Confesso que determinados modismos me incomodam. Modismos a infestarem a sociedade de tal forma que até a Igreja se deixa levar por ideias claramente neo-animistas e neopanteístas. Sou matuto do sertão, gosto de árvores, plantas, dos matos, dos bichos, do meio rural. Mas, antes gosto de gente. Uma recente discussão com uma (pseudo) cristã que disse claramente preferir gastar dinheiro com seu belo cachorro do que adotar uma criança, fui provocado a escrever os questionamentos que ora coloco para a reflexão dos leitores.
Certos modismos contemporâneos, ainda que nascidos de preocupações legítimas, acabam por transbordar seus limites naturais e invadir até mesmo o espaço da fé cristã. Entre eles, destacam-se alguns excessos do ecologismo e uma afeição desmedida pelos animais, que, quando absolutizados, deslocam o eixo da criação e obscurecem a centralidade do ser humano na ordem moral e espiritual.
A tradição cristã sempre reconheceu a criação como boa e digna de cuidado, confiada ao homem como administrador responsável. Contudo, quando a natureza passa a ser tratada não como obra, mas como entidade quase sagrada em si mesma, percebe-se um deslizamento sutil para formas de pensamento que se aproximam de um neopanteísmo onde Deus se dilui no todo, ou mesmo de um neo-animismo, no qual elementos naturais e seres irracionais são revestidos de uma espécie de sacralidade intrínseca.
De modo semelhante, o amor aos animais, virtude recomendável enquanto expressão de sensibilidade e responsabilidade, pode degenerar em um sentimentalismo que iguala ou até sobrepõe o valor da vida animal à dignidade da pessoa humana. Tal inversão, mais emocional que racional, rompe com a hierarquia clássica da criação e enfraquece a compreensão do homem como imagem de Deus.
Quando tais tendências penetram no discurso religioso, corre-se o risco de uma diluição da teologia cristã em categorias estranhas à sua tradição, produzindo uma espiritualidade difusa, mais afinada com sensibilidades culturais passageiras do que com a coerência doutrinal. O desafio, portanto, não é rejeitar o cuidado com a criação ou o respeito aos seres vivos, mas reintegrá-los em uma visão equilibrada, onde Deus permanece transcendente, a criação é valorizada sem ser divinizada, e o homem conserva sua singular responsabilidade no cosmos.
A constatação desses modismos, de certa forma chancelados até por Enclíclicas papais, como a "Laudato si", do Papa Francisco, remete-nos a um dos mais importantes pensadores da himanidade, o filósofo judeu Baruch Spinoza, cuja obra constitui um ardiloso desvio da doutrina cristã sobre a Criação e a Natureza. Com efeito, a obra de Spinoza permanece como uma das mais ousadas tentativas de repensar Deus fora das categorias tradicionais da religião. Ao identificar Deus com a própria ordem da realidade — "Deus sive Natura" — o filósofo inaugura um horizonte que, aos olhos da teologia cristã, não apenas diverge, mas rompe com seus fundamentos mais íntimos. Não por acaso, sua doutrina foi considerada herética tanto por judeus quanto por cristãos. Ainda assim, a mesma pena que dissolveu o Deus pessoal contribuiu decisivamente para o nascimento de um método crítico aplicado às Escrituras, estabelecendo limites fecundos entre teologia e história.
A teologia cristã, enraizada nas Escrituras e sistematizada por pensadores como Tomás de Aquino, afirma um Deus pessoal, transcendente e livre, criador do mundo "ex nihilo". Esse Deus não se confunde com a criação; ao contrário, sustenta-a e governa-a com providência. Revela-se na história, desde a eleição de Israel até a encarnação em Jesus Cristo; e estabelece com o homem uma relação de aliança, juízo e redenção. A fé cristã não é mera contemplação da ordem natural, mas resposta a uma Palavra que chama, julga e salva.
Spinoza subverte esse edifício. Em sua obra maior, a "Ética", Deus não é pessoa, vontade ou legislador; é substância infinita, necessária, cujos atributos se exprimem na ordem eterna da natureza. Não há criação no sentido clássico, mas imanência: tudo o que existe é em Deus e por Deus, não como efeito de um ato livre, mas como consequência necessária de sua essência. Desaparecem, assim, categorias centrais à teologia cristã: providência, milagre, pecado, graça. O mundo não é palco de uma história da salvação, mas expressão de uma necessidade lógica.
É nesse ponto que a crítica cristã se torna inevitável e contundente. Se Deus não é pessoa, não ama; se não ama, não salva; se não salva, a religião perde seu núcleo existencial. O Deus de Spinoza, por mais sublime que seja como princípio metafísico, é incapaz de estabelecer relação com o homem. Ele não escuta, não fala, não intervém. A oração torna-se meditação intelectual; a fé, conhecimento racional; a esperança, aceitação da necessidade. Para a tradição cristã, isso equivale a esvaziar o coração da religião, reduzindo-a a uma filosofia da ordem universal.
Entretanto, seria intelectualmente desonesto ignorar o outro lado dessa ruptura. Em seu "Tratado Teológico-Político", Spinoza inaugura uma abordagem que viria a fecundar os estudos bíblicos modernos. Ao tratar a Escritura como documento histórico, submetido às condições de sua redação, transmissão e contexto, ele rompe com a leitura puramente dogmática e abre caminho para a crítica textual e histórica. Investiga autores, datas, estilos e intenções, distinguindo o núcleo moral da mensagem bíblica das formas culturais que a revestem.
Esse gesto teve consequências duradouras. A partir dele, tornou-se possível reconhecer que os textos bíblicos possuem uma história, ou seja, foram escritos, editados, transmitidos; sem que isso implique necessariamente negar seu valor religioso. Spinoza, ao separar teologia e história, buscava proteger a liberdade de pensamento contra o uso político da religião. Paradoxalmente, acabou oferecendo instrumentos que seriam utilizados inclusive por teólogos para aprofundar a compreensão das Escrituras.
Aqui se impõe um discernimento necessário. A teologia cristã não pode aceitar o núcleo metafísico do pensamento spinozano sem renunciar à sua própria identidade. O Deus bíblico não é redutível à ordem natural; é Senhor da história, livre e pessoal. Contudo, pode e deve reconhecer o valor metodológico da crítica histórica. A fé não teme a investigação honesta; ao contrário, purifica-se quando distingue entre o dado revelado e suas mediações históricas.
Assim, a heresia de Spinoza não reside apenas no que nega, mas também no que provoca. Ao dissolver o Deus pessoal, ele desafia a teologia a explicitar melhor o sentido da transcendência e da revelação. Ao historicizar a Escritura, obriga-a a enfrentar sua própria dimensão humana. Entre o Deus vivo do Cristianismo e o Deus-Natureza de Spinoza abre-se um abismo, mas também um campo de tensão fecunda, onde razão e fé são chamadas a dialogar sem confusão e sem submissão.
Em última análise, Spinoza não destruiu a teologia; obrigou-a a pensar com mais rigor seus próprios fundamentos. E talvez seja precisamente aí que reside sua permanência. Não como mestre a ser seguido, mas como interlocutor que não pode ser ignorado. Por agora, impõe-se aos cristãos a necessidade de conhecer essas diferenças, sutis e obnubiladas pelos modismos da pós-pós modernidade.








