domingo, 31 de maio de 2026

"Corações ao Alto" - Por Barros Alves

                                                                         


Há lembranças que o tempo não desgasta. Antes, as torna mais luminosas, como aquelas estrelas antigas cuja luz continua viajando pelo firmamento mesmo depois de já não estarem entre nós. Assim são as imagens de meu pai e de meu irmão, guardadas no sacrário da memória.

Meu pai, Zé Chico da Caiana, era um homem da terra. Agricultor de mãos calejadas, rosto queimado pelo sol e alma moldada pelos rigores da seca e das esperanças da chuva. Não sabia ler nem escrever. Aos olhos do mundo, era um analfabeto. Aos olhos de Deus, porém, era um sábio.

Vejo-o ainda, já envelhecido, sentado à cabeceira da mesa. Sobre ela repousavam os alimentos arrancados do chão pelo suor do seu rosto, conforme a antiga sentença do Gênesis: “Com o suor do teu rosto comerás o teu pão” (Gn 3,19). Ao seu redor, alguns dos dezesseis filhos e outros mais da família, recolhidos em respeitoso silêncio. Então ele unia as mãos, baixava a cabeça e agradecia.

Aquele gesto simples possuía a solenidade de uma liturgia.

Não era apenas uma oração antes da refeição. Era um ato de reconhecimento de que tudo vinha de Deus: o pão, o feijão, a chuva, a colheita, os filhos e a própria vida. Naquele instante, meu pai transformava a mesa familiar em altar e os alimentos em testemunhos da providência divina.

Lembro-me das palavras do salmista: “Todos têm os olhos postos em Ti, e a seu tempo lhes dás o alimento” (Sl 145,15). Meu pai jamais  leu  esse versículo. Contudo, ele o conhecia com uma profundidade que muitos doutores desconhecem. Conhecia-o porque o vivia.

Também me visita a lembrança de meu irmão, Joca, que para mim foi igualmente um pai. Homem da roça, de poucas palavras e muitos exemplos. Quando a noite descia sobre o sertão e o silêncio se espalhava pelos caminhos escuros, eu o via ajoelhado ao lado da rede de dormir.

A luz da lamparina tremulava, projetando sombras nas paredes de barro. E ali estava ele, curvado diante do Mistério.

Rezava sem pressa.

Agradecia sem exigências.

Confiava sem reservas.

Aquele homem simples, cuja existência parecia insignificante aos olhos dos poderosos, dialogava com o Senhor do universo como quem conversa com um amigo próximo. Não pedia riquezas nem honrarias. Agradecia. Apenas agradecia. Porque sabia que Deus tudo provê.

Hoje compreendo que aquelas cenas constituíam uma verdadeira teologia vivida. Não a teologia dos tratados eruditos, mas a teologia dos joelhos dobrados. Não a ciência dos livros, mas a sabedoria do coração.

Meu pai e meu irmão eram homens rudes, sem letras, mas não eram ignorantes. Havia neles uma inteligência espiritual que ultrapassava os limites do conhecimento acadêmico. Conheciam aquilo que Santo Agostinho chamou de “a ciência do amor”, a única capaz de conduzir o ser humano ao encontro de Deus.

Neles eu contemplava uma manifestação da graça. Uma epifania silenciosa que iluminava a casa pobre mais intensamente do que qualquer lâmpada.

Por isso, quando recordo suas figuras ajoelhadas, volto meu pensamento para a oração de Cristo:

“Graças te dou, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11,25).

Quantas vezes os poderosos imaginam possuir todas as respostas, enquanto os pequeninos guardam os segredos essenciais da existência! Quantas vezes os eruditos discutem Deus, enquanto os humildes simplesmente o encontram!

Meu pai encontrou Deus à mesa.

Meu irmão encontrou Deus junto à rede.

E ambos me ensinaram que a verdadeira grandeza não consiste em acumular saberes, mas em reconhecer, com humildade, a fonte de todos os bens.

Hoje, quando a memória me conduz àquelas noites de lamparina e àquelas refeições familiares, compreendo que vivi entre sacerdotes sem batina. Homens simples que celebravam diariamente a liturgia da gratidão. Homens que fizeram da própria vida uma oração.

E se algum dia me perguntarem onde vi mais claramente o rosto de Deus, talvez eu responda sem hesitar: numa mesa sertaneja cercada de filhos, ou sob a luz vacilante de uma lamparina, onde dois homens humildes, de joelhos, agradeciam ao Pai pelos dons que descem do alto.

Porque a fé, quando é verdadeira, não precisa de palácios nem de púlpitos. Basta-lhe um coração agradecido.

Mas a galeria dessas santas lembranças não estaria completa sem a presença de minha mãe adotiva, cuja memória habita em mim com a mesma ternura e gratidão.

Eu a chamava — e ainda hoje a chamo — de Meu Amorzinho.

Quando a recordo, vejo-a sempre com um rosário entre os dedos. As contas gastas pelo uso pareciam prolongamentos de suas próprias mãos, numa intimidade tão profunda com a oração que já não se distinguia onde terminava a mulher e começava a devoção.

Enquanto os homens da casa buscavam no trabalho da roça o sustento cotidiano, Meu Amorzinho travava seus combates no território invisível da fé. Rezava incessantemente. Rezava pelos parentes e aderentes, pela família, pelos enfermos, pelos ausentes e pelos aflitos. Rezava pelos vivos e pelos mortos. Rezava porque acreditava.

Hoje, olhando para trás, para aqueles anos marcados por permanentes lutas pela sobrevivência, imagino que muitas de suas súplicas eram depositadas aos pés de Nossa Senhora das Dores. Quem mais poderia compreender tão profundamente as aflições de uma mãe senão aquela que recebeu, ao pé da cruz, a espada profetizada por Simeão: "E uma espada transpassará a tua alma" (Lc 2,35)?

Talvez por isso Meu Amorzinho encontrasse nela abrigo e consolo. As dores da vida eram confiadas à Mãe das Dores; as incertezas do amanhã, à Rainha da Esperança; os temores da pobreza, àquela que cantou no "Magnificat" a fidelidade de Deus para com os humildes.

Ainda hoje me parece ouvir o suave murmúrio de suas Ave-Marias atravessando as tardes e as noites de nossa casa. Era uma oração simples, mas carregada de uma força que os poderosos dificilmente compreenderiam. Ali estava uma mulher sem pretensões teológicas, mas profundamente mergulhada nos mistérios da fé.

Se meu pai transformava a mesa em altar de gratidão e meu irmão santificava a noite sob a luz da lamparina, Meu Amorzinho convertia o rosário em ponte entre a Terra e o Céu. E assim, cada um à sua maneira, ensinava que Deus se deixa encontrar não apenas nos templos majestosos, mas também nas casas humildes onde a oração brota sincera do coração.

Hoje compreendo que muito da fé que me sustenta nasceu dessas três testemunhas silenciosas: meu pai de mãos postas à mesa, meu irmão ajoelhado junto à rede e Meu Amorzinho com o rosário entre os dedos. Neles resplandeceu aquela sabedoria dos pequeninos de que falou Cristo; neles a graça se fez visível; neles Deus escreveu, sem tinta e sem papel, uma das mais belas páginas de Evangelho que já pude ler.



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domingo, 10 de maio de 2026

"Sonetos para aquela que mais me amou" - Por Barros Alves


 Soneto I

Quando da vida o outono me alcançou,

Voltou-me à alma um lume enternecido:

Teu doce olhar, tão manso e comovido,

Que em minhas noites trêmulas brilhou.


“Meu Amorzinho” — assim te nomeou

Meu coração de afeto estremecido,

Pois foste abrigo, amparo e chão florido

Que a mão de Deus bondosa me ofertou.


Na singeleza do labor constante,

Na fé singela erguida em cada dia,

Formaste em mim o amor ao justo e ao santo.


E hoje ao sentir a dor de estás distante 

Ainda comigo estás, luzeiro e guia

Do filho amado que inda te ama tanto!


Soneto II

Ela tinha um olhar imaculado,

A sua voz, ternura e acalanto.

Uma santa a cobrir-me com seu manto

De puro e imenso amor ornamentado.


Ela me fez sonhar mesmo acordado,

E a apreciar encanto e desencanto,

E tantas vezes enxugou meu pranto

Igual a Virgem ao do Filho Amado.


Retirando os abrolhos do caminho

Estendeu-me um tapete de carinho

A demonstrar o maternal cuidado.


Ela foi minha MÃE sem me parir,

Quando eu chorei ela me fez sorrir,

Luz que fez meu viver iluminado.


Soneto III

Cobria-me com gestos de carinho,

Amou-me desvelada, em plenitude!

Ensinou-me os caminhos da Virtude

E eu a chamava de MEU AMORZINHO.


Ela foi um luzeiro em meu caminho,

O meu sentir jamais não há quem mude

Ao relembrar a doce completude

Do amor imenso de MEU AMORZINHO.


Era uma sábia, tinha engenho e arte.

Sem letra, sem escrita, sem estudo,

Soube empunhar da vida o estandarte.


Mesmo que eu fique cego, surdo e mudo,

Eu juro, espalharei por toda parte:

-- MEU AMORZINHO para mim foi TUDO!


Soneto IV

As lágrimas que eu chorei ela chorava,

As dores que eu senti ela sentia,

O riso que sorri ela sorria,

Os sonhos que eu sonhei ela sonhava.


Ao erro cometido ela ralhava,

Na desobediência reprimia,

Porém, seu doce olhar me bendizia,

Com suas orações me abençoava.


Um rosto todo feito de bondade,

Os gestos todos feitos de carinho,

De imenso amor e generosidade...


Ela foi sempre a luz do meu caminho,

Foi minha mãe de fato e de verdade,

Eu a chamava de MEU AMORZINHO.


Soneto V

Oh, que saudade do beijo e do carinho

Que a minha mãe me dava, eu pequenino;

A doce voz soava como um hino, 

E me chamava de meu amorzinho.


O seu imenso amor, eu imagino,

Iluminou no tempo o meu caminho, 

E eu a chamava de MEU AMORZINHO 

Numa repetição de amor supino.


Seu amor era quase devoção,

E eu inda hoje a vejo num cantinho 

Rogando a Deus por mim em oração.


Deus ouviu os seus rogos direitinho! 

Ela é Santa Tereza do Sertão,

Eternamente será MEU AMORZINHO!


Soneto VI

Quando mergulho em águas já passadas

Invade-me a saudade e a tristeza...

É que me lembro de minha mãe, Tereza,

Uma das mentes mais iluminadas!


A timoneira de um lar modesto e pobre

Era um tesouro de amor e de carinho,

Eu a chamava de “Meu Amorzinho”,

Um largo coração sensível e nobre!


Quão belas as cantigas que eu ouvia!

As quais para ninar-me ela cantava

Em doce e sonorosa melodia...


Era um poema de Deus cada canção,

Era uma santa cantando e eu não sabia:

--Era Santa Tereza do Sertão!












terça-feira, 28 de abril de 2026

"Santa Gianna Beretta Molla" - Por Barros Alves



Ó Gianna, chama pura e luminosa,

Que em Deus firmaste o amor e a confiança,

Da dor fizeste um canto de esperança

A florir fé serena e corajosa.


Teu coração, oferta generosa,

Soube abraçar, na extrema circunstância,

O dom da vida em santa vigilância,

Qual luzeiro em noite silenciosa.


Entre a vida e a morte ergueste um “sim”,

Eco divino em teu sofrer profundo,

Fazendo do teu sacrifício um fim


Que abriu à filha a aurora neste mundo;

E em Deus, que é Vida, repousaste enfim,

Na Eterna Luz do Amor alto e fecundo.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

"A autoridade constitucional do STF e a crise de legitimidade" - Barros Alves

                                                                        


A estabilidade institucional de uma República repousa, em grande medida, na confiança que o povo deposita em suas instituições, com maior relevo nas Cortes supremas. No caso brasileiro, o Supremo Tribunal Federal (STF), concebido como guardião da Constituição, atravessa um momento de crescente contestação pública e jurídica. Tal cenário decorre de dois vetores principais: de um lado, decisões consideradas por parte da doutrina e de juristas como heterodoxas ou mesmo dissociadas dos limites constitucionais; de outro, controvérsias envolvendo a conduta pessoal e institucional de alguns de seus ministros, amplamente repercutidas na mídia.

O chamado “Inquérito das fake news” (Inquérito nº 4.781) constitui o epicentro dessa crise. Instaurado em 2019 por iniciativa do então presidente da Corte, sem provocação do Ministério Público, e com designação direta do relator, o procedimento rompeu com práticas tradicionais do sistema acusatório brasileiro.

A então Procuradora-Geral da República, Raquel Dodge, chegou a sustentar que a investigação seria incompatível com a Constituição, por atribuir ao próprio Judiciário funções investigativas, potencialmente comprometendo sua imparcialidade. Ainda assim, o STF, por maioria, validou a abertura do inquérito, sob o argumento de proteção institucional diante de ameaças e campanhas de desinformação.

O problema, porém, não reside apenas na origem do procedimento, mas em sua evolução. Ao longo dos anos, o inquérito ampliou seu escopo, desdobrando-se em diversas investigações conexas, frequentemente conduzidas sob sigilo e com medidas consideradas por críticos como restritivas à liberdade de expressão e ao devido processo legal. Não por acaso, o ministro Marco Aurélio Mello, atualmente um crítico contumaz da Corte,  referiu-se ao caso como “Inquérito do fim do mundo”, expressão que sintetiza a percepção de um processo sem limites claros de objeto, duração ou competência.

Outro ponto sensível diz respeito a decisões que determinaram a retirada de conteúdos jornalísticos ou o bloqueio de perfis em redes sociais. Em episódio emblemático, o STF ordenou a remoção de reportagem que citava o então presidente da Corte, decisão posteriormente revista, mas que foi amplamente criticada por entidades de imprensa como um ato de censura. Essas medidas suscitam uma questão central: até que ponto a proteção institucional pode justificar restrições a direitos fundamentais? A resposta, longe de consensual, divide a comunidade jurídica e alimenta a percepção de que o Tribunal, em certos momentos, atua como parte interessada, e não como árbitro imparcial.

A crise de legitimidade se agrava quando decisões judiciais se entrelaçam com suspeitas ou controvérsias envolvendo membros da própria Corte. Casos recentes envolvendo o ministro Dias Toffoli, por exemplo, suscitaram questionamentos sobre possível conflito de interesses em investigações nas quais atua como relator.

Ainda que tais episódios sejam objeto de apuração e defesa institucional, e que o próprio STF, em determinados momentos, tenha reafirmado a validade dos atos praticados por seus ministros, o simples surgimento dessas controvérsias já é suficiente para abalar a confiança pública. Em instituições de cúpula, a aparência de imparcialidade é quase tão relevante quanto a imparcialidade em si.

Os defensores da atuação do STF argumentam que a Corte tem exercido um papel crucial na contenção de ameaças à ordem democrática, especialmente em um contexto de radicalização política e disseminação de desinformação. De fato, a proteção das instituições é uma função legítima e necessária.

Entretanto, a crítica central reside no método: ao expandir suas próprias competências, investigar, acusar e julgar em determinados casos, o Tribunal corre o risco de concentrar poderes em grau incompatível com o modelo de separação de poderes consagrado pela Constituição. O STF não é apenas um tribunal; é o vértice do sistema constitucional brasileiro. Por isso mesmo, sua autoridade depende menos da força de suas decisões e mais da legitimidade que delas emana.

A atual crise não se resolve com o silenciamento de críticas nem com a reafirmação abstrata de poderes institucionais. Exige, antes, um movimento de autocontenção, respeito estrito às garantias processuais e transparência irrepreensível na conduta de seus membros.

Sem isso, o risco não é apenas a deterioração da imagem da Corte, mas o enfraquecimento do próprio Estado de Direito que, em última instância, depende de um Judiciário forte, mas também equilibrado, previsível e fiel à Constituição que jurou guardar.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

"Nossa Senhora da Ternura" - Por Barros Alves

                                                                 


Ó Mãe suave, doce Mãe Bondosa

Tua ternura em bálsamo vertida

E o teu imenso amor, ó Mãe querida,

São fonte pura, doce e silenciosa.


Nos braços teus, a angústia dolorosa,

Em esperança e luz é convertida;

Teu manto envolve a lágrima caída

E a torna prece humilde e luminosa.


Senhora da Ternura, em ti contemplo

O amor que, sem alarde, tudo alcança,

Qual chama viva a arder no humano templo.


Inclina, pois, teu rosto de bonança

Sobre este peito em súplica e exemplo,

E faz da dor caminho de esperança.

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Cura a dor que em silêncio me devora,

Ó Mãe de olhar tão manso e compassivo;

Faz brotar em meu peito convulsivo

A fonte clara que minh’alma implora.


Se a noite é densa e a lágrima me aflora,

Sê lume terno, abrigo sempre vivo;

Do coração cansado o lenitivo,

O alento que renasce em boa hora.


Senhora da Ternura, doce guia,

Transforma em paz o pranto que me invade,

E em fé serena esta humana agonia.


Que em teu regaço eu vença a tempestade,

E encontre, além da sombra escura e fria, 

O claro sol da eterna Caridade.

terça-feira, 21 de abril de 2026

"A devoção mariana na visão de Ratzinger" - Por Barros Alves

                                                                         


Considero o Cardeal Joseph Ratzinger, sagrado Papa Bento XVI pela Igreja Católica, como o mais importante teólogo da contemporaneidade. Costumeiramente visito a obra desse homem que foi também um dos pontífices mais sábios na História do Cristianismo. Por agora,  detive-me na leitura do livro "A Filha de Sião - A devoção mariana na Igreja". Trata-se de uma obra breve, porém densa, que se propõe a refletir sobre a figura de Maria à luz da teologia bíblica e da tradição da Igreja. Longe de ser uma mariologia sentimental ou devocional no sentido popular, o texto busca inserir Maria no centro da economia da salvação, conectando-a à história de Israel e à realização das promessas messiânicas. Como quase tudo o que escreveu Ratzinger,  essa abordagem é também um exercício teológico sofisticado.

Ratzinger parte de uma chave hermenêutica fundamental. Maria como “Filha de Sião”, isto é, como personificação do povo de Deus que aguarda a redenção. Essa leitura tem o mérito de evitar uma mariologia isolada, desvinculada da história da salvação. Ao contrário, Maria surge como síntese de um Israel fiel, aquela em quem as promessas se cumprem de modo pleno. Trata-se de uma abordagem profundamente enraizada na exegese tipológica, que vê continuidade entre Antigo e Novo Testamento. O problema, porém, é que essa mesma tipologia pode, por vezes, parecer excessivamente construída, dependente de paralelos que nem sempre são evidentes no texto bíblico em si, mas que derivam de uma tradição interpretativa consolidada.

Outro ponto relevante é o esforço de Ratzinger em equilibrar fé e razão. Ele não apresenta Maria como um dogma isolado ou imposto, mas como consequência lógica da cristologia. Ou seja, a compreensão de quem é Cristo exige uma compreensão adequada de sua mãe. Essa articulação é teologicamente elegante, mas pode ser vista como circular, pois  parte-se da fé cristológica para justificar a mariologia, que por sua vez reforça a própria cristologia. Para leitores fora do horizonte da fé católica, esse movimento pode parecer mais uma reafirmação interna do sistema do que um argumento persuasivo em sentido estrito.

Nesse aspecto, pode-se  questionar a relativa ausência de diálogo com correntes teológicas contemporâneas mais divergentes, especialmente aquelas que propõem leituras histórico-críticas mais rigorosas ou que relativizam o papel singular de Maria. O proprio Papa Leão XIV talvez não se alinhe  com a Mariologia de Ratzinger. Pelo menos é o que se depreende de recente documento emitido pelo Vaticano. Ratzinger, fiel à tradição, privilegia a continuidade doutrinal e a leitura eclesial das Escrituras. Isso garante coesão interna ao texto, mas limita o alcance do debate. Não se trata de um livro que busca confrontar visões opostas de maneira direta, mas antes reafirmar uma interpretação clássica com refinamento intelectual.

Outro aspecto importante é o estilo do escritor. A escrita de Ratzinger é clara, porém exigente. Ele não simplifica em excesso, o que pode tornar a leitura desafiadora para quem não possui familiaridade com teologia. Ao mesmo tempo, essa densidade é justamente o que dá valor à obra, pois evita reducionismos e mantém a reflexão em alto nível. Com efeito, "A Filha de Sião" é uma obra teologicamente consistente e espiritualmente rica, que oferece uma visão integrada de Maria no contexto da revelação cristã. Sua principal força está na capacidade de articular Escritura, tradição e teologia sistemática. Contudo, sua dependência de uma hermenêutica tipológica específica e a limitada abertura a perspectivas críticas mais amplas podem ser vistas como fragilidades, especialmente para leitores que buscam um debate mais plural. Todavia, indiscutivelmente, trata-se de um texto importante para compreender não apenas a mariologia de Ratzinger, mas também sua visão mais ampla da relação entre Igreja, Escritura e história Barros salvação.


* Barros Alves é sócio honorário da Academia Brasileira de Hagiologia - ABRHAGI.

"Tiradentes: a construção simbólica de um mito" - Por Barros Alves

                                                                        


A figura de Tiradentes ocupa um lugar central no imaginário político brasileiro, mas esse lugar é menos fruto de sua relevância histórica imediata e mais resultado de um processo deliberado de construção simbólica ao longo do tempo,  sobretudo durante a Primeira República, instalada no Brasil por um golpe de Estado que derrubou a Democracia coroada. Examinar essa construção exige distinguir entre o personagem histórico, Joaquim José da Silva Xavier, e o mito cívico posteriormente elaborado.

Após a Proclamação da República no Brasil, o jacobinismo do novo regime enfrentava um problema clássico, qual seja o da necessidade de legitimação simbólica. Era preciso criar heróis fundadores que não estivessem associados à monarquia deposta, especialmente à figura de Dom Pedro I. Nesse contexto, Tiradentes foi elevado à condição de mártir da liberdade.

Embora tenha participado da Inconfidência Mineira, movimento de caráter conspiratório e elitista, sua execução em 1792 oferecia um elemento dramático poderoso. Ele foi o único dos réus condenado à morte e submetido ao suplício público. A República reinterpretou esse fato como um sacrifício pela pátria, ainda que a ideia de “independência nacional” não estivesse plenamente formulada nos termos modernos,  entre os inconfidentes.

Diversos historiadores apontam que essa exaltação não foi espontânea. Obras como as de José Murilo de Carvalho mostram como a República construiu um “panteão cívico” para substituir os símbolos imperiais. Tiradentes, nesse sentido, tornou-se funcional, ou seja, um mártir sem poder político real, facilmente apropriável.

A transformação de Tiradentes em herói não se deu apenas por textos e discursos, mas também por imagens. A iconografia produzida no final do século XIX e início do XX é reveladora.

Pintores como Pedro Américo e Décio Villares representaram Tiradentes com longos cabelos e barba, traços ausentes nas descrições mais verossímeis do alferes. Essas imagens aproximam deliberadamente sua figura da de Jesus Cristo, criando um paralelo entre o sacrifício religioso e o político.

A célebre pintura “Tiradentes esquartejado”, de Pedro Américo, dramatiza o suplício de forma quase litúrgica, evocando o martírio cristão. O corpo dilacerado, exposto ao público, assume um valor pedagógico, a tragédia como instrumento de formação cívica. Trata-se de uma estética do sacrifício que busca despertar identificação emocional e consolidar uma memória coletiva.

Essa construção visual não apenas amplifica o papel de Tiradentes, mas redefine sua identidade de militar de baixa patente a redentor da pátria.

Historicamente, contudo, Tiradentes não era o principal articulador da Inconfidência. O movimento envolvia membros das elites coloniais, proprietários de terras, oficiais de alta patente e intelectuais influenciados pelo Iluminismo.

Entre eles destacava-se Tomás Antônio Gonzaga, magistrado e poeta de prestígio, além de figuras como Cláudio Manuel da Costa e Alvarenga Peixoto. Esses homens possuíam capital econômico, cultural e político muito superior ao de Tiradentes, que era um alferes (posto equivalente, salvo engano, a segundo-tenente) e exercia também atividades como dentista e tropeiro.

A escolha de Tiradentes como único executado não decorreu de sua liderança, mas de circunstâncias processuais e políticas.  Ele, ingenuamente, assumiu maior responsabilidade durante o julgamento e não possuía as redes de proteção social que beneficiaram outros réus, muitos dos quais tiveram suas penas comutadas para o exílio.

A elevação de Tiradentes a herói nacional revela mais sobre a República do que sobre o século XVIII. Ao transformá-lo em mártir, o regime republicano não apenas criou um símbolo de resistência, mas também estabeleceu uma narrativa fundadora que rivalizava com a independência conduzida por Dom Pedro I.

Isso não significa que Tiradentes deva ser descartado como figura histórica relevante, mas que sua importância precisa ser compreendida criticamente, distinguindo o homem do mito.

Na verdade, o certo mesmo é que  Tiradentes deve ser visto menos como um herói “natural” da independência e mais como um produto de uma sofisticada operação simbólica, em que história, arte e política se entrelaçam para moldar a memória nacional.

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Vale a pena conferir:

CARVALHO, José Murilo de. "A formação das almas: o imaginário da República no Brasil."

MAXWELL, Kenneth. "A devassa da devassa: a Inconfidência Mineira."

PRADO JÚNIOR, Caio. "Formação do Brasil Contemporâneo."

SOUZA, Laura de Mello e. "Desclassificados do ouro."

SCHWARCZ, Lilia Moritz. "As barbas do imperador" (para entender contexto simbólico e construção de imagens políticas).

sábado, 18 de abril de 2026

"O neopanteísmo, a teologia cristã e o Deus-Natureza de Spinoza" - Por Barros Alves

                                                                      


Confesso que determinados modismos me incomodam. Modismos a infestarem a sociedade de tal forma que até a Igreja se deixa  levar por ideias claramente neo-animistas e neopanteístas. Sou matuto do sertão, gosto de árvores, plantas, dos matos, dos bichos, do meio rural. Mas, antes gosto de gente. Uma recente discussão com uma (pseudo) cristã que disse claramente preferir gastar dinheiro com seu belo cachorro do que adotar uma criança, fui provocado a  escrever os questionamentos que ora coloco para a reflexão dos leitores.

Certos modismos contemporâneos, ainda que nascidos de preocupações legítimas, acabam por transbordar seus limites naturais e invadir até mesmo o espaço da fé cristã. Entre eles, destacam-se alguns excessos do ecologismo e uma afeição desmedida pelos animais, que, quando absolutizados, deslocam o eixo da criação e obscurecem a centralidade do ser humano na ordem moral e espiritual.

A tradição cristã sempre reconheceu a criação como boa e digna de cuidado, confiada ao homem como administrador responsável. Contudo, quando a natureza passa a ser tratada não como obra, mas como entidade quase sagrada em si mesma, percebe-se um deslizamento sutil para formas de pensamento que se aproximam de um neopanteísmo onde Deus se dilui no todo, ou mesmo de um neo-animismo, no qual elementos naturais e seres irracionais são revestidos de uma espécie de sacralidade intrínseca.

De modo semelhante, o amor aos animais, virtude recomendável enquanto expressão de sensibilidade e responsabilidade, pode degenerar em um sentimentalismo que iguala ou até sobrepõe o valor da vida animal à dignidade da pessoa humana. Tal inversão, mais emocional que racional, rompe com a hierarquia clássica da criação e enfraquece a compreensão do homem como imagem de Deus.

Quando tais tendências penetram no discurso religioso, corre-se o risco de uma diluição da teologia cristã em categorias estranhas à sua tradição, produzindo uma espiritualidade difusa, mais afinada com sensibilidades culturais passageiras do que com a coerência doutrinal. O desafio, portanto, não é rejeitar o cuidado com a criação ou o respeito aos seres vivos, mas reintegrá-los em uma visão equilibrada, onde Deus permanece transcendente, a criação é valorizada sem ser divinizada, e o homem conserva sua singular responsabilidade no cosmos.

A constatação desses modismos, de certa forma chancelados até por Enclíclicas papais, como a "Laudato si", do Papa Francisco, remete-nos a um dos mais importantes pensadores da himanidade, o filósofo judeu Baruch Spinoza, cuja obra constitui um ardiloso desvio da doutrina cristã sobre a Criação e a Natureza. Com efeito, a obra de  Spinoza permanece como uma das mais ousadas tentativas de repensar Deus fora das categorias tradicionais da religião. Ao identificar Deus com a própria ordem da realidade — "Deus sive Natura" — o filósofo inaugura um horizonte que, aos olhos da teologia cristã, não apenas diverge, mas rompe com seus fundamentos mais íntimos. Não por acaso, sua doutrina foi considerada herética tanto por judeus quanto por cristãos. Ainda assim, a mesma pena que dissolveu o Deus pessoal contribuiu decisivamente para o nascimento de um método crítico aplicado às Escrituras, estabelecendo limites fecundos entre teologia e história.

A teologia cristã, enraizada nas Escrituras e sistematizada por pensadores como Tomás de Aquino, afirma um Deus pessoal, transcendente e livre, criador do mundo "ex nihilo". Esse Deus não se confunde com a criação; ao contrário, sustenta-a e governa-a com providência. Revela-se na história,  desde a eleição de Israel até a encarnação em Jesus Cristo; e estabelece com o homem uma relação de aliança, juízo e redenção. A fé cristã não é mera contemplação da ordem natural, mas resposta a uma Palavra que chama, julga e salva.

Spinoza subverte esse edifício. Em sua obra maior, a "Ética", Deus não é pessoa, vontade ou legislador; é substância infinita, necessária, cujos atributos se exprimem na ordem eterna da natureza. Não há criação no sentido clássico, mas imanência: tudo o que existe é em Deus e por Deus, não como efeito de um ato livre, mas como consequência necessária de sua essência. Desaparecem, assim, categorias centrais à teologia cristã: providência, milagre, pecado, graça. O mundo não é palco de uma história da salvação, mas expressão de uma necessidade lógica.

É nesse ponto que a crítica cristã se torna inevitável e contundente. Se Deus não é pessoa, não ama; se não ama, não salva; se não salva, a religião perde seu núcleo existencial. O Deus de Spinoza, por mais sublime que seja como princípio metafísico, é incapaz de estabelecer relação com o homem. Ele não escuta, não fala, não intervém. A oração torna-se meditação intelectual; a fé, conhecimento racional; a esperança, aceitação da necessidade. Para a tradição cristã, isso equivale a esvaziar o coração da religião, reduzindo-a a uma filosofia da ordem universal.

Entretanto, seria intelectualmente desonesto ignorar o outro lado dessa ruptura. Em seu "Tratado Teológico-Político", Spinoza inaugura uma abordagem que viria a fecundar os estudos bíblicos modernos. Ao tratar a Escritura como documento histórico, submetido às condições de sua redação, transmissão e contexto, ele rompe com a leitura puramente dogmática e abre caminho para a crítica textual e histórica. Investiga autores, datas, estilos e intenções, distinguindo o núcleo moral da mensagem bíblica das formas culturais que a revestem.

Esse gesto teve consequências duradouras. A partir dele, tornou-se possível reconhecer que os textos bíblicos possuem uma história, ou seja,  foram escritos, editados, transmitidos; sem que isso implique necessariamente negar seu valor religioso. Spinoza, ao separar teologia e história, buscava proteger a liberdade de pensamento contra o uso político da religião. Paradoxalmente, acabou oferecendo instrumentos que seriam utilizados inclusive por teólogos para aprofundar a compreensão das Escrituras.

Aqui se impõe um discernimento necessário. A teologia cristã não pode aceitar o núcleo metafísico do pensamento spinozano sem renunciar à sua própria identidade. O Deus bíblico não é redutível à ordem natural; é Senhor da história, livre e pessoal. Contudo, pode  e deve  reconhecer o valor metodológico da crítica histórica. A fé não teme a investigação honesta; ao contrário, purifica-se quando distingue entre o dado revelado e suas mediações históricas.

Assim, a heresia de Spinoza não reside apenas no que nega, mas também no que provoca. Ao dissolver o Deus pessoal, ele desafia a teologia a explicitar melhor o sentido da transcendência e da revelação. Ao historicizar a Escritura, obriga-a a enfrentar sua própria dimensão humana. Entre o Deus vivo do Cristianismo e o Deus-Natureza de Spinoza abre-se um abismo, mas também um campo de tensão fecunda, onde razão e fé são chamadas a dialogar sem confusão e sem submissão.

Em última análise, Spinoza não destruiu a teologia; obrigou-a a pensar com mais rigor seus próprios fundamentos. E talvez seja precisamente aí que reside sua permanência. Não como mestre a ser seguido, mas como interlocutor que não pode ser ignorado. Por agora, impõe-se aos cristãos a necessidade de conhecer essas diferenças, sutis e obnubiladas pelos modismos da pós-pós modernidade.

terça-feira, 14 de abril de 2026

"O Papa Leão XIV, Trump e a arte da guerra" - Por Barros Alves

                                                                           


O recente entrevero entre Papa Leão XIV e o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump expõe, com rara nitidez, um problema recorrente na história da Igreja, qual seja os limites da intervenção papal em matérias de alta complexidade geopolítica.

Ao classificar como “inaceitáveis” declarações de caráter beligerante atribuídas ao líder norte-americano, o Papa assume uma posição que, embora revestida de autoridade moral, corre o risco de simplificar perigosamente realidades estratégicas que escapam ao plano estritamente ético. A guerra, por mais indesejável que seja, não desaparece por força de exortações espirituais; ela nasce de conflitos concretos de poder, segurança e sobrevivência entre nações.

Nesse sentido, a crítica que se faz ao pontífice não é à sua defesa da paz, que é intrínseca à missão cristã; mas à forma como tal defesa se traduz, por vezes, em juízos públicos que podem ser percebidos como desalinhados da prudência diplomática esperada de um chefe de Estado. Afinal, o Papa não é apenas líder religioso; é também soberano da Cidade do Vaticano, uma entidade que, ainda que singular, participa do concerto das nações. Aliás, em termos de forma de governo,  o Vaticano se assemelha mais à teocracia dos aiatolás do Irã do que à democracia estadenidense. Talvez por essa semelhança intrínseca de caráter religioso é que não se tem notícia de nenhuma condenação da ditadura Islâmica do Irã, por parte de nenhum Papa. Apesar da cabeça de milhares de cristãos já terem sido cortadas pela espada dos srguidores de Allah apenas por questões de divergencias religiosas.

Importa lembrar que a história demonstra que os papas raramente foram alheios à política. Desde as complexas alianças medievais até as intervenções discretas do século XX, o papado sempre navegou, aberta ou implicitamente, nas águas do poder temporal. Não é difícil registrar os inúmeros erros cometidos pelo poder régio papal. O próprio Concílio Vaticano II, ao redefinir a presença da Igreja no mundo moderno, ampliou sua voz em questões globais. Contudo, essa ampliação trouxe consigo o risco de confundir autoridade moral com ingerência política.

É precisamente nesse ponto que a reação de Trump encontra eco entre seus apoiadores. Para eles, a condução de conflitos internacionais exige uma lógica que não pode ser regida exclusivamente por ideais universalistas. A paz duradoura, muitas vezes, depende da capacidade de dissuasão e da disposição de confrontar ameaças reais, ainda que isso implique retórica dura ou ações firmes.

A intervenção papal, quando não calibrada por essa realidade, pode ser interpretada não apenas como ingênua, mas potencialmente desequilibrada, sobretudo se parecer sugerir equivalências morais ou ignorar contextos específicos. Em um mundo marcado por tensões assimétricas e atores que não compartilham os mesmos valores, a linguagem da diplomacia exige precisão e cautela,  virtudes que nem sempre convivem bem com declarações públicas de forte carga moral.

Há, portanto, um dilema que se impõe ao pontificado de Leão XIV: como preservar a autoridade espiritual sem incorrer em posicionamentos que fragilizem a neutralidade diplomática da Santa Sé? A resposta talvez resida em uma distinção mais rigorosa entre o papel de pastor universal e o de chefe de Estado, distinção essa que, quando borrada, expõe o papado a críticas tanto no campo político quanto no religioso.

No fim, o episódio não se resume a um choque de personalidades. Ele revela uma tensão estrutural entre dois modos de compreender o mundo: um, orientado por princípios morais absolutos; outro, moldado pelas contingências do poder. E enquanto essa tensão persistir, novos entreveros, verbais ou não, continuarão a surgir, colocando em xeque o delicado equilíbrio entre fé, política e realidade internacional.

Por fim, mutatis mutandis, urge não esquecer, a título de analogia histórica,  que o Papa Pio XII nunca deu uma declaração expressa e firme contra o governo nazista,  enquanto Hitler fazia a guerra. De igual modo, o  Vaticano acanhou-se silente, enquanto milhões de judeus e cristãos católicos e protestantes eram assados nos fornos crematórios nazistas, só apagados por uma força maior. Lembre-se também, por agora, que nenhum Papa nesses 47 anos de crudelíssima ditadura teocrática Islâmica levantou a voz contra o regime dos aiatolás, enquanto milhares de iranianos eram assassinados, muitos por professarem a fé em Cristo Jesus. A crítica que a esquerda internacional faz a Trump por qualquer deslize, ingenuamente seguida até por cristãos conservadores, faz-me lembrar os versos atribuídos a Bertolt Brecht, poeta e dramaturgo comunista alemão: "Todos dizem que o rio caudaloso é violento; ninguém diz serem violentas as margens que o comprimem." Trump é o rio caudaloso que pode levar liberdade ao povo iraniano.

domingo, 5 de abril de 2026

"Leis de gênero: a criminalização do humor e do riso" - Por Barros Alves

                                                                          


Há, ao longo da história, um traço recorrente nas experiências autoritárias, qual seja a tentativa de disciplinar não apenas o comportamento, mas também o pensamento, a linguagem e, em última instância, o próprio riso. Regimes de feição totalitária raramente se apresentam como tais; preferem vestir-se com as roupagens sedutoras do “progresso”, da “justiça social” ou da “proteção dos vulneráveis”. Sob esse manto aparentemente virtuoso, vão introduzindo, de forma gradual e muitas vezes quase imperceptível, mecanismos legais e culturais que restringem liberdades fundamentais.

Entre essas liberdades, poucas são tão essenciais quanto a liberdade de expressão e de pensamento. É dela que decorre a possibilidade de crítica, de debate e de aperfeiçoamento das ideias, elementos indispensáveis à vida democrática. No entanto, observa-se, em diversas partes do mundo e também no Brasil, um movimento crescente no sentido de normatizar discursos, interditar palavras e, mais grave ainda, cercear formas tradicionais de manifestação cultural, como o humor, a sátira e a ironia.

O humor sempre desempenhou um papel social relevante. Ele não apenas diverte, mas também revela contradições, expõe hipocrisias e desarma pretensões autoritárias. O riso, nesse sentido, é profundamente subversivo, posto que relativiza o poder, humaniza as relações e impede a sacralização de ideologias. Ridendo castigat mores! Não é por acaso que, historicamente, regimes autoritários demonstraram profunda aversão à sátira. 

O problema surge quando determinadas agendas, por mais legítimas que possam ser em sua origem,  passam a reivindicar proteção jurídica contra qualquer forma de crítica ou representação humorística. Ao transformar temas complexos e controversos em territórios imunes ao questionamento, cria-se um ambiente de censura indireta, no qual artistas, escritores e comunicadores passam a autocensurar-se por temor de sanções legais ou sociais.

No Brasil contemporâneo, essa tendência manifesta-se de maneira preocupante. Normas, projetos de lei e decisões judiciais, muitas vezes motivados pela intenção de proteger grupos específicos, acabam por estabelecer limites difusos e perigosos à liberdade de expressão. O resultado é um cenário em que costumes, tradições e valores culturais deixam de poder ser objeto de crítica ou de humor, sob o risco de serem interpretados como ofensivos ou discriminatórios.

Se levada às últimas consequências, essa lógica tornaria inviável a obra de inúmeros criadores que ajudaram a formar a identidade cultural brasileira. A literatura, em especial a literatura popular, o teatro, a música e o humor popular, todos marcados pela irreverência, pela crítica social e pela liberdade criativa, seriam submetidos a um crivo ideológico restritivo, incompatível com a riqueza e a diversidade que caracterizam a cultura nacional. As cantorias em que poetas repentistas improvisam versos ao ponteio da viola, sempre cáusticos do poder, perdem a força da criatividade poética; inúmeros folhetos de cordel como, por exemplo, o clássico a "Peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho do Tucum" já estão "cancelados", condenados ao fundo do baú e, pelo andar da carruagem, à fogueira inquisitorial das mediocridades imperantes, no cenário acadêmico e da Mídia, inclusive.

Além disso, a proliferação de neologismos legislativos e categorias conceituais pouco consolidadas contribui para a insegurança jurídica e para a fragmentação social. Em vez de promover a harmonia, tais iniciativas frequentemente acentuam divisões, estimulando uma dinâmica de antagonismo entre grupos que passam a se perceber como mutuamente excludentes. Em nome da inclusão, corre-se o risco de fomentar a intolerância recíproca.

A democracia, por sua própria natureza, exige o convívio com o dissenso, com o desconforto e até mesmo com o erro. Pretender eliminar completamente o risco de ofensa ou de discordância é, paradoxalmente, abrir caminho para formas sutis e, por vezes eficazes, de autoritarismo. Uma sociedade verdadeiramente livre não é aquela em que todos concordam, mas aquela em que todos podem discordar sem medo.

Por isso, é fundamental preservar o espaço do humor, da crítica e da livre manifestação intelectual. Não se trata de legitimar abusos ou de ignorar a dignidade das pessoas, mas de reconhecer que a liberdade de expressão é um valor estruturante, sem o qual os demais direitos tendem a esvaziar-se.

A tentativa de regular o riso, de domesticar a sátira e de enquadrar a criatividade em moldes ideológicos rígidos não representa avanço civilizatório, mas um retrocesso. Trata-se, em última análise, de uma forma de empobrecimento cultural e de enfraquecimento da própria democracia.

Defender a liberdade de expressão, inclusive quando ela se manifesta de maneira incômoda ou irreverente, é, portanto, um imperativo. Não apenas jurídico, mas moral e civilizacional. É preciso reconhecer, com clareza, que uma sociedade que perde a capacidade de rir de si mesma corre o risco de tornar-se prisioneira de suas próprias certezas e, nesse processo, abrir mão daquilo que tem de mais precioso: a liberdade.

"Cantos de morte e ressurreição" - Por Barros Alves

                                                                     


1.

Por que temer a morte se  não mata

A alma imperecível do cristão?!

Só mata o corpo, pois Jesus resgata

Todo fiel. E dá-lhe a salvação.


Temos promessa de ressurreição 

Do Trino Deus que tudo, enfim, governa.

A morte, pois, é mera transição 

Para vivermos plena vida eterna.


Oh, vil morte onde está teu aguilhão?

Tua maldade não me causa espanto,

O teu poder não passa de ilusão.


Que Deus nos cubra com o Sagrado Manto,

Conceda-nos viver eternamente 

Com o Pai, o Filho e o Espírito Santo.


                                                       



2.

Sexta-feira. Depois de torturado,

Pelas vielas de Jerusalém 

Arrastaram-no feito um Zé Ninguém

Para no Monte ser crucificado.


O Cordeiro de Deus, o Bem Amado,

O Filho do Altíssimo, o Sumo Bem,

Pede um sinal dos Céus. Não obtém.

Se sente por Deus Pai abandonado.


O lancinante grito se fez Luz

Naquela sexta-feira da Paixão,

Mistério que ainda hoje nos conduz...


Morte! Oh, morte, onde está teu aguilhão?

Foi destruído no Cristo sobre a cruz

Que nos deu Vida na RESSURREIÇÃO.


OBS: as pinturas são de Caravaggio.


domingo, 29 de março de 2026

"O Domingo de Ramos na vida da Igreja Católica" - Por Barros Alves

                                                                         


O Domingo de Ramos ocupa um lugar singular na vida da Igreja Católica. Nesse dia  litúrgico inicia-se  solenemente a Semana Santa e se reúne, numa mesma celebração, dois movimentos aparentemente opostos:  o triunfo e a paixão. Sua origem está enraizada no evento evangélico da entrada de Jesus Cristo em Jerusalém, mas sua forma atual é fruto de um longo amadurecimento litúrgico, enriquecido pelo testemunho de peregrinos e pela reflexão dos grandes escritores sacros.

Os quatro Evangelhos — Evangelho de Mateus, Evangelho de Marcos, Evangelho de Lucas e Evangelho de João — narram a entrada de Jesus em Jerusalém, montado num jumento, enquanto o povo o aclama com ramos e cânticos messiânicos (“Hosana!”).

O gesto é carregado de simbolismo. O jumento indica humildade, em contraste com os cavalos de guerra; os ramos evocam vitória, realeza e esperança; a  aclamação popular revela a expectativa messiânica de Israel.

Contudo, essa mesma multidão que aclama será, poucos dias depois, ambígua ou silenciosa diante da condenação de Cristo,  tensão que a liturgia conserva ao unir, no mesmo dia, procissão festiva e leitura da Paixão.

A prática litúrgica do Domingo de Ramos surge de forma estruturada no século IV, em Jerusalém. Uma fonte preciosa é o relato da peregrina Egéria, que descreve uma procissão realizada no Monte das Oliveiras. Fiéis, clérigos e o bispo percorriam o caminho até a cidade, levando ramos e entoando salmos, revivendo o gesto do povo que acolheu Cristo.

Aqui já se delineia o caráter mimético e memorial da liturgia cristã. Ou seja, não se trata apenas de recordar, mas de tornar presente o mistério celebrado.

A partir de Jerusalém, a celebração se difundiu por todo o mundo cristão. No Ocidente latino, especialmente a  partir dos séculos VII, VIII e IX, consolidaram-se elementos que permanecem até hoje, quais sejam, a bênção dos ramos, a procissão solene, a Leitura da Paixão. Essa estrutura revela uma teologia profunda. Cristo é ao mesmo tempo o Rei acolhido e o Servo sofredor.

Os Padres da Igreja e grandes autores cristãos ofereceram leituras espirituais riquíssimas desse evento. Santo Agostinho vê na procissão um símbolo da Igreja peregrina. “Os ramos são louvores; o caminho é Cristo; caminhar é segui-lo.”

Para ele, a aclamação externa só tem valor se corresponder a uma adesão interior.

São João Crisóstomo destaca o contraste entre a humildade de Cristo e a expectativa mundana de poder.

Cristo não entra como conquistador terreno, mas como Senhor que vence pelo amor e pelo sacrifício.

São Jerônimo, grande conhecedor das Escrituras, enfatiza o cumprimento das profecias, especialmente de Zacarias (Zc 9,9), vendo na cena a confirmação da identidade messiânica de Jesus.

São Bernardo de Claraval, na Idade Média, propõe uma leitura espiritual mais interior. O verdadeiro “ramo” que deve ser oferecido a Cristo é o coração convertido.

A Igreja, ao longo dos séculos, adaptou os ramos conforme as regiões: palmeiras no Oriente e regiões mediterrâneas; oliveiras em áreas europeias; ramos de árvores locais (como a palma dos coqueiros, carnaubeiras, no Brasil). Essa adaptação revela a universalidade da fé cristã. O símbolo permanece, mas se encarna na cultura de cada povo.

O Domingo de Ramos contém uma profunda síntese teológica, que se arraiga na Cristologia: Jesus é Rei, mas seu trono é a cruz; na Eclesiologia: a Igreja segue Cristo entre glória e sofrimento; na Espiritualidade: o fiel é chamado a passar da aclamação à fidelidade

A liturgia evita triunfalismos ingênuos. Ao proclamar a Paixão no mesmo dia, recorda que não há glória sem cruz. De fato, o Domingo de Ramos não é apenas uma recordação histórica, mas uma atualização viva do mistério de Cristo. Desde as ruas de Jerusalém até as procissões contemporâneas, a Igreja revive o drama da acolhida e da rejeição, da esperança e do sacrifício.

Guiados pelos escritores sacros, de Santo Agostinho a São Bernardo de Claraval,  compreendemos que os ramos nas mãos pouco significam sem a conversão do coração. Assim, cada fiel é convidado não apenas a aclamar Cristo, mas a segui-lo, mesmo quando o caminho conduz à cruz.

Por final, gostaria de lembrar um dos maiores oradores da Igreja, glória excelsa da oratória sacra em língua portuguesa, o Padre Antônio Vieira. O Crisóstomo português dedicou reflexões profundas ao mistério celebrado no Domingo de Ramos, sobretudo em seus sermões quaresmais e da Semana Santa. Embora não haja um único sermão exclusivo com esse título em todos os compêndios, o tema aparece com força em sua meditação sobre a entrada triunfal de Jesus Cristo em Jerusalém.

Vieira chama atenção para um ponto central: a inconstância do povo.

Ele observa que a mesma multidão que grita “Hosana” no Domingo de Ramos será capaz de clamar “Crucifica-o!” poucos dias depois. Para o pregador, isso revela uma verdade espiritual incômoda. O coração humano é volúvel, facilmente entusiasmado, mas pouco firme na fidelidade.

Assim, o Domingo de Ramos não é apenas celebração, é também advertência moral.

Um tema típico de Vieira é a crítica ao culto apenas externo. Ele usa a imagem dos ramos para provocar. De que adianta carregar ramos nas mãos se não há transformação no coração?

Seguindo a tradição de autores como Santo Agostinho, Vieira insiste que o verdadeiro louvor a Cristo não está no gesto simbólico, mas na vida convertida.

Outro aspecto marcante é o paradoxo da cena em que Cristo entra como Rei, mas caminha conscientemente para a morte. Vieira explora esse contraste com sua retórica característica: trata-se de um triunfo que já contém a derrota aparente, e de uma glória que passa pela humilhação. Para ele, o Domingo de Ramos só pode ser compreendido à luz da cruz.

Vieira transforma o episódio em exame de consciência. Somos apenas admiradores momentâneos de Cristo ou discípulos fiéis até a cruz? Ele sugere que muitos cristãos repetem o gesto da multidão: aclamam em momentos de fervor; abandonam em tempos de provação.

Na leitura de Padre Antônio Vieira, o Domingo de Ramos ensina três lições principais: cuidado com a inconstância, o entusiasmo não basta.

A autenticidade da fé é o que vale; e mais importante que os ramos é o coração.

A aceitação da cruz para  seguir a Cristo implica participar de seu caminho. Para Vieira, o Domingo de Ramos não é apenas uma festa litúrgica, mas um espelho da alma humana. Ele desmonta qualquer leitura superficial e convida o fiel a uma fé firme, coerente e perseverante.


*Barros Alves é sócio honorário da Academia Brasileira de Hagiologia-ABRHAGI.

sexta-feira, 20 de março de 2026

"Allahu akbar!!!" - Por Barros Alves

                                                               


Um bando de idiotas politicamente imbecilizados, leitores de panfletos da esquerda, aponta para Israel o dedo sujo do sangue derramado pela teocracia terrorista do Irã, sem ter lido uma linha do que foi a velha Pérsia de Ciro, o Grande; e sem saber a extensão da desgraceira que os aiatolás fizeram em 50 anos de terror sobre o povo iraniano.


Declarações de altos dignitários do Irã, que não souberam sequer interpretar os ensinamentos de Allah. Tanto que os demais paises islâmicos estão se voltando contra a teocracia assassina dos aiatolás.


*Ali Khamenei:* "É a missão da República Islâmica do Irã, apagar Israel do mapa da região."


"O regime sionista é um tumor cancerígeno que precisa ser removido."


*Hassan Nazrallah*: "Se conseguirmos juntar todod os judeus em Israel nós vamos resolver o problema, porque não vamos ter que caçá-los no resto do mundo. Israel é o nosso inimigo. É uma entidade agressiva, ilegal e ilegítima, que não tem futuro na nossa região. E o seu destino é manifestado, segundo nosso modo de ver, com o slogan: MORTE A ISRAEL."


*Mohammad Hassan Rahimian:* "Nós temos construído mísseis que nos permitem, se necessário, extirpar Israel completamente do seu território num grande holocausto."


*Mohammad Reza Naqdi*: "Nós recomendamos aos sionistas que façam suas malas e voltem para os países de onde vieram, porque se eles insistirem em ficar vai chegar um tempo em que eles não vão ter mais nada para colocar em suas malas."


*Hossein Salam:* "Nós vamos caçar vocês (israelenses) de casa em casa e nós vamos nos vingar de cada gota de sangue dos mártires da Palestina. Este é o ponto inicial em que as nações islâmicas vão ter um despertamento para a derrota de Israel."


*Hossein Sheikholeslam:* "Nossa posição contra o regime dos usurpadores sionistas não mudou de forma alguma. Israel tem que ser aniquilado e este é nosso principal objetivo."


Recado dado, recado entendido. Então, Israel, numa atitude de legítima defesa, respondeu com precisão. Os citados e mais cerca de meia centena de fanfarrões foram prestar contas com Allah.


Allahu akbar!!!

As salam aleikum!!!

quinta-feira, 19 de março de 2026

SONETOS EM LOUVOR DE SÃO JOSÉ - Por Barros Alves



1.

Ó Justo Guardião do Encarnado,

Verbo de Luz na noite de Belém,

Foste escolhido por Deus, como convém,

Ao mistério divino revelado.


Foste por Deus, em sonho, convocado

A ser amparo firme ao  terno Bem.

Da fera humana, José, tu foste quem

Guardaste o Amor do Menino Enviado.


Silente coração, falou de fato

Na fé que não exige explicação,

Mas se entrega total ao gesto exato.


Ó pai de afeto, dócil coração,

Ensina-nos firmeza no recato,

E abençoa também nossa missão.


÷÷÷÷÷÷÷÷÷÷÷÷÷÷÷÷


2.

Ó São José, varão de fé serena,

Que ao sopro do Eterno a alma inclinou,

E em santo zelo o lar edificou

Sob uma Luz divinamente plena.


Chamado a crer na graça mais suprema,

Que ao mundo em carne o Verbo revelou,

Calado, firme e justo se mostrou,

Guardando o dom dessa beleza extrema.


Na paciência achaste a fortaleza,

Na obediência, a mais alta expressão

De amor que em Deus repousa e não vacila.


Ó pai fiel, modelo de pureza,

Ensina-nos, na mesma devoção,

A confiar na Luz que em ti cintila.


÷÷÷÷÷÷÷÷÷÷÷÷÷÷÷÷÷÷


3.

José, eleito no silêncio santo,

Para guardar o Filho do Eterno,

Mistério vivo, amor profundo e terno,

Que afastou do mundo o  desencanto.


José, fiel abrigo  escudo, e manto

Do Pequenino Verbo Sempiterno,

Que nos livrou do fogo do inferno...

Misterioso plano sacrossanto!


Na fé calada, firme obedeceste,

Sem ver, mas crendo na divina Luz,

Guardando o Autor da vida em teu cuidado.


Ó justo pai, que em Deus sempre viveste,

Roga por nós, protege e nos conduz

Ao Cristo, nosso Bem e fim sagrado.


÷÷÷÷÷÷÷÷÷÷÷÷÷÷÷÷÷÷


4.

Ó São José do chão rachado e quente,

Carpinteiro da fé, mão calejada,

Que em dura lida, mas abençoada,

Ensina a fé ao povo resistente.


Caminheiro de Deus, um penitente,

José ao lado da Virgem Imaculada

Confia ao Pai o rumo da jornada

E espera o dom da chuva providente.


Na terra seca, antiga e castigada,

Vestido de esperança o agreste aflito

Vê brotar Água Viva em árido chão 


Gente de dor, gente nordestinada

Liberta da garganta imenso grito:

-- José cuida da nossa Salvação!!!

terça-feira, 3 de março de 2026

"A decadência das academias de letras" - Por Barros Alves

                                                         


Desde a fundação, em 1897, a Academia Brasileira de Letras convive com um paradoxo, qual seja o de que ao tempo em que abriga nomes incontornáveis da cultura nacional, tornou-se alvo constante de críticas quanto ao espírito que a anima. A ideia original, inspirada na Academia Francesa, pretendia conferir estabilidade institucional às Letras brasileiras. No entanto, cedo se ouviu o murmúrio, depois transformado em acusação aberta, de que o compadrio, os elogios recíprocos e a política de bastidores pesavam mais que o mérito literário. O próprio idealizador da ABL, Machado de Assis, patrocinou alguns desvios

O historiador Capistrano de Abreu, avesso a solenidades e pompas, simboliza a desconfiança de uma geração que via nas academias mais um teatro de vaidades do que um laboratório de pensamento. Conta-se que ao ser convidado para ser signatário da ata de fundação da ABL, o maranguapenses teria declinado e forma tão pessimista quanto astuciosa: “A mim me basta pertencer a uma sociedade que já me causa muitas dores de cabeça: a sociedade humana”. A crítica não era mero azedume, mas apontava para o risco de institucionalizar a literatura, submetendo-a às conveniências sociais.

Já Graça Aranha protagonizou um dos episódios mais emblemáticos dessa tensão ao romper com a ABL na década de 1920, acusando-a de conservadorismo estético e imobilismo intelectual. Para ele, a literatura brasileira necessitava de ímpeto renovador, não de um cenáculo preso a fórmulas e reverências mútuas. Sua saída foi um gesto simbólico contra o que percebia como fossilização do espírito literário.

Décadas depois, vozes internas continuaram a reconhecer limitações. Josué Montello, embora acadêmico que prezava a Arcádia, registrou em memórias, nos seus “Diários”, 4 volumes de deliciosa leitura; e em entrevistas, o ambiente competitivo e, por vezes, pouco edificante das eleições. Jorge Amado, também membro da Casa de Machado de Assis, jamais deixou de ser um escritor de vida pública intensa, mas sua presença ali sempre foi lida por alguns como a confirmação de que a consagração institucional é etapa distinta, não necessariamente essencial, da criação literária. Amado escreveu “Farda, Fardão, Camisola de Dormir”, uma novela satírica que ironiza o universo da “imortalidade” literária. Críticos mais contundentes, como Fernando Jorge, denunciaram reiteradamente o que consideravam a transformação das academias em redutos de autopromoção. Ele escreveu o contundente “Academia do Fardão e da Confusão”. Guilherme Figueiredo, intelectual do melhor quilate, com seu espírito independente, também ironizou o ritualismo excessivo e a teatralidade das sessões solenes, denunciando os conluios que existem durante a caça aos votos dos acadêmicos. No livro “As Excelências ou Como Entrar para a Academia”, ele conta sua peregrinação à cata de votos para ingressar na ABL e relata casos que podem ser considerados moralmente condenáveis, protagonizados por personalidades gradas do cenário literário nacional.

O problema, ao que parece, não reside apenas na Academia Brasileira de Letras, mas na proliferação indiscriminada de academias estaduais e municipais. No Ceará, onde a tradição literária é respeitável e produziu nomes de peso, cria-se uma academia a cada mês; encontra-se um grêmio literário em cada esquina. Multiplicam-se pelerines (os nossos arremedos de fardões), cadeiras, patronos e discursos laudatórios. Rareia, contudo, a obra que sobreviva ao tempo. A própria Academia Cearense de Letras parece estar sofrendo de inanição literária.

A institucionalização excessiva da literatura gera um efeito curioso. Transforma a atividade essencialmente solitária da escrita em exercício coletivo de autopromoção. Escrever é um ato de recolhimento, de enfrentamento íntimo com a linguagem e com o mundo. Não se produz grande literatura por aclamação, tampouco por votação. A criação literária não é assembleia; é combate interior.

Além disso, a crescente militância ideológica, de qualquer matiz, tem contribuído para a confusão entre literatura e panfleto. Produz-se muito barulho, mas pouca obra duradoura. O engajamento pode até fecundar a arte produzida por grandes nomes da Literatura, como demonstraram autores do passado; mas quando substitui a complexidade estética por slogans, empobrece o texto e reduz a ambição literária.

Não se trata de negar que as academias tenham abrigado - e ainda abriguem - escritores de inegável relevância. O ponto é outro. A consagração institucional não pode substituir o juízo do tempo. Quando a eleição para uma cadeira se torna mais importante que o livro; quando a fama do não (ou quase) escritor conta para a escolha; quando o discurso de posse pesa mais que a obra publicada; quando o elogio mútuo prevalece sobre a crítica franca, instala-se a decadência.

As academias, se quiserem sobreviver com dignidade, precisarão reencontrar sua razão de ser. Devem necessariamente estimular o pensamento livre, promover a crítica honesta e valorizar a literatura como arte exigente, não como ornamento social. Caso contrário, permanecerão como fogueiras de vaidades, iluminando pouco e consumindo muito da nossa paciência.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

"Brava e bela Meloni" - Por Barros Alves

                                                                      


No fogo que em teus olhos se levanta,

Há luz que rompe a treva, a história conta...

Ergues, serena, a voz que o tempo afronta,

Mulher que o mundo hoje aplaude e encanta.


Ante o vento adverso não se espanta!

Teu passo firme, levantada a fronte,

A tua força não há quem desmonte,

Com tua fé a Itália se agiganta.


Beleza e força em ti se dão as mãos,

Em ti se amoldam.  És fibra e emoção,

Coragem e luz que aquece e alumia.


Guardas valores nobres, sempre vãos

Aos olhos de um vil mundo sem visão.

Mas, tu mesma és Amor e Valentia.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

"Sargento Uchoa consegue complexo esportivo para o Metrópole 5" - Por Barros Alves

                                                                         


Recentemente a Prefeitura de Caucaia inaugurou o Complexo Esportivo Raimundo Albano Uchôa, no bairro Conjunto Metrópole 5, ampliando as opções de esporte, lazer e convivência para moradores de todas as idades. O novo equipamento, entregue pela gestão do prefeito Naumi Amorim, conta com areninha de futebol, parquinho infantil, quadra de areia e academia ao ar livre, oferecendo um espaço completo para práticas esportivas e atividades comunitárias.

Durante a solenidade, Naumi reforçou o compromisso da administração municipal com a melhoria da qualidade de vida da população, destacando que o espaço foi pensado para atender crianças, jovens, adultos e idosos, além de promover integração e bem-estar social. A primeira-dama, Érika Amorim, também participou da cerimônia e ressaltou os benefícios que o novo complexo trará às famílias da região.

Moradores comemoraram a conquista. Muitos destacaram a importância de ter uma área segura e estruturada para a prática esportiva e o encontro entre vizinhos, sobretudo em um bairro que vinha demandando um local de lazer de qualidade. Com a inauguração, o Metrópole 5 passa a contar com um ponto de encontro que fortalece os vínculos comunitários e incentiva hábitos saudáveis.


                                                              


Uchoa, o líder 


É importante ressaltar que no coração pulsante do Metrópole 5, em Caucaia, há lideranças que não apenas ocupam espaços, ocupam consciências. Entre elas, destaca-se a figura altiva e generosa do Sargento Uchoa, um líder comunitário e político que fez da própria vida um instrumento de serviço à coletividade.

Sua trajetória é marcada pelo compromisso inabalável com as causas populares. Conhecedor das ruas, das vielas e dos anseios do povo de Caucaia e do Metrópole, em particular, ele construiu sua liderança ouvindo mais do que falando, agindo mais do que prometendo. Não é homem de gabinete fechado, mas de presença constante. Uchoa está onde o problema surge, onde a comunidade precisa, onde a esperança insiste em nascer.

Ao longo dos anos, tem sido voz firme na defesa de melhorias para o bairro,  seja na luta por infraestrutura digna, por políticas públicas inclusivas, por oportunidades para a juventude ou por respeito às famílias trabalhadoras. Sua atuação política não se limita ao discurso; traduz-se em articulação, diálogo e resultados concretos.

Mais do que agente político, é referência moral e comunitária. Consegue unir pessoas de diferentes pensamentos em torno de um objetivo comum: o desenvolvimento da Jurema com justiça social e dignidade. Sua liderança é construída na confiança, no respeito e na coerência entre palavra e ação.

Em tempos em que tantos desacreditam da política, ele reafirma que o verdadeiro sentido da vida pública é servir. O Metrópole 5  reconhece nele não apenas um representante, mas um filho comprometido com o presente e o futuro do bairro.

Que sua caminhada continue inspirando novas gerações a compreender que liderança se faz com coragem, proximidade e amor à comunidade.

Eu tenho a honra de ser amigo desse homem simples e sempre disposto a servir. Meu colega de trabalho na Assembleia do Ceará, conheço-o há mais de trinta anos. Uchoa é amigo do seu povo, de verdade. Nele tenho fé.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

"São João da Mata" - Por Barros Alves

                                                                       


Tua alma resplandece, ó João da Mata,

Santo que guia a todos rumo à fé,

Que faz caídos se porem de pé,

A voz que vem de ti o povo acata.


Teu zelo pela Igreja é ouro e prata,

Teu amor por Jesus de Nazaré 

Foi o caminho para a Santa Sé

Mostrar ao mundo o quanto te é mui grata.


Alçou-te à glória dos altares. Santo

João da Mata, doce peregrino,

A semear sementes do Divino.


E semeaste o Amor por todo canto,

Levando a caridade, o acalanto

E a Palavra que salva, a do Deus Trino.

"O Evangelho não necessita da Teologia da Libertação" - Por Barros Alves

                                                                           


A missão da Igreja nasce do mandato, explícito de Cristo e encontra no próprio Evangelho os fundamentos suficientes para a promoção integral do homem, especialmente dos pobres. A afirmação de que o Evangelho necessitaria de um complemento ideológico, como o oferecido por correntes claramente heréticas da  Teologia da Libertação,  parte do pressuposto de que a Revelação seria insuficiente para orientar a ação social cristã. No entanto, a Sagrada Escritura, a Doutrina Social da Igreja e o ensinamento de eminentes teólogos demonstram que a caridade cristã e a justiça social fluem organicamente do próprio depósito da fé, sem necessidade de mediações ideológicas inspiradas em categorias estranhas ao Evangelho. 

O compromisso com os pobres não é uma invenção moderna nem um acréscimo sociológico à fé. Ele está no coração do Evangelho.

No discurso inaugural em Nazaré, Jesus proclama: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres” (Lc 4.18). No Juízo Final, Ele identifica-se com os necessitados: “Tive fome e me destes de comer” (Mt 25.35). A caridade para com os pobres não é estratégia política, mas critério escatológico.

Contudo, o mesmo Cristo afirma: “O meu Reino não é deste mundo” (Jo 18.36). Ele recusa explicitamente ser reduzido a líder político (cf. Jo 6.15) e rejeita a lógica revolucionária da violência (“Embainha tua espada”, Mt 26.52). A libertação que Ele traz é, antes de tudo, libertação do pecado (cf. Jo 8.34-36), raiz última das injustiças humanas.

São Paulo reforça essa perspectiva ao ensinar que a verdadeira transformação começa pela renovação interior: “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da mente” (Rm 12.2). A mudança social cristã é consequência da conversão, não produto de luta de classes.

A Igreja desenvolveu ao longo dos séculos uma reflexão social coerente, sistematizada especialmente a partir da "Rerum Novarum" (1891), do Santo Padre  Leão XIII. Essa doutrina não nasce de ideologias modernas, mas da aplicação dos princípios evangélicos à realidade social.

São João Paulo II, na encíclica "Centesimus Annus", advertiu contra as soluções que sacrificam a dignidade da pessoa em nome de projetos coletivistas. Ele reconheceu a “opção preferencial pelos pobres”, mas rejeitou claramente a instrumentalização da fé por ideologias marxistas, afirmando que a luta de classes como princípio interpretativo da história é incompatível com a visão cristã da pessoa humana.

O Dicastério (então Congregação) para a Doutrina da Fé, sob a presidência do então Cardeal Joseph Ratzinger, publicou em 1984 a Instrução "Libertatis Nuntius", na qual reconhece a nobre intenção de muitos teólogos da libertação, mas alerta para “desvios” quando categorias marxistas são assumidas como chave hermenêutica da fé. O documento sublinha que reduzir o pecado a estruturas sociais e a salvação à transformação política constitui grave empobrecimento da mensagem cristã.

A Doutrina Social da Igreja sustenta quatro pilares fundamentais: dignidade da pessoa humana, bem comum, subsidiariedade e solidariedade. Esses princípios permitem uma ação social vigorosa sem recorrer à dialética revolucionária.

Teólogos eminentes reforçam essa posição.

Henri de Lubac advertiu contra a tentação de transformar o cristianismo em mera força histórica intramundana, esquecendo sua dimensão sobrenatural. Para ele, quando o cristianismo é reduzido a programa político, perde-se sua essência salvífica.

Joseph Ratzinger insistiu que a fé não pode ser absorvida por análises sociológicas. Em diversas obras, como Introdução ao Cristianismo, ele recorda que o núcleo da fé é a relação pessoal com Cristo, não um projeto revolucionário.

Mesmo teólogos latino-americanos que dialogaram com a questão social reconheceram que a libertação cristã deve ser integral, ou seja,  espiritual, moral e social; e não apenas estrutural. A transformação das estruturas sem conversão do coração conduz apenas à substituição de elites, não à superação da injustiça.

A história do século XX fornece exemplos eloquentes de projetos revolucionários que, prometendo libertação, produziram novas formas de opressão. Sistemas inspirados na luta de classes frequentemente resultaram em restrição de liberdades, perseguições religiosas e graves violações da dignidade humana.

O Evangelho constrói comunhão. São Paulo afirma: “Não há judeu nem grego… pois todos sois um em Cristo Jesus” (Gl 3,28). A lógica cristã não é a do antagonismo permanente, mas a da reconciliação.

Quando a fé é instrumentalizada para fomentar divisões ideológicas, corre-se o risco de substituir a caridade pela militância e a comunhão pela polarização. A Igreja sempre atuou em favor dos pobres por meio de obras concretas: hospitais, escolas, santas casas, missões, ordens religiosas dedicadas aos marginalizados. Essa ação precede qualquer formulação moderna de teologia política. São Francisco de Assis, 

São Vicente de Paulo, Santa Teresa de Calcutá, São João Bosco, Santa Dulce dos Pobres e tantos outros demonstraram que o amor cristão transforma realidades sem necessidade de adesão a programas revolucionários.

A libertação cristã começa no coração humano, porque o mal social brota do pecado pessoal. Como ensina Bento XVI na Encíclica "Deus Caritas Est", a Igreja não propõe sistemas políticos específicos, mas purifica a razão e desperta as forças morais necessárias para uma ordem justa.

Isso não significa omissão diante da injustiça. Pelo contrário,  implica ação concreta, mas fundamentada na caridade e na verdade, não na luta ideológica. O cristão é chamado a agir na política segundo sua consciência bem formada, mas a Igreja não se identifica com projetos partidários nem revoluções de classe.

Enfim, é fácil constatar em face da história do Cristianismo, que o Evangelho não necessita da Teologia da Libertação enquanto sistema ideológico para justificar o cuidado com os pobres. Cristo já confiou à sua Igreja a missão de anunciar a salvação integral e de praticar a caridade concreta. A Doutrina Social da Igreja oferece princípios sólidos para enfrentar as injustiças, sem reduzir a fé a instrumento de transformação revolucionária.

Quando permanece fiel ao Evangelho, a Igreja promove justiça sem ódio, solidariedade sem luta de classes, transformação sem violência, e libertação sem negar a transcendência. A verdadeira revolução cristã é a conversão do coração. E dela nascem as mudanças duradouras na sociedade.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

"Nos oitent'anos do Mario Ferrario, meu preito de amizade" - Por Barros Alves

                                                                   


No terreiro da existência,

Entre a dor e a alegria,

Deus semeia a convivência

Como uma luz que alumia;

E no chão da caminhada

Brota a amizade sagrada

Com que Deus nos agracia.


Amigo é mais que palavra,

É presença verdadeira,

Mão firme que faz a lavra

Na lida mais altaneira,

É silêncio que conforta,

É prumo que não entorta,

É lenha para a fogueira.


É abraço que aproxima,

E onde a paz faz guarida,

É a voz que nos anima,

Reacende a chama da vida;

É abrigo na tempestade

É farol na escuridade, 

É empurrão na subida...


Há mistério na amizade

Que à razão não se aplica,

É ponte pra eternidade

É afeto que edifica;

Tem um valor transcendente,

É dom puro e permanente,

Milagre que não se explica.



Amizade verdadeira

É dom que Deus oferece,

Não se mede em prata ou ouro,

É riqueza que floresce,

No convívio ou na distância,

Seja em qualquer circunstância, 

Quanto mais velha, mais cresce.


Se a vida é breve jornada

Entre o ontem e o porvir,

A amizade é estrada

Onde podemos seguir

Sem alvoroço ou espanto,

Amizade é acalanto

Que nos faz sempre sorrir


A amizade é riqueza

Que nos alegra e anima 

Por isso sempre a coloco 

Na ponta da minha rima,

Como se fosse uma prece,

Amizade a quem merece

Tem valor de obra prima.


Encontrar um novo amigo

É ser bem presenteado

Com ouro, incenso e com mirra.

É tesouro abençoado,

Chamar alguém "meu amigo!"

Desde o tempo mais antigo

É gesto a ser celebrado.


Hoje aqui ergo meu verso 

Pra cantar com emoção,

Oitenta anos de um amigo,

Que ganhou minha afeição,

Pela lhaneza no trato,

Ferrario ganhou, de fato,

A minha admiração.


No estandarte da vida

Do Ferrario, eu tenho lido:

"Oitenta sóis a brilhar",

"Oitenta janeiros idos"

Combatendo o bom combate

Tem vencido, sem empate,

Esses anos bem vividos.


Cada ruga é um caminho

De experiência vivida,

Cada passo é pergaminho

Da vitória construída.

Tua trajetória ensina

Que os bons Deus ilumina,

Faz melhor o dom da vida.


Oitenta anos celebrados

Com gratidão e ternura,

Tesouros acumulados

Guardam memória segura

De uma vida valorosa

Que escrita em verso ou prosa

É relato de bravura.


Aqui alegres contigo

Reunidos nesta hora,

Somos frutos da amizade

Que da tua alma aflora.

Recebe, pois, meu abraço

Nestes versos que ora faço 

E que te dedico agora.


Nas relações de amizade 

Ferrario é capitão-mor.

Há um antigo ditado 

Que todos sabem de cor,

Com esse ditado eu me alinho:

O Ferrario é como o vinho

Quanto mais velho, melhor!

domingo, 1 de fevereiro de 2026

"A idade de Fortaleza: fundação, mito e construção da memória histórica" - Por Barros Alves

                                                                                   

A questão da “idade” de Fortaleza não é meramente cronológica; é, antes, historiográfica e política. O debate sobre quem deve ser reconhecido como fundador — e, por consequência, qual marco deve fixar a origem da cidade — revela tensões entre documentação, tradição, literatura e identidade regional. A narrativa consagrada pela memória popular e por atos oficiais nem sempre coincide com os dados históricos mais antigos. À luz das fontes e da historiografia cearense clássica, impõe-se reexaminar o papel de Matias Beck, Martim Soares Moreno e, sobretudo, de Pero Coelho de Sousa. A presença de Matias Beck no Ceará insere-se no contexto da expansão holandesa no Nordeste, sob a égide da Companhia das Índias Ocidentais (WIC). Em 1649, Beck fundou o Forte Schoonenborch às margens do riacho Pajeú, estrutura militar destinada a consolidar o domínio batavo na capitania do Siará Grande. Contudo, essa iniciativa ocorreu num momento em que a Companhia já enfrentava dificuldades financeiras e militares, após as reações luso-brasileiras que culminariam na expulsão dos holandeses em 1654.

Do ponto de vista histórico-jurídico, Beck não fundou Fortaleza como núcleo luso-brasileiro estável, mas implantou uma fortificação estrangeira em território disputado. Após a retomada portuguesa, o forte foi rebatizado como Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, origem do topônimo da cidade. Assim, o elemento urbano permanente derivou da ocupação portuguesa subsequente, e não do projeto holandês, que foi efêmero e politicamente descontinuado.

A historiografia cearense é clara ao distinguir entre fundação política estável e ocupação militar transitória. Beck, nesse sentido, é personagem relevante da fase holandesa, mas não fundador do Ceará ou de Fortaleza como realidade luso-brasileira.

        Martim Soares Moreno (c. 1586–1648) desempenhou papel importante na consolidação do domínio português no Ceará. Nomeado capitão-mor em 1612, procurou reorganizar a ocupação e fortalecer alianças com grupos indígenas, notadamente os potiguaras. Seu prestígio histórico, porém, foi amplificado no século XIX pela literatura romântica, especialmente por José de Alencar.

Em Iracema (1865), Alencar constrói a figura simbólica do “guerreiro branco”, representante da fusão entre o colonizador e a terra americana. Ainda que Moreno não seja personagem central do romance, a tradição literária e historiográfica passou a identificá-lo como herói fundador, reforçando a imagem de um pioneiro civilizador. Contudo, a documentação mostra que Moreno chegou ao Ceará quando já existiam tentativas anteriores de ocupação e fortificação. Seu governo foi relativamente breve e marcado por dificuldades estruturais. Ele não inaugurou a presença portuguesa, mas deu continuidade a um processo já iniciado. Sua mitificação decorre menos da cronologia factual e mais da construção simbólica do século XIX, quando o Ceará buscava heróis para afirmar sua identidade histórica.

A documentação seiscentista aponta Pero Coelho de Sousa como protagonista da primeira tentativa sistemática de colonização do Ceará. Fidalgo açoriano e militar experiente, participou de campanhas ultramarinas antes de liderar, às próprias expensas, expedição destinada originalmente ao combate a franceses no Maranhão. Em 1603, estabeleceu-se na Barra do Ceará, onde construiu o Forte de São Tiago e batizou o núcleo de Nova Lisboa. Denominou ainda o território circundante de Nova Lusitânia, gesto revelador de intenção colonizadora e política de posse.

Essa fundação precede tanto a atuação de Moreno quanto a ocupação holandesa. A iniciativa de Pero Coelho representou o primeiro esforço organizado de implantação da autoridade portuguesa na região. Apesar das adversidades — secas, hostilidades indígenas e carência de apoio metropolitano —, sua empresa marcou o início formal da colonização do Ceará.

O reconhecimento dessa primazia não é recente. Em 1903, o Barão de Studart mobilizou autoridades e intelectuais para celebrar o tricentenário do Ceará, tomando como marco justamente a chegada de Pero Coelho em 1603. A escolha não foi casual, mas baseada em documentação histórica. Esse dado demonstra que, no início do século XX, a elite intelectual cearense reconhecia explicitamente Pero Coelho como iniciador do processo colonizador. A posterior predominância simbólica de Moreno deve-se mais à força do romantismo literário e à necessidade de heróis identitários do que à cronologia factual.

Outro ponto relevante é o critério oficial de “idade” de Fortaleza. A data de 13 de abril de 1726, celebrada legalmente, corresponde à instalação do povoado à categoria da Vila de Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, cujo decreto régio com tal desiderato fora assinado em 11 de março de 1725. Trata-se, portanto, de marco administrativo e jurídico, não da origem efetiva da ocupação.

A definição legal privilegia a institucionalização municipal, não o início da presença europeia. Isso cria uma dissociação entre nascimento histórico e reconhecimento administrativo. Se considerarmos 1603 como marco inicial da fundação territorial portuguesa, a idade histórica do Ceará e, indiretamente, do núcleo que evoluiria para Fortaleza, é substancialmente anterior à data oficial.

Os fatos históricos sugerem distinção clara: Pero Coelho de Sousa (1603) foi primeiro a fundar núcleo organizado e a reivindicar formalmente o território para a Coroa portuguesa; Martim Soares Moreno (1612), continuador do processo colonizador, posteriormente elevado à condição de herói fundador por construção literária e simbólica; Matias Beck (1649) foi o construtor de fortificação holandesa, temporária, em localidade já explorada, sem continuidade política portuguesa imediata. Segundo Câmara Cascudo, o flibusteiro Matias Beck apenas patinou na praia.

Sob esse prisma, me parece historicamente consistente reconhecer Pero Coelho como o fundador do Ceará e, por extensão, o primeiro a lançar as bases do que viria a ser Fortaleza. Moreno foi colonizador relevante e figura simbólica poderosa; Beck, ocupante estrangeiro em contexto de guerra colonial.

A idade de Fortaleza é resultado de opção legislativa, não de consenso historiográfico sobre sua origem. A elevação a vila em 1726 fixou a data oficial, mas a gênese histórica remonta a iniciativas anteriores, especialmente à expedição de Pero Coelho de Sousa em 1603.

A memória coletiva, moldada pela literatura romântica e por escolhas políticas posteriores, consagrou Moreno como herói maior. Entretanto, à luz da documentação histórica e das comemorações tricentenárias promovidas pelo Barão de Studart, a primazia fundadora pertence a Pero Coelho. Reconhecer isso não diminui o valor de Moreno nem ignora a relevância do episódio holandês; apenas restitui a cronologia e a hierarquia dos fatos. A história, quando depurada de mitificações, não destrói símbolos, apenas os reposiciona.

 

Bibliografia consultada

ABREU, Capistrano de. Capítulos de História Colonial (1500–1800). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1935.

ALENCAR, José de. Iracema. Rio de Janeiro: Garnier, 1865.

GIRÃO, Raimundo. História Econômica do Ceará. Fortaleza: Imprensa Universitária, 1959.

GIRÃO, Raimundo. Pequena História do Ceará. Fortaleza: UFC, 1971.

STUDART, Guilherme (Barão de Studart). Datas e Fatos para a História do Ceará. Fortaleza: Tipografia Studart, 1910.

STUDART, Guilherme. Tricentenário do Ceará (1603–1903). Fortaleza: 1903.

POMPEU SOBRINHO, Thomaz. História do Ceará. Fortaleza: Instituto do Ceará, 1953.

INSTITUTO DO CEARÁ (Histórico, Geográfico e Antropológico). Revista do Instituto do Ceará, diversos números sobre a colonização seiscentista.