domingo, 30 de agosto de 2026

"Sonetos em louvor de São João Paulo II" - Por Barros Alves

 


I — O Peregrino da Esperança


De Wadowice, humilde peregrino,

Ergueu-se ao mundo em fé e caridade;

E, entre as dores cruéis da mocidade,

Guardou no peito o ardor do Amor divino.


A guerra não lhe tolheu o destino,

Nem lhe roubou a força e a liberdade;

Fez da oração seu pão, sua verdade,

E da Cruz, um melodioso hino.


Sobre os seus ombros, Roma e a Terra  inteira

Viram surgir a força de um Pastor,

Que abriu ao mundo as portas da esperança.


E, quando a dor lhe veio derradeira,

Altivo anunciou com fé e amor:

“Não tenhais medo! Somente confiança".


II — Totus Tuus


À Virgem consagrou a própria vida,

Com filial ternura e devoção;

Maria foi-lhe estrela e proteção,

Na trilha penitente e dolorida.


No coração, flameja a luz bendita 

Do Totus Tuus, fiel consagração.

Fazia ele da existência uma oração

E da esperança uma chama infinita.


Por terras e por mares foi levando

A Boa-Nova, em peregrinação,

Aos jovens infundindo um novo ardor.


E o mundo inteiro viu seu passo santo,

Quando ensinava com convicção,

Que a vida encontra em Deus o pleno Amor.


III - Contra o totalitarismo


De longe, em Roma, a voz de um polonês

Ergueu-se contra a noite da opressão,

Levando Cristo a todo coração,

Desafiou Poder e Insensatez.


Não foi com armas que enfrentou de vez

Os que oprimiam seu povo e a nação.

Foi com a força viva da oração,

Com a verdade, a fé e a altivez.


Da pátria maltratada, a voz clamava

Que o homem não nasceu para a prisão,

Nem pode o Estado escravizar-lhe a alma.


Veio a palavra do Papa imprimir calma

Enquanto o medo do povo se afastava

E a liberdade vencia a opressão.


IV— Nos braços de Cristo


A enfermidade o corpo lhe dobrava,

Mas não dobrava a fé daquela alma,

Que sob a dor era serena e calma,

Porque na Cruz do Cristo se amparava.


Já quase sem palavras, proclamava

Que a vida é dom de Deus e não desarma

Aquele que faz da Cruz a arma...

E em Cristo a eternidade contemplava!


Assim partiu o grande mensageiro,

Deixando à Igreja o exemplo verdadeiro

De quem fez da existência um dom de amor.


A dor não envolveu seu corpo inteiro, 

Cobriu-lhe a luz do Supremo Luzeiro

E o conduziu  ao Cristo  Redentor.



quinta-feira, 27 de agosto de 2026

"ARATANHA especial presta homenagem memorial ao Cabo William"



A Revista ARATANHA, Ano III, maio/2026, publica edição especial em que presta homenagem "in memoriam" ao Cabo William, fundador da entidade que atualmente é a Associação dos Praças da Polícia Militar do Estado do Ceará  - ASPRA. Cabo William, que posteriormente teve reconhecido pela Justiça direitos que lhe foram usurpados, ascendeu ao posto de capitão. Teve uma vida exemplar como pai de família e cidadão   dotado de espírito empreendedor e defensor de boas causas. Os filhos dão continuidade ao legado de fé e trabalho, em especial o dinâmico professor Robinson Ramalho.



quarta-feira, 26 de agosto de 2026

"Recordações cenecistas" - Por Francisco de Assis Freitas da Silva*

                       


Desde a leitura do Livro dos Porquês emprestado de sua biblioteca, até a última partida de volei que joguei na quadra póxima ao cemitério São Miguel, as memórias afetivas da minha velha e querida CNEC estão ainda recentes, mesmo passados mais de três décadas que deixei de frenquentar os corredores do tradicional colégio. Infelizmente ficaram apenas lembranças e saudades de uma época que deve ser a melhor na vida da maioria das pessoas: a adolescência, época de descobertas e amadurecimento como ser humano, pois foi onde passei boa parte dela quando cursei o antigo curso gianasial e o ensino médio. Dos meus mestres guardo a sabedoria e o carinho dedicado de parte de suas vidas para que adquiríssimos conhecimentos e ensinamentos para uma vida inteira. E de meus colegas de sala de aula e quadra de volei, amizades eternas que o tempo não consegue apagar. A vida vai nos distanciando e de vez em quando encontramos um ou outro professor ou antigo colega. Mas como a vida nem sempre é um mar de rosas, e ela nos afasta de entes queridos e amigos diletos, por vezes tomamos conhecimento assim de surpresa, como uma topada repentina, que aquele amigo nosso foi mais cedo aos braços do Criador.

E sobre recordações cenecistas, neste ano de 2026 faz 35 anos que uma epopeia esportiva aconteceu: os jogos estudantis cenecistas. Estes eram um evento que reunia colégios da rede CNEC de diversas cidades do Estado, como Santa Quitéria, Itapipoca, Fortaleza, Maracanaú e Guaramiranga, com atletas de até 21 anos e abrangia algumas modalidades esportivas como o futebol de salão, o handebol e o volei, além de provas de atletismo. Ressalte-se que o ano de 1991 foi o ápice de um investimento que a saudosa e visionária Dona Edna Karam fez anos antes, com a compra de material para treino e a contratação de professores qualificados. É bom mencionar que no título de campeão cenecista de volei masculino em 1991, onde eu exercia a função de meio de rede, o treinador também era um dos jogadores, meu velho amigo Mariano Sampaio, ou apenas Neto. Usando sua experiência como atleta profissional em clubes de Fortaleza e também uma passagem por São Paulo. Treinou a equipe e nos liderou nessa empreitada. A viagem em si foi uma aventura. Passamos quatro dias no Luzardo Viana, a CNEC de Caucaia. Estavam lá os professores, comissão técnica e as equipes feminina e masculina de vólei, além da de futebol de salão. Ao término da jornada, quando chegamos em Canindé, tivemos a felicidade do onibus quebrar apenas. depois que desembarcamos.


Ao longo dos anos a CNEC foi perdendo espaço para o crescimento e expansão da rede particular de ensino, assim como outros fatores contribuíram para o fim da velha instituição. O tempo passa e também velhos mestres nos deixaram e foram ao encontro do Criador. Outros no entanto, felizmente, continuam firmes e fortes, alguns já octogenários, a exalar lucidez, experiência e conhecimento. Quando do anúncio do fim de minha saudosa escola, eu estava em Campos Sales a serviço e não pude conter a emoção e lágrimas brotaram de meus olhos ao saber da notícia. Ficou, no entanto, funcionando por algum tempo o setor burocrático do colégio, para que os pais de alunos e ex alunos pudessem pegar alguma documentação que precisassem, como diplomas e transferências. Infelizmente o último suspiro do colégio eu presenciei numa tarde qualquer de sol escaldante, a bordo de uma velha viatura policial, quando patrulhava as ruas de Canindé enquanto descia a Avenida Chico Campos, vi um caminhão-baú levando alguns móveis e documentos de uma longa história de centenas de ex alunos, professores e funcionários de uma instituição amada em nossa cidade, que contribui em muito para a educação do município de Canindé. A CNEC deixou antes de um legado de educação, um legado de cidadania e amizades eternas.

No centro de nossa cidade havia uma atração turística em uma loja. Um artefato girando na entrada da loja representando uma vaquejada, com o vaqueiro montado no cavalo tentando pegar um boi. Já não existe a Casa Marreiro com curiosa mercadoria em seu interior, incluindo bainha para foice, muito menos o artefato giratório a atrair a atenção quando estava funcionando com seu sinete tocando enquanto girava. Era um ponto de encontro em minha juventude, do grupo de alunos atletas. Estudávamos de tarde ou de noite, e a maioria de nós, não trabalhava e alguns moravam nas imediações do centro, como os sobrinhos do professor de inglês Laurismundo Marreiro, nosso carismático tio Lauris, e a loja era propriedade da família. Lá conversávamos e ouviamos as histórias do tio Lauris, que de vez em quando se expressava em inglês com algum eventual turista estrangeiro. Passando pelo centro outro dia vi uma placa anunciado mais uma farmácia onde outrora foi a Casa Marreiro. Sua história faz parte da minha vida e da memória afetiva de milhares de canindeenses que passaram por lá. Por fim, costumo pedalar pelas ruas centrais de Canindé e passo pela antiga Casa Marreiro e também pelo colégio municipal São Francisco. O que sinto não é só saudade e nostalgia, isto é algo mais profundo. Ainda sinto o cheiro do velho mimeográfo e ouço uma onomatopéia que ecoava nos corredores do saudoso colégio, era o espirro do tio Lauris em bem alto e bom som que todos ouviam a imitar a palavra WHISKY!

*Francisco de Assis de Freitas Silva é cronista e membro da Academia Canindeense de Letras, Artes e Memória  - ACLAME

"Jornalismo sem diploma: liberdade, democracia e os novos tempos da comunicação" - Por Barros Alves

                                                                        


A discussão sobre a exigência de diploma universitário para o exercício do jornalismo volta, de tempos em tempos, ao debate público brasileiro. É uma discussão legítima, mas que precisa ser travada com serenidade, sem corporativismos e, sobretudo, sem perder de vista um princípio superior: a liberdade de expressão e o direito de informação são fundamentos da democracia e não podem ser submetidos a controles estatais que estabeleçam barreiras prévias ao livre exercício da comunicação. Foi precisamente nessa direção que o Supremo Tribunal Federal decidiu, em 17 de junho de 2009, no julgamento do Recurso Extraordinário nº 511.961, por oito votos a um, que era inconstitucional a exigência de diploma de jornalismo como condição para o exercício da profissão. O STF entendeu que o artigo 4º, inciso V, do Decreto-Lei nº 972/1969, editado durante o regime militar, não havia sido recepcionado pela Constituição de 1988. A decisão não foi um ataque ao jornalismo. Ao contrário: foi uma afirmação da liberdade de imprensa. O relator do processo, ministro Gilmar Mendes, sustentou que jornalismo e liberdade de expressão estão intimamente ligados e que não seria constitucionalmente aceitável transformar o diploma universitário em uma espécie de licença estatal para que alguém pudesse informar a sociedade. A Corte considerou ainda que a exigência contrariava a liberdade de manifestação do pensamento prevista na Constituição e a liberdade de expressão consagrada no artigo 13 da Convenção Americana sobre Direitos Humanos. É importante recordar esse fundamento porque, às vezes, parece que se pretende fazer do diploma aquilo que a própria Constituição não permite: uma espécie de autorização prévia para falar, escrever, informar, interpretar e transmitir ideias.

Defender a não obrigatoriedade do diploma não significa desvalorizar os cursos de Jornalismo. Muito pelo contrário. Uma boa formação universitária pode ser extraordinariamente importante para quem deseja exercer o jornalismo. História, sociologia, economia, ciência política, filosofia, direito, língua portuguesa, técnicas de apuração, ética profissional, comunicação e novas tecnologias são instrumentos preciosos para o jornalista. Mas uma coisa é reconhecer o valor da formação; outra, completamente diferente, é transformar essa formação em condição jurídica obrigatória para que alguém possa exercer a atividade jornalística. O diploma pode abrir portas, oferecer conhecimento, aperfeiçoar o profissional. Pode conferir maior preparo técnico e intelectual, mas não deveria constituir uma barreira legal à manifestação jornalística. O jornalismo, afinal, não nasceu nas universidades. Antes da institucionalização acadêmica da profissão, jornais foram fundados e dirigidos por escritores, políticos, historiadores, intelectuais, homens públicos e autodidatas, como é o meu caso e de muitos outros que há muitos anos militam na Imprensa d'aquém e d'além. A história da imprensa brasileira é inseparável da história de pessoas que aprenderam o ofício na redação, na experiência cotidiana, na leitura, na observação dos fatos e no contato permanente com a sociedade. E essa tradição não desapareceu. 

A experiência internacional também recomenda prudência diante de qualquer tentativa de transformar o diploma em requisito obrigatório. Nos Estados Unidos, não existe uma exigência legal geral de diploma específico em Jornalismo para que alguém possa trabalhar como jornalista. A própria jurisprudência norte-americana reconhece que nenhum diploma acadêmico específico constitui requisito para o ingresso na atividade jornalística. Em caso envolvendo jornalistas do "Concord Monitor", por exemplo, a Corte de Apelações do Primeiro Circuito registrou que nenhum grau acadêmico específico era pré-requisito para a entrada no campo jornalístico. No Reino Unido, igualmente, não há uma exigência legal geral de diploma de Jornalismo para o exercício da atividade. Estudos sobre o perfil dos jornalistas britânicos mostram, inclusive, trajetórias profissionais construídas por diferentes vias de formação, e a literatura especializada registra que o diploma não é requisito jurídico para a prática do ofício. Isso não significa que nesses países a formação seja desprezada. Significa apenas que formação profissional e liberdade de acesso à profissão são conceitos que podem conviver. É perfeitamente possível estimular a qualificação dos jornalistas sem transformar o Estado em porteiro da liberdade de expressão.

Há, entretanto, um argumento ainda mais poderoso: o mundo da comunicação de 2026 não é o mundo da comunicação de 1969. Quando o Decreto-Lei nº 972 foi editado, o universo da informação era essencialmente constituído por jornais impressos, rádio e televisão. A produção e a distribuição das notícias dependiam de estruturas empresariais relativamente concentradas e de equipamentos aos quais pouquíssimas pessoas tinham acesso. Hoje, qualquer cidadão dispõe de um telefone celular capaz de produzir texto, fotografia, áudio, vídeo e transmissão ao vivo e de alcançar, potencialmente, milhares ou milhões de pessoas. A internet dissolveu fronteiras que pareciam definitivas. Blogs, podcasts, plataformas de vídeo, redes sociais, newsletters, canais independentes e inúmeras outras formas de comunicação produziram uma extraordinária descentralização da informação. O cidadão deixou de ser apenas receptor de notícias e passou também a ser produtor, testemunha, comentarista e disseminador de acontecimentos. É uma transformação tecnológica, mas também uma transformação política e cultural. A antiga comunicação de massa era predominantemente vertical: poucos produziam, muitos recebiam. A comunicação digital é, em grande medida, horizontal: muitos produzem, muitos recebem, muitos comentam e muitos redistribuem. É claro que isso não significa que toda informação produzida nas redes seja jornalismo de qualidade. Evidentemente não é. Também não significa que a internet tenha eliminado a necessidade de jornalistas profissionais. Ao contrário: em um ambiente saturado de informações, a apuração, a verificação, a contextualização e a responsabilidade jornalística tornam-se ainda mais importantes. Mas é justamente por isso que não se deve confundir jornalismo profissional de qualidade com jornalismo monopolizado por uma determinada credencial estatal.

Um dos argumentos utilizados pelos defensores da obrigatoriedade do diploma é o combate à desinformação. O problema existe e é grave. Notícias falsas, manipulação de imagens, inteligência artificial, perfis fraudulentos, conteúdos fabricados e campanhas de desinformação representam desafios reais para as sociedades democráticas. Mas a resposta não pode ser a criação de uma espécie de reserva legal da palavra. A democracia não se fortalece quando o Estado decide antecipadamente quem pode ou quem não pode informar.

Fortalece-se quando há pluralidade de fontes, liberdade de imprensa, transparência, direito de resposta, responsabilização civil e penal pelos abusos, ética profissional, educação midiática e liberdade para o cidadão comparar versões e formar seu próprio juízo. A melhor defesa contra a mentira não é proibir pessoas de falar. É permitir que outras pessoas possam falar, contestar, investigar e demonstrar que a mentira é mentira. A própria Constituição oferece instrumentos para responsabilizar abusos. Liberdade de expressão não significa irresponsabilidade. Quem calunia, difama, injuria, frauda ou viola direitos de terceiros pode responder por seus atos. O que não se deve fazer é transformar a possibilidade de abuso em justificativa para estabelecer um controle prévio sobre quem pode exercer a comunicação.

Existe ainda uma questão fundamental: o diploma não é certificado automático de competência, assim como a ausência de diploma não é certificado de incompetência. Existem excelentes jornalistas diplomados e excelentes jornalistas formados pela experiência. Há profissionais medíocres com diploma e profissionais extraordinários sem ele. A qualidade do jornalismo deve ser aferida pelo trabalho realizado. Precisão, apuração, honestidade intelectual, capacidade de investigação, clareza, conhecimento, equilíbrio, independência e responsabilidade são valores que não cabem inteiramente em um pedaço de papel. O leitor, o ouvinte e o espectador também exercem um papel decisivo nessa seleção. A reputação profissional é construída ao longo do tempo. Uma sociedade livre precisa confiar na capacidade dos cidadãos de escolher suas fontes e de comparar informações. Há, portanto, uma questão de fundo que transcende a regulamentação de uma profissão. Quem controla a entrada no campo da informação controla, em alguma medida, o próprio campo da informação. Por isso, toda tentativa de criar mecanismos estatais capazes de determinar quem pode ou não pode exercer atividade jornalística deve ser examinada com extremo cuidado. Não se trata de proteger a má informação. Trata-se de proteger a liberdade. E aqui se encontra uma das maiores virtudes da decisão tomada pelo STF em 2009. A Corte compreendeu que a liberdade de expressão não pode ser pensada como uma concessão do Estado. Ela é um direito fundamental.

A própria página de comentário à Constituição, do STF, ao tratar da matéria, registra que os artigos 5º, IV, IX e XIV, e o artigo 220 da Carta Magna não autorizam controle estatal sobre o acesso e o exercício da profissão jornalística e que controles desse tipo poderiam configurar controle prévio, incompatível com a liberdade de expressão e de informação. É esse o ponto que não pode ser esquecido.

Mais preocupante do que a discussão acadêmica sobre a conveniência ou inconveniência de um diploma é quando a defesa da obrigatoriedade passa a ser utilizada como instrumento de poder. Toda instituição democrática deve desconfiar de soluções que concentrem excessivamente em poucas mãos a capacidade de definir quem pode falar. A imprensa livre,  jornalista independente, o cidadão que investiga, pergunta, critica e divulga informações incomodam os espiritos autoritários oportunistas encarrelados no poder. É exatamente por isso que a liberdade de expressão é tão importante. Em uma democracia verdadeira, não se pode ter medo da multiplicidade de vozes. O pluralismo não é uma doença da democracia; é uma de suas condições de existência. Nesse sentido, qualquer pretensão de utilizar a regulamentação profissional como instrumento para restringir o universo daqueles que podem produzir e difundir informações precisa ser vista com desconfiança. Não se pode permitir que um legítimo debate sobre qualidade profissional seja convertido, por oportunismo, em instrumento de controle da palavra. Isso seria um retrocesso. E seria particularmente grave quando praticado por aqueles que, por dever institucional, deveriam ser os primeiros a defender as liberdades constitucionais.

A revolução tecnológica tornou irreversível a democratização da comunicação. Pode-se lamentar os excessos das redes sociais e combater a desinformação; pode-se exigir responsabilidade e defender a valorização dos cursos universitários de Jornalismo. Tudo isso é legítimo e necessário. O que não parece legítimo é tentar colocar o gênio tecnológico de volta dentro da garrafa. A comunicação contemporânea já não cabe nos antigos modelos de redação, emissora e jornal impresso. O jornalista profissional continuará tendo papel indispensável, sobretudo pela capacidade de apurar, investigar e contextualizar. Mas ele conviverá com pesquisadores independentes, especialistas, escritores, professores, fotógrafos, documentaristas, comunicadores digitais, testemunhas dos fatos e cidadãos comuns. Essa diversidade é uma conquista civilizatória. Democratizar a informação não significa desqualificar o jornalismo. Significa ampliar o espaço público em que o jornalismo pode existir. Por isso, defender a não exigência de diploma para o exercício do jornalismo não é defender o amadorismo, a irresponsabilidade ou a mentira. É defender uma concepção liberal e democrática da liberdade de expressão. Ou seja, ninguém deve precisar de uma autorização estatal para ter o direito de informar e de expressar suas ideias. O diploma deve ser valorizado como instrumento de formação, nunca transformado em instrumento de interdição. A democracia precisa de bons jornalistas, mas precisa, antes de tudo, de liberdade. E quando a liberdade é sacrificada em nome de uma suposta proteção da sociedade, convém lembrar que muitas vezes é justamente aí que começa o caminho para o autoritarismo. A história já ensinou essa lição. Não deveríamos precisar aprendê-la novamente.

Por pertinente e ilustrativo devo lembrar que a história da imprensa brasileira também desmente o dogma do diploma. Há, aliás, uma circunstância que não pode ser ignorada por quem pretende transformar o diploma específico em condição indispensável ao exercício do jornalismo. A própria história da imprensa brasileira é povoada por nomes de extraordinária competência que não possuíam formação acadêmica em Jornalismo. Não se trata de uma afirmação abstrata. Urge lembrar que no próprio julgamento do Recurso Extraordinário nº 511.961, em 2009, o ministro Carlos Ayres Britto, ao defender a inconstitucionalidade da exigência do diploma, lembrou alguns dos maiores nomes da cultura e da imprensa brasileira, tais como Carlos Drummond de Andrade, Otto Lara Resende, Manuel Bandeira e Armando Nogueira. A referência é particularmente significativa porque veio justamente do Supremo Tribunal Federal, no momento em que a Corte examinava a compatibilidade da exigência do diploma com a Constituição de 1988.

A lista histórica pode ser ainda ampliada com nomes como Assis Chateaubriand, um dos maiores nomes da imprensa brasileira no século XX, que não era diplomado em Jornalismo. Bacharel em Direito, tornou-se, contudo, o fundador de um dos maiores impérios de comunicação da história do país, os Diários Associados. Sua trajetória demonstra que conhecimento, capacidade intelectual, cultura e talento para a comunicação não são atributos que possam ser medidos exclusivamente pela posse de um diploma específico; Samuel Wainer, fundador da Última Hora e um dos grandes jornalistas e empresários da imprensa brasileira, também não possuía diploma de Jornalismo. Sua carreira foi construída nas redações e nas ruas, pela reportagem, pela capacidade de interpretar a realidade e pela extraordinária habilidade de comunicação. Sua importância na história da imprensa brasileira é incontestável; Carlos Lacerda, jornalista, escritor e fundador da Tribuna da Imprensa, também se tornou uma das figuras mais influentes do jornalismo brasileiro do século XX sem formação específica em Jornalismo. Independentemente das controvérsias políticas que cercaram sua trajetória, sua capacidade como jornalista, articulista e polemista marcou profundamente a imprensa brasileira; Nelson Rodrigues, outro exemplo emblemático, começou muito cedo no jornalismo. Aos 13 anos já trabalhava como repórter policial no jornal A Manhã. Tornou-se posteriormente um dos mais importantes cronistas brasileiros, além de dramaturgo e escritor. Sua trajetória é particularmente eloquente porque demonstra que o jornalismo também pode nascer de uma vocação literária, de uma extraordinária capacidade de observação da sociedade e de uma longa experiência nas redações; Joel Silveira é talvez um dos exemplos mais eloquentes. Considerado um dos grandes repórteres brasileiros do século XX, trabalhou nas revistas "Dom Casmurro" e "Diretrizes", nos "Diários Associados", em "O Estado de S. Paulo", no "Correio da Manhã" e em outras publicações. Foi correspondente de guerra junto à Força Expedicionária Brasileira e recebeu, entre outros, os prêmios Esso Especial, Jabuti e Machado de Assis. Sua carreira de mais de seis décadas é uma demonstração de que o jornalismo se aprende também na prática, pela observação, pela apuração, pela convivência com os fatos e pela responsabilidade perante o leitor. 

Merece destaque a figura do jornalista Augusto Nunes. Ele não possui diploma de Jornalismo. Chegou a cursar Jornalismo na Escola de Comunicações e Artes da USP, mas não concluiu o curso. Antes disso, também havia iniciado Direito na UFRJ, igualmente sem concluir. Augusto Nunes construiu uma carreira de enorme relevância na imprensa brasileira: foi repórter de O Estado de S. Paulo e da Veja, dirigiu Veja, Época e Forbes Brasil, além dos jornais O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil e Zero Hora. Também recebeu quatro vezes o Prêmio Esso de Jornalismo. Augusto Nunes é, portanto, um exemplo eloquente de que o diploma não é sinônimo de competência jornalística. Sua carreira demonstra que o jornalismo se faz, sobretudo, com talento, cultura, domínio da língua, apuração, experiência e compromisso ético. E não simplesmente pela posse de um diploma.

Podemos citar ainda Roberto Marinho, fundador das Organizações Globo; Bóris Casoy, um dos nomes mais conhecidos do telejornalismo brasileiro; Ricardo Boechat, cuja carreira no rádio e na televisão o transformou em uma das vozes mais respeitadas da imprensa brasileira; e Joseval Peixoto, formado em Direito e reconhecido por sua longa atuação no radiojornalismo. Nenhum desses exemplos autoriza a conclusão simplista de que a formação universitária seja inútil. Eles demonstram outra coisa: a excelência jornalística não é monopólio de uma determinada formação acadêmica. O mesmo raciocínio vale para Carlos Drummond de Andrade, formado em Farmácia, que exerceu intensa atividade jornalística e se tornou um dos grandes cronistas da língua portuguesa; Manuel Bandeira, poeta e intelectual que também colaborou intensamente com a imprensa; e Otto Lara Resende, cuja carreira literária e jornalística se confundiu com a própria história da imprensa brasileira. 

Não por acaso, repito,  esses nomes foram lembrados no voto do ministro Ayres Britto. Esses exemplos não devem ser utilizados para diminuir a importância das faculdades de Jornalismo. Seria uma conclusão ignara. Uma boa formação universitária pode oferecer ao futuro jornalista instrumentos indispensáveis de apuração, ética, história, economia, política, sociologia, comunicação e domínio das novas tecnologias. O que esses exemplos demonstram é algo mais simples e mais profundo, qual seja o de que  uma coisa é possuir formação; outra é possuir uma autorização estatal para exercer a liberdade de informar. A primeira deve ser estimulada; a segunda, numa sociedade democrática, merece ser vista com extrema cautela. Insisto também que não se deve confundir diploma com competência e, muito menos, diploma com ética.

Um certificado universitário comprova que determinada pessoa concluiu um curso. Não pode, por si só, atestar que ela será um jornalista competente, independente, honesto ou intelectualmente responsável. A ética profissional nasce de valores, caráter, compromisso com a verdade factual, respeito às fontes, responsabilidade diante do público e consciência das consequências daquilo que se publica. A formação acadêmica pode — e deve — contribuir para tudo isso, mas não constitui garantia automática dessas virtudes. Do mesmo modo, a ausência de diploma não constitui prova de incompetência ou de falta de ética.

A história da imprensa brasileira oferece testemunhos eloquentes dessa realidade. Muitos profissionais que não possuíam diploma específico de Jornalismo deixaram uma obra marcada pela competência, pela coragem e pelo compromisso com o ofício. Foram jornalistas porque fizeram jornalismo; e fizeram-no com excelência. É precisamente por isso que a liberdade profissional não deve ser confundida com a dispensa da responsabilidade. Quem informa deve responder pelo que informa; quem acusa deve provar; quem erra deve corrigir; quem calunia, difama ou injuria deve responder na forma da lei. Tudo isso está posto no Código Penal e outros dispositvos legais que não cabem mais nas estantes da faculdades e dos tribunais.

Quem utiliza a liberdade de imprensa para cometer abusos não pode esconder-se atrás da própria liberdade. Mas nenhuma dessas responsabilidades exige que o Estado estabeleça previamente quem está autorizado a exercer a atividade jornalística. No final das contas, o leitor não pergunta a um grande repórter qual foi a universidade que frequentou antes de acreditar em sua reportagem. O que ele procura é a qualidade da informação.

“O Inferno astral de Lula: O passado se reproduzindo no presente” – Por João Arruda

Nos últimos meses, Lula voltou a mergulhar em um profundo inferno astral. Uma avalanche de escândalos, denúncias e investigações trouxe à tona episódios que não apenas comprometem seu projeto de reeleição, mas também reacendem na memória coletiva os casos de corrupção que marcaram suas duas primeiras gestões e que inevitavelmente estarão presentes nas lembranças dos eleitores no dia 4 de outubro. Por suas criminosas estripulias, Lula foi condenado, por unanimidade, em três instâncias, pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, uma marca indelével que o consagra como o presidente mais corrupto da história do Brasil. E o revelador nessa história é o fato do seu DNA de corrupção ter sido transmitido com eficiência aos seus familiares.

No primeiro governo de Lula, a Telemar (atual Oi) surpreendeu os brasileiros ao investir R$ 103 milhões na desconhecida Gamecorp, empresa da qual Lulinha era sócio majoritário. A revelação desse vultoso aporte causou enorme repercussão, sobretudo porque a experiência profissional mais notória do filho do presidente até então havia sido como tratador de animais em um zoológico paulista. Questionado pela imprensa sobre as razões que levaram a Telemar a aplicar tamanha soma em uma companhia sem tradição no setor de telecomunicações, Lula tergiversou e reagiu com ironia, afirmando que Lulinha era o “Ronaldinho dos negócios”, uma frase que soou como deboche diante das acusações que cercavam seu filho.

Na atual gestão, Lulinha está sendo investigado pela PF por suspeita de tráfico de influência, corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Em declaração à PF, Edson Claro, ex-assessor do “Careca do INSS” afirmou que Lulinha recebia do esquema R$ 300 mil mensais e teria recebido uma bolada de R$ 25 milhões. A genética da família Lula, pelo que vemos, é incrível! Frei Chico, irmão mais velho do Lula, usando a sombra do poder do irmão-presidente, também tem se mostrado um gênio dos negócios. Na primeira gestão do Lula, recebia uma mesada da Construtora Odebrecht – a empresa mais envolvida na roubalheira da Lava Jato. Segundo Alexandrino Alencar, então diretor de Relações Institucionais da Odebrecht, o Frei Chico, a pedido de Lula, recebia uma espécie de “mesada” sem prestação de serviços correspondente. Os valores teriam começado em R$ 3 mil mensais e depois subido para R$ 5 mil, pagos em espécie. Na atual gestão, ele também aparece envolvido em esquemas fraudulentos.

Segundo apurou a CPMI do INSS, o Sindnapi, onde Frei Chico é vice-presidente, recebeu aproximadamente R$ 599,5 milhões em mensalidades associativas descontadas ilegalmente dos benefícios de aposentados e pensionistas. E os escândalos do governo, desta vez, não se limitam aos seus familiares e velhos conhecidos “cumpanheiros” petistas: atingem assessores diretos, aliados estratégicos, ministros do STF, Líderes do Centrão, figuras próximas ao poder e, sobretudo, seu primogênito Lulinha, sua “amiguinha” Roberta Luchsinger, e o Careca do INSS, todos implicados no caso do Banco Master ou no assalto bilionário às contas dos indefesos aposentados e pensionistas do INSS. O cenário de corrupção é devastador e evoca uma sensação de déjà vu impossível de ignorar: o passado de corrupção, cooptação e fisiologismo não apenas retorna, mas se impõe com força renovada, revelando que a história de corrupção petista insiste em se repetir como farsa e tragédia ao mesmo tempo.

Segundo reportagem investigativa do portal Poder360, as raízes da expansão das operações de consignado do Banco Master estão na privatização do Credcesta, antigo cartão de compras estatal baiano transformado em plataforma financeira. As matérias apontam que articulações iniciadas na gestão de Jaques Wagner e decretos editados pelo então governador Rui Costa garantiram margens exclusivas de consignado e restrições à portabilidade de crédito, favorecendo a operação privada de Augusto Lima, que posteriormente se associou a Daniel Vorcaro. O arranjo garantiu um mercado cativo com juros elevados sobre os servidores da Bahia, servindo de balão de ensaio para o esquema ganhar escala nacional. Em outra frente, investigações e membros da CPMI apontam indícios de que os petistas baianos Rui Costa e Jaques Wagner atuariam como supostos “sócios ocultos” ou beneficiários diretos das operações de Vorcaro e Augusto Lima. Em paralelo ao caso do Banco Master, o escândalo do INSS expôs um esquema de corrupção que atingiu diretamente milhões de aposentados e pensionistas, vítimas de fraudes bilionárias em empréstimos consignados e descontos não autorizados. A crise colocou o governo Lula no epicentro da roubalheira.

Os desdobramentos da CPMI alcançam figuras próximas ao poder, mencionando desde familiares do presidente, como Lulinha e Frei Chico, até aliados históricos, a exemplo do ex-ministro Carlos Lupi (PDT). O mapa das investigações se estende também ao setor financeiro, envolvendo empresários ligados ao Banco Master, como Daniel Vorcaro e Augusto Lima, além de supostos sócios ocultos, Rui Costa e Jaques Wagner, dirigentes do PT na Bahia. A trama inclui ainda articuladores como a lobista Roberta Luchsinger e a figura central conhecida como o “Careca do INSS”. Nos primeiros dias de agosto, um novo escândalo de grandes proporções teria surgido no núcleo duro do governo Lula, envolvendo o ex-chefe de gabinete Marco Aurélio Santana Ribeiro (“Marcola”), a lobista Roberta Luchsinger e o Lulinha. De acordo com informações divulgadas pela mídia, Luchsinger teria repassado a Marcola cerca de R$ 249 mil, além de joias de alto valor, recentemente descobertas.Recursos linguísticos

Após o vazamento dessas suspeitas pela Polícia Federal, Lula demitiu discretamente Marcola, nomeando em seu lugar o ex-secretário executivo do Ministério da Saúde, Swedenberg Barbosa, o Berger. Pouco depois de assumir o cargo, vieram à tona denúncias de supostas irregularidades envolvendo Berger e o chamado “Careca do INSS”, com a participação de Lulinha e da lobista Luchsinger. Na segunda-feira, dia 16, foi divulgado um diálogo considerado revelador entre Lulinha e Luchsinger. O conteúdo indicaria que o “Ronaldinho dos negócios” não apenas mantinha uma relação pessoal com a lobista, mas também seria apontado como o verdadeiro articulador do esquema, utilizando tráfico de influência para abrir portas nos ministérios e garantir o enriquecimento milionário do grupo.

Pelo ritmo dos acontecimentos e para o desespero dos lulopetistas, tudo indica que novas e sucessivas denúncias de corrupção envolvendo Lula, Lulinha, Luchsinger e outras figuras próximas ao núcleo do poder continuarão a surgir. Articulistas da grande mídia já especulam que Lulinha será intimado a depor na Polícia Federal, com risco de sair de lá direto para a Papuda. A CNN, em uma postagem na tarde de ontem, dia 17, confirmou que Lulinha está sendo intimado a depor na PF. Esses fatos têm potencial para implodir de vez a candidatura do ex-condenado e afastar do cenário  político esse grupo acusado de saquear o Estado e comprometer o futuro da nação. O dia 4 de outubro se aproxima como um divisor de águas. Caberá ao eleitor decidir se teremos a coragem de varrer para sempre essa corja abjeta do cenário nacional ou se, por covardia ou conivência, continuaremos a alimentar o atraso, a corrupção e a degradação moral que sufocam o futuro do Brasil.Sindicatos e movimento laboral

*João Arruda é sociólogo e professor. Ex-diretor da Casa de Cultura da Universidade Federal do Ceará.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

"O AVESSO DA PELE: quando o aplauso não basta" - Barros Alves

                                                                    


Por primeiro, devo dizer que não me causará surpresa se algumas vozes  assestarem suas baterias verbais contra  mim. Normalmente  críticos alinhados com a imbecilidade - suprema imbecilidade  - do politicamente correto. Se porventura isso ocorrer não será a primeira vez e certamente não será a última que alguns poucos se incomodam com o meu modesto exercício de crítica literária. Certa vez quase me linchavam em razão de texto que escrevi intitulado "Chico Buarque, um estorvo na literatura brasileira." Porque o romance "Estorvo", a meu entender, é um fraco passeio literário. Posteriormente, o respeitado crítico e historiador da Literatura, Wilson Martins, expressou pensamento igual ao meu.

Vamos, pois, botar as coisas pelo avesso. Não é a primeira vez que livros chegam às mãos do leitor precedidos por uma espécie de unanimidade crítica. São elogiados, premiados, recomendados, incorporados às listas de leitura e apresentados como obras indispensáveis da literatura contemporânea. O leitor, então, abre o livro esperando encontrar aquilo que a reputação promete. E pode acontecer justamente o contrário. A leitura termina e permanece uma sensação incômoda de decepção.

Foi o que me ocorreu com "O Avesso da Pele," de Jeferson Tenório. Reconheço a importância dos temas abordados e compreendo as razões pelas quais a obra encontrou tamanha acolhida. Mas, como leitor, não consigo confundir a relevância de um tema com a excelência de sua realização literária. E é precisamente nesse ponto que minha discordância se estabelece.

Minha impressão é a de que estamos diante de um livro muito mais forte em sua pauta temática do que em sua arquitetura literária. O assunto é grave, atual e mobilizador. O racismo, a violência, as relações familiares, a experiência da população negra e as marcas psicológicas deixadas pela discriminação constituem matéria legítima e poderosa para a literatura. Mas matéria-prima não é obra de arte. Uma grande literatura não se faz apenas pela escolha de temas importantes; faz-se pela capacidade de transformar esses temas em linguagem, personagens, conflitos, ambiguidades e experiências humanas que ultrapassem o circunstancial. E é justamente aí que vejo as principais fragilidades de "O Avesso da Pele."

A escrita de Tenório me parece excessivamente linear e, em muitos momentos, previsível. Há passagens de força, evidentemente, mas falta à narrativa aquela densidade verbal capaz de fazer com que determinadas páginas permaneçam na memória do leitor depois que o livro é fechado. Não me refiro à necessidade de uma linguagem rebuscada. Grandes escritores podem escrever de maneira absolutamente simples. O problema não é a simplicidade; é a falta de tensão estética. A linguagem literária precisa fazer mais do que transportar uma história. Precisa criar atmosfera, sugerir, ocultar, revelar, produzir sentidos que não estejam inteiramente à superfície.

Em "O Avesso da Pele," muitas vezes tive a impressão de que a narrativa explica aquilo que poderia mostrar e afirma aquilo que poderia deixar o leitor descobrir. A literatura, entretanto, não precisa entregar todas as suas conclusões. Sua grandeza está também na capacidade de suscitar dúvidas, contradições e zonas de silêncio. Talvez por isso o livro me pareça mais próximo de uma narrativa de grande apelo imediato do que daquela literatura que se aprofunda progressivamente no espírito do leitor.

A fragilidade que mais me incomodou, contudo, está na construção dos personagens. Personagens literários memoráveis não são apenas aqueles que protagonizam uma história. São aqueles que parecem possuir uma existência própria, inclusive para além das páginas em que aparecem. Têm contradições, hesitações, zonas obscuras, defeitos que não podem ser explicados por uma única circunstância e virtudes que não cabem em uma classificação moral.

Em "O Avesso da Pele" algumas personagens me parecem excessivamente subordinadas à tese que a narrativa pretende desenvolver. Em vez de serem plenamente indivíduos, acabam funcionando, em determinados momentos, como veículos de uma experiência social ou de uma determinada interpretação do mundo. Isso reduz a complexidade humana. Pedro, por exemplo, é construído a partir de sua tentativa de compreender o pai e reconstruir sua memória. A premissa é literariamente fértil. O problema, a meu ver, é que a investigação sobre Henrique nem sempre produz a complexidade psicológica que poderia produzir. Henrique poderia ser uma figura muito mais contraditória, imprevisível e enigmática. Poderia carregar consigo ambiguidades capazes de obrigar o próprio leitor a rever constantemente o julgamento que faz dele. Em vez disso, tenho a sensação de que determinadas características das personagens são reiteradas até que sua função dentro da narrativa fique demasiadamente evidente.

A boa literatura não precisa absolver nem condenar suas personagens. Precisa compreendê-las em sua humanidade. E compreender alguém literariamente é muito mais difícil do que enquadrá-lo.

Não considero ilegítima uma literatura comprometida com questões sociais. A literatura brasileira está repleta de grandes obras que enfrentaram problemas políticos, sociais e econômicos. Machado de Assis, Lima Barreto, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Érico Veríssimo e tantos outros jamais fugiram das questões de seu tempo. Mas há uma diferença fundamental entre uma obra que nasce da complexidade da experiência humana e uma obra na qual a experiência humana parece, por vezes, estar a serviço de uma tese previamente estabelecida. Quando o leitor percebe antecipadamente aquilo que o autor deseja que ele pense, a literatura perde parte de sua capacidade de surpresa. A personagem deixa de perguntar "quem sou eu?" para começar a responder "o que represento?". E uma personagem que representa uma ideia pode ser interessante sociologicamente, mas dificilmente alcança a grandeza de uma personagem que vive suas próprias contradições.

É possível escrever sobre racismo sem produzir personagens unidimensionais; denunciar a violência sem transformar a narrativa em discurso. É possível defender uma causa justa sem fazer da literatura uma espécie de tribunal. Aliás, quando o tema é realmente forte, não há necessidade de sublinhá-lo o tempo inteiro. A literatura confia no leitor. Talvez a minha maior divergência com a recepção entusiasmada da obra esteja justamente no fato de não acreditar que "O Avesso da Pele" vai resistir ao tempo como literatura.

Não questiono seu sucesso, sua circulação, sua importância pedagógica ou sua capacidade de provocar discussões. Tampouco questiono o direito de outros leitores de considerá-lo uma grande obra. O gosto literário não é uma ciência exata. Mas existe uma diferença entre um livro importante para o debate contemporâneo e um livro que se torna parte permanente da literatura. O primeiro pode ser celebrado intensamente por sua sintonia com o espírito de uma época; o  segundo precisa sobreviver à época que o produziu.

É nesse teste que grandes obras se tornam grandes. Daqui a cinquenta ou cem anos, quando muitas das controvérsias atuais tiverem perdido sua urgência, o que permanecerá de determinado livro? Permanecerá a linguagem? Permanecerão as personagens? Permanecerá a construção narrativa? Permanecerão imagens, frases, situações e conflitos capazes de comover um leitor que desconheça completamente o ambiente histórico em que a obra foi escrita? Essa é a pergunta que faço a "O Avesso da Pele". E minha resposta, neste momento, é marcada pela dúvida.

Há ainda uma questão que precisa ser enfrentada com serenidade. A literatura contemporânea parece, algumas vezes, ter incorporado uma espécie de critério extraliterário para a consagração das obras. A identidade do autor, o tema escolhido, a representatividade das personagens, a posição política da narrativa e sua adequação às sensibilidades dominantes podem contribuir para a recepção de um livro. Nada disso, porém, deveria substituir o juízo propriamente literário. Um livro não é bom porque aborda um tema socialmente importante. Também não é ruim porque aborda determinado tema. O que importa é o que o escritor faz com esse material.

Se amanhã um autor escrever um romance extraordinário sobre o racismo, será extraordinário não porque o racismo seja uma questão relevante, mas porque haverá ali literatura de alta qualidade. O contrário também é verdadeiro. Uma causa justa não transforma automaticamente uma obra mediana em grande literatura. 

Talvez seja necessário recuperar algo que parece cada vez mais raro, qual seja o direito de não gostar de um livro consagrado. Existe hoje certa pressão para que o leitor aceite determinados julgamentos críticos como verdades definitivas. Se uma obra foi premiada, aplaudida e incorporada ao cânone contemporâneo, parece quase uma heresia declarar que ela não nos convenceu. Não deveria ser assim. A literatura nasce justamente da liberdade do leitor. Posso reconhecer a importância de "O Avesso da Pele" e, ao mesmo tempo, considerá-lo literariamente insuficiente. Posso respeitar seu autor e discordar de seus resultados estéticos. Posso reconhecer a legitimidade dos temas tratados e ainda assim concluir que suas personagens não alcançaram a densidade que esperava encontrar. Não há contradição nisso. Ao contrário, é precisamente levar a literatura a sério. Porque elogiar um livro apenas por sua mensagem é, de certa maneira, subestimar a própria literatura.

Meu desconforto com "O Avesso da Pele," portanto, não nasce daquilo que o livro pretende discutir, mas de como, a meu ver, realiza literariamente essa discussão. Vejo uma escritura por vezes frágil e insossa, uma narrativa de grande apelo temático, mas de menor potência estética; personagens que poderiam alcançar maior espessura psicológica, mas que frequentemente me parecem subordinados à função que desempenham na tese do romance; e uma linguagem que raramente alcança aquela dimensão de permanência que esperamos encontrar numa grande obra.

Pode ser que eu esteja errado. A literatura tem essa extraordinária capacidade de desmentir os leitores. Talvez o tempo demonstre que estou sendo injusto. Mas o tempo é justamente o grande crítico de todos nós — escritores, críticos e leitores. E é a ele que entrego minha ressalva. Porque há livros que recebem muitos aplausos quando chegam. E há livros que continuam sendo lidos quando os aplausos já silenciaram.

A diferença entre uns e outros talvez esteja no que existe por baixo da pele. Não apenas uma história que o presente considera necessária, mas uma verdadeira experiência literária capaz de atravessar gerações.

domingo, 23 de agosto de 2026

"A Igreja precisa ler seus próprios documentos" - Por Barros Alves

                                                         


         

A sociedade passa por uma crise moral e religiosa sem precedentes. O neopaganismo e outros "ismos" têm carcomido vários segmentos, a Igreja, inclusive. Nesses momentos tempestuosos, que não poucos vêem como apenas um passageiro redemoinho,  no âmbito da Igreja não basta repetir fórmulas de esperança. É preciso voltar às fontes, reler os documentos do Magistério e recuperar aquela capacidade de discernimento que permite distinguir a verdadeira renovação da simples adaptação ao espírito do mundo. Quero crer que estejamos navegando em  um desses momentos em que a Barca de Pedro precisa consertar o rumo. Retornemos às fontes.

Entre os documentos-fonte  que merecem ser novamente estudados estão a Encíclica "Pascendi Dominici Gregis", de São Pio X, publicada em 8 de setembro de 1907, e o Motu Proprio "Sacrorum Antistitum", de 1º de setembro de 1910. Não se trata de ressuscitar controvérsias de outro século, mas de perguntar se alguns dos fenômenos denunciados por São Pio X desapareceram realmente ou apenas assumiram novas linguagens.

A advertência da "Pascendi" permanece impressionantemente atual. São Pio X não se limitou a denunciar os adversários externos da Igreja. Seu diagnóstico mais grave dizia respeito àqueles que se encontravam dentro dela. O Papa advertiu que os fautores do erro não deveriam ser procurados apenas entre os inimigos declarados, pois alguns se ocultavam "no próprio seio da Igreja". E acrescentava, com especial tristeza, que entre eles havia também membros do clero. É uma passagem que deveria ser lida sem precipitação e, sobretudo, sem instrumentalização. O Papa não autorizava ninguém a transformar suspeitas pessoais em condenações. Ele próprio lembrava que somente Deus conhece as intenções interiores. Seu critério era examinar a doutrina, a linguagem e a conduta.

O problema não é simplesmente descobrir "quem é o inimigo", mas identificar o erro que se infiltra na inteligência católica, enfraquece a fé, relativiza o dogma, despreza a Tradição e diminui a autoridade do Magistério.

São Pio X considerava particularmente perigoso aquele que, permanecendo dentro da Igreja, pretendesse reformá-la segundo categorias estranhas ao depósito da fé. Para ele, o perigo era maior justamente porque vinha de pessoas que conheciam a estrutura e a linguagem da própria Igreja.

Três anos depois, São Pio X voltou ao problema no Moto Próprio "Sacrorum Antistitum". O documento nasceu da constatação de que, apesar da "Pascendi", os modernistas não haviam abandonado seus métodos. Segundo o Papa, continuavam a procurar novos adeptos e a disseminar suas ideias por meio de livros, revistas e outros instrumentos de formação.

A preocupação de São Pio X alcançava, portanto, especialmente os lugares onde a formação intelectual e espiritual da Igreja se  realizava: seminários, universidades, centros de estudos e ambientes de formação do clero.

A razão estava evidente. Uma crise doutrinal que contamina os formadores inevitavelmente alcança as gerações seguintes de sacerdotes, religiosos e leigos. Por isso, a "Pascendi" insiste na escolha criteriosa de professores dos seminários e instituições católicas e pede especial vigilância sobre aqueles que difundissem doutrinas incompatíveis com o Magistério.

Nos dias atuais essa preocupação não perdeu a atualidade. Com efeito, os princípios e orientações da "Pascendi" devem ser reafirmados com vigor.

Décadas mais tarde, em 29 de junho de 1972, Paulo VI pronunciou uma das frases mais dramáticas da história recente da Igreja. Ao falar da situação eclesial depois do Concílio Vaticano II, referiu-se à impressão de que, por alguma fresta, "a fumaça de Satanás entrou no templo de Deus".

O contexto é importante. Paulo VI falava de dúvida, incerteza, inquietação, confronto e crise dentro da própria Igreja. A expressão não pode ser reduzida a um slogan utilizado contra o Concílio Vaticano II. Ela nasceu da angústia de um Papa diante de uma crise que ele próprio percebia no interior da comunidade eclesial. É impossível não perceber a impressionante consonância entre a preocupação de Paulo VI e a de São Pio X.

Um Papa, em 1907, advertia para o perigo que penetrava "nas veias e entranhas" da Igreja. Outro, em 1972, lamentava a entrada da "fumaça de Satanás" no templo de Deus. São linguagens diferentes para expressar uma mesma realidade espiritual: a Igreja pode ser combatida de fora, mas também pode sofrer profundamente quando seus próprios membros deixam de pensar, ensinar e agir segundo a fé que receberam.

Nessa crise que alastra no seio da Igreja cristã há mais de cem anos, onde entra a Teologia da Libertação? Aqui é necessário fazer uma distinção histórica e teológica indispensável. Não se pode afirmar simplesmente que toda Teologia da Libertação seja herética. O próprio Magistério posterior distinguiu entre uma legítima reflexão cristã sobre a libertação e determinadas correntes que incorporaram elementos incompatíveis com a fé cristã. O Dicastério (ex-Congregação) para a Doutrina da Fé, sob a direção do então cardeal Joseph Ratzinger, publicou em 1984 a "Libertatis Nuntius", advertindo contra determinadas formas de Teologia da Libertação que utilizavam, de modo insuficientemente crítico, conceitos provenientes de correntes do pensamento marxista e que podiam conduzir a desvios prejudiciais à fé e à vida cristã.

Dois anos depois, a "Libertatis Conscientia" chama a atenção para a verdadeira libertação, ressaltando a dimensão cristã da libertação, deixando claro que a libertação cristã nasce primordialmente da redenção realizada por Cristo e não pode ser reduzida a uma transformação meramente econômica, social ou política.

João Paulo II, ao dirigir-se aos bispos brasileiros em 1986, foi igualmente explícito ao reafirmar o óbvio, ou seja, a verdadeira libertação cristã é, antes de tudo, soteriológica, e somente depois possui consequências ético-sociais e ético-políticas. Reduzir a primeira à segunda seria desnaturar a própria libertação cristã. Portanto, o problema não está em a Igreja defender os pobres, combater a injustiça ou promover a dignidade humana, pois isso sempre realizou cumprindo o mandamento evangélico. Tudo isso pertence profundamente à tradição cristã. O problema surge quando a salvação é substituída pela emancipação política; o pecado pessoal pelo conflito de classes; a conversão por uma revolução social; Cristo por uma ideologia; e o Reino de Deus por um projeto político terrestre.

Nesse ponto, a advertência do Magistério torna-se absolutamente pertinente. O maior perigo talvez não esteja na existência de ideologias fora da Igreja. O mundo sempre produziu ideologias. O perigo começa quando categorias ideológicas passam a determinar a leitura do Evangelho; quando a luta política se transforma em critério para interpretar o pecado; quando determinados grupos sociais são tratados como naturalmente bons e outros como estruturalmente maus; quando a Doutrina Social da Igreja é substituída por uma visão de mundo importada de sistemas políticos; quando a pessoa de Cristo deixa de ocupar o centro da evangelização; quando a Santa Missa é transformada predominantemente em assembleia sociológica; quando o sacerdote deixa de ser visto antes de tudo como ministro do altar e passa a ser apresentado como agente político; quando a catequese perde a transcendência, o pecado, a graça, a redenção, o juízo, a vida eterna e a necessidade da conversão.

É justamente nesse ponto que a Igreja precisa voltar para São Pio X. Não para retornar um século no tempo,, mas para recuperar o princípio do discernimento doutrinal a fim de manter a eterna juventude do ensinamento da Igreja.

 Nos dias atuais a Igreja sofre um processo de apostasia? Certamente não é correto declarar que o Corpo se Cristo presente na Igreja Católica tenha apostatado. A promessa de Cristo permanece: as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Mas pode-se, sim, reconhecer que há fenômenos de apostasia, relativização da fé, abandono da prática religiosa e perda da identidade católica em determinados ambientes e segmentos da Igreja. E  isso é suficientemente grave. Quando um cristão deixa de acreditar na divindade de Cristo, na realidade do pecado, na necessidade da graça, na Ressurreição, na presença real de Cristo na Eucaristia ou na autoridade do Magistério, não estamos diante de uma simples mudança pastoral, mas em face de uma crise da própria fé. Por isso, o caminho não pode ser esconder o problema. Tampouco pode ser transformar toda divergência em acusação de heresia. O caminho é voltar àquilo que São Pio X recomendava: doutrina sólida, filosofia sã, teologia verdadeira, fidelidade à Escritura, aos Padres, à Tradição e ao Magistério. A "Pascendi" é explícita ao exigir especial atenção à formação dos sacerdotes e professores. Talvez a crise seja mais grave  precisamente porque é mais sutil. Não seria precipitado afirmar simplesmente que vivemos uma situação pior do que a enfrentada por São Pio X. Há pelo menos uma razão para considerar nossa época particularmente desafiadora: o erro contemporâneo frequentemente não se apresenta como negação da fé, mas como sua releitura.

O modernismo denunciado por São Pio X procurava acomodar a fé às exigências intelectuais do seu tempo. Hoje, em alguns ambientes, podemos encontrar fenômeno semelhante sob novas formas: a fé reinterpretada à luz da ideologia; a moral subordinada à cultura dominante; a tradição apresentada como obstáculo; o dogma considerado mera linguagem histórica e a autoridade eclesiástica relativizada.

Por isso, a "Pascendi" continua sendo uma espécie de exame de consciência. Não porque tudo aquilo que São Pio X condenou possa ser simplesmente identificado com qualquer corrente teológica contemporânea, mas porque o método de discernimento continua válido.

A pergunta fundamental continua sendo sobre se Cristo está sendo recebido como Senhor, Salvador e Verdade única, ou está sendo reinterpretado para caber nas categorias intelectuais de cada época. Talvez uma das grandes necessidades da Igreja contemporânea seja voltar a ler os documentos da própria Igreja.

Ler São Pio X;

Ler Leão XIII;

Ler Pio XII;

Ler São Paulo VI;

Ler São João Paulo II;

Ler o extraordinário teólogo Bento XVI;

Ler os documentos do Concílio Vaticano II, não com o olhar enviesado de idrologias malsãs, não  fragmentos selecionados, mas integralmente; 

Ler o Catecismo da Igreja Católica, imprescindível;

Ler os documentos do Dicastério para a Doutrina da Fé;

Ler os Padres da Igreja;

Ler Santo Tomás;

E, sobretudo, ler o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Uma Igreja que deixa de conhecer sua própria tradição fica vulnerável a qualquer novidade apresentada como descoberta. São Pio X compreendeu isso perfeitamente e o disse há mais de um século. Sua preocupação não era simplesmente com determinadas ideias, mas com um processo pelo qual a fé poderia ser lentamente corroída por dentro. Por isso sua advertência continua a interpelar a consciência católica. Com efeito, não devemos procurar inimigos em todos os lugares; não devemos suspeitar de todos; não devemos transformar divergências prudenciais em heresias; mas também não devemos ser ingênuos. O erro deve ser combatido onde quer que esteja, inclusive e principalmente quando se apresenta com linguagem religiosa, veste clerical, título acadêmico ou autoridade institucional.

A fidelidade à Igreja não consiste em negar suas crises. Consiste em enfrentá-las com a própria verdade da Igreja. E talvez seja precisamente por isso que a leitura da "Pascendi Dominici Gregis" e do "Sacrorum Antistitum" seja tão necessária hoje. Eu diria imprescindivel. 

Porque, em tempos de confusão, voltar às fontes não é voltar ao passado.

É voltar à verdade.

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

"Romantismo, cognição e política" - Por Rui Martinho Rodrigues

                                                       


O romantismo, como movimento artístico e literário, guarda íntima relação com a Filosofia romântica alemã. Ambos surgiram em fins do séc. XVIII e cresceram no séc. XIX, quando alcançaram grande expressão. Foi uma reação à razão mecanicista do Iluminismo, ênfase na subjetividade e um apelo ao nacionalismo ligado à afirmação da identidade alemã. O titanismo evoca a mitologia grega, na figura dos titãs e de Prometeu, expressa a inconformidade com a realidade e a disposição para romper regras e limites, que é uma das marcas do romantismo.

Friedrich Schlegel (1772 – 1829), na obra "Conversa sobre poesia", aproxima a Filosofia da obra poética, fragilizando a vigilância epistemológica, que é preciosa ao trabalho do filósofo. Mais tarde Lucio Colletti (1924 – 2001), pensador italiano, referiu-se à dialética hegeliana como uma senhora de costumes cognoscitivos fáceis. Aludiu à mistura de teses e antíteses e à cosmogonia não demonstrada.

A síntese dialética do voluntarismo romântico com sua antítese, o determinismo positivista, permitiu a Friedrich Engels (1820 – 1895) explicar tanto a natureza como os fenômenos sociais com a dialética. na obra Dialética da natureza. A senhora de costumes cognoscitivos fáceis permitiu tal inversão.

O titanismo dos românticos ensejou revolta contra regras, limites e fatos. Acabou por guardar relação com o ódio, o extremismo, e desconectado da realidade. Tudo isso foi o resultado da inconformidade em face da realidade, conforme Isaiah Berlim (1909 – 1997), na obra "Ideias políticas na era romântica".

Berlin relaciona o extremismo autoritário e a violência com o romantismo, em razão da tendência para a revolta e o desprezo pela realidade das experiências históricas. Isso é dito indiretamente, associando o romantismo a uma profunda mudança na consciência ocidental, em razão da ressignificação do que entendemos por liberdade, do indivíduo e por autoridade legítima, como consequência da extremada rejeição à racionalidade posta pelo Iluminismo.

A síntese do romantismo com outras tradições cria contradições difíceis de contornar. Surge assim a necessidade de muito contorcionismo lógico, que por sua vez resulta em obras cuja complexidade torna os textos incompreensíveis até para grandes pensadores. A Navalha de Ockham, princípio enunciado por Guilherme de Ockham (1287 – 1347), segundo o qual entre muitas explicações para um fenômeno, provavelmente a mais simples é a correta, colide frontalmente com prestigiosos autores incompreensíveis.

Dificilmente uma banca examinadora aprovaria uma tese que os professores não fossem capazes de entender. A incomunicabilidade dos paradigmas, de Thomas Kuhn, na obra "A estrutura das revoluções científicas", pode explicar a incompreensão dos seguidores de paradigmas distintos. Quando, porém, uma obra é incompreensível até para grande parte dos seguidores da mesma corrente de pensamento, a situação é diferente.

Karl Raymond Popper (1902 – 1994), na obra "Sociedade aberta, universo aberto", que é um conjunto de entrevistas e conversas com o jornalista Franz Kreuzer, afirma que a falta de clareza, quando se trata de pessoa altamente qualificada do ponto de vista intelectual, sugere fundamentação precária, sugestiva de logomaquia. Também pode significar que o véu de Maya, de fala Arthur Schopenhauer (1788 – 1860), na obra "O mundo como vontade de representação", ilusão que recobre o mundo real. Por trás do referido véu se esconde a vontade cega que move o mundo.

O declínio do debate político e filosófico, no contexto da pós-modernidade, reflete efeitos tardios da síntese dialética do espírito romântico com a relativização cognitiva e das referências axiológicas, em nome de uma cultura plural que prega a tolerância e enfatiza a falibilidade enquanto age de modo dogmático em nome do politicamente correto.

Fortaleza, 29 de julho de 2026.

Rui Martinho Rodrigues é escritor, sociólogo e historiador. Presidente de Honra da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo-ACLJ 

sábado, 15 de agosto de 2026

"A pobreza como projeto de poder " - Por Barros Alves

                                                      


Há uma pergunta que o Brasil precisa fazer sem medo, sobretudo às vésperas de mais uma eleição presidencial: por que, depois de décadas de governos e de programas destinados a combater a pobreza, milhões de brasileiros continuam dependendo do Estado para sobreviver?

As pesquisas eleitorais mais recentes acrescentam uma dimensão política inquietante a essa pergunta. No Nordeste, região que concentra alguns dos mais baixos indicadores socioeconômicos do país, Luiz Inácio Lula da Silva mantém vantagem expressiva sobre seu principal adversário, Flávio Bolsonaro. Levantamentos recentes mostram que a força eleitoral de Lula continua particularmente concentrada nessa região.

Não se trata de questionar o direito dos nordestinos de votar em quem quiserem. Democracia é justamente o direito de escolher livremente. A questão é outra: que relação se estabeleceu, ao longo de décadas, entre pobreza, dependência econômica do Estado e fidelidade eleitoral?

O Partido dos Trabalhadores construiu grande parte de sua identidade política sobre a promessa de representar os pobres e combater a desigualdade. Desde a chegada de Lula à Presidência, em 2003, essa narrativa foi reforçada por uma extensa rede de programas de transferência de renda. O Bolsa Família tornou-se o símbolo maior dessa política.

É preciso reconhecer que programas de transferência de renda podem desempenhar uma função social importante.

Mas, constatar a necessidade de assistência aos que realmente precisam não significa aceitar que assistência seja confundida com emancipação.

Uma coisa é o Estado socorrer temporariamente quem atravessa uma situação de pobreza; outra, completamente diferente, é construir uma sociedade na qual milhões de pessoas permanecem indefinidamente dependentes de benefícios públicos, enquanto o setor produtivo é submetido a uma carga tributária pesada para financiar uma máquina estatal cada vez maior.

O pobre precisa de renda, mas precisa, sobretudo, de oportunidade. Precisa de escola que ensine, de formação profissional, de emprego, de segurança para trabalhar. Precisa de saneamento, de infraestrutura, de crédito, de empreendedorismo, de liberdade para produzir. Precisa de um ambiente econômico em que seja mais vantajoso trabalhar do que permanecer eternamente dependente de uma transferência governamental.

O problema começa quando o cidadão deixa de ser visto como alguém que precisa superar a pobreza e passa a ser tratado como alguém que precisa permanecer dependente dela. O próprio Lula já declarou no melhor estilo nazi-stalinista que o pobre é um número.

É aí que a política social pode degenerar em política de dependência. A crítica, evidentemente, não deve ser dirigida ao pobre que recebe um benefício, porque o pobre não é culpado pela pobreza. Tampouco se deve demonizar programas de transferência de renda que ajudam famílias em situação de vulnerabilidade. A crítica deve dirigir-se a um modelo político que, depois de tantos anos, ainda não conseguiu transformar suficientemente assistência em autonomia. Portanto, é perfeitamente legítimo perguntar: qual é a porta de saída?

Se o Estado entrega dinheiro, mas não entrega educação de qualidade; se oferece benefício, mas não cria condições para a formalização do trabalho; se subsidia o consumo, mas não reduz os obstáculos à produção; se aumenta continuamente a arrecadação sem oferecer serviços públicos compatíveis com aquilo que cobra, então alguma coisa está profundamente errada.

E o problema não é apenas econômico. É também político. Quanto maior o contingente de pessoas que depende diretamente do Estado, maior pode ser o poder político de quem controla a máquina estatal. O eleitor deixa de enxergar o governo apenas como prestador de serviços públicos e passa a enxergá-lo como fonte direta de sua sobrevivência.

Essa relação é perigosíssima para uma democracia que se quer madura.

Porque democracia não deve funcionar com o governo concedendo e o cidadão agradecendo; assim o voto transforma-se em retribuição política.

Democracia deve necessariamente funcionar de outra maneira: o Estado cria condições para que o cidadão possa caminhar com as próprias pernas.

O Brasil precisa romper com a ideia de que combater a pobreza significa apenas distribuir dinheiro, cesta básica, vale-gás. Transferência de renda pode ser necessária; não pode, entretanto, ser confundida com projeto nacional de desenvolvimento.

O verdadeiro programa contra a pobreza deveria ser aquele que reduz progressivamente o número de pessoas que precisam do programa.

Esse é o paradoxo que o Brasil precisa enfrentar.

Se depois de décadas de governos que se apresentam como defensores dos pobres, ainda temos uma parcela enorme da população dependente de programas de transferência de renda, é legítimo perguntar se estamos diante de uma política de superação da pobreza ou de uma política de administração permanente da pobreza.

Não é preciso afirmar que o PT deseja a pobreza para fazer essa crítica. Seria impossível demonstrar uma intenção tão abrangente. A questão é mais séria e mais objetiva: o governo assistencialista pode acabar se beneficiando eleitoralmente de um problema que deveria estar empenhado em resolver.

Essa é a pergunta incômoda. E ela vale para a esquerda, para a direita e para qualquer governo.

O pobre não precisa de um político que lhe prometa eternamente um benefício. Precisa de um país que lhe permita deixar de precisar dele. O maior programa social de todos deveria ser aquele que transforma o beneficiário em trabalhador, o trabalhador em empreendedor, o empreendedor em empregador e o dependente em cidadão economicamente independente.

Enquanto isso não acontecer, continuaremos discutindo quem oferece o benefício maior, em vez de discutir por que tantos brasileiros ainda precisam dele. Um país verdadeiramente comprometido com os pobres não deveria querer administrar a pobreza para sempre. Deveria querer acabar com ela.

domingo, 9 de agosto de 2026

"Amor de pai" - Por Barros Alves

                                                   


1

Ser pai é ser abrigo em noite escura,

É ser caminho e  bússola; é ser guarida.

É dar ao filho o pão, o rumo, a vida,

É ser a esperança que perdura...


É ser presença firme na amargura,

É ser luz na chegada e na partida;

É dar a mão na senda percorrida,

Para amparar na queda ou desventura.


Mas, se a morte vier, cruel e fria,

Ceifar do pai o filho tão amado,

Seu próprio coração feneceria.


Pois antes quer o pai ser sepultado

Que contemplar, na mais  triste agonia,

O filho morto e ele inda vivo ao lado.


***


2

Ser pai é ser amparo e fortaleza,

É ser vigília à noite e à  luz do dia,

É dar ao filho o amor e a companhia

E ao seu caminho oferecer firmeza.


É ser conselho, abrigo e segurança,

Guardando o filho na adversidade.

É ensinar-lhe o bem,  fé e verdade,

E alimentar-lhe a alma de esperança.


E se a morte, com sua mão sombria,

Vier roubar-lhe o filho do seu peito,

Preferirá morrer naquele dia.


Pois não há dor que possa ter conceito

Maior, que ver jazer na campa fria

O filho amado, sem jaça e sem defeito.


***

3

Ser pai é enfrentar a aspereza,

É ser farol em noite desabrida,

É dar ao filho um rumo certo à vida,

E à sua alma o senso de grandeza.


É ser o pão, o braço e a certeza

Da confiança que o tempo convalida.

É proteger-lhe o corpo ou a alma ferida,

É transformar a dor em fortaleza.


Se a morte, em seu furor, vier um dia

Roubar-lhe o filho, fruto do seu ser,

Prefere o pai fazer-lhe  companhia.


Ao filho morto não quer sobreviver,

O filho é chama ardente que alumia.

Sem essa luz é bem melhor morrer.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

"O triunfo da mediocridade autoritária" - Por Barros Alves

                                                       


Uma das perguntas mais perturbadoras da história política é esta: como homens de inteligência comum, formação limitada e escassa grandeza moral conseguem dominar povos inteiros e levar personalidades brilhantes à submissão? Como juristas renomados, professores, jornalistas, empresários, religiosos e intelectuais renunciam ao dever de resistir, aceitando ou mesmo justificando o avanço do autoritarismo?

Alexis de Tocqueville advertia que as democracias podem ser corroídas não apenas pela força das armas, mas pela conformidade das consciências. Hannah Arendt mostrou que o totalitarismo prospera quando as pessoas deixam de pensar criticamente e passam a aceitar como normal aquilo que antes lhes parecia intolerável. George Orwell demonstrou que controlar a linguagem é um caminho para controlar a realidade. Aleksandr Soljenítsin, sobrevivente do Gulag soviético, ensinou que a primeira vitória da tirania ocorre quando os homens aprendem a viver na mentira.

Stalin, Hitler e Mussolini pertencem a contextos históricos distintos e governaram regimes totalitários responsáveis por guerras, perseguições políticas e milhões de mortes. Seria incorreto equiparar os governos lulocomunopetistas a essas ditaduras? Eu penso que, mutatis mutandis, não. A  história permite comparar métodos, estratégias e tendências autoritárias, sempre respeitando as diferenças de escala e contexto.

Ao longo dos anos recentes os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff estimularam um modelo de poder caracterizado pela concentração de influência política, pela tentativa de hegemonia ideológica, pelo aparelhamento de significativas parcelas da administração pública, pela aproximação com governos de perfil autoritário na América Latina e em outras regiões do planeta, pela desqualificação sistemática de adversários. Ainda que essas práticas tenham ocorrido dentro de um regime dito democrático, elas suscitam debates legítimos sobre os limites do poder e a necessidade de preservar instituições independentes.

O problema maior, porém, não está apenas nos governantes. Está na capitulação das elites. Ao longo da história, regimes autoritários raramente triunfaram apenas pela força. Contaram sempre com intelectuais dispostos a justificar abusos, jornalistas que relativizaram violações, empresários que preferiram a conveniência ao princípio e líderes religiosos que trocaram a verdade pelo silêncio.

A liberdade não desaparece apenas quando surgem censores oficiais. Ela também enfraquece quando o medo da reprovação social substitui a coragem da palavra livre; quando a autocensura se torna hábito; quando críticas passam a ser confundidas com discursos de ódio; quando o debate é substituído pela desqualificação moral do adversário.

Nenhum projeto político, seja de esquerda ou de direita, pode colocar-se acima da Constituição, da alternância de poder, da liberdade de expressão, da independência do Judiciário e da autonomia da sociedade civil. Esses não são privilégios concedidos pelo Estado, mas fundamentos de uma ordem verdadeiramente democrática.

A maior tragédia política não é o aparecimento de líderes com vocação autoritária, uma vez que eles sempre existiram. A verdadeira tragédia ocorre quando homens e mulheres livres, plenamente capazes de discernir o certo do errado, abandonam o combate moral, acomodam-se ao poder e passam a justificar aquilo que antes condenavam.

A história ensina que as democracias morrem menos pela força dos tiranos do que pela fraqueza daqueles que deveriam defendê-las. A liberdade exige vigilância permanente, coragem intelectual e compromisso inabalável com a verdade. Quando esses valores são substituídos pelo conformismo e pela submissão ao poder, abre-se caminho para que a mediocridade política prevaleça sobre a excelência moral.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

"O conflito entre o Vaticano e a FSSPX" - Por Barros Alves

                                                           


A história recente da Igreja Católica registra poucos episódios tão controversos quanto a excomunhão dos bispos sagrados por Dom Marcel Lefebvre em 1988. Para muitos católicos ligados à tradição, a medida adotada pelo Vaticano representou menos uma necessidade pastoral e mais uma demonstração de autoridade institucional diante de um movimento que se recusava a abandonar práticas litúrgicas e doutrinárias consideradas fundamentais para a preservação da identidade católica.

Sob essa ótica, a excomunhão mostrou-se contraproducente. Em vez de favorecer a reconciliação, aprofundou divisões e alimentou ressentimentos que poderiam ter sido evitados por meio de um diálogo mais paciente e caridoso. Afinal, a Igreja sempre soube conviver com diferentes sensibilidades espirituais e litúrgicas ao longo de sua história. Surge, então, uma pergunta legítima: por que o rito tridentino não poderia ser tratado simplesmente como mais uma expressão legítima da tradição católica?

Muitos fiéis identificam uma aparente incoerência na postura de setores da hierarquia eclesiástica. Enquanto celebrações marcadas por experiências litúrgicas heterodoxas, elementos sincréticos ou adaptações culturais questionáveis frequentemente recebem tolerância ou mesmo incentivo, comunidades profundamente ligadas à liturgia tradicional encontram resistência e restrições. Para esses católicos, o rito tridentino não representa uma ruptura com a Igreja, mas justamente o contrário: uma continuidade visível com séculos de tradição teológica, espiritual e litúrgica.

A questão das sagrações episcopais também merece uma análise mais serena. Dom Marcel Lefebvre não foi um reformador rebelde nos moldes de Martinho Lutero. Era um bispo católico, formado e reconhecido pela própria Igreja, cuja trajetória missionária e fidelidade à fé recebida dificilmente podem ser colocadas em dúvida. Seus defensores sustentam que sua decisão de sagrar bispos não nasceu de um desejo de criar uma nova igreja, mas da convicção de que era necessário preservar uma herança espiritual que julgava ameaçada.

Além disso, existe uma dimensão sacramental que não pode ser ignorada. A teologia católica ensina que o caráter episcopal é permanente. Um bispo validamente sagrado continua sendo bispo, ainda que sofra sanções canônicas. Esse fato ajuda a compreender por que muitos fiéis enxergam a questão não como um problema de validade sacramental, mas como uma disputa disciplinar e jurisdicional.

Os acontecimentos posteriores parecem reforçar essa interpretação. Se São João Paulo II considerou necessária a excomunhão dos bispos da Fraternidade, Bento XVI julgou oportuno remover esse obstáculo para favorecer o diálogo e a reconciliação. Tal decisão demonstrou que a própria Santa Sé reconhecia a conveniência de buscar caminhos menos punitivos e mais pastorais para enfrentar a questão.

Outro aspecto frequentemente ignorado é que, durante o pontificado do Papa Francisco, existiram sinais concretos de aproximação entre Roma e a Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Mesmo um pontífice identificado por muitos como representante de uma linha mais aberta e reformista compreendeu a importância de manter canais de diálogo com os tradicionalistas. Essa disposição revelava que a unidade da Igreja não pode ser construída apenas pela incorporação de correntes progressistas, mas também pelo acolhimento daqueles que desejam conservar formas tradicionais de expressão da fé.

Nesse contexto, muitos católicos ligados à tradição receberam com apreensão as mudanças ocorridas após a morte de Francisco e a eleição de Leão XIV. A preocupação não decorre de uma rejeição ao novo pontífice, mas do receio de que o processo de aproximação entre Roma e a Fraternidade encontre novos obstáculos. Para esses fiéis, a verdadeira solução não está em sanções ou exclusões, mas em um diálogo honesto que reconheça a legitimidade das preocupações levantadas pela FSSPX ao longo das últimas décadas.

A Igreja Católica sempre foi mais forte quando soube integrar diferenças legítimas em torno de uma mesma fé. Por isso, muitos acreditam que a Fraternidade Sacerdotal São Pio X não deveria ser vista como uma inimiga a ser combatida, mas como uma realidade eclesial a ser compreendida e reconciliada. A unidade autêntica nasce da verdade, mas também da caridade. E nenhuma delas prospera quando a lógica do poder se sobrepõe à lógica da comunhão.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

"O vandalismo da memória histórica" - por Barros Alves

                                                                        


Ao visitar Teixeira de Freitas, próspero município do extremo sul da Bahia, depois de longa ausência, eis que não consigo encontrar na sede municipal, a Av. Lomanto Júnior,  nomeação que prestava homenagem a um dos mais influentes líderes políticos baianos da segunda metade do século passado. Sem motivo justificável o nome de Lomanto foi substituído pelo de Zilda Arns, uma personalidade que nunca pôs os pés na cidade. A constatação do desrespeito à memória daquele que foi  governador, senador e deputado federal, leva-me às considerações que seguem.

C.S. Lewis alertava para o perigo das gerações que se julgam capazes de “refundar o mundo”. Em sua arrogância, acreditam que a história começou com elas e que tudo o que as precedeu deve ser submetido ao tribunal ideológico do presente. Lembrai-vos do jargão "nunca antes neste país..." Eis uma ilusão recorrente e profundamente destrutiva. Nenhuma sociedade se sustenta sem memória, e nenhum futuro sólido pode ser construído sobre as ruínas deliberadamente produzidas do passado.

O que se observa hoje no Brasil, e particularmente em determinados ambientes políticos e acadêmicos, é a expansão de uma verdadeira cultura de hostilidade à história. Sob o rótulo aparentemente respeitável das “releituras históricas”, promove-se, na prática, um processo de deslegitimação da memória coletiva. Não se busca compreender o passado em sua complexidade; busca-se condená-lo. Não se pretende ampliar o conhecimento histórico; pretende-se reescrevê-lo segundo os dogmas ideológicos dominantes.

Essa postura tem produzido um fenômeno preocupante: o vandalismo simbólico. Em vez de destruir estátuas com marretas ou incendiar monumentos, apagam-se nomes, eliminam-se homenagens e removem-se referências históricas por meio de atos administrativos. O método mudou; a intolerância permanece a mesma. Trata-se de uma forma de iconoclastia que, sob o discurso da modernização ou da justiça histórica, revela profundo desprezo pela memória institucional e cultural da sociedade.

No Ceará, esse fenômeno tem se manifestado de maneira particularmente inquietante. A retirada do nome de Menezes Pimentel da fachada da Biblioteca Pública do Estado constitui um gesto de ingratidão histórica. Professor, ex-governador e homem público de reconhecida relevância, Menezes Pimentel não emprestou seu nome à instituição por acaso ou favor político. A homenagem representava o reconhecimento de uma trajetória vinculada ao desenvolvimento intelectual e administrativo do Estado. Sua supressão não engrandece a biblioteca nem fortalece a cultura; apenas empobrece a memória coletiva.

Da mesma forma, causam perplexidade as iniciativas que atingem a memória do presidente Humberto de Alencar Castello Branco e do reitor Antônio Martins Filho. Este último foi o fundador e primeiro reitor da Universidade Federal do Ceará, um dos maiores construtores da educação superior cearense. Quanto a Castello Branco, pode-se concordar ou discordar de aspectos de sua atuação política, mas ninguém pode negar sua relevância histórica. A tentativa de reduzir personagens dessa dimensão a caricaturas ideológicas revela menos sobre eles do que sobre aqueles que promovem tal julgamento.

Há algo de profundamente autoritário na pretensão de selecionar quais figuras do passado merecem ser lembradas e quais devem ser lançadas ao esquecimento. Os que hoje se apresentam como defensores da diversidade frequentemente demonstram escassa tolerância diante da diversidade de interpretações históricas. Querem uma memória pública higienizada, filtrada e adaptada às conveniências de sua visão de mundo. O resultado é uma história mutilada, incapaz de ensinar porque foi previamente censurada.

Uma sociedade madura não elimina seus personagens históricos; ela os estuda, contextualiza e debate. O apagamento não produz conhecimento. Ao contrário, produz ignorância. A destruição da memória coletiva nunca foi instrumento de progresso. Dos regimes totalitários do século XX aos movimentos contemporâneos de cancelamento histórico, a lógica permanece a mesma: controlar o passado para dominar a narrativa do presente.

O Ceará e o Brasil possuem desafios muito mais urgentes do que a perseguição simbólica a nomes inscritos em prédios públicos e instituições centenárias. Quando governantes e dirigentes concentram energias em rebatizar espaços e desmontar homenagens históricas, demonstram preocupante inversão de prioridades. A história deixa de ser objeto de estudo para se transformar em alvo de ressentimentos políticos.

A preservação da memória não é um ato de saudosismo. É um dever de civilização. Povos que perdem a capacidade de respeitar sua história acabam perdendo também a capacidade de compreender a si próprios. E aqueles que imaginam estar refundando o mundo costumam descobrir, tarde demais, que estavam apenas destruindo os alicerces sobre os quais ele foi construído.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

"Maracanaú-CE e Teixeira de Freitas-BA: trajetórias semelhantes de desenvolvimento e protagonismo regional " - Por Barros Alves

                                                                 


Em período de férias, por esses dias, depois de breve temporada capixaba, vim dar com os costados no extremo sul da Bahia, com pouso na simpática e buliçosa cidade de Teixeira de Freitas. Causou-me surpresa a similitude entre esse município e Maracanaú, onde se localiza o maior polo industrial do Ceará,  município que muito prezo por motivos vários.

A história recente de muitos municípios brasileiros é marcada por profundas transformações econômicas e sociais. Entre os exemplos mais expressivos desse fenômeno, quero crer que estão os municípios de Maracanaú, no nosso  Ceará; e Teixeira de Freitas, na Bahia. Embora localizados em regiões distintas do Nordeste, ambos compartilham características históricas notáveis: nasceram como pequenas vilas/distritos, conquistaram sua emancipação política no início da década de 1980 e, em poucos anos, tornaram-se importantes polos econômicos de seus respectivos estados.

Até o final da década de 1970, Maracanaú e Teixeira de Freitas eram localidades subordinadas administrativamente a municípios maiores. Maracanaú integrava o território de Maranguape, enquanto Teixeira de Freitas pertencia ao município de Alcobaça. Em ambos os casos, o crescimento populacional, a expansão das atividades econômicas e a crescente importância regional criaram as condições para a emancipação política.

Maracanaú foi emancipado em 1983, enquanto Teixeira de Freitas conquistou sua autonomia em 1985. A emancipação representou um marco decisivo para os dois municípios, permitindo maior capacidade de planejamento, investimentos em infraestrutura e fortalecimento das políticas públicas voltadas ao desenvolvimento local.

Apesar das semelhanças históricas, os caminhos que impulsionaram o crescimento econômico de cada cidade apresentaram características próprias. Em Maracanaú, o desenvolvimento esteve fortemente associado à industrialização. A implantação do Distrito Industrial de Maracanaú, um dos maiores do Nordeste, atraiu empresas de diversos segmentos, gerando empregos, renda e consolidando o município como um dos principais centros industriais do Ceará. Sua proximidade com Fortaleza também favoreceu a integração logística e econômica, ampliando ainda mais seu potencial de crescimento.

Já Teixeira de Freitas experimentou um desenvolvimento baseado principalmente no comércio, nos serviços e na posição estratégica que ocupa no Extremo Sul da Bahia. Situada em uma região de intensa atividade agropecuária e próxima a importantes áreas produtoras de celulose, café e pecuária, a cidade tornou-se um centro regional de negócios, saúde, educação e distribuição de mercadorias. Sua influência ultrapassa os limites municipais, atendendo dezenas de municípios da Bahia, além de localidades do Espírito Santo e de Minas Gerais.

A década de 1980 foi especialmente decisiva para ambos os municípios. Enquanto o Brasil enfrentava desafios econômicos em nível nacional, Maracanaú e Teixeira de Freitas vivenciavam um ciclo de expansão impulsionado por investimentos públicos e privados. O crescimento urbano acelerado atraiu migrantes em busca de oportunidades de trabalho e melhores condições de vida, contribuindo para a rápida ampliação da população e da economia local.

Outro aspecto que aproxima as duas cidades é o papel de centralidade regional que passaram a exercer. Maracanaú consolidou-se como um dos motores econômicos da Região Metropolitana de Fortaleza, destacando-se pela força industrial e pela arrecadação municipal. Teixeira de Freitas, por sua vez, transformou-se no principal centro urbano do Extremo Sul baiano, exercendo liderança econômica, comercial e de serviços em uma vasta área de influência.

Hoje, tanto Maracanaú quanto Teixeira de Freitas figuram entre os municípios mais relevantes de seus estados. Embora tenham seguido modelos de desenvolvimento distintos — um fortemente industrial e outro baseado no comércio e nos serviços — ambos demonstram como a combinação entre emancipação política, localização estratégica, empreendedorismo e investimentos estruturantes pode transformar antigas vilas e distritos em importantes polos econômicos regionais.

A comparação entre essas duas cidades revela que o desenvolvimento não segue um único caminho. Maracanaú e Teixeira de Freitas são exemplos de como diferentes vocações econômicas podem produzir resultados semelhantes em termos de crescimento, geração de oportunidades e protagonismo regional. Suas trajetórias reforçam a importância do planejamento local e da capacidade de aproveitar as potencialidades de cada território para construir um futuro de prosperidade.