segunda-feira, 24 de agosto de 2026

"O AVESSO DA PELE: quando o aplauso não basta" - Barros Alves

                                                                    


Por primeiro, devo dizer que não me causará surpresa se algumas vozes  assestarem suas baterias verbais contra  mim. Normalmente  críticos alinhados com a imbecilidade - suprema imbecilidade  - do politicamente correto. Se porventura isso ocorrer não será a primeira vez e certamente não será a última que alguns poucos se incomodam com o meu modesto exercício de crítica literária. Certa vez quase me linchavam em razão de texto que escrevi intitulado "Chico Buarque, um estorvo na literatura brasileira." Porque o romance "Estorvo", a meu entender, é um fraco passeio literário. Posteriormente, o respeitado crítico e historiador da Literatura, Wilson Martins, expressou pensamento igual ao meu.

Vamos, pois, botar as coisas pelo avesso. Não é a primeira vez que livros chegam às mãos do leitor precedidos por uma espécie de unanimidade crítica. São elogiados, premiados, recomendados, incorporados às listas de leitura e apresentados como obras indispensáveis da literatura contemporânea. O leitor, então, abre o livro esperando encontrar aquilo que a reputação promete. E pode acontecer justamente o contrário. A leitura termina e permanece uma sensação incômoda de decepção.

Foi o que me ocorreu com "O Avesso da Pele," de Jeferson Tenório. Reconheço a importância dos temas abordados e compreendo as razões pelas quais a obra encontrou tamanha acolhida. Mas, como leitor, não consigo confundir a relevância de um tema com a excelência de sua realização literária. E é precisamente nesse ponto que minha discordância se estabelece.

Minha impressão é a de que estamos diante de um livro muito mais forte em sua pauta temática do que em sua arquitetura literária. O assunto é grave, atual e mobilizador. O racismo, a violência, as relações familiares, a experiência da população negra e as marcas psicológicas deixadas pela discriminação constituem matéria legítima e poderosa para a literatura. Mas matéria-prima não é obra de arte. Uma grande literatura não se faz apenas pela escolha de temas importantes; faz-se pela capacidade de transformar esses temas em linguagem, personagens, conflitos, ambiguidades e experiências humanas que ultrapassem o circunstancial. E é justamente aí que vejo as principais fragilidades de "O Avesso da Pele."

A escrita de Tenório me parece excessivamente linear e, em muitos momentos, previsível. Há passagens de força, evidentemente, mas falta à narrativa aquela densidade verbal capaz de fazer com que determinadas páginas permaneçam na memória do leitor depois que o livro é fechado. Não me refiro à necessidade de uma linguagem rebuscada. Grandes escritores podem escrever de maneira absolutamente simples. O problema não é a simplicidade; é a falta de tensão estética. A linguagem literária precisa fazer mais do que transportar uma história. Precisa criar atmosfera, sugerir, ocultar, revelar, produzir sentidos que não estejam inteiramente à superfície.

Em "O Avesso da Pele," muitas vezes tive a impressão de que a narrativa explica aquilo que poderia mostrar e afirma aquilo que poderia deixar o leitor descobrir. A literatura, entretanto, não precisa entregar todas as suas conclusões. Sua grandeza está também na capacidade de suscitar dúvidas, contradições e zonas de silêncio. Talvez por isso o livro me pareça mais próximo de uma narrativa de grande apelo imediato do que daquela literatura que se aprofunda progressivamente no espírito do leitor.

A fragilidade que mais me incomodou, contudo, está na construção dos personagens. Personagens literários memoráveis não são apenas aqueles que protagonizam uma história. São aqueles que parecem possuir uma existência própria, inclusive para além das páginas em que aparecem. Têm contradições, hesitações, zonas obscuras, defeitos que não podem ser explicados por uma única circunstância e virtudes que não cabem em uma classificação moral.

Em "O Avesso da Pele" algumas personagens me parecem excessivamente subordinadas à tese que a narrativa pretende desenvolver. Em vez de serem plenamente indivíduos, acabam funcionando, em determinados momentos, como veículos de uma experiência social ou de uma determinada interpretação do mundo. Isso reduz a complexidade humana. Pedro, por exemplo, é construído a partir de sua tentativa de compreender o pai e reconstruir sua memória. A premissa é literariamente fértil. O problema, a meu ver, é que a investigação sobre Henrique nem sempre produz a complexidade psicológica que poderia produzir. Henrique poderia ser uma figura muito mais contraditória, imprevisível e enigmática. Poderia carregar consigo ambiguidades capazes de obrigar o próprio leitor a rever constantemente o julgamento que faz dele. Em vez disso, tenho a sensação de que determinadas características das personagens são reiteradas até que sua função dentro da narrativa fique demasiadamente evidente.

A boa literatura não precisa absolver nem condenar suas personagens. Precisa compreendê-las em sua humanidade. E compreender alguém literariamente é muito mais difícil do que enquadrá-lo.

Não considero ilegítima uma literatura comprometida com questões sociais. A literatura brasileira está repleta de grandes obras que enfrentaram problemas políticos, sociais e econômicos. Machado de Assis, Lima Barreto, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Érico Veríssimo e tantos outros jamais fugiram das questões de seu tempo. Mas há uma diferença fundamental entre uma obra que nasce da complexidade da experiência humana e uma obra na qual a experiência humana parece, por vezes, estar a serviço de uma tese previamente estabelecida. Quando o leitor percebe antecipadamente aquilo que o autor deseja que ele pense, a literatura perde parte de sua capacidade de surpresa. A personagem deixa de perguntar "quem sou eu?" para começar a responder "o que represento?". E uma personagem que representa uma ideia pode ser interessante sociologicamente, mas dificilmente alcança a grandeza de uma personagem que vive suas próprias contradições.

É possível escrever sobre racismo sem produzir personagens unidimensionais; denunciar a violência sem transformar a narrativa em discurso. É possível defender uma causa justa sem fazer da literatura uma espécie de tribunal. Aliás, quando o tema é realmente forte, não há necessidade de sublinhá-lo o tempo inteiro. A literatura confia no leitor. Talvez a minha maior divergência com a recepção entusiasmada da obra esteja justamente no fato de não acreditar que "O Avesso da Pele" vai resistir ao tempo como literatura.

Não questiono seu sucesso, sua circulação, sua importância pedagógica ou sua capacidade de provocar discussões. Tampouco questiono o direito de outros leitores de considerá-lo uma grande obra. O gosto literário não é uma ciência exata. Mas existe uma diferença entre um livro importante para o debate contemporâneo e um livro que se torna parte permanente da literatura. O primeiro pode ser celebrado intensamente por sua sintonia com o espírito de uma época; o  segundo precisa sobreviver à época que o produziu.

É nesse teste que grandes obras se tornam grandes. Daqui a cinquenta ou cem anos, quando muitas das controvérsias atuais tiverem perdido sua urgência, o que permanecerá de determinado livro? Permanecerá a linguagem? Permanecerão as personagens? Permanecerá a construção narrativa? Permanecerão imagens, frases, situações e conflitos capazes de comover um leitor que desconheça completamente o ambiente histórico em que a obra foi escrita? Essa é a pergunta que faço a "O Avesso da Pele". E minha resposta, neste momento, é marcada pela dúvida.

Há ainda uma questão que precisa ser enfrentada com serenidade. A literatura contemporânea parece, algumas vezes, ter incorporado uma espécie de critério extraliterário para a consagração das obras. A identidade do autor, o tema escolhido, a representatividade das personagens, a posição política da narrativa e sua adequação às sensibilidades dominantes podem contribuir para a recepção de um livro. Nada disso, porém, deveria substituir o juízo propriamente literário. Um livro não é bom porque aborda um tema socialmente importante. Também não é ruim porque aborda determinado tema. O que importa é o que o escritor faz com esse material.

Se amanhã um autor escrever um romance extraordinário sobre o racismo, será extraordinário não porque o racismo seja uma questão relevante, mas porque haverá ali literatura de alta qualidade. O contrário também é verdadeiro. Uma causa justa não transforma automaticamente uma obra mediana em grande literatura. 

Talvez seja necessário recuperar algo que parece cada vez mais raro, qual seja o direito de não gostar de um livro consagrado. Existe hoje certa pressão para que o leitor aceite determinados julgamentos críticos como verdades definitivas. Se uma obra foi premiada, aplaudida e incorporada ao cânone contemporâneo, parece quase uma heresia declarar que ela não nos convenceu. Não deveria ser assim. A literatura nasce justamente da liberdade do leitor. Posso reconhecer a importância de "O Avesso da Pele" e, ao mesmo tempo, considerá-lo literariamente insuficiente. Posso respeitar seu autor e discordar de seus resultados estéticos. Posso reconhecer a legitimidade dos temas tratados e ainda assim concluir que suas personagens não alcançaram a densidade que esperava encontrar. Não há contradição nisso. Ao contrário, é precisamente levar a literatura a sério. Porque elogiar um livro apenas por sua mensagem é, de certa maneira, subestimar a própria literatura.

Meu desconforto com "O Avesso da Pele," portanto, não nasce daquilo que o livro pretende discutir, mas de como, a meu ver, realiza literariamente essa discussão. Vejo uma escritura por vezes frágil e insossa, uma narrativa de grande apelo temático, mas de menor potência estética; personagens que poderiam alcançar maior espessura psicológica, mas que frequentemente me parecem subordinados à função que desempenham na tese do romance; e uma linguagem que raramente alcança aquela dimensão de permanência que esperamos encontrar numa grande obra.

Pode ser que eu esteja errado. A literatura tem essa extraordinária capacidade de desmentir os leitores. Talvez o tempo demonstre que estou sendo injusto. Mas o tempo é justamente o grande crítico de todos nós — escritores, críticos e leitores. E é a ele que entrego minha ressalva. Porque há livros que recebem muitos aplausos quando chegam. E há livros que continuam sendo lidos quando os aplausos já silenciaram.

A diferença entre uns e outros talvez esteja no que existe por baixo da pele. Não apenas uma história que o presente considera necessária, mas uma verdadeira experiência literária capaz de atravessar gerações.

domingo, 23 de agosto de 2026

"A Igreja precisa ler seus próprios documentos" - Por Barros Alves

                                                         


         

A sociedade passa por uma crise moral e religiosa sem precedentes. O neopaganismo e outros "ismos" têm carcomido vários segmentos, a Igreja, inclusive. Nesses momentos tempestuosos, que não poucos vêem como apenas um passageiro redemoinho,  no âmbito da Igreja não basta repetir fórmulas de esperança. É preciso voltar às fontes, reler os documentos do Magistério e recuperar aquela capacidade de discernimento que permite distinguir a verdadeira renovação da simples adaptação ao espírito do mundo. Quero crer que estejamos navegando em  um desses momentos em que a Barca de Pedro precisa consertar o rumo. Retornemos às fontes.

Entre os documentos-fonte  que merecem ser novamente estudados estão a Encíclica "Pascendi Dominici Gregis", de São Pio X, publicada em 8 de setembro de 1907, e o Motu Proprio "Sacrorum Antistitum", de 1º de setembro de 1910. Não se trata de ressuscitar controvérsias de outro século, mas de perguntar se alguns dos fenômenos denunciados por São Pio X desapareceram realmente ou apenas assumiram novas linguagens.

A advertência da "Pascendi" permanece impressionantemente atual. São Pio X não se limitou a denunciar os adversários externos da Igreja. Seu diagnóstico mais grave dizia respeito àqueles que se encontravam dentro dela. O Papa advertiu que os fautores do erro não deveriam ser procurados apenas entre os inimigos declarados, pois alguns se ocultavam "no próprio seio da Igreja". E acrescentava, com especial tristeza, que entre eles havia também membros do clero. É uma passagem que deveria ser lida sem precipitação e, sobretudo, sem instrumentalização. O Papa não autorizava ninguém a transformar suspeitas pessoais em condenações. Ele próprio lembrava que somente Deus conhece as intenções interiores. Seu critério era examinar a doutrina, a linguagem e a conduta.

O problema não é simplesmente descobrir "quem é o inimigo", mas identificar o erro que se infiltra na inteligência católica, enfraquece a fé, relativiza o dogma, despreza a Tradição e diminui a autoridade do Magistério.

São Pio X considerava particularmente perigoso aquele que, permanecendo dentro da Igreja, pretendesse reformá-la segundo categorias estranhas ao depósito da fé. Para ele, o perigo era maior justamente porque vinha de pessoas que conheciam a estrutura e a linguagem da própria Igreja.

Três anos depois, São Pio X voltou ao problema no Moto Próprio "Sacrorum Antistitum". O documento nasceu da constatação de que, apesar da "Pascendi", os modernistas não haviam abandonado seus métodos. Segundo o Papa, continuavam a procurar novos adeptos e a disseminar suas ideias por meio de livros, revistas e outros instrumentos de formação.

A preocupação de São Pio X alcançava, portanto, especialmente os lugares onde a formação intelectual e espiritual da Igreja se  realizava: seminários, universidades, centros de estudos e ambientes de formação do clero.

A razão estava evidente. Uma crise doutrinal que contamina os formadores inevitavelmente alcança as gerações seguintes de sacerdotes, religiosos e leigos. Por isso, a "Pascendi" insiste na escolha criteriosa de professores dos seminários e instituições católicas e pede especial vigilância sobre aqueles que difundissem doutrinas incompatíveis com o Magistério.

Nos dias atuais essa preocupação não perdeu a atualidade. Com efeito, os princípios e orientações da "Pascendi" devem ser reafirmados com vigor.

Décadas mais tarde, em 29 de junho de 1972, Paulo VI pronunciou uma das frases mais dramáticas da história recente da Igreja. Ao falar da situação eclesial depois do Concílio Vaticano II, referiu-se à impressão de que, por alguma fresta, "a fumaça de Satanás entrou no templo de Deus".

O contexto é importante. Paulo VI falava de dúvida, incerteza, inquietação, confronto e crise dentro da própria Igreja. A expressão não pode ser reduzida a um slogan utilizado contra o Concílio Vaticano II. Ela nasceu da angústia de um Papa diante de uma crise que ele próprio percebia no interior da comunidade eclesial. É impossível não perceber a impressionante consonância entre a preocupação de Paulo VI e a de São Pio X.

Um Papa, em 1907, advertia para o perigo que penetrava "nas veias e entranhas" da Igreja. Outro, em 1972, lamentava a entrada da "fumaça de Satanás" no templo de Deus. São linguagens diferentes para expressar uma mesma realidade espiritual: a Igreja pode ser combatida de fora, mas também pode sofrer profundamente quando seus próprios membros deixam de pensar, ensinar e agir segundo a fé que receberam.

Nessa crise que alastra no seio da Igreja cristã há mais de cem anos, onde entra a Teologia da Libertação? Aqui é necessário fazer uma distinção histórica e teológica indispensável. Não se pode afirmar simplesmente que toda Teologia da Libertação seja herética. O próprio Magistério posterior distinguiu entre uma legítima reflexão cristã sobre a libertação e determinadas correntes que incorporaram elementos incompatíveis com a fé cristã. O Dicastério (ex-Congregação) para a Doutrina da Fé, sob a direção do então cardeal Joseph Ratzinger, publicou em 1984 a "Libertatis Nuntius", advertindo contra determinadas formas de Teologia da Libertação que utilizavam, de modo insuficientemente crítico, conceitos provenientes de correntes do pensamento marxista e que podiam conduzir a desvios prejudiciais à fé e à vida cristã.

Dois anos depois, a "Libertatis Conscientia" chama a atenção para a verdadeira libertação, ressaltando a dimensão cristã da libertação, deixando claro que a libertação cristã nasce primordialmente da redenção realizada por Cristo e não pode ser reduzida a uma transformação meramente econômica, social ou política.

João Paulo II, ao dirigir-se aos bispos brasileiros em 1986, foi igualmente explícito ao reafirmar o óbvio, ou seja, a verdadeira libertação cristã é, antes de tudo, soteriológica, e somente depois possui consequências ético-sociais e ético-políticas. Reduzir a primeira à segunda seria desnaturar a própria libertação cristã. Portanto, o problema não está em a Igreja defender os pobres, combater a injustiça ou promover a dignidade humana, pois isso sempre realizou cumprindo o mandamento evangélico. Tudo isso pertence profundamente à tradição cristã. O problema surge quando a salvação é substituída pela emancipação política; o pecado pessoal pelo conflito de classes; a conversão por uma revolução social; Cristo por uma ideologia; e o Reino de Deus por um projeto político terrestre.

Nesse ponto, a advertência do Magistério torna-se absolutamente pertinente. O maior perigo talvez não esteja na existência de ideologias fora da Igreja. O mundo sempre produziu ideologias. O perigo começa quando categorias ideológicas passam a determinar a leitura do Evangelho; quando a luta política se transforma em critério para interpretar o pecado; quando determinados grupos sociais são tratados como naturalmente bons e outros como estruturalmente maus; quando a Doutrina Social da Igreja é substituída por uma visão de mundo importada de sistemas políticos; quando a pessoa de Cristo deixa de ocupar o centro da evangelização; quando a Santa Missa é transformada predominantemente em assembleia sociológica; quando o sacerdote deixa de ser visto antes de tudo como ministro do altar e passa a ser apresentado como agente político; quando a catequese perde a transcendência, o pecado, a graça, a redenção, o juízo, a vida eterna e a necessidade da conversão.

É justamente nesse ponto que a Igreja precisa voltar para São Pio X. Não para retornar um século no tempo,, mas para recuperar o princípio do discernimento doutrinal a fim de manter a eterna juventude do ensinamento da Igreja.

 Nos dias atuais a Igreja sofre um processo de apostasia? Certamente não é correto declarar que o Corpo se Cristo presente na Igreja Católica tenha apostatado. A promessa de Cristo permanece: as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Mas pode-se, sim, reconhecer que há fenômenos de apostasia, relativização da fé, abandono da prática religiosa e perda da identidade católica em determinados ambientes e segmentos da Igreja. E  isso é suficientemente grave. Quando um cristão deixa de acreditar na divindade de Cristo, na realidade do pecado, na necessidade da graça, na Ressurreição, na presença real de Cristo na Eucaristia ou na autoridade do Magistério, não estamos diante de uma simples mudança pastoral, mas em face de uma crise da própria fé. Por isso, o caminho não pode ser esconder o problema. Tampouco pode ser transformar toda divergência em acusação de heresia. O caminho é voltar àquilo que São Pio X recomendava: doutrina sólida, filosofia sã, teologia verdadeira, fidelidade à Escritura, aos Padres, à Tradição e ao Magistério. A "Pascendi" é explícita ao exigir especial atenção à formação dos sacerdotes e professores. Talvez a crise seja mais grave  precisamente porque é mais sutil. Não seria precipitado afirmar simplesmente que vivemos uma situação pior do que a enfrentada por São Pio X. Há pelo menos uma razão para considerar nossa época particularmente desafiadora: o erro contemporâneo frequentemente não se apresenta como negação da fé, mas como sua releitura.

O modernismo denunciado por São Pio X procurava acomodar a fé às exigências intelectuais do seu tempo. Hoje, em alguns ambientes, podemos encontrar fenômeno semelhante sob novas formas: a fé reinterpretada à luz da ideologia; a moral subordinada à cultura dominante; a tradição apresentada como obstáculo; o dogma considerado mera linguagem histórica e a autoridade eclesiástica relativizada.

Por isso, a "Pascendi" continua sendo uma espécie de exame de consciência. Não porque tudo aquilo que São Pio X condenou possa ser simplesmente identificado com qualquer corrente teológica contemporânea, mas porque o método de discernimento continua válido.

A pergunta fundamental continua sendo sobre se Cristo está sendo recebido como Senhor, Salvador e Verdade única, ou está sendo reinterpretado para caber nas categorias intelectuais de cada época. Talvez uma das grandes necessidades da Igreja contemporânea seja voltar a ler os documentos da própria Igreja.

Ler São Pio X;

Ler Leão XIII;

Ler Pio XII;

Ler São Paulo VI;

Ler São João Paulo II;

Ler o extraordinário teólogo Bento XVI;

Ler os documentos do Concílio Vaticano II, não com o olhar enviesado de idrologias malsãs, não  fragmentos selecionados, mas integralmente; 

Ler o Catecismo da Igreja Católica, imprescindível;

Ler os documentos do Dicastério para a Doutrina da Fé;

Ler os Padres da Igreja;

Ler Santo Tomás;

E, sobretudo, ler o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Uma Igreja que deixa de conhecer sua própria tradição fica vulnerável a qualquer novidade apresentada como descoberta. São Pio X compreendeu isso perfeitamente e o disse há mais de um século. Sua preocupação não era simplesmente com determinadas ideias, mas com um processo pelo qual a fé poderia ser lentamente corroída por dentro. Por isso sua advertência continua a interpelar a consciência católica. Com efeito, não devemos procurar inimigos em todos os lugares; não devemos suspeitar de todos; não devemos transformar divergências prudenciais em heresias; mas também não devemos ser ingênuos. O erro deve ser combatido onde quer que esteja, inclusive e principalmente quando se apresenta com linguagem religiosa, veste clerical, título acadêmico ou autoridade institucional.

A fidelidade à Igreja não consiste em negar suas crises. Consiste em enfrentá-las com a própria verdade da Igreja. E talvez seja precisamente por isso que a leitura da "Pascendi Dominici Gregis" e do "Sacrorum Antistitum" seja tão necessária hoje. Eu diria imprescindivel. 

Porque, em tempos de confusão, voltar às fontes não é voltar ao passado.

É voltar à verdade.

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

"Romantismo, cognição e política" - Por Rui Martinho Rodrigues

                                                       


O romantismo, como movimento artístico e literário, guarda íntima relação com a Filosofia romântica alemã. Ambos surgiram em fins do séc. XVIII e cresceram no séc. XIX, quando alcançaram grande expressão. Foi uma reação à razão mecanicista do Iluminismo, ênfase na subjetividade e um apelo ao nacionalismo ligado à afirmação da identidade alemã. O titanismo evoca a mitologia grega, na figura dos titãs e de Prometeu, expressa a inconformidade com a realidade e a disposição para romper regras e limites, que é uma das marcas do romantismo.

Friedrich Schlegel (1772 – 1829), na obra "Conversa sobre poesia", aproxima a Filosofia da obra poética, fragilizando a vigilância epistemológica, que é preciosa ao trabalho do filósofo. Mais tarde Lucio Colletti (1924 – 2001), pensador italiano, referiu-se à dialética hegeliana como uma senhora de costumes cognoscitivos fáceis. Aludiu à mistura de teses e antíteses e à cosmogonia não demonstrada.

A síntese dialética do voluntarismo romântico com sua antítese, o determinismo positivista, permitiu a Friedrich Engels (1820 – 1895) explicar tanto a natureza como os fenômenos sociais com a dialética. na obra Dialética da natureza. A senhora de costumes cognoscitivos fáceis permitiu tal inversão.

O titanismo dos românticos ensejou revolta contra regras, limites e fatos. Acabou por guardar relação com o ódio, o extremismo, e desconectado da realidade. Tudo isso foi o resultado da inconformidade em face da realidade, conforme Isaiah Berlim (1909 – 1997), na obra "Ideias políticas na era romântica".

Berlin relaciona o extremismo autoritário e a violência com o romantismo, em razão da tendência para a revolta e o desprezo pela realidade das experiências históricas. Isso é dito indiretamente, associando o romantismo a uma profunda mudança na consciência ocidental, em razão da ressignificação do que entendemos por liberdade, do indivíduo e por autoridade legítima, como consequência da extremada rejeição à racionalidade posta pelo Iluminismo.

A síntese do romantismo com outras tradições cria contradições difíceis de contornar. Surge assim a necessidade de muito contorcionismo lógico, que por sua vez resulta em obras cuja complexidade torna os textos incompreensíveis até para grandes pensadores. A Navalha de Ockham, princípio enunciado por Guilherme de Ockham (1287 – 1347), segundo o qual entre muitas explicações para um fenômeno, provavelmente a mais simples é a correta, colide frontalmente com prestigiosos autores incompreensíveis.

Dificilmente uma banca examinadora aprovaria uma tese que os professores não fossem capazes de entender. A incomunicabilidade dos paradigmas, de Thomas Kuhn, na obra "A estrutura das revoluções científicas", pode explicar a incompreensão dos seguidores de paradigmas distintos. Quando, porém, uma obra é incompreensível até para grande parte dos seguidores da mesma corrente de pensamento, a situação é diferente.

Karl Raymond Popper (1902 – 1994), na obra "Sociedade aberta, universo aberto", que é um conjunto de entrevistas e conversas com o jornalista Franz Kreuzer, afirma que a falta de clareza, quando se trata de pessoa altamente qualificada do ponto de vista intelectual, sugere fundamentação precária, sugestiva de logomaquia. Também pode significar que o véu de Maya, de fala Arthur Schopenhauer (1788 – 1860), na obra "O mundo como vontade de representação", ilusão que recobre o mundo real. Por trás do referido véu se esconde a vontade cega que move o mundo.

O declínio do debate político e filosófico, no contexto da pós-modernidade, reflete efeitos tardios da síntese dialética do espírito romântico com a relativização cognitiva e das referências axiológicas, em nome de uma cultura plural que prega a tolerância e enfatiza a falibilidade enquanto age de modo dogmático em nome do politicamente correto.

Fortaleza, 29 de julho de 2026.

Rui Martinho Rodrigues é escritor, sociólogo e historiador. Presidente de Honra da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo-ACLJ 

sábado, 15 de agosto de 2026

"A pobreza como projeto de poder " - Por Barros Alves

                                                      


Há uma pergunta que o Brasil precisa fazer sem medo, sobretudo às vésperas de mais uma eleição presidencial: por que, depois de décadas de governos e de programas destinados a combater a pobreza, milhões de brasileiros continuam dependendo do Estado para sobreviver?

As pesquisas eleitorais mais recentes acrescentam uma dimensão política inquietante a essa pergunta. No Nordeste, região que concentra alguns dos mais baixos indicadores socioeconômicos do país, Luiz Inácio Lula da Silva mantém vantagem expressiva sobre seu principal adversário, Flávio Bolsonaro. Levantamentos recentes mostram que a força eleitoral de Lula continua particularmente concentrada nessa região.

Não se trata de questionar o direito dos nordestinos de votar em quem quiserem. Democracia é justamente o direito de escolher livremente. A questão é outra: que relação se estabeleceu, ao longo de décadas, entre pobreza, dependência econômica do Estado e fidelidade eleitoral?

O Partido dos Trabalhadores construiu grande parte de sua identidade política sobre a promessa de representar os pobres e combater a desigualdade. Desde a chegada de Lula à Presidência, em 2003, essa narrativa foi reforçada por uma extensa rede de programas de transferência de renda. O Bolsa Família tornou-se o símbolo maior dessa política.

É preciso reconhecer que programas de transferência de renda podem desempenhar uma função social importante.

Mas, constatar a necessidade de assistência aos que realmente precisam não significa aceitar que assistência seja confundida com emancipação.

Uma coisa é o Estado socorrer temporariamente quem atravessa uma situação de pobreza; outra, completamente diferente, é construir uma sociedade na qual milhões de pessoas permanecem indefinidamente dependentes de benefícios públicos, enquanto o setor produtivo é submetido a uma carga tributária pesada para financiar uma máquina estatal cada vez maior.

O pobre precisa de renda, mas precisa, sobretudo, de oportunidade. Precisa de escola que ensine, de formação profissional, de emprego, de segurança para trabalhar. Precisa de saneamento, de infraestrutura, de crédito, de empreendedorismo, de liberdade para produzir. Precisa de um ambiente econômico em que seja mais vantajoso trabalhar do que permanecer eternamente dependente de uma transferência governamental.

O problema começa quando o cidadão deixa de ser visto como alguém que precisa superar a pobreza e passa a ser tratado como alguém que precisa permanecer dependente dela. O próprio Lula já declarou no melhor estilo nazi-stalinista que o pobre é um número.

É aí que a política social pode degenerar em política de dependência. A crítica, evidentemente, não deve ser dirigida ao pobre que recebe um benefício, porque o pobre não é culpado pela pobreza. Tampouco se deve demonizar programas de transferência de renda que ajudam famílias em situação de vulnerabilidade. A crítica deve dirigir-se a um modelo político que, depois de tantos anos, ainda não conseguiu transformar suficientemente assistência em autonomia. Portanto, é perfeitamente legítimo perguntar: qual é a porta de saída?

Se o Estado entrega dinheiro, mas não entrega educação de qualidade; se oferece benefício, mas não cria condições para a formalização do trabalho; se subsidia o consumo, mas não reduz os obstáculos à produção; se aumenta continuamente a arrecadação sem oferecer serviços públicos compatíveis com aquilo que cobra, então alguma coisa está profundamente errada.

E o problema não é apenas econômico. É também político. Quanto maior o contingente de pessoas que depende diretamente do Estado, maior pode ser o poder político de quem controla a máquina estatal. O eleitor deixa de enxergar o governo apenas como prestador de serviços públicos e passa a enxergá-lo como fonte direta de sua sobrevivência.

Essa relação é perigosíssima para uma democracia que se quer madura.

Porque democracia não deve funcionar com o governo concedendo e o cidadão agradecendo; assim o voto transforma-se em retribuição política.

Democracia deve necessariamente funcionar de outra maneira: o Estado cria condições para que o cidadão possa caminhar com as próprias pernas.

O Brasil precisa romper com a ideia de que combater a pobreza significa apenas distribuir dinheiro, cesta básica, vale-gás. Transferência de renda pode ser necessária; não pode, entretanto, ser confundida com projeto nacional de desenvolvimento.

O verdadeiro programa contra a pobreza deveria ser aquele que reduz progressivamente o número de pessoas que precisam do programa.

Esse é o paradoxo que o Brasil precisa enfrentar.

Se depois de décadas de governos que se apresentam como defensores dos pobres, ainda temos uma parcela enorme da população dependente de programas de transferência de renda, é legítimo perguntar se estamos diante de uma política de superação da pobreza ou de uma política de administração permanente da pobreza.

Não é preciso afirmar que o PT deseja a pobreza para fazer essa crítica. Seria impossível demonstrar uma intenção tão abrangente. A questão é mais séria e mais objetiva: o governo assistencialista pode acabar se beneficiando eleitoralmente de um problema que deveria estar empenhado em resolver.

Essa é a pergunta incômoda. E ela vale para a esquerda, para a direita e para qualquer governo.

O pobre não precisa de um político que lhe prometa eternamente um benefício. Precisa de um país que lhe permita deixar de precisar dele. O maior programa social de todos deveria ser aquele que transforma o beneficiário em trabalhador, o trabalhador em empreendedor, o empreendedor em empregador e o dependente em cidadão economicamente independente.

Enquanto isso não acontecer, continuaremos discutindo quem oferece o benefício maior, em vez de discutir por que tantos brasileiros ainda precisam dele. Um país verdadeiramente comprometido com os pobres não deveria querer administrar a pobreza para sempre. Deveria querer acabar com ela.

domingo, 9 de agosto de 2026

"Amor de pai" - Por Barros Alves

                                                   


1

Ser pai é ser abrigo em noite escura,

É ser caminho e  bússola; é ser guarida.

É dar ao filho o pão, o rumo, a vida,

É ser a esperança que perdura...


É ser presença firme na amargura,

É ser luz na chegada e na partida;

É dar a mão na senda percorrida,

Para amparar na queda ou desventura.


Mas, se a morte vier, cruel e fria,

Ceifar do pai o filho tão amado,

Seu próprio coração feneceria.


Pois antes quer o pai ser sepultado

Que contemplar, na mais  triste agonia,

O filho morto e ele inda vivo ao lado.


***


2

Ser pai é ser amparo e fortaleza,

É ser vigília à noite e à  luz do dia,

É dar ao filho o amor e a companhia

E ao seu caminho oferecer firmeza.


É ser conselho, abrigo e segurança,

Guardando o filho na adversidade.

É ensinar-lhe o bem,  fé e verdade,

E alimentar-lhe a alma de esperança.


E se a morte, com sua mão sombria,

Vier roubar-lhe o filho do seu peito,

Preferirá morrer naquele dia.


Pois não há dor que possa ter conceito

Maior, que ver jazer na campa fria

O filho amado, sem jaça e sem defeito.


***

3

Ser pai é enfrentar a aspereza,

É ser farol em noite desabrida,

É dar ao filho um rumo certo à vida,

E à sua alma o senso de grandeza.


É ser o pão, o braço e a certeza

Da confiança que o tempo convalida.

É proteger-lhe o corpo ou a alma ferida,

É transformar a dor em fortaleza.


Se a morte, em seu furor, vier um dia

Roubar-lhe o filho, fruto do seu ser,

Prefere o pai fazer-lhe  companhia.


Ao filho morto não quer sobreviver,

O filho é chama ardente que alumia.

Sem essa luz é bem melhor morrer.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

"O triunfo da mediocridade autoritária" - Por Barros Alves

                                                       


Uma das perguntas mais perturbadoras da história política é esta: como homens de inteligência comum, formação limitada e escassa grandeza moral conseguem dominar povos inteiros e levar personalidades brilhantes à submissão? Como juristas renomados, professores, jornalistas, empresários, religiosos e intelectuais renunciam ao dever de resistir, aceitando ou mesmo justificando o avanço do autoritarismo?

Alexis de Tocqueville advertia que as democracias podem ser corroídas não apenas pela força das armas, mas pela conformidade das consciências. Hannah Arendt mostrou que o totalitarismo prospera quando as pessoas deixam de pensar criticamente e passam a aceitar como normal aquilo que antes lhes parecia intolerável. George Orwell demonstrou que controlar a linguagem é um caminho para controlar a realidade. Aleksandr Soljenítsin, sobrevivente do Gulag soviético, ensinou que a primeira vitória da tirania ocorre quando os homens aprendem a viver na mentira.

Stalin, Hitler e Mussolini pertencem a contextos históricos distintos e governaram regimes totalitários responsáveis por guerras, perseguições políticas e milhões de mortes. Seria incorreto equiparar os governos lulocomunopetistas a essas ditaduras? Eu penso que, mutatis mutandis, não. A  história permite comparar métodos, estratégias e tendências autoritárias, sempre respeitando as diferenças de escala e contexto.

Ao longo dos anos recentes os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff estimularam um modelo de poder caracterizado pela concentração de influência política, pela tentativa de hegemonia ideológica, pelo aparelhamento de significativas parcelas da administração pública, pela aproximação com governos de perfil autoritário na América Latina e em outras regiões do planeta, pela desqualificação sistemática de adversários. Ainda que essas práticas tenham ocorrido dentro de um regime dito democrático, elas suscitam debates legítimos sobre os limites do poder e a necessidade de preservar instituições independentes.

O problema maior, porém, não está apenas nos governantes. Está na capitulação das elites. Ao longo da história, regimes autoritários raramente triunfaram apenas pela força. Contaram sempre com intelectuais dispostos a justificar abusos, jornalistas que relativizaram violações, empresários que preferiram a conveniência ao princípio e líderes religiosos que trocaram a verdade pelo silêncio.

A liberdade não desaparece apenas quando surgem censores oficiais. Ela também enfraquece quando o medo da reprovação social substitui a coragem da palavra livre; quando a autocensura se torna hábito; quando críticas passam a ser confundidas com discursos de ódio; quando o debate é substituído pela desqualificação moral do adversário.

Nenhum projeto político, seja de esquerda ou de direita, pode colocar-se acima da Constituição, da alternância de poder, da liberdade de expressão, da independência do Judiciário e da autonomia da sociedade civil. Esses não são privilégios concedidos pelo Estado, mas fundamentos de uma ordem verdadeiramente democrática.

A maior tragédia política não é o aparecimento de líderes com vocação autoritária, uma vez que eles sempre existiram. A verdadeira tragédia ocorre quando homens e mulheres livres, plenamente capazes de discernir o certo do errado, abandonam o combate moral, acomodam-se ao poder e passam a justificar aquilo que antes condenavam.

A história ensina que as democracias morrem menos pela força dos tiranos do que pela fraqueza daqueles que deveriam defendê-las. A liberdade exige vigilância permanente, coragem intelectual e compromisso inabalável com a verdade. Quando esses valores são substituídos pelo conformismo e pela submissão ao poder, abre-se caminho para que a mediocridade política prevaleça sobre a excelência moral.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

"O conflito entre o Vaticano e a FSSPX" - Por Barros Alves

                                                           


A história recente da Igreja Católica registra poucos episódios tão controversos quanto a excomunhão dos bispos sagrados por Dom Marcel Lefebvre em 1988. Para muitos católicos ligados à tradição, a medida adotada pelo Vaticano representou menos uma necessidade pastoral e mais uma demonstração de autoridade institucional diante de um movimento que se recusava a abandonar práticas litúrgicas e doutrinárias consideradas fundamentais para a preservação da identidade católica.

Sob essa ótica, a excomunhão mostrou-se contraproducente. Em vez de favorecer a reconciliação, aprofundou divisões e alimentou ressentimentos que poderiam ter sido evitados por meio de um diálogo mais paciente e caridoso. Afinal, a Igreja sempre soube conviver com diferentes sensibilidades espirituais e litúrgicas ao longo de sua história. Surge, então, uma pergunta legítima: por que o rito tridentino não poderia ser tratado simplesmente como mais uma expressão legítima da tradição católica?

Muitos fiéis identificam uma aparente incoerência na postura de setores da hierarquia eclesiástica. Enquanto celebrações marcadas por experiências litúrgicas heterodoxas, elementos sincréticos ou adaptações culturais questionáveis frequentemente recebem tolerância ou mesmo incentivo, comunidades profundamente ligadas à liturgia tradicional encontram resistência e restrições. Para esses católicos, o rito tridentino não representa uma ruptura com a Igreja, mas justamente o contrário: uma continuidade visível com séculos de tradição teológica, espiritual e litúrgica.

A questão das sagrações episcopais também merece uma análise mais serena. Dom Marcel Lefebvre não foi um reformador rebelde nos moldes de Martinho Lutero. Era um bispo católico, formado e reconhecido pela própria Igreja, cuja trajetória missionária e fidelidade à fé recebida dificilmente podem ser colocadas em dúvida. Seus defensores sustentam que sua decisão de sagrar bispos não nasceu de um desejo de criar uma nova igreja, mas da convicção de que era necessário preservar uma herança espiritual que julgava ameaçada.

Além disso, existe uma dimensão sacramental que não pode ser ignorada. A teologia católica ensina que o caráter episcopal é permanente. Um bispo validamente sagrado continua sendo bispo, ainda que sofra sanções canônicas. Esse fato ajuda a compreender por que muitos fiéis enxergam a questão não como um problema de validade sacramental, mas como uma disputa disciplinar e jurisdicional.

Os acontecimentos posteriores parecem reforçar essa interpretação. Se São João Paulo II considerou necessária a excomunhão dos bispos da Fraternidade, Bento XVI julgou oportuno remover esse obstáculo para favorecer o diálogo e a reconciliação. Tal decisão demonstrou que a própria Santa Sé reconhecia a conveniência de buscar caminhos menos punitivos e mais pastorais para enfrentar a questão.

Outro aspecto frequentemente ignorado é que, durante o pontificado do Papa Francisco, existiram sinais concretos de aproximação entre Roma e a Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Mesmo um pontífice identificado por muitos como representante de uma linha mais aberta e reformista compreendeu a importância de manter canais de diálogo com os tradicionalistas. Essa disposição revelava que a unidade da Igreja não pode ser construída apenas pela incorporação de correntes progressistas, mas também pelo acolhimento daqueles que desejam conservar formas tradicionais de expressão da fé.

Nesse contexto, muitos católicos ligados à tradição receberam com apreensão as mudanças ocorridas após a morte de Francisco e a eleição de Leão XIV. A preocupação não decorre de uma rejeição ao novo pontífice, mas do receio de que o processo de aproximação entre Roma e a Fraternidade encontre novos obstáculos. Para esses fiéis, a verdadeira solução não está em sanções ou exclusões, mas em um diálogo honesto que reconheça a legitimidade das preocupações levantadas pela FSSPX ao longo das últimas décadas.

A Igreja Católica sempre foi mais forte quando soube integrar diferenças legítimas em torno de uma mesma fé. Por isso, muitos acreditam que a Fraternidade Sacerdotal São Pio X não deveria ser vista como uma inimiga a ser combatida, mas como uma realidade eclesial a ser compreendida e reconciliada. A unidade autêntica nasce da verdade, mas também da caridade. E nenhuma delas prospera quando a lógica do poder se sobrepõe à lógica da comunhão.