domingo, 31 de maio de 2026

"Corações ao Alto" - Por Barros Alves

                                                                         


Há lembranças que o tempo não desgasta. Antes, as torna mais luminosas, como aquelas estrelas antigas cuja luz continua viajando pelo firmamento mesmo depois de já não estarem entre nós. Assim são as imagens de meu pai e de meu irmão, guardadas no sacrário da memória.

Meu pai, Zé Chico da Caiana, era um homem da terra. Agricultor de mãos calejadas, rosto queimado pelo sol e alma moldada pelos rigores da seca e das esperanças da chuva. Não sabia ler nem escrever. Aos olhos do mundo, era um analfabeto. Aos olhos de Deus, porém, era um sábio.

Vejo-o ainda, já envelhecido, sentado à cabeceira da mesa. Sobre ela repousavam os alimentos arrancados do chão pelo suor do seu rosto, conforme a antiga sentença do Gênesis: “Com o suor do teu rosto comerás o teu pão” (Gn 3,19). Ao seu redor, alguns dos dezesseis filhos e outros mais da família, recolhidos em respeitoso silêncio. Então ele unia as mãos, baixava a cabeça e agradecia.

Aquele gesto simples possuía a solenidade de uma liturgia.

Não era apenas uma oração antes da refeição. Era um ato de reconhecimento de que tudo vinha de Deus: o pão, o feijão, a chuva, a colheita, os filhos e a própria vida. Naquele instante, meu pai transformava a mesa familiar em altar e os alimentos em testemunhos da providência divina.

Lembro-me das palavras do salmista: “Todos têm os olhos postos em Ti, e a seu tempo lhes dás o alimento” (Sl 145,15). Meu pai jamais  leu  esse versículo. Contudo, ele o conhecia com uma profundidade que muitos doutores desconhecem. Conhecia-o porque o vivia.

Também me visita a lembrança de meu irmão, Joca, que para mim foi igualmente um pai. Homem da roça, de poucas palavras e muitos exemplos. Quando a noite descia sobre o sertão e o silêncio se espalhava pelos caminhos escuros, eu o via ajoelhado ao lado da rede de dormir.

A luz da lamparina tremulava, projetando sombras nas paredes de barro. E ali estava ele, curvado diante do Mistério.

Rezava sem pressa.

Agradecia sem exigências.

Confiava sem reservas.

Aquele homem simples, cuja existência parecia insignificante aos olhos dos poderosos, dialogava com o Senhor do universo como quem conversa com um amigo próximo. Não pedia riquezas nem honrarias. Agradecia. Apenas agradecia. Porque sabia que Deus tudo provê.

Hoje compreendo que aquelas cenas constituíam uma verdadeira teologia vivida. Não a teologia dos tratados eruditos, mas a teologia dos joelhos dobrados. Não a ciência dos livros, mas a sabedoria do coração.

Meu pai e meu irmão eram homens rudes, sem letras, mas não eram ignorantes. Havia neles uma inteligência espiritual que ultrapassava os limites do conhecimento acadêmico. Conheciam aquilo que Santo Agostinho chamou de “a ciência do amor”, a única capaz de conduzir o ser humano ao encontro de Deus.

Neles eu contemplava uma manifestação da graça. Uma epifania silenciosa que iluminava a casa pobre mais intensamente do que qualquer lâmpada.

Por isso, quando recordo suas figuras ajoelhadas, volto meu pensamento para a oração de Cristo:

“Graças te dou, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11,25).

Quantas vezes os poderosos imaginam possuir todas as respostas, enquanto os pequeninos guardam os segredos essenciais da existência! Quantas vezes os eruditos discutem Deus, enquanto os humildes simplesmente o encontram!

Meu pai encontrou Deus à mesa.

Meu irmão encontrou Deus junto à rede.

E ambos me ensinaram que a verdadeira grandeza não consiste em acumular saberes, mas em reconhecer, com humildade, a fonte de todos os bens.

Hoje, quando a memória me conduz àquelas noites de lamparina e àquelas refeições familiares, compreendo que vivi entre sacerdotes sem batina. Homens simples que celebravam diariamente a liturgia da gratidão. Homens que fizeram da própria vida uma oração.

E se algum dia me perguntarem onde vi mais claramente o rosto de Deus, talvez eu responda sem hesitar: numa mesa sertaneja cercada de filhos, ou sob a luz vacilante de uma lamparina, onde dois homens humildes, de joelhos, agradeciam ao Pai pelos dons que descem do alto.

Porque a fé, quando é verdadeira, não precisa de palácios nem de púlpitos. Basta-lhe um coração agradecido.

Mas a galeria dessas santas lembranças não estaria completa sem a presença de minha mãe adotiva, cuja memória habita em mim com a mesma ternura e gratidão.

Eu a chamava — e ainda hoje a chamo — de Meu Amorzinho.

Quando a recordo, vejo-a sempre com um rosário entre os dedos. As contas gastas pelo uso pareciam prolongamentos de suas próprias mãos, numa intimidade tão profunda com a oração que já não se distinguia onde terminava a mulher e começava a devoção.

Enquanto os homens da casa buscavam no trabalho da roça o sustento cotidiano, Meu Amorzinho travava seus combates no território invisível da fé. Rezava incessantemente. Rezava pelos parentes e aderentes, pela família, pelos enfermos, pelos ausentes e pelos aflitos. Rezava pelos vivos e pelos mortos. Rezava porque acreditava.

Hoje, olhando para trás, para aqueles anos marcados por permanentes lutas pela sobrevivência, imagino que muitas de suas súplicas eram depositadas aos pés de Nossa Senhora das Dores. Quem mais poderia compreender tão profundamente as aflições de uma mãe senão aquela que recebeu, ao pé da cruz, a espada profetizada por Simeão: "E uma espada transpassará a tua alma" (Lc 2,35)?

Talvez por isso Meu Amorzinho encontrasse nela abrigo e consolo. As dores da vida eram confiadas à Mãe das Dores; as incertezas do amanhã, à Rainha da Esperança; os temores da pobreza, àquela que cantou no "Magnificat" a fidelidade de Deus para com os humildes.

Ainda hoje me parece ouvir o suave murmúrio de suas Ave-Marias atravessando as tardes e as noites de nossa casa. Era uma oração simples, mas carregada de uma força que os poderosos dificilmente compreenderiam. Ali estava uma mulher sem pretensões teológicas, mas profundamente mergulhada nos mistérios da fé.

Se meu pai transformava a mesa em altar de gratidão e meu irmão santificava a noite sob a luz da lamparina, Meu Amorzinho convertia o rosário em ponte entre a Terra e o Céu. E assim, cada um à sua maneira, ensinava que Deus se deixa encontrar não apenas nos templos majestosos, mas também nas casas humildes onde a oração brota sincera do coração.

Hoje compreendo que muito da fé que me sustenta nasceu dessas três testemunhas silenciosas: meu pai de mãos postas à mesa, meu irmão ajoelhado junto à rede e Meu Amorzinho com o rosário entre os dedos. Neles resplandeceu aquela sabedoria dos pequeninos de que falou Cristo; neles a graça se fez visível; neles Deus escreveu, sem tinta e sem papel, uma das mais belas páginas de Evangelho que já pude ler.



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domingo, 10 de maio de 2026

"Sonetos para aquela que mais me amou" - Por Barros Alves


 Soneto I

Quando da vida o outono me alcançou,

Voltou-me à alma um lume enternecido:

Teu doce olhar, tão manso e comovido,

Que em minhas noites trêmulas brilhou.


“Meu Amorzinho” — assim te nomeou

Meu coração de afeto estremecido,

Pois foste abrigo, amparo e chão florido

Que a mão de Deus bondosa me ofertou.


Na singeleza do labor constante,

Na fé singela erguida em cada dia,

Formaste em mim o amor ao justo e ao santo.


E hoje ao sentir a dor de estás distante 

Ainda comigo estás, luzeiro e guia

Do filho amado que inda te ama tanto!


Soneto II

Ela tinha um olhar imaculado,

A sua voz, ternura e acalanto.

Uma santa a cobrir-me com seu manto

De puro e imenso amor ornamentado.


Ela me fez sonhar mesmo acordado,

E a apreciar encanto e desencanto,

E tantas vezes enxugou meu pranto

Igual a Virgem ao do Filho Amado.


Retirando os abrolhos do caminho

Estendeu-me um tapete de carinho

A demonstrar o maternal cuidado.


Ela foi minha MÃE sem me parir,

Quando eu chorei ela me fez sorrir,

Luz que fez meu viver iluminado.


Soneto III

Cobria-me com gestos de carinho,

Amou-me desvelada, em plenitude!

Ensinou-me os caminhos da Virtude

E eu a chamava de MEU AMORZINHO.


Ela foi um luzeiro em meu caminho,

O meu sentir jamais não há quem mude

Ao relembrar a doce completude

Do amor imenso de MEU AMORZINHO.


Era uma sábia, tinha engenho e arte.

Sem letra, sem escrita, sem estudo,

Soube empunhar da vida o estandarte.


Mesmo que eu fique cego, surdo e mudo,

Eu juro, espalharei por toda parte:

-- MEU AMORZINHO para mim foi TUDO!


Soneto IV

As lágrimas que eu chorei ela chorava,

As dores que eu senti ela sentia,

O riso que sorri ela sorria,

Os sonhos que eu sonhei ela sonhava.


Ao erro cometido ela ralhava,

Na desobediência reprimia,

Porém, seu doce olhar me bendizia,

Com suas orações me abençoava.


Um rosto todo feito de bondade,

Os gestos todos feitos de carinho,

De imenso amor e generosidade...


Ela foi sempre a luz do meu caminho,

Foi minha mãe de fato e de verdade,

Eu a chamava de MEU AMORZINHO.


Soneto V

Oh, que saudade do beijo e do carinho

Que a minha mãe me dava, eu pequenino;

A doce voz soava como um hino, 

E me chamava de meu amorzinho.


O seu imenso amor, eu imagino,

Iluminou no tempo o meu caminho, 

E eu a chamava de MEU AMORZINHO 

Numa repetição de amor supino.


Seu amor era quase devoção,

E eu inda hoje a vejo num cantinho 

Rogando a Deus por mim em oração.


Deus ouviu os seus rogos direitinho! 

Ela é Santa Tereza do Sertão,

Eternamente será MEU AMORZINHO!


Soneto VI

Quando mergulho em águas já passadas

Invade-me a saudade e a tristeza...

É que me lembro de minha mãe, Tereza,

Uma das mentes mais iluminadas!


A timoneira de um lar modesto e pobre

Era um tesouro de amor e de carinho,

Eu a chamava de “Meu Amorzinho”,

Um largo coração sensível e nobre!


Quão belas as cantigas que eu ouvia!

As quais para ninar-me ela cantava

Em doce e sonorosa melodia...


Era um poema de Deus cada canção,

Era uma santa cantando e eu não sabia:

--Era Santa Tereza do Sertão!