sexta-feira, 5 de junho de 2026

"Nossa Senhora, de Fulton Sheen" - Por Barros Alves

                                                                          


Recentemente algumas editoras brasileiras redescobriram uma das personalidades mais importantes da Igreja Católica no século XX, sobretudo nos EUA, onde desempenhou sua missão sacerdotal, sendo um dos primeiros prelados católicos a usar com grande sucesso os principais meios de comunicação da época, quais sejam o Rádio e a Televisão. Refiro-me ao Bispo Fulton Sheen, que alcancou enorme popularidade nos anos 1950,  ao apresentar diariamente durante vários anos, o Programa "Life is Worth Living" (A vida vale a pena ser vivida). Além de exímio pregador, Sheen era doutorado em Filosofia e Teologia, foi professor e escreveu dezenas de livros sobre  espiritualidade, apologética e vida cristã, entre eles "Nossa Senhora"  sobre o qual falarei adiante; "O Sacerdote Não Pertence a Si Mesmo", "Paz de Espírito" e "A Vida de Cristo".

Reconhecido por sua eloquência, profundidade intelectual e fervor mariano, Fulton Sheen teve papel decisivo na evangelização através dos meios de comunicação modernos. Em 2012, o Papa Bento XVI reconheceu suas virtudes heróicas, concedendo-lhe o título de Venerável, importante etapa no processo de canonização. Em 5 de julho de 2019, o Papa Francisco aprovou um milagre ocorrido pela intercessão de Fulton Sheen, mas seu processo de beatificação ainda permanece aberto. Todavia, como Deus a tudo conduz no tempo que Lhe aprouver, talvez tenha colocado um norte-americano no trono de Pedro para que também venha a reconhecer a santidade de vida de Fulton Sheen.  Aliás,  já há informações de que a beatificação do Venerável ocorrerá no dia 24 de setembro vindouro, em Saint Louis, Missouri, Estados Unidos. A celebração se dará sem a presença do Papa Leão XIV, que será representado prlo Cardeal Luís Antonio Tagle.

É sobre um dos mais admiráveis escritos desse extraordinário pregador mariano, que passarei a discorrer. Li a obra embevecido. Não estarei faltando com a verdade se disser que toda a escritura de Fulton Sheen me comove, me enleva e me eleva.

A Edições Gratia Plena, de Valadares, Minas Gerais, publicou em 2021 o livro "Nossa Senhora" (144 páginas), uma obra de espiritualidade mariana que reúne reflexões sobre a pessoa, a missão e a importância da Virgem Maria na história da salvação. Sheen, conhecido por sua extraordinária capacidade de comunicar a fé católica ao grande público, apresenta Maria não apenas como objeto de devoção, mas como modelo perfeito de fé, esperança e amor. O autor examina episódios da vida da Mãe de Jesus, suas virtudes — maternidade, virgindade, fidelidade e confiança em Deus — e também o significado espiritual das principais aparições marianas reconhecidas pela Igreja.

Um dos temas centrais do livro é a convicção de que toda autêntica devoção mariana conduz a Cristo. Para Sheen, Maria nunca ocupa o lugar de Jesus; ao contrário, sua missão é levar os fiéis ao encontro do Filho. Essa perspectiva está em plena sintonia com a tradição católica, que vê Maria como medianeira de graças por sua íntima união com a obra redentora de Cristo. Rigorosamente católico ele observa: "Maria não é nossa redenção; não caiamos no absurdo. Asdim como a mãe nao é o médico, assim Maria não é o Redentor; do mesmo modo, porém, que muitos de entre nós devem a conservação da sua vida física à mãe terrena, assim devem a conservação da sua vida espiritual à Mãe de todas as mães, a Nossa Senhora." ( pág.  118)

A obra possui um tom ao mesmo tempo teológico e pastoral.  Fundamentada na doutrina católica, é escrita em linguagem acessível, marcada pelo estilo eloquente e meditativo característico de Fulton Sheen. Por isso, pode ser apreciada tanto por estudiosos da mariologia quanto por leitores que desejam aprofundar sua vida espiritual.

"Nossa Senhora", de Sheen,  não é um tratado acadêmico de mariologia, desses chatos e herméticos que fazem o leitor não passar da décima página.  Trata-se de uma obra de contemplação e formação espiritual. Seu maior mérito está em apresentar Maria como figura viva e atual, capaz de inspirar o cristão contemporâneo em meio às crises da família, da fé e da cultura. A leitura revela a profunda devoção mariana de Fulton Sheen e sua convicção de que o caminho mais seguro para Cristo passa pela escola espiritual de Maria. A fala profética e admoestadora contra o comunismo ateu está no último capítulo, "Nossa Senhora da Rússia", que continua atualíssimo, apesar do texto haver sido escrito em tempos de Guerra Fria.

Enfim, é uma leitura amena que, apesar de ser traduzido (tradutore, traditore) conserva o estilo leve e agradável de Sheen, sem perder a densidade teológica. Daí é que tenho certeza de que constitui profícua leitura não apenas para leigos, mas também  para sacerdotes e religiosos que desejam fortalecer a devoção mariana, assim como compreender melhor o papel de Nossa Senhora na fé católica e na própria economia da salvação.

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