surpreendida em adultério que o pecado não importava. Depois de protegê-la da condenação hipócrita, ordenou-lhe: "Vai e não tornes a pecar" (João 8,11). A passagem reúne duas exigências inseparáveis, que são a misericórdia para com o pecador e o  abandono do pecado.

Quando a primeira é proclamada e a segunda convenientemente esquecida, mutila-se a mensagem evangélica. Uma pastoral que acolhe sem jamais chamar à conversão torna-se incapaz de explicar por que Cristo morreu na cruz e se não há pecado do qual ser libertado, a Redenção perde, aos olhos dos homens, seu significado prático. A mesma advertência vale para as liberalidades morais, tais como a flexibilização indiscriminada dos compromissos sacerdotais, a banalização da castidade, a transformação da liturgia em espetáculo e a substituição da formação doutrinária por slogans ideológicos. Não se deve presumir que todo sacerdote que discorda de determinada interpretação seja corrupto, nem confundir legítimo desenvolvimento doutrinário com abandono da fé. O critério, porém, não pode ser a popularidade de uma ideia, mas sua coerência com o Evangelho e a doutrina da Igreja.

Há também um escândalo particularmente doloroso quando alguns representantes do clero se deixam absorver por disputas partidárias, projetos ideológicos ou discursos de natureza predominantemente política, relegando a segundo plano a salvação das almas. A preocupação com os pobres, a defesa dos injustiçados e a denúncia da corrupção são deveres compatíveis com o Evangelho e o próprio Cristo manifesta compaixão pelos necessitados. 

O desvio começa quando a missão sobrenatural da Igreja é reduzida a um programa político, quando a justiça social é separada da conversão pessoal ou quando a linguagem da libertação passa a obscurecer a libertação do pecado. Colocar os pobres no lugar do Cristo não leva à libertação, mas à condenação. A Igreja existe não para servir de capelania a partidos, movimentos revolucionários ou projetos de poder, pois  sua missão ultrapassa as fronteiras das ideologias. Nenhuma corrente política pode reivindicar para si o Evangelho inteiro, e nenhuma preferência partidária autoriza um ministro a silenciar sobre as verdades morais que contrariam seus aliados.

A fidelidade à doutrina não impede a caridade social; antes, oferece-lhe fundamento moral. O problema não é defender os pobres, mas instrumentalizá-los, venerá-los, deificá-los como se pobres não cometessem erros e pecados. Não é combater a injustiça, mas transformar a Igreja em extensão de uma organização político-ideológica. Não é dialogar com a sociedade, mas permitir que os critérios do mundo substituam os critérios da fé. 

Alguns procuram justificar toda concessão como sinal de abertura, como se a disciplina eclesiástica fosse uma relíquia autoritária e a exigência moral, uma forma de intolerância. Essa oposição é falsa.

A misericórdia autêntica não humilha o pecador nem o abandona à sua condição. Ela o procura, oferece-lhe o perdão e o convida à mudança de vida. A disciplina, quando exercida com justiça, prudência e caridade, protege a comunidade e preserva a integridade do ministério.

O próprio Cristo adverte em Mateus 7.15: "Guardai-vos dos falsos profetas". E, em Mateus 7,16, ensina que eles serão reconhecidos pelos frutos. Não basta ostentar títulos, paramentos, eloquência ou prestígio. É preciso examinar a coerência entre o que se ensina e o que se pratica.

Isso vale igualmente para a autoridade episcopal. A omissão diante de desvios comprovados, a proteção de pessoas influentes e a aplicação seletiva das normas destroem a confiança dos fiéis. A autoridade que não corrige quando deve corrigir torna-se cúmplice do problema que deveria resolver.

A crise da Igreja não será superada pela simples multiplicação de documentos, pela propaganda institucional ou pela tentativa de silenciar toda crítica. Tampouco será resolvida por ataques indiscriminados contra o clero, como se todos os sacerdotes fossem responsáveis pelos pecados de alguns. Muitos vivem com generosidade, castidade, humildade e dedicação, servindo aos fiéis longe dos holofotes. O caminho da reforma passa pela santidade pessoal, pela formação doutrinária sólida, pela celebração reverente da liturgia, pela observância dos compromissos sacerdotais e pela aplicação imparcial das normas canônicas.

A advertência de São Paulo em Romanos 12.2 permanece atual: "Não vos conformeis com este mundo..." O cristão não foi chamado a reproduzir todas as tendências de sua época, mas a discernir o que corresponde à vontade de Deus. O clero, por sua responsabilidade particular, deve ser exemplo dessa resistência espiritual.

A Igreja não precisa de pastores que adaptem o Evangelho a todas as conveniências humanas; precisa de pastores que tenham coragem de anunciá-lo integralmente, começando por aplicá-lo a si próprios.

A maior crise não é a de uma Igreja perseguida por permanecer fiel à verdade, mas a de ministros que, receosos de contrariar o mundo, deixam de anunciar aquilo que receberam a missão de transmitir.

São Pedro Damião compreendeu que a reforma exige coragem para denunciar os vícios, humildade para reconhecer os pecados e firmeza para exigir a correção. Os séculos passaram, mas a lição permanece: a santidade da Igreja não se defende ocultando as feridas de seus membros, e sim tratando-as com verdade, justiça e penitência.

O rebanho tem direito a pastores que não fujam diante dos lobos, não se tornem cúmplices deles e não transformem a misericórdia em desculpa para a impunidade.

A palavra final pertence ao próprio Cristo: "Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me" (Mateus 16.24). Não existe reforma verdadeira sem renúncia, nem santidade sem combate espiritual. E não existe fidelidade ao Evangelho quando a vontade de agradar aos homens prevalece sobre o dever de agradar a Deus.