domingo, 21 de junho de 2026

"A beleza perdida dos altares e o relativismo espiritual pós-Concílio Vaticano II" - Por Barros Alves

                                                                           



Neste domingo, 21/06/2026,  participei da Santa Missa celebrada às 6h 30min na Igreja da Paróquia de Nossa Senhora de Nazaré, no Montese. O templo conserva as bonitas linhas arquitetônicas originais. Todavia,  o altar-mor adquiriu uma modernidade desvestida de beleza estética e até a imagem do Cristo é uma escultura - com o perdão  do termo - requenguela. É uma imagem feia. A dolorosa constatação é que essas modernidades artísticas que agridem o olhar e não convidam à reflexão, ocorreram em muitos templos católicos.

Durante séculos, a Igreja Católica foi uma das maiores patrocinadoras das artes. Arquitetos, escultores, pintores e entalhadores colocaram seu talento a serviço da fé, produzindo templos cuja beleza elevava a alma a Deus. No centro desses espaços sagrados encontrava-se o altar, coração do templo e ponto de convergência da atenção dos fiéis. Não por acaso, os altares tradicionais eram concebidos com esmero artístico, riqueza simbólica e profundo sentido teológico.

Os magníficos altares de madeira entalhada, mármore ou pedra, adornados por imagens de santos, anjos, colunas e elementos ornamentais, constituíam verdadeiras obras de arte. Sua finalidade transcendia o aspecto meramente decorativo: eram instrumentos de catequese visual e expressão da transcendência divina. A beleza, conforme ensinavam grandes pensadores cristãos, é um dos caminhos que conduzem à contemplação de Deus.

Entretanto, sobretudo a partir da segunda metade do século XX, difundiu-se em muitos lugares uma tendência de modernização dos espaços litúrgicos que, não raramente, resultou no empobrecimento estético dos templos. Sob o argumento de adaptar as igrejas aos novos tempos, inúmeros altares históricos foram removidos, mutilados ou simplesmente destruídos. Em seu lugar surgiram estruturas minimalistas, esculturas abstratas ou peças de discutível valor artístico, frequentemente incapazes de transmitir o sentido de sacralidade que caracterizava os conjuntos anteriores.

Em alguns casos, a substituição de altares centenários representou verdadeira perda patrimonial. Obras produzidas por artesãos e artistas de reconhecido mérito desapareceram para dar lugar a criações que, embora possam agradar a determinados gostos contemporâneos, dificilmente alcançam a mesma riqueza simbólica, histórica e estética. Não faltam relatos de intervenções realizadas sem o devido respeito ao patrimônio cultural e religioso, provocando indignação entre fiéis, historiadores e estudiosos da arte sacra.

A crítica a tais transformações não constitui mera nostalgia. Trata-se de reconhecer que a arte sacra possui uma função específica: manifestar a beleza do mistério divino e favorecer o recolhimento espiritual. Quando o centro visual do templo perde sua majestade, a própria experiência religiosa pode ser afetada. O espaço sagrado corre o risco de assemelhar-se a um auditório ou salão comum, privado dos elementos que tradicionalmente evocavam o transcendente. É como se os altares católicos tivessem se protestantinizados.

Isso não significa rejeitar toda produção artística contemporânea. A Igreja continua aberta à arte de cada época, desde que esta seja capaz de expressar adequadamente a dignidade do culto divino. O problema surge quando o novo é adotado apenas por ser novo, em detrimento de obras consagradas pelo tempo e pela devoção popular. O modernismo, quando convertido em ideologia estética, pode tornar-se tão intolerante quanto os movimentos iconoclastas que, ao longo da história, destruíram imagens e monumentos religiosos.

A preservação dos altares históricos não é apenas um dever para com a memória da Igreja, mas também uma obrigação para com as futuras gerações. Cada altar antigo representa um testemunho da fé, da cultura e da sensibilidade artística de um povo. Sua destruição empobrece não apenas os templos, mas o patrimônio espiritual e cultural da própria civilização cristã.

Recuperar o apreço pela beleza dos altares tradicionais é, portanto, mais do que uma questão de gosto. É reafirmar que a arte, quando colocada a serviço do sagrado, pode elevar o espírito humano e recordar que a casa de Deus deve refletir, ainda que imperfeitamente, a beleza do Céu.

                                                        


Vale insistir, por pertinência histórico-sociológica e teológica, que entre os inúmeros fenômenos que marcaram a vida da Igreja Católica após o Concílio Vaticano II (1962-1965), poucos foram tão visíveis quanto as profundas transformações ocorridas na arquitetura dos templos. Sob o pretexto do "aggiornamento", expressão italiana que significa "atualização" e que se tornou uma das palavras de ordem do período conciliar,   verificou-se, em muitos lugares, uma verdadeira ruptura com a tradição litúrgica e artística que durante séculos moldou a espiritualidade católica.

Os antigos altares-mores, majestosos e artisticamente elaborados, constituíam o coração do templo. Neles se encontrava o sacrário, onde permanecia o Santíssimo Sacramento, sinal visível da presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo na Eucaristia. Toda a disposição arquitetônica convergia para esse centro sagrado. O olhar do fiel era naturalmente conduzido ao tabernáculo, favorecendo a oração, a contemplação e a adoração. Quando a iconoclastia de alguns padres mal formados substituiu as antigas estruturas sacramentais dos altares, o que surgiu depois não atendeu às expectativas do povo católico. Constata-se que o tal "aggiornamento"  contribuiu sobremodo para a fuga de católicos para outras religiões. Ou seja, o efeito foi contrário ao pretendido.

Mais grave ainda foi a transferência do sacrário para capelas laterais ou locais secundários. Embora juridicamente permitida em determinadas circunstâncias pelas normas litúrgicas, tal prática produziu, em muitos casos, uma evidente perda da centralidade eucarística na percepção dos fiéis. O lugar outrora ocupado pelo Rei dos Reis passou a ser relegado a espaços discretos, enquanto o altar voltado para a assembleia assumia o protagonismo visual.

Não poucos católicos perceberam nessas mudanças a influência de uma mentalidade relativista que, pouco a pouco, enfraqueceu a consciência da transcendência divina. Quando a presença real de Cristo deixa de ocupar o centro visível do templo, corre-se o risco de transmitir a ideia de que a comunidade reunida é mais importante que Aquele em torno de quem ela se reúne.

A arte sacra nunca foi mera ornamentação. Ela constitui uma forma de catequese silenciosa. Os grandes altares barrocos, góticos ou neoclássicos proclamavam, sem palavras, verdades teológicas fundamentais: a majestade de Deus, a realeza de Cristo, a mediação dos santos e a sacralidade do sacrifício eucarístico. Sua eliminação representou, em muitos casos, não apenas uma perda artística, mas também um empobrecimento espiritual.

Sob a ótica da tradição católica, a destruição deliberada de bens sacros que elevavam a alma a Deus pode ser vista como um grave erro pastoral. Ainda que praticada com a intenção declarada de modernizar os espaços litúrgicos, produziu frequentemente efeitos contrários à finalidade da liturgia, obscurecendo o sentido do mistério e favorecendo uma visão excessivamente horizontal da religião.

Diversos pensadores católicos têm sustentado que tal processo refletiu uma crise mais profunda: a substituição gradual de uma cultura centrada em Deus por uma mentalidade antropocêntrica. Nesse contexto, o desaparecimento do sacrário do centro dos templos tornou-se um símbolo eloquente de uma mudança de paradigma espiritual.

Para muitos fiéis, a recuperação da beleza litúrgica e da centralidade eucarística constitui uma necessidade urgente. Não se trata de mera nostalgia estética, repito, mas do reconhecimento de que a beleza sempre foi uma das vias privilegiadas para conduzir as almas a Deus. Como ensinava Bento XVI, a verdadeira arte sacra não é um luxo, mas uma expressão da fé que torna perceptível o esplendor da verdade.

A renovação autêntica da Igreja não pode nascer do abandono de suas raízes, mas do reencontro com elas. Onde o sacrário volta a ocupar lugar de honra, onde a arquitetura aponta novamente para o transcendente e onde a beleza serve à adoração, renasce também a consciência de que o centro da vida católica não é o homem, mas Cristo realmente presente na Santíssima Eucaristia.

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sábado, 13 de junho de 2026

"Santo Antônio: de capitão a tenente-coronel" - Por Barros Alves

                                                                      


Em 1989, quando cuidei da Assessoria de Comunicação  do município de Maracanaú, terra de Santo Antônio do Pitaguary, por instâncias do prefeito Júlio César Costa Lima, colocamos uma grande e bela imagem do santo na reserva dos pitaguary, onde há mais de 100 anos foi erguida uma ermida em homenagem a Santo Antônio. Em 1997, agora cuidando institucionalmente da área cultural, no segundo mandato de Júlio César, fiz publicar um pequeno ensaio histórico e hagiológico subordinado ao título FESTEJOS JOANINOS E OUTRAS FESTAS JUNINAS. No livrinho inserido está um capítulo sobre um dos mais populares santos da quadra junina. Dele recolho o que segue:

No afã de agradar ao santo os devotos protagonizam fatos hilariantes e esdrúxulos, semelhantes ao praticado pelo Príncipe Regente Dom João VI, que por instâncias de alguns frades, concedeu a Santo Antônio a patente de tenente-coronel, quase seiscentos anos depois do falecimento do santo que foi canonizado apenas um ano após a morte, a 30 de maio de 1232. O episódio serve também para mostrar quão oportunistas eram alguns religiosos em tempos passados, os quais aproveitavam-se desavergonhadamente da boa fé e até ingenuidade das pessoas para meter-lhes a mão no bolso. E os governantes conhecedores da influência da Igreja sobre os seus súditos, quedavam genuflexos aos caprichos de qualquer padreco. Foi, certamente, o que ocorreu com Dom João VI. Eis o que relata a história. A biografia do glorioso taumaturgo Santo Antônio de Lisboa, como soldado português é assim traçada:

"Assentou-lhe praça Dom Afonso VI no Regimento de Infantaria de Lagos, com o intuito de animar o povo a combater contra Castela, de cujo domínio se libertara Portugal em 1640. No mesmo dia em que faleceu Dom Afonso VI, 12 de setembro de 1683, o irmão Dom Pedro II, de Portugal, que nesse dia se apossara definitivamente do trono, como o tinha feito da mulher do seu irmão em 2 de abril de 1668, elevou Santo Antônio ao posto de capitão. Em 1814, Dom João VI estando no Brasil, e a instâncias dos frades de Santo Antônio, da Cidade do Rio de Janeiro, que faziam festas pomposíssimas ao seu milagroso patrono, elevou-o a tenente-coronel, por carta-patente de 31 de agosto de 1814, registrada às fls. 46, do livro 6, de cartas-patentes.

"A carta-patente que promoveu o milagroso santo é do seguinte teor: Dom João, por graça de Deus Príncipe Regente de Portugal e dos Algarves de aquém e de além mar em África, Senhor de Guiné da Conquista, da Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e da Índia etc. Faço saber aos que esta minha carta-patente virem, que sendo da minha particular devoção o glorioso Santo Antônio, a quem o povo desta corte incessantemente e com a maior fé dedica os seus votos, e tendo os céus abençoado os esforços dos meus exércitos, com a paz que se dignou a conceder à monarquia portuguesa, crendo eu piamente que a eficaz intercessão do mesmo santo tenha concorrido para tão felizes resultados, hei por bem que se eleve ao posto de tenente-coronel de Infantaria e com ele haverá o respectivo soldo (grifo do autor), que lhe será pago na forma de minhas reais ordens, pelo que o Marechal-de-Campo Ricardo Xavier Cabral da Cunha, na qualidade de ajudante-general e encarregado interinamente do comando das armas desta corte e capitania, assim o cumpra; e o soldo referido se assentará nos livros a que pertence, para lhe ser pago nos seus devidos tempos. Em firmeza do que lhe mandei passar carta, por mim assinada e selada com o selo das minhas armas. Dada nesta Cidade do Rio de Janeiro, aos 31 dias do mês de agosto do ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1814. O príncipe em guarda -Gaspar José de Matos Ferreira Lucena José Caetano de Lima".

Como morto não recebe soldo nem correspondência, mesmo que de um príncipe, claro está que quem embolsava a quantia paga ao tenente-coronel Santo Antônio era os frades da sua Ordem. Vê-se que ontem como hoje existem oportunistas do púlpito e do confessionário, que fazem da religião um negócio a lhes render boa pecúnia. E em todos os tempos, por outro lado, governantes há a se curvarem aos cultos que lhes proporcionem mais popularidade. De permeio, a idolatria a Mamom.

 Santo Antônio, por ser grandemente popular, também opera desses milagres. Como, por exemplo, o dobrar vontades de autoridades aos seus piedosos representantes aqui na Terra.

Mas, saindo dos episódios do folclore, que não que dizer que seja uma inverdade como julga o vulgo; ou que seja apenas conteúdo anedótico, segundo o entendimento de não poucos, o fato é que Santo Antônio é um dos mais poderosos ícones do Catolicismo no mundo latino, sobretudo nos países lusófonos. No Brasil, nem se fala! No Nordeste brasileiro só é suplantado na devoção popular por São Francisco de Assis.

Por pertinente, transcrevo mais os excertos que seguem, que constam no meu livrinho:

                                                                        


O escritor Itamar Espíndola cita em seu livro "Três Santos Populares no Ceará", um  responso muito conhecido no interior cearense, oração que muito enleva o espírito dos devotos:


Padre-Nosso pequenino! 

Me guiai no bom caminho, 

Santo Antônio é meu padrinho, 

Nossa senhora é madrinha.


Sete livros a rezar, 

Sete anjos a cantar

Quer de noite, quer de dia, 

Enquanto eu não me deitar.


Há o famoso "Rosário de Santo Antônio", há orações para obter a intercessão do santo, com promessa de pão para os pobres; para achar coisas perdidas etc. Em Portugal canta-se popularmente o hino que transcrevemos a seguir, de autor desconhecido:


Bendito louvado seja 

O Menino-Deus nascido

Que nos braços de Antônio 

Tem seu trono esclarecido.


Vós, Antônio, merecestes,

Pela vossa santidade,

Sendo um frade dos menores,

Ser maior na divindade.


E também seja louvado

De Antônio, esplêndida luz, 

Com Deus-Menino num braço 

E no outro a sua cruz.


Esclarecido é Antônio

Pelo seu merecimento.

Sendo um anjo de pureza, 

É do céu um ornamento.


Vós Menino que descestes 

Do céu, em braços de Antônio, 

Livrai-nos com vossa graça 

Da tentação do demônio.


Rogai por nós, vós, Antônio, 

Àquela divina Luz,

Que nos livre do inferno

Para sempre. Amém,  Jesus!


Homenagem das mais belas prestou a Santo Antônio Dom Marcos Barbosa, poeta, um dos intelectuais mais completos entre os que já tomaram assento na Academia Brasileira de Letras. Ele escreveu "Em Louvor de Santo Antônio", um poema que os devotos do santo não podem deixar de conhecer e memorizar. Leiamo-lo:


Santo Antônio é São Francisco. 

São Francisco mais bumano. 

Srm chagas nem crucifixo.


Pois o Deus que traz nos braços

é ainda o Deus-Menino 

com seus divinos abraços.


Mas, sendo o Verbo Encarnado, 

pode sentá-lo no Livro,

verbo escrito e encadernado.


E era o Evangelho vivo

que pregava horas e horas, 

mantendo o povo cativo.


Por isso Boaventura 

sua língua encontra intacta 

ao abrir-lhe a sepultura.


A chuva lhe obedecia:

jamais vinha dispersar

quem ao ar livre o ouvia.


Mas se alguns se recusavam, 

levava-os consigo à praia, 

onde os peixes o escutavam.


Ajoelhava-se o jumento

como outrora no presépio, 

quando erguia o Sacramento.


Morre o rico. Incontinenti 

manda buscar-lhe no cofre 

o coração ainda quente.


Acusam seu pai de um crime; 

ressuscita Antônio o morto, 

que da calúnia o redime.


Santo de tantos achados, 

faz achar o verdadeiro

entre os falsos namorados.


Sua voz tal modo ecoa,

que ele é visto ao mesmo tempo

pregando em Pádua e Lisboa.


Vivendo em Pádua, é padeiro; 

mas os pães de Santo Antônio 

se espalham no mundo inteiro.


Palma de um novo martírio, 

de Lisboa traz o lis, 

que é outro nome de lírio.


Da mais pacata nação,

Antônio, de guerra antônimo, 

é tornado capitão.


No Rio, do seu convento, 

abençoando a cidade,

estende a mão a São Bento.

                                                           


Humanizando o santo, reintegrando-o ao convívio dos homens e das alegrias humanas, o povo, conforme explica o folclorista Jaime Cortesão, faz Santo Antônio perder a compostura no altar, para acenar às moças e ir tocaiá-las nas estradas:


Fui andando num caminho 

Santo Antônio me chamou: 

Quando um santo chama a gente 

Que fará o pecador?


Santo Antônio me acenou 

De cima do seu altar:

Olha o maroto do santo

Que também quer namorar.


Assim é o ubícuo Santo Antônio de Lisboa, de Pádua, de Barbalha, de Quixeramobim, do Pitaguary e do mundo inteiro.

Santo Antônio, rogai por nós!!!

sexta-feira, 5 de junho de 2026

"Nossa Senhora, de Fulton Sheen" - Por Barros Alves

                                                                          


Recentemente algumas editoras brasileiras redescobriram uma das personalidades mais importantes da Igreja Católica no século XX, sobretudo nos EUA, onde desempenhou sua missão sacerdotal, sendo um dos primeiros prelados católicos a usar com grande sucesso os principais meios de comunicação da época, quais sejam o Rádio e a Televisão. Refiro-me ao Bispo Fulton Sheen, que alcancou enorme popularidade nos anos 1950,  ao apresentar diariamente durante vários anos, o Programa "Life is Worth Living" (A vida vale a pena ser vivida). Além de exímio pregador, Sheen era doutorado em Filosofia e Teologia, foi professor e escreveu dezenas de livros sobre  espiritualidade, apologética e vida cristã, entre eles "Nossa Senhora"  sobre o qual falarei adiante; "O Sacerdote Não Pertence a Si Mesmo", "Paz de Espírito" e "A Vida de Cristo".

Reconhecido por sua eloquência, profundidade intelectual e fervor mariano, Fulton Sheen teve papel decisivo na evangelização através dos meios de comunicação modernos. Em 2012, o Papa Bento XVI reconheceu suas virtudes heróicas, concedendo-lhe o título de Venerável, importante etapa no processo de canonização. Em 5 de julho de 2019, o Papa Francisco aprovou um milagre ocorrido pela intercessão de Fulton Sheen, mas seu processo de beatificação ainda permanece aberto. Todavia, como Deus a tudo conduz no tempo que Lhe aprouver, talvez tenha colocado um norte-americano no trono de Pedro para que também venha a reconhecer a santidade de vida de Fulton Sheen.  Aliás,  já há informações de que a beatificação do Venerável ocorrerá no dia 24 de setembro vindouro, em Saint Louis, Missouri, Estados Unidos. A celebração se dará sem a presença do Papa Leão XIV, que será representado prlo Cardeal Luís Antonio Tagle.

É sobre um dos mais admiráveis escritos desse extraordinário pregador mariano, que passarei a discorrer. Li a obra embevecido. Não estarei faltando com a verdade se disser que toda a escritura de Fulton Sheen me comove, me enleva e me eleva.

A Edições Gratia Plena, de Valadares, Minas Gerais, publicou em 2021 o livro "Nossa Senhora" (144 páginas), uma obra de espiritualidade mariana que reúne reflexões sobre a pessoa, a missão e a importância da Virgem Maria na história da salvação. Sheen, conhecido por sua extraordinária capacidade de comunicar a fé católica ao grande público, apresenta Maria não apenas como objeto de devoção, mas como modelo perfeito de fé, esperança e amor. O autor examina episódios da vida da Mãe de Jesus, suas virtudes — maternidade, virgindade, fidelidade e confiança em Deus — e também o significado espiritual das principais aparições marianas reconhecidas pela Igreja.

Um dos temas centrais do livro é a convicção de que toda autêntica devoção mariana conduz a Cristo. Para Sheen, Maria nunca ocupa o lugar de Jesus; ao contrário, sua missão é levar os fiéis ao encontro do Filho. Essa perspectiva está em plena sintonia com a tradição católica, que vê Maria como medianeira de graças por sua íntima união com a obra redentora de Cristo. Rigorosamente católico ele observa: "Maria não é nossa redenção; não caiamos no absurdo. Asdim como a mãe nao é o médico, assim Maria não é o Redentor; do mesmo modo, porém, que muitos de entre nós devem a conservação da sua vida física à mãe terrena, assim devem a conservação da sua vida espiritual à Mãe de todas as mães, a Nossa Senhora." ( pág.  118)

A obra possui um tom ao mesmo tempo teológico e pastoral.  Fundamentada na doutrina católica, é escrita em linguagem acessível, marcada pelo estilo eloquente e meditativo característico de Fulton Sheen. Por isso, pode ser apreciada tanto por estudiosos da mariologia quanto por leitores que desejam aprofundar sua vida espiritual.

"Nossa Senhora", de Sheen,  não é um tratado acadêmico de mariologia, desses chatos e herméticos que fazem o leitor não passar da décima página.  Trata-se de uma obra de contemplação e formação espiritual. Seu maior mérito está em apresentar Maria como figura viva e atual, capaz de inspirar o cristão contemporâneo em meio às crises da família, da fé e da cultura. A leitura revela a profunda devoção mariana de Fulton Sheen e sua convicção de que o caminho mais seguro para Cristo passa pela escola espiritual de Maria. A fala profética e admoestadora contra o comunismo ateu está no último capítulo, "Nossa Senhora da Rússia", que continua atualíssimo, apesar do texto haver sido escrito em tempos de Guerra Fria.

Enfim, é uma leitura amena que, apesar de ser traduzido (tradutore, traditore) conserva o estilo leve e agradável de Sheen, sem perder a densidade teológica. Daí é que tenho certeza de que constitui profícua leitura não apenas para leigos, mas também  para sacerdotes e religiosos que desejam fortalecer a devoção mariana, assim como compreender melhor o papel de Nossa Senhora na fé católica e na própria economia da salvação.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

"Kostomárov, Orwell e as revoltas dos bichos” - Por Barros Alves



Recentemente a Editora Ercolano publicou um livrinho (o diminutivo é afetuoso) até aqui desconhecido do leitor brasileiro. A pérola nos veio da velha Ucrânia.

Muitos conhecem a "A Revolução dos Bichos", do escritor inglês George Orwell; mas poucos leram o conto "A Revolta dos Bichos", de autoria do russo (ucraniano) Mykola Kostomárov, ambas as obras exercícios de ficção política com um conteúdo crítico ao poder autoritário. Embora separados por quase um século e por contextos históricos muito distintos, "A Revolta dos Bichos" ou "O Motim dos Animais"  (Skótskoi bunt), de Mykola Kostomárov, e "A Revolução dos Bichos" (Animal Farm), de George Orwell, apresentam um notável ponto de contato: as duas obras utilizam a alegoria animal para refletir sobre os vícios do poder político e as deformações dos projetos de emancipação social. Contudo, as semelhanças terminam, em grande medida, nesse recurso formal, pois os objetivos ideológicos, a profundidade da crítica e o horizonte histórico de cada obra diferem substancialmente.

Kostomárov publicou "Skótskoi bunt" por volta de 1880, período marcado pelo conservadorismo do Império Russo e pelas tensões decorrentes da servidão rural. A narrativa apresenta animais que se insurgem contra a ordem estabelecida, imaginando construir uma sociedade mais justa. Entretanto, a rebelião degenera em desordem, violência e fracasso.

Já Orwell publicou "Animal Farm" em 1945, quando o mundo saía da Segunda Guerra Mundial e começava a confrontar as contradições do regime soviético. Na obra inglesa, os animais da Granja do Solar derrubam o fazendeiro Jones para criar uma sociedade baseada na igualdade. Pouco a pouco, porém, os porcos concentram o poder, transformando a revolução em uma nova forma de tirania.

Em ambos os casos, os animais funcionam como espelhos da sociedade humana. A diferença fundamental reside no alvo da crítica. Kostomárov dirige seu olhar para os perigos da rebelião descontrolada e para a incapacidade das massas de construir uma ordem estável. Orwell, por sua vez, examina a corrupção interna dos movimentos revolucionários e a transformação dos libertadores em opressores.

A obra de Kostomárov possui forte matriz conservadora. Poeta, ensaísta e historiador  atento às revoltas camponesas e aos movimentos populares do Leste Europeu, ele via com desconfiança as explosões revolucionárias que prometiam instaurar uma nova sociedade. Em "Skótskoi bunt", a revolta dos animais sugere que a destruição da ordem tradicional pode gerar consequências ainda piores do que os problemas que se pretendia corrigir.

No caso de Orwell, crítico feroz do stalinismo, jamais abandonou seus ideais socialistas democráticos. Sua crítica não é dirigida à ideia de igualdade social, mas à burocratização e à concentração de poder que deformaram a Revolução Russa. Assim, ingenuamente, "Animal Farm" não condena a revolução em si; condena sua degeneração autoritária. Ora, a doutrina marxista que dá sustentação aos governos socialistas/comunistas é "intrinsecamente má", confirme assegurou com razão o Papa Pio XI. O stalinismo como todos os demais "ismos" filhotes do marxismo são autoritários, cruéis e criminosos.

Então, o que se constata é que enquanto Kostomárov parece advertir que a ordem é preferível ao caos revolucionário, Orwell sustenta que a revolução somente fracassa quando abandona seus princípios originais.

Outro aspecto comparativo relevante diz respeito à representação dos líderes.

Na obra de Kostomárov, os líderes da revolta aparecem frequentemente como figuras incapazes, impulsivas ou manipuladoras. O fracasso decorre tanto da irracionalidade coletiva quanto da ausência de direção política consistente.

Em Orwell, a liderança é representada sobretudo por Napoleão, figura suína que simboliza claramente Joseph Stalin. O problema não é a ausência de liderança, mas sua hipertrofia. Napoleão constrói um sistema baseado no culto à personalidade, na propaganda e na repressão.

Dessa forma, Kostomárov identifica o perigo na insuficiência de autoridade; Orwell, no excesso dela.

Se a obra de Kostomárov enfatiza a desordem provocada pela rebelião, Orwell concentra sua atenção na manipulação da linguagem.

Em "Animal Farm", os mandamentos revolucionários são continuamente alterados para justificar privilégios e abusos. Epa!!! Qualquer semelhança com o Brasil atual não é mera coincidência! A famosa máxima “Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que os outros” tornou-se uma das formulações mais célebres da literatura política do século XX.

A preocupação orwelliana antecipa discussões contemporâneas sobre propaganda, desinformação e controle ideológico. Nesse aspecto, sua obra alcança profundidade filosófica e política superior à de Kostomárov, cuja alegoria permanece mais próxima da fábula moral tradicional.

Apesar das diferenças, ambas permanecem atuais porque tratam de uma questão permanente da vida política: a distância entre os ideais proclamados e os resultados efetivamente alcançados.

Kostomárov alerta para os riscos da destruição irrefletida das instituições; Orwell adverte contra a captura das instituições por elites que se apresentam como representantes do povo.

O primeiro teme a anarquia; o segundo teme a tirania.

Destarte, podemos afirmar que "A Revolta dos Bichos", de Mykola Kostomárov; e "A Revolução dos Bichos", de George Orwell, pertencem a uma mesma tradição alegórica, mas expressam visões políticas distintas. Kostomárov, influenciado pelo conservadorismo do século XIX, enfatiza os perigos da insurreição popular e da ruptura da ordem social. Orwell, moldado pelas tragédias totalitárias do século XX, denuncia a corrupção do poder revolucionário e a metamorfose dos libertadores em novos tiranos.

Se a obra de Kostomárov pode ser lida como uma defesa da prudência política, a de Orwell constitui uma advertência universal sobre a tendência do poder a reproduzir privilégios e desigualdades. Em conjunto, os dois livros oferecem uma reflexão profunda sobre os limites das revoluções e sobre a fragilidade dos ideais humanos diante das tentações da dominação. O que não se sabe é se Orwell foi influenciado pelo quase drsconhecido ucraniano  Kostomárov, para escrever o famoso "A Revolução dos Bichos".

domingo, 31 de maio de 2026

"Corações ao Alto" - Por Barros Alves

                                                                         


Há lembranças que o tempo não desgasta. Antes, as torna mais luminosas, como aquelas estrelas antigas cuja luz continua viajando pelo firmamento mesmo depois de já não estarem entre nós. Assim são as imagens de meu pai e de meu irmão, guardadas no sacrário da memória.

Meu pai, Zé Chico da Caiana, era um homem da terra. Agricultor de mãos calejadas, rosto queimado pelo sol e alma moldada pelos rigores da seca e das esperanças da chuva. Não sabia ler nem escrever. Aos olhos do mundo, era um analfabeto. Aos olhos de Deus, porém, era um sábio.

Vejo-o ainda, já envelhecido, sentado à cabeceira da mesa. Sobre ela repousavam os alimentos arrancados do chão pelo suor do seu rosto, conforme a antiga sentença do Gênesis: “Com o suor do teu rosto comerás o teu pão” (Gn 3,19). Ao seu redor, alguns dos dezesseis filhos e outros mais da família, recolhidos em respeitoso silêncio. Então ele unia as mãos, baixava a cabeça e agradecia.

Aquele gesto simples possuía a solenidade de uma liturgia.

Não era apenas uma oração antes da refeição. Era um ato de reconhecimento de que tudo vinha de Deus: o pão, o feijão, a chuva, a colheita, os filhos e a própria vida. Naquele instante, meu pai transformava a mesa familiar em altar e os alimentos em testemunhos da providência divina.

Lembro-me das palavras do salmista: “Todos têm os olhos postos em Ti, e a seu tempo lhes dás o alimento” (Sl 145,15). Meu pai jamais  leu  esse versículo. Contudo, ele o conhecia com uma profundidade que muitos doutores desconhecem. Conhecia-o porque o vivia.

Também me visita a lembrança de meu irmão, Joca, que para mim foi igualmente um pai. Homem da roça, de poucas palavras e muitos exemplos. Quando a noite descia sobre o sertão e o silêncio se espalhava pelos caminhos escuros, eu o via ajoelhado ao lado da rede de dormir.

A luz da lamparina tremulava, projetando sombras nas paredes de barro. E ali estava ele, curvado diante do Mistério.

Rezava sem pressa.

Agradecia sem exigências.

Confiava sem reservas.

Aquele homem simples, cuja existência parecia insignificante aos olhos dos poderosos, dialogava com o Senhor do universo como quem conversa com um amigo próximo. Não pedia riquezas nem honrarias. Agradecia. Apenas agradecia. Porque sabia que Deus tudo provê.

Hoje compreendo que aquelas cenas constituíam uma verdadeira teologia vivida. Não a teologia dos tratados eruditos, mas a teologia dos joelhos dobrados. Não a ciência dos livros, mas a sabedoria do coração.

Meu pai e meu irmão eram homens rudes, sem letras, mas não eram ignorantes. Havia neles uma inteligência espiritual que ultrapassava os limites do conhecimento acadêmico. Conheciam aquilo que Santo Agostinho chamou de “a ciência do amor”, a única capaz de conduzir o ser humano ao encontro de Deus.

Neles eu contemplava uma manifestação da graça. Uma epifania silenciosa que iluminava a casa pobre mais intensamente do que qualquer lâmpada.

Por isso, quando recordo suas figuras ajoelhadas, volto meu pensamento para a oração de Cristo:

“Graças te dou, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11,25).

Quantas vezes os poderosos imaginam possuir todas as respostas, enquanto os pequeninos guardam os segredos essenciais da existência! Quantas vezes os eruditos discutem Deus, enquanto os humildes simplesmente o encontram!

Meu pai encontrou Deus à mesa.

Meu irmão encontrou Deus junto à rede.

E ambos me ensinaram que a verdadeira grandeza não consiste em acumular saberes, mas em reconhecer, com humildade, a fonte de todos os bens.

Hoje, quando a memória me conduz àquelas noites de lamparina e àquelas refeições familiares, compreendo que vivi entre sacerdotes sem batina. Homens simples que celebravam diariamente a liturgia da gratidão. Homens que fizeram da própria vida uma oração.

E se algum dia me perguntarem onde vi mais claramente o rosto de Deus, talvez eu responda sem hesitar: numa mesa sertaneja cercada de filhos, ou sob a luz vacilante de uma lamparina, onde dois homens humildes, de joelhos, agradeciam ao Pai pelos dons que descem do alto.

Porque a fé, quando é verdadeira, não precisa de palácios nem de púlpitos. Basta-lhe um coração agradecido.

Mas a galeria dessas santas lembranças não estaria completa sem a presença de minha mãe adotiva, cuja memória habita em mim com a mesma ternura e gratidão.

Eu a chamava — e ainda hoje a chamo — de Meu Amorzinho.

Quando a recordo, vejo-a sempre com um rosário entre os dedos. As contas gastas pelo uso pareciam prolongamentos de suas próprias mãos, numa intimidade tão profunda com a oração que já não se distinguia onde terminava a mulher e começava a devoção.

Enquanto os homens da casa buscavam no trabalho da roça o sustento cotidiano, Meu Amorzinho travava seus combates no território invisível da fé. Rezava incessantemente. Rezava pelos parentes e aderentes, pela família, pelos enfermos, pelos ausentes e pelos aflitos. Rezava pelos vivos e pelos mortos. Rezava porque acreditava.

Hoje, olhando para trás, para aqueles anos marcados por permanentes lutas pela sobrevivência, imagino que muitas de suas súplicas eram depositadas aos pés de Nossa Senhora das Dores. Quem mais poderia compreender tão profundamente as aflições de uma mãe senão aquela que recebeu, ao pé da cruz, a espada profetizada por Simeão: "E uma espada transpassará a tua alma" (Lc 2,35)?

Talvez por isso Meu Amorzinho encontrasse nela abrigo e consolo. As dores da vida eram confiadas à Mãe das Dores; as incertezas do amanhã, à Rainha da Esperança; os temores da pobreza, àquela que cantou no "Magnificat" a fidelidade de Deus para com os humildes.

Ainda hoje me parece ouvir o suave murmúrio de suas Ave-Marias atravessando as tardes e as noites de nossa casa. Era uma oração simples, mas carregada de uma força que os poderosos dificilmente compreenderiam. Ali estava uma mulher sem pretensões teológicas, mas profundamente mergulhada nos mistérios da fé.

Se meu pai transformava a mesa em altar de gratidão e meu irmão santificava a noite sob a luz da lamparina, Meu Amorzinho convertia o rosário em ponte entre a Terra e o Céu. E assim, cada um à sua maneira, ensinava que Deus se deixa encontrar não apenas nos templos majestosos, mas também nas casas humildes onde a oração brota sincera do coração.

Hoje compreendo que muito da fé que me sustenta nasceu dessas três testemunhas silenciosas: meu pai de mãos postas à mesa, meu irmão ajoelhado junto à rede e Meu Amorzinho com o rosário entre os dedos. Neles resplandeceu aquela sabedoria dos pequeninos de que falou Cristo; neles a graça se fez visível; neles Deus escreveu, sem tinta e sem papel, uma das mais belas páginas de Evangelho que já pude ler.



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domingo, 10 de maio de 2026

"Sonetos para aquela que mais me amou" - Por Barros Alves


 Soneto I

Quando da vida o outono me alcançou,

Voltou-me à alma um lume enternecido:

Teu doce olhar, tão manso e comovido,

Que em minhas noites trêmulas brilhou.


“Meu Amorzinho” — assim te nomeou

Meu coração de afeto estremecido,

Pois foste abrigo, amparo e chão florido

Que a mão de Deus bondosa me ofertou.


Na singeleza do labor constante,

Na fé singela erguida em cada dia,

Formaste em mim o amor ao justo e ao santo.


E hoje ao sentir a dor de estás distante 

Ainda comigo estás, luzeiro e guia

Do filho amado que inda te ama tanto!


Soneto II

Ela tinha um olhar imaculado,

A sua voz, ternura e acalanto.

Uma santa a cobrir-me com seu manto

De puro e imenso amor ornamentado.


Ela me fez sonhar mesmo acordado,

E a apreciar encanto e desencanto,

E tantas vezes enxugou meu pranto

Igual a Virgem ao do Filho Amado.


Retirando os abrolhos do caminho

Estendeu-me um tapete de carinho

A demonstrar o maternal cuidado.


Ela foi minha MÃE sem me parir,

Quando eu chorei ela me fez sorrir,

Luz que fez meu viver iluminado.


Soneto III

Cobria-me com gestos de carinho,

Amou-me desvelada, em plenitude!

Ensinou-me os caminhos da Virtude

E eu a chamava de MEU AMORZINHO.


Ela foi um luzeiro em meu caminho,

O meu sentir jamais não há quem mude

Ao relembrar a doce completude

Do amor imenso de MEU AMORZINHO.


Era uma sábia, tinha engenho e arte.

Sem letra, sem escrita, sem estudo,

Soube empunhar da vida o estandarte.


Mesmo que eu fique cego, surdo e mudo,

Eu juro, espalharei por toda parte:

-- MEU AMORZINHO para mim foi TUDO!


Soneto IV

As lágrimas que eu chorei ela chorava,

As dores que eu senti ela sentia,

O riso que sorri ela sorria,

Os sonhos que eu sonhei ela sonhava.


Ao erro cometido ela ralhava,

Na desobediência reprimia,

Porém, seu doce olhar me bendizia,

Com suas orações me abençoava.


Um rosto todo feito de bondade,

Os gestos todos feitos de carinho,

De imenso amor e generosidade...


Ela foi sempre a luz do meu caminho,

Foi minha mãe de fato e de verdade,

Eu a chamava de MEU AMORZINHO.


Soneto V

Oh, que saudade do beijo e do carinho

Que a minha mãe me dava, eu pequenino;

A doce voz soava como um hino, 

E me chamava de meu amorzinho.


O seu imenso amor, eu imagino,

Iluminou no tempo o meu caminho, 

E eu a chamava de MEU AMORZINHO 

Numa repetição de amor supino.


Seu amor era quase devoção,

E eu inda hoje a vejo num cantinho 

Rogando a Deus por mim em oração.


Deus ouviu os seus rogos direitinho! 

Ela é Santa Tereza do Sertão,

Eternamente será MEU AMORZINHO!


Soneto VI

Quando mergulho em águas já passadas

Invade-me a saudade e a tristeza...

É que me lembro de minha mãe, Tereza,

Uma das mentes mais iluminadas!


A timoneira de um lar modesto e pobre

Era um tesouro de amor e de carinho,

Eu a chamava de “Meu Amorzinho”,

Um largo coração sensível e nobre!


Quão belas as cantigas que eu ouvia!

As quais para ninar-me ela cantava

Em doce e sonorosa melodia...


Era um poema de Deus cada canção,

Era uma santa cantando e eu não sabia:

--Era Santa Tereza do Sertão!












terça-feira, 28 de abril de 2026

"Santa Gianna Beretta Molla" - Por Barros Alves



Ó Gianna, chama pura e luminosa,

Que em Deus firmaste o amor e a confiança,

Da dor fizeste um canto de esperança

A florir fé serena e corajosa.


Teu coração, oferta generosa,

Soube abraçar, na extrema circunstância,

O dom da vida em santa vigilância,

Qual luzeiro em noite silenciosa.


Entre a vida e a morte ergueste um “sim”,

Eco divino em teu sofrer profundo,

Fazendo do teu sacrifício um fim


Que abriu à filha a aurora neste mundo;

E em Deus, que é Vida, repousaste enfim,

Na Eterna Luz do Amor alto e fecundo.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

"A autoridade constitucional do STF e a crise de legitimidade" - Barros Alves

                                                                        


A estabilidade institucional de uma República repousa, em grande medida, na confiança que o povo deposita em suas instituições, com maior relevo nas Cortes supremas. No caso brasileiro, o Supremo Tribunal Federal (STF), concebido como guardião da Constituição, atravessa um momento de crescente contestação pública e jurídica. Tal cenário decorre de dois vetores principais: de um lado, decisões consideradas por parte da doutrina e de juristas como heterodoxas ou mesmo dissociadas dos limites constitucionais; de outro, controvérsias envolvendo a conduta pessoal e institucional de alguns de seus ministros, amplamente repercutidas na mídia.

O chamado “Inquérito das fake news” (Inquérito nº 4.781) constitui o epicentro dessa crise. Instaurado em 2019 por iniciativa do então presidente da Corte, sem provocação do Ministério Público, e com designação direta do relator, o procedimento rompeu com práticas tradicionais do sistema acusatório brasileiro.

A então Procuradora-Geral da República, Raquel Dodge, chegou a sustentar que a investigação seria incompatível com a Constituição, por atribuir ao próprio Judiciário funções investigativas, potencialmente comprometendo sua imparcialidade. Ainda assim, o STF, por maioria, validou a abertura do inquérito, sob o argumento de proteção institucional diante de ameaças e campanhas de desinformação.

O problema, porém, não reside apenas na origem do procedimento, mas em sua evolução. Ao longo dos anos, o inquérito ampliou seu escopo, desdobrando-se em diversas investigações conexas, frequentemente conduzidas sob sigilo e com medidas consideradas por críticos como restritivas à liberdade de expressão e ao devido processo legal. Não por acaso, o ministro Marco Aurélio Mello, atualmente um crítico contumaz da Corte,  referiu-se ao caso como “Inquérito do fim do mundo”, expressão que sintetiza a percepção de um processo sem limites claros de objeto, duração ou competência.

Outro ponto sensível diz respeito a decisões que determinaram a retirada de conteúdos jornalísticos ou o bloqueio de perfis em redes sociais. Em episódio emblemático, o STF ordenou a remoção de reportagem que citava o então presidente da Corte, decisão posteriormente revista, mas que foi amplamente criticada por entidades de imprensa como um ato de censura. Essas medidas suscitam uma questão central: até que ponto a proteção institucional pode justificar restrições a direitos fundamentais? A resposta, longe de consensual, divide a comunidade jurídica e alimenta a percepção de que o Tribunal, em certos momentos, atua como parte interessada, e não como árbitro imparcial.

A crise de legitimidade se agrava quando decisões judiciais se entrelaçam com suspeitas ou controvérsias envolvendo membros da própria Corte. Casos recentes envolvendo o ministro Dias Toffoli, por exemplo, suscitaram questionamentos sobre possível conflito de interesses em investigações nas quais atua como relator.

Ainda que tais episódios sejam objeto de apuração e defesa institucional, e que o próprio STF, em determinados momentos, tenha reafirmado a validade dos atos praticados por seus ministros, o simples surgimento dessas controvérsias já é suficiente para abalar a confiança pública. Em instituições de cúpula, a aparência de imparcialidade é quase tão relevante quanto a imparcialidade em si.

Os defensores da atuação do STF argumentam que a Corte tem exercido um papel crucial na contenção de ameaças à ordem democrática, especialmente em um contexto de radicalização política e disseminação de desinformação. De fato, a proteção das instituições é uma função legítima e necessária.

Entretanto, a crítica central reside no método: ao expandir suas próprias competências, investigar, acusar e julgar em determinados casos, o Tribunal corre o risco de concentrar poderes em grau incompatível com o modelo de separação de poderes consagrado pela Constituição. O STF não é apenas um tribunal; é o vértice do sistema constitucional brasileiro. Por isso mesmo, sua autoridade depende menos da força de suas decisões e mais da legitimidade que delas emana.

A atual crise não se resolve com o silenciamento de críticas nem com a reafirmação abstrata de poderes institucionais. Exige, antes, um movimento de autocontenção, respeito estrito às garantias processuais e transparência irrepreensível na conduta de seus membros.

Sem isso, o risco não é apenas a deterioração da imagem da Corte, mas o enfraquecimento do próprio Estado de Direito que, em última instância, depende de um Judiciário forte, mas também equilibrado, previsível e fiel à Constituição que jurou guardar.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

"Nossa Senhora da Ternura" - Por Barros Alves

                                                                 


Ó Mãe suave, doce Mãe Bondosa

Tua ternura em bálsamo vertida

E o teu imenso amor, ó Mãe querida,

São fonte pura, doce e silenciosa.


Nos braços teus, a angústia dolorosa,

Em esperança e luz é convertida;

Teu manto envolve a lágrima caída

E a torna prece humilde e luminosa.


Senhora da Ternura, em ti contemplo

O amor que, sem alarde, tudo alcança,

Qual chama viva a arder no humano templo.


Inclina, pois, teu rosto de bonança

Sobre este peito em súplica e exemplo,

E faz da dor caminho de esperança.

***********

Cura a dor que em silêncio me devora,

Ó Mãe de olhar tão manso e compassivo;

Faz brotar em meu peito convulsivo

A fonte clara que minh’alma implora.


Se a noite é densa e a lágrima me aflora,

Sê lume terno, abrigo sempre vivo;

Do coração cansado o lenitivo,

O alento que renasce em boa hora.


Senhora da Ternura, doce guia,

Transforma em paz o pranto que me invade,

E em fé serena esta humana agonia.


Que em teu regaço eu vença a tempestade,

E encontre, além da sombra escura e fria, 

O claro sol da eterna Caridade.

terça-feira, 21 de abril de 2026

"A devoção mariana na visão de Ratzinger" - Por Barros Alves

                                                                         


Considero o Cardeal Joseph Ratzinger, sagrado Papa Bento XVI pela Igreja Católica, como o mais importante teólogo da contemporaneidade. Costumeiramente visito a obra desse homem que foi também um dos pontífices mais sábios na História do Cristianismo. Por agora,  detive-me na leitura do livro "A Filha de Sião - A devoção mariana na Igreja". Trata-se de uma obra breve, porém densa, que se propõe a refletir sobre a figura de Maria à luz da teologia bíblica e da tradição da Igreja. Longe de ser uma mariologia sentimental ou devocional no sentido popular, o texto busca inserir Maria no centro da economia da salvação, conectando-a à história de Israel e à realização das promessas messiânicas. Como quase tudo o que escreveu Ratzinger,  essa abordagem é também um exercício teológico sofisticado.

Ratzinger parte de uma chave hermenêutica fundamental. Maria como “Filha de Sião”, isto é, como personificação do povo de Deus que aguarda a redenção. Essa leitura tem o mérito de evitar uma mariologia isolada, desvinculada da história da salvação. Ao contrário, Maria surge como síntese de um Israel fiel, aquela em quem as promessas se cumprem de modo pleno. Trata-se de uma abordagem profundamente enraizada na exegese tipológica, que vê continuidade entre Antigo e Novo Testamento. O problema, porém, é que essa mesma tipologia pode, por vezes, parecer excessivamente construída, dependente de paralelos que nem sempre são evidentes no texto bíblico em si, mas que derivam de uma tradição interpretativa consolidada.

Outro ponto relevante é o esforço de Ratzinger em equilibrar fé e razão. Ele não apresenta Maria como um dogma isolado ou imposto, mas como consequência lógica da cristologia. Ou seja, a compreensão de quem é Cristo exige uma compreensão adequada de sua mãe. Essa articulação é teologicamente elegante, mas pode ser vista como circular, pois  parte-se da fé cristológica para justificar a mariologia, que por sua vez reforça a própria cristologia. Para leitores fora do horizonte da fé católica, esse movimento pode parecer mais uma reafirmação interna do sistema do que um argumento persuasivo em sentido estrito.

Nesse aspecto, pode-se  questionar a relativa ausência de diálogo com correntes teológicas contemporâneas mais divergentes, especialmente aquelas que propõem leituras histórico-críticas mais rigorosas ou que relativizam o papel singular de Maria. O proprio Papa Leão XIV talvez não se alinhe  com a Mariologia de Ratzinger. Pelo menos é o que se depreende de recente documento emitido pelo Vaticano. Ratzinger, fiel à tradição, privilegia a continuidade doutrinal e a leitura eclesial das Escrituras. Isso garante coesão interna ao texto, mas limita o alcance do debate. Não se trata de um livro que busca confrontar visões opostas de maneira direta, mas antes reafirmar uma interpretação clássica com refinamento intelectual.

Outro aspecto importante é o estilo do escritor. A escrita de Ratzinger é clara, porém exigente. Ele não simplifica em excesso, o que pode tornar a leitura desafiadora para quem não possui familiaridade com teologia. Ao mesmo tempo, essa densidade é justamente o que dá valor à obra, pois evita reducionismos e mantém a reflexão em alto nível. Com efeito, "A Filha de Sião" é uma obra teologicamente consistente e espiritualmente rica, que oferece uma visão integrada de Maria no contexto da revelação cristã. Sua principal força está na capacidade de articular Escritura, tradição e teologia sistemática. Contudo, sua dependência de uma hermenêutica tipológica específica e a limitada abertura a perspectivas críticas mais amplas podem ser vistas como fragilidades, especialmente para leitores que buscam um debate mais plural. Todavia, indiscutivelmente, trata-se de um texto importante para compreender não apenas a mariologia de Ratzinger, mas também sua visão mais ampla da relação entre Igreja, Escritura e história Barros salvação.


* Barros Alves é sócio honorário da Academia Brasileira de Hagiologia - ABRHAGI.

"Tiradentes: a construção simbólica de um mito" - Por Barros Alves

                                                                        


A figura de Tiradentes ocupa um lugar central no imaginário político brasileiro, mas esse lugar é menos fruto de sua relevância histórica imediata e mais resultado de um processo deliberado de construção simbólica ao longo do tempo,  sobretudo durante a Primeira República, instalada no Brasil por um golpe de Estado que derrubou a Democracia coroada. Examinar essa construção exige distinguir entre o personagem histórico, Joaquim José da Silva Xavier, e o mito cívico posteriormente elaborado.

Após a Proclamação da República no Brasil, o jacobinismo do novo regime enfrentava um problema clássico, qual seja o da necessidade de legitimação simbólica. Era preciso criar heróis fundadores que não estivessem associados à monarquia deposta, especialmente à figura de Dom Pedro I. Nesse contexto, Tiradentes foi elevado à condição de mártir da liberdade.

Embora tenha participado da Inconfidência Mineira, movimento de caráter conspiratório e elitista, sua execução em 1792 oferecia um elemento dramático poderoso. Ele foi o único dos réus condenado à morte e submetido ao suplício público. A República reinterpretou esse fato como um sacrifício pela pátria, ainda que a ideia de “independência nacional” não estivesse plenamente formulada nos termos modernos,  entre os inconfidentes.

Diversos historiadores apontam que essa exaltação não foi espontânea. Obras como as de José Murilo de Carvalho mostram como a República construiu um “panteão cívico” para substituir os símbolos imperiais. Tiradentes, nesse sentido, tornou-se funcional, ou seja, um mártir sem poder político real, facilmente apropriável.

A transformação de Tiradentes em herói não se deu apenas por textos e discursos, mas também por imagens. A iconografia produzida no final do século XIX e início do XX é reveladora.

Pintores como Pedro Américo e Décio Villares representaram Tiradentes com longos cabelos e barba, traços ausentes nas descrições mais verossímeis do alferes. Essas imagens aproximam deliberadamente sua figura da de Jesus Cristo, criando um paralelo entre o sacrifício religioso e o político.

A célebre pintura “Tiradentes esquartejado”, de Pedro Américo, dramatiza o suplício de forma quase litúrgica, evocando o martírio cristão. O corpo dilacerado, exposto ao público, assume um valor pedagógico, a tragédia como instrumento de formação cívica. Trata-se de uma estética do sacrifício que busca despertar identificação emocional e consolidar uma memória coletiva.

Essa construção visual não apenas amplifica o papel de Tiradentes, mas redefine sua identidade de militar de baixa patente a redentor da pátria.

Historicamente, contudo, Tiradentes não era o principal articulador da Inconfidência. O movimento envolvia membros das elites coloniais, proprietários de terras, oficiais de alta patente e intelectuais influenciados pelo Iluminismo.

Entre eles destacava-se Tomás Antônio Gonzaga, magistrado e poeta de prestígio, além de figuras como Cláudio Manuel da Costa e Alvarenga Peixoto. Esses homens possuíam capital econômico, cultural e político muito superior ao de Tiradentes, que era um alferes (posto equivalente, salvo engano, a segundo-tenente) e exercia também atividades como dentista e tropeiro.

A escolha de Tiradentes como único executado não decorreu de sua liderança, mas de circunstâncias processuais e políticas.  Ele, ingenuamente, assumiu maior responsabilidade durante o julgamento e não possuía as redes de proteção social que beneficiaram outros réus, muitos dos quais tiveram suas penas comutadas para o exílio.

A elevação de Tiradentes a herói nacional revela mais sobre a República do que sobre o século XVIII. Ao transformá-lo em mártir, o regime republicano não apenas criou um símbolo de resistência, mas também estabeleceu uma narrativa fundadora que rivalizava com a independência conduzida por Dom Pedro I.

Isso não significa que Tiradentes deva ser descartado como figura histórica relevante, mas que sua importância precisa ser compreendida criticamente, distinguindo o homem do mito.

Na verdade, o certo mesmo é que  Tiradentes deve ser visto menos como um herói “natural” da independência e mais como um produto de uma sofisticada operação simbólica, em que história, arte e política se entrelaçam para moldar a memória nacional.

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Vale a pena conferir:

CARVALHO, José Murilo de. "A formação das almas: o imaginário da República no Brasil."

MAXWELL, Kenneth. "A devassa da devassa: a Inconfidência Mineira."

PRADO JÚNIOR, Caio. "Formação do Brasil Contemporâneo."

SOUZA, Laura de Mello e. "Desclassificados do ouro."

SCHWARCZ, Lilia Moritz. "As barbas do imperador" (para entender contexto simbólico e construção de imagens políticas).

sábado, 18 de abril de 2026

"O neopanteísmo, a teologia cristã e o Deus-Natureza de Spinoza" - Por Barros Alves

                                                                      


Confesso que determinados modismos me incomodam. Modismos a infestarem a sociedade de tal forma que até a Igreja se deixa  levar por ideias claramente neo-animistas e neopanteístas. Sou matuto do sertão, gosto de árvores, plantas, dos matos, dos bichos, do meio rural. Mas, antes gosto de gente. Uma recente discussão com uma (pseudo) cristã que disse claramente preferir gastar dinheiro com seu belo cachorro do que adotar uma criança, fui provocado a  escrever os questionamentos que ora coloco para a reflexão dos leitores.

Certos modismos contemporâneos, ainda que nascidos de preocupações legítimas, acabam por transbordar seus limites naturais e invadir até mesmo o espaço da fé cristã. Entre eles, destacam-se alguns excessos do ecologismo e uma afeição desmedida pelos animais, que, quando absolutizados, deslocam o eixo da criação e obscurecem a centralidade do ser humano na ordem moral e espiritual.

A tradição cristã sempre reconheceu a criação como boa e digna de cuidado, confiada ao homem como administrador responsável. Contudo, quando a natureza passa a ser tratada não como obra, mas como entidade quase sagrada em si mesma, percebe-se um deslizamento sutil para formas de pensamento que se aproximam de um neopanteísmo onde Deus se dilui no todo, ou mesmo de um neo-animismo, no qual elementos naturais e seres irracionais são revestidos de uma espécie de sacralidade intrínseca.

De modo semelhante, o amor aos animais, virtude recomendável enquanto expressão de sensibilidade e responsabilidade, pode degenerar em um sentimentalismo que iguala ou até sobrepõe o valor da vida animal à dignidade da pessoa humana. Tal inversão, mais emocional que racional, rompe com a hierarquia clássica da criação e enfraquece a compreensão do homem como imagem de Deus.

Quando tais tendências penetram no discurso religioso, corre-se o risco de uma diluição da teologia cristã em categorias estranhas à sua tradição, produzindo uma espiritualidade difusa, mais afinada com sensibilidades culturais passageiras do que com a coerência doutrinal. O desafio, portanto, não é rejeitar o cuidado com a criação ou o respeito aos seres vivos, mas reintegrá-los em uma visão equilibrada, onde Deus permanece transcendente, a criação é valorizada sem ser divinizada, e o homem conserva sua singular responsabilidade no cosmos.

A constatação desses modismos, de certa forma chancelados até por Enclíclicas papais, como a "Laudato si", do Papa Francisco, remete-nos a um dos mais importantes pensadores da himanidade, o filósofo judeu Baruch Spinoza, cuja obra constitui um ardiloso desvio da doutrina cristã sobre a Criação e a Natureza. Com efeito, a obra de  Spinoza permanece como uma das mais ousadas tentativas de repensar Deus fora das categorias tradicionais da religião. Ao identificar Deus com a própria ordem da realidade — "Deus sive Natura" — o filósofo inaugura um horizonte que, aos olhos da teologia cristã, não apenas diverge, mas rompe com seus fundamentos mais íntimos. Não por acaso, sua doutrina foi considerada herética tanto por judeus quanto por cristãos. Ainda assim, a mesma pena que dissolveu o Deus pessoal contribuiu decisivamente para o nascimento de um método crítico aplicado às Escrituras, estabelecendo limites fecundos entre teologia e história.

A teologia cristã, enraizada nas Escrituras e sistematizada por pensadores como Tomás de Aquino, afirma um Deus pessoal, transcendente e livre, criador do mundo "ex nihilo". Esse Deus não se confunde com a criação; ao contrário, sustenta-a e governa-a com providência. Revela-se na história,  desde a eleição de Israel até a encarnação em Jesus Cristo; e estabelece com o homem uma relação de aliança, juízo e redenção. A fé cristã não é mera contemplação da ordem natural, mas resposta a uma Palavra que chama, julga e salva.

Spinoza subverte esse edifício. Em sua obra maior, a "Ética", Deus não é pessoa, vontade ou legislador; é substância infinita, necessária, cujos atributos se exprimem na ordem eterna da natureza. Não há criação no sentido clássico, mas imanência: tudo o que existe é em Deus e por Deus, não como efeito de um ato livre, mas como consequência necessária de sua essência. Desaparecem, assim, categorias centrais à teologia cristã: providência, milagre, pecado, graça. O mundo não é palco de uma história da salvação, mas expressão de uma necessidade lógica.

É nesse ponto que a crítica cristã se torna inevitável e contundente. Se Deus não é pessoa, não ama; se não ama, não salva; se não salva, a religião perde seu núcleo existencial. O Deus de Spinoza, por mais sublime que seja como princípio metafísico, é incapaz de estabelecer relação com o homem. Ele não escuta, não fala, não intervém. A oração torna-se meditação intelectual; a fé, conhecimento racional; a esperança, aceitação da necessidade. Para a tradição cristã, isso equivale a esvaziar o coração da religião, reduzindo-a a uma filosofia da ordem universal.

Entretanto, seria intelectualmente desonesto ignorar o outro lado dessa ruptura. Em seu "Tratado Teológico-Político", Spinoza inaugura uma abordagem que viria a fecundar os estudos bíblicos modernos. Ao tratar a Escritura como documento histórico, submetido às condições de sua redação, transmissão e contexto, ele rompe com a leitura puramente dogmática e abre caminho para a crítica textual e histórica. Investiga autores, datas, estilos e intenções, distinguindo o núcleo moral da mensagem bíblica das formas culturais que a revestem.

Esse gesto teve consequências duradouras. A partir dele, tornou-se possível reconhecer que os textos bíblicos possuem uma história, ou seja,  foram escritos, editados, transmitidos; sem que isso implique necessariamente negar seu valor religioso. Spinoza, ao separar teologia e história, buscava proteger a liberdade de pensamento contra o uso político da religião. Paradoxalmente, acabou oferecendo instrumentos que seriam utilizados inclusive por teólogos para aprofundar a compreensão das Escrituras.

Aqui se impõe um discernimento necessário. A teologia cristã não pode aceitar o núcleo metafísico do pensamento spinozano sem renunciar à sua própria identidade. O Deus bíblico não é redutível à ordem natural; é Senhor da história, livre e pessoal. Contudo, pode  e deve  reconhecer o valor metodológico da crítica histórica. A fé não teme a investigação honesta; ao contrário, purifica-se quando distingue entre o dado revelado e suas mediações históricas.

Assim, a heresia de Spinoza não reside apenas no que nega, mas também no que provoca. Ao dissolver o Deus pessoal, ele desafia a teologia a explicitar melhor o sentido da transcendência e da revelação. Ao historicizar a Escritura, obriga-a a enfrentar sua própria dimensão humana. Entre o Deus vivo do Cristianismo e o Deus-Natureza de Spinoza abre-se um abismo, mas também um campo de tensão fecunda, onde razão e fé são chamadas a dialogar sem confusão e sem submissão.

Em última análise, Spinoza não destruiu a teologia; obrigou-a a pensar com mais rigor seus próprios fundamentos. E talvez seja precisamente aí que reside sua permanência. Não como mestre a ser seguido, mas como interlocutor que não pode ser ignorado. Por agora, impõe-se aos cristãos a necessidade de conhecer essas diferenças, sutis e obnubiladas pelos modismos da pós-pós modernidade.

terça-feira, 14 de abril de 2026

"O Papa Leão XIV, Trump e a arte da guerra" - Por Barros Alves

                                                                           


O recente entrevero entre Papa Leão XIV e o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump expõe, com rara nitidez, um problema recorrente na história da Igreja, qual seja os limites da intervenção papal em matérias de alta complexidade geopolítica.

Ao classificar como “inaceitáveis” declarações de caráter beligerante atribuídas ao líder norte-americano, o Papa assume uma posição que, embora revestida de autoridade moral, corre o risco de simplificar perigosamente realidades estratégicas que escapam ao plano estritamente ético. A guerra, por mais indesejável que seja, não desaparece por força de exortações espirituais; ela nasce de conflitos concretos de poder, segurança e sobrevivência entre nações.

Nesse sentido, a crítica que se faz ao pontífice não é à sua defesa da paz, que é intrínseca à missão cristã; mas à forma como tal defesa se traduz, por vezes, em juízos públicos que podem ser percebidos como desalinhados da prudência diplomática esperada de um chefe de Estado. Afinal, o Papa não é apenas líder religioso; é também soberano da Cidade do Vaticano, uma entidade que, ainda que singular, participa do concerto das nações. Aliás, em termos de forma de governo,  o Vaticano se assemelha mais à teocracia dos aiatolás do Irã do que à democracia estadenidense. Talvez por essa semelhança intrínseca de caráter religioso é que não se tem notícia de nenhuma condenação da ditadura Islâmica do Irã, por parte de nenhum Papa. Apesar da cabeça de milhares de cristãos já terem sido cortadas pela espada dos srguidores de Allah apenas por questões de divergencias religiosas.

Importa lembrar que a história demonstra que os papas raramente foram alheios à política. Desde as complexas alianças medievais até as intervenções discretas do século XX, o papado sempre navegou, aberta ou implicitamente, nas águas do poder temporal. Não é difícil registrar os inúmeros erros cometidos pelo poder régio papal. O próprio Concílio Vaticano II, ao redefinir a presença da Igreja no mundo moderno, ampliou sua voz em questões globais. Contudo, essa ampliação trouxe consigo o risco de confundir autoridade moral com ingerência política.

É precisamente nesse ponto que a reação de Trump encontra eco entre seus apoiadores. Para eles, a condução de conflitos internacionais exige uma lógica que não pode ser regida exclusivamente por ideais universalistas. A paz duradoura, muitas vezes, depende da capacidade de dissuasão e da disposição de confrontar ameaças reais, ainda que isso implique retórica dura ou ações firmes.

A intervenção papal, quando não calibrada por essa realidade, pode ser interpretada não apenas como ingênua, mas potencialmente desequilibrada, sobretudo se parecer sugerir equivalências morais ou ignorar contextos específicos. Em um mundo marcado por tensões assimétricas e atores que não compartilham os mesmos valores, a linguagem da diplomacia exige precisão e cautela,  virtudes que nem sempre convivem bem com declarações públicas de forte carga moral.

Há, portanto, um dilema que se impõe ao pontificado de Leão XIV: como preservar a autoridade espiritual sem incorrer em posicionamentos que fragilizem a neutralidade diplomática da Santa Sé? A resposta talvez resida em uma distinção mais rigorosa entre o papel de pastor universal e o de chefe de Estado, distinção essa que, quando borrada, expõe o papado a críticas tanto no campo político quanto no religioso.

No fim, o episódio não se resume a um choque de personalidades. Ele revela uma tensão estrutural entre dois modos de compreender o mundo: um, orientado por princípios morais absolutos; outro, moldado pelas contingências do poder. E enquanto essa tensão persistir, novos entreveros, verbais ou não, continuarão a surgir, colocando em xeque o delicado equilíbrio entre fé, política e realidade internacional.

Por fim, mutatis mutandis, urge não esquecer, a título de analogia histórica,  que o Papa Pio XII nunca deu uma declaração expressa e firme contra o governo nazista,  enquanto Hitler fazia a guerra. De igual modo, o  Vaticano acanhou-se silente, enquanto milhões de judeus e cristãos católicos e protestantes eram assados nos fornos crematórios nazistas, só apagados por uma força maior. Lembre-se também, por agora, que nenhum Papa nesses 47 anos de crudelíssima ditadura teocrática Islâmica levantou a voz contra o regime dos aiatolás, enquanto milhares de iranianos eram assassinados, muitos por professarem a fé em Cristo Jesus. A crítica que a esquerda internacional faz a Trump por qualquer deslize, ingenuamente seguida até por cristãos conservadores, faz-me lembrar os versos atribuídos a Bertolt Brecht, poeta e dramaturgo comunista alemão: "Todos dizem que o rio caudaloso é violento; ninguém diz serem violentas as margens que o comprimem." Trump é o rio caudaloso que pode levar liberdade ao povo iraniano.

domingo, 5 de abril de 2026

"Leis de gênero: a criminalização do humor e do riso" - Por Barros Alves

                                                                          


Há, ao longo da história, um traço recorrente nas experiências autoritárias, qual seja a tentativa de disciplinar não apenas o comportamento, mas também o pensamento, a linguagem e, em última instância, o próprio riso. Regimes de feição totalitária raramente se apresentam como tais; preferem vestir-se com as roupagens sedutoras do “progresso”, da “justiça social” ou da “proteção dos vulneráveis”. Sob esse manto aparentemente virtuoso, vão introduzindo, de forma gradual e muitas vezes quase imperceptível, mecanismos legais e culturais que restringem liberdades fundamentais.

Entre essas liberdades, poucas são tão essenciais quanto a liberdade de expressão e de pensamento. É dela que decorre a possibilidade de crítica, de debate e de aperfeiçoamento das ideias, elementos indispensáveis à vida democrática. No entanto, observa-se, em diversas partes do mundo e também no Brasil, um movimento crescente no sentido de normatizar discursos, interditar palavras e, mais grave ainda, cercear formas tradicionais de manifestação cultural, como o humor, a sátira e a ironia.

O humor sempre desempenhou um papel social relevante. Ele não apenas diverte, mas também revela contradições, expõe hipocrisias e desarma pretensões autoritárias. O riso, nesse sentido, é profundamente subversivo, posto que relativiza o poder, humaniza as relações e impede a sacralização de ideologias. Ridendo castigat mores! Não é por acaso que, historicamente, regimes autoritários demonstraram profunda aversão à sátira. 

O problema surge quando determinadas agendas, por mais legítimas que possam ser em sua origem,  passam a reivindicar proteção jurídica contra qualquer forma de crítica ou representação humorística. Ao transformar temas complexos e controversos em territórios imunes ao questionamento, cria-se um ambiente de censura indireta, no qual artistas, escritores e comunicadores passam a autocensurar-se por temor de sanções legais ou sociais.

No Brasil contemporâneo, essa tendência manifesta-se de maneira preocupante. Normas, projetos de lei e decisões judiciais, muitas vezes motivados pela intenção de proteger grupos específicos, acabam por estabelecer limites difusos e perigosos à liberdade de expressão. O resultado é um cenário em que costumes, tradições e valores culturais deixam de poder ser objeto de crítica ou de humor, sob o risco de serem interpretados como ofensivos ou discriminatórios.

Se levada às últimas consequências, essa lógica tornaria inviável a obra de inúmeros criadores que ajudaram a formar a identidade cultural brasileira. A literatura, em especial a literatura popular, o teatro, a música e o humor popular, todos marcados pela irreverência, pela crítica social e pela liberdade criativa, seriam submetidos a um crivo ideológico restritivo, incompatível com a riqueza e a diversidade que caracterizam a cultura nacional. As cantorias em que poetas repentistas improvisam versos ao ponteio da viola, sempre cáusticos do poder, perdem a força da criatividade poética; inúmeros folhetos de cordel como, por exemplo, o clássico a "Peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho do Tucum" já estão "cancelados", condenados ao fundo do baú e, pelo andar da carruagem, à fogueira inquisitorial das mediocridades imperantes, no cenário acadêmico e da Mídia, inclusive.

Além disso, a proliferação de neologismos legislativos e categorias conceituais pouco consolidadas contribui para a insegurança jurídica e para a fragmentação social. Em vez de promover a harmonia, tais iniciativas frequentemente acentuam divisões, estimulando uma dinâmica de antagonismo entre grupos que passam a se perceber como mutuamente excludentes. Em nome da inclusão, corre-se o risco de fomentar a intolerância recíproca.

A democracia, por sua própria natureza, exige o convívio com o dissenso, com o desconforto e até mesmo com o erro. Pretender eliminar completamente o risco de ofensa ou de discordância é, paradoxalmente, abrir caminho para formas sutis e, por vezes eficazes, de autoritarismo. Uma sociedade verdadeiramente livre não é aquela em que todos concordam, mas aquela em que todos podem discordar sem medo.

Por isso, é fundamental preservar o espaço do humor, da crítica e da livre manifestação intelectual. Não se trata de legitimar abusos ou de ignorar a dignidade das pessoas, mas de reconhecer que a liberdade de expressão é um valor estruturante, sem o qual os demais direitos tendem a esvaziar-se.

A tentativa de regular o riso, de domesticar a sátira e de enquadrar a criatividade em moldes ideológicos rígidos não representa avanço civilizatório, mas um retrocesso. Trata-se, em última análise, de uma forma de empobrecimento cultural e de enfraquecimento da própria democracia.

Defender a liberdade de expressão, inclusive quando ela se manifesta de maneira incômoda ou irreverente, é, portanto, um imperativo. Não apenas jurídico, mas moral e civilizacional. É preciso reconhecer, com clareza, que uma sociedade que perde a capacidade de rir de si mesma corre o risco de tornar-se prisioneira de suas próprias certezas e, nesse processo, abrir mão daquilo que tem de mais precioso: a liberdade.

"Cantos de morte e ressurreição" - Por Barros Alves

                                                                     


1.

Por que temer a morte se  não mata

A alma imperecível do cristão?!

Só mata o corpo, pois Jesus resgata

Todo fiel. E dá-lhe a salvação.


Temos promessa de ressurreição 

Do Trino Deus que tudo, enfim, governa.

A morte, pois, é mera transição 

Para vivermos plena vida eterna.


Oh, vil morte onde está teu aguilhão?

Tua maldade não me causa espanto,

O teu poder não passa de ilusão.


Que Deus nos cubra com o Sagrado Manto,

Conceda-nos viver eternamente 

Com o Pai, o Filho e o Espírito Santo.


                                                       



2.

Sexta-feira. Depois de torturado,

Pelas vielas de Jerusalém 

Arrastaram-no feito um Zé Ninguém

Para no Monte ser crucificado.


O Cordeiro de Deus, o Bem Amado,

O Filho do Altíssimo, o Sumo Bem,

Pede um sinal dos Céus. Não obtém.

Se sente por Deus Pai abandonado.


O lancinante grito se fez Luz

Naquela sexta-feira da Paixão,

Mistério que ainda hoje nos conduz...


Morte! Oh, morte, onde está teu aguilhão?

Foi destruído no Cristo sobre a cruz

Que nos deu Vida na RESSURREIÇÃO.


OBS: as pinturas são de Caravaggio.


domingo, 29 de março de 2026

"O Domingo de Ramos na vida da Igreja Católica" - Por Barros Alves

                                                                         


O Domingo de Ramos ocupa um lugar singular na vida da Igreja Católica. Nesse dia  litúrgico inicia-se  solenemente a Semana Santa e se reúne, numa mesma celebração, dois movimentos aparentemente opostos:  o triunfo e a paixão. Sua origem está enraizada no evento evangélico da entrada de Jesus Cristo em Jerusalém, mas sua forma atual é fruto de um longo amadurecimento litúrgico, enriquecido pelo testemunho de peregrinos e pela reflexão dos grandes escritores sacros.

Os quatro Evangelhos — Evangelho de Mateus, Evangelho de Marcos, Evangelho de Lucas e Evangelho de João — narram a entrada de Jesus em Jerusalém, montado num jumento, enquanto o povo o aclama com ramos e cânticos messiânicos (“Hosana!”).

O gesto é carregado de simbolismo. O jumento indica humildade, em contraste com os cavalos de guerra; os ramos evocam vitória, realeza e esperança; a  aclamação popular revela a expectativa messiânica de Israel.

Contudo, essa mesma multidão que aclama será, poucos dias depois, ambígua ou silenciosa diante da condenação de Cristo,  tensão que a liturgia conserva ao unir, no mesmo dia, procissão festiva e leitura da Paixão.

A prática litúrgica do Domingo de Ramos surge de forma estruturada no século IV, em Jerusalém. Uma fonte preciosa é o relato da peregrina Egéria, que descreve uma procissão realizada no Monte das Oliveiras. Fiéis, clérigos e o bispo percorriam o caminho até a cidade, levando ramos e entoando salmos, revivendo o gesto do povo que acolheu Cristo.

Aqui já se delineia o caráter mimético e memorial da liturgia cristã. Ou seja, não se trata apenas de recordar, mas de tornar presente o mistério celebrado.

A partir de Jerusalém, a celebração se difundiu por todo o mundo cristão. No Ocidente latino, especialmente a  partir dos séculos VII, VIII e IX, consolidaram-se elementos que permanecem até hoje, quais sejam, a bênção dos ramos, a procissão solene, a Leitura da Paixão. Essa estrutura revela uma teologia profunda. Cristo é ao mesmo tempo o Rei acolhido e o Servo sofredor.

Os Padres da Igreja e grandes autores cristãos ofereceram leituras espirituais riquíssimas desse evento. Santo Agostinho vê na procissão um símbolo da Igreja peregrina. “Os ramos são louvores; o caminho é Cristo; caminhar é segui-lo.”

Para ele, a aclamação externa só tem valor se corresponder a uma adesão interior.

São João Crisóstomo destaca o contraste entre a humildade de Cristo e a expectativa mundana de poder.

Cristo não entra como conquistador terreno, mas como Senhor que vence pelo amor e pelo sacrifício.

São Jerônimo, grande conhecedor das Escrituras, enfatiza o cumprimento das profecias, especialmente de Zacarias (Zc 9,9), vendo na cena a confirmação da identidade messiânica de Jesus.

São Bernardo de Claraval, na Idade Média, propõe uma leitura espiritual mais interior. O verdadeiro “ramo” que deve ser oferecido a Cristo é o coração convertido.

A Igreja, ao longo dos séculos, adaptou os ramos conforme as regiões: palmeiras no Oriente e regiões mediterrâneas; oliveiras em áreas europeias; ramos de árvores locais (como a palma dos coqueiros, carnaubeiras, no Brasil). Essa adaptação revela a universalidade da fé cristã. O símbolo permanece, mas se encarna na cultura de cada povo.

O Domingo de Ramos contém uma profunda síntese teológica, que se arraiga na Cristologia: Jesus é Rei, mas seu trono é a cruz; na Eclesiologia: a Igreja segue Cristo entre glória e sofrimento; na Espiritualidade: o fiel é chamado a passar da aclamação à fidelidade

A liturgia evita triunfalismos ingênuos. Ao proclamar a Paixão no mesmo dia, recorda que não há glória sem cruz. De fato, o Domingo de Ramos não é apenas uma recordação histórica, mas uma atualização viva do mistério de Cristo. Desde as ruas de Jerusalém até as procissões contemporâneas, a Igreja revive o drama da acolhida e da rejeição, da esperança e do sacrifício.

Guiados pelos escritores sacros, de Santo Agostinho a São Bernardo de Claraval,  compreendemos que os ramos nas mãos pouco significam sem a conversão do coração. Assim, cada fiel é convidado não apenas a aclamar Cristo, mas a segui-lo, mesmo quando o caminho conduz à cruz.

Por final, gostaria de lembrar um dos maiores oradores da Igreja, glória excelsa da oratória sacra em língua portuguesa, o Padre Antônio Vieira. O Crisóstomo português dedicou reflexões profundas ao mistério celebrado no Domingo de Ramos, sobretudo em seus sermões quaresmais e da Semana Santa. Embora não haja um único sermão exclusivo com esse título em todos os compêndios, o tema aparece com força em sua meditação sobre a entrada triunfal de Jesus Cristo em Jerusalém.

Vieira chama atenção para um ponto central: a inconstância do povo.

Ele observa que a mesma multidão que grita “Hosana” no Domingo de Ramos será capaz de clamar “Crucifica-o!” poucos dias depois. Para o pregador, isso revela uma verdade espiritual incômoda. O coração humano é volúvel, facilmente entusiasmado, mas pouco firme na fidelidade.

Assim, o Domingo de Ramos não é apenas celebração, é também advertência moral.

Um tema típico de Vieira é a crítica ao culto apenas externo. Ele usa a imagem dos ramos para provocar. De que adianta carregar ramos nas mãos se não há transformação no coração?

Seguindo a tradição de autores como Santo Agostinho, Vieira insiste que o verdadeiro louvor a Cristo não está no gesto simbólico, mas na vida convertida.

Outro aspecto marcante é o paradoxo da cena em que Cristo entra como Rei, mas caminha conscientemente para a morte. Vieira explora esse contraste com sua retórica característica: trata-se de um triunfo que já contém a derrota aparente, e de uma glória que passa pela humilhação. Para ele, o Domingo de Ramos só pode ser compreendido à luz da cruz.

Vieira transforma o episódio em exame de consciência. Somos apenas admiradores momentâneos de Cristo ou discípulos fiéis até a cruz? Ele sugere que muitos cristãos repetem o gesto da multidão: aclamam em momentos de fervor; abandonam em tempos de provação.

Na leitura de Padre Antônio Vieira, o Domingo de Ramos ensina três lições principais: cuidado com a inconstância, o entusiasmo não basta.

A autenticidade da fé é o que vale; e mais importante que os ramos é o coração.

A aceitação da cruz para  seguir a Cristo implica participar de seu caminho. Para Vieira, o Domingo de Ramos não é apenas uma festa litúrgica, mas um espelho da alma humana. Ele desmonta qualquer leitura superficial e convida o fiel a uma fé firme, coerente e perseverante.


*Barros Alves é sócio honorário da Academia Brasileira de Hagiologia-ABRHAGI.