A questão da “idade” de Fortaleza não é meramente cronológica; é, antes, historiográfica e política. O debate sobre quem deve ser reconhecido como fundador — e, por consequência, qual marco deve fixar a origem da cidade — revela tensões entre documentação, tradição, literatura e identidade regional. A narrativa consagrada pela memória popular e por atos oficiais nem sempre coincide com os dados históricos mais antigos. À luz das fontes e da historiografia cearense clássica, impõe-se reexaminar o papel de Matias Beck, Martim Soares Moreno e, sobretudo, de Pero Coelho de Sousa. A presença de Matias Beck no Ceará insere-se no contexto da expansão holandesa no Nordeste, sob a égide da Companhia das Índias Ocidentais (WIC). Em 1649, Beck fundou o Forte Schoonenborch às margens do riacho Pajeú, estrutura militar destinada a consolidar o domínio batavo na capitania do Siará Grande. Contudo, essa iniciativa ocorreu num momento em que a Companhia já enfrentava dificuldades financeiras e militares, após as reações luso-brasileiras que culminariam na expulsão dos holandeses em 1654.
Do ponto de vista histórico-jurídico, Beck não fundou Fortaleza como núcleo luso-brasileiro estável, mas implantou uma fortificação estrangeira em território disputado. Após a retomada portuguesa, o forte foi rebatizado como Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, origem do topônimo da cidade. Assim, o elemento urbano permanente derivou da ocupação portuguesa subsequente, e não do projeto holandês, que foi efêmero e politicamente descontinuado.
A historiografia cearense é clara ao distinguir entre fundação política estável e ocupação militar transitória. Beck, nesse sentido, é personagem relevante da fase holandesa, mas não fundador do Ceará ou de Fortaleza como realidade luso-brasileira.
Martim Soares Moreno (c. 1586–1648) desempenhou papel importante na consolidação do domínio português no Ceará. Nomeado capitão-mor em 1612, procurou reorganizar a ocupação e fortalecer alianças com grupos indígenas, notadamente os potiguaras. Seu prestígio histórico, porém, foi amplificado no século XIX pela literatura romântica, especialmente por José de Alencar.
Em Iracema (1865), Alencar constrói a figura simbólica do “guerreiro branco”, representante da fusão entre o colonizador e a terra americana. Ainda que Moreno não seja personagem central do romance, a tradição literária e historiográfica passou a identificá-lo como herói fundador, reforçando a imagem de um pioneiro civilizador. Contudo, a documentação mostra que Moreno chegou ao Ceará quando já existiam tentativas anteriores de ocupação e fortificação. Seu governo foi relativamente breve e marcado por dificuldades estruturais. Ele não inaugurou a presença portuguesa, mas deu continuidade a um processo já iniciado. Sua mitificação decorre menos da cronologia factual e mais da construção simbólica do século XIX, quando o Ceará buscava heróis para afirmar sua identidade histórica.
A documentação seiscentista aponta Pero Coelho de Sousa como protagonista da primeira tentativa sistemática de colonização do Ceará. Fidalgo açoriano e militar experiente, participou de campanhas ultramarinas antes de liderar, às próprias expensas, expedição destinada originalmente ao combate a franceses no Maranhão. Em 1603, estabeleceu-se na Barra do Ceará, onde construiu o Forte de São Tiago e batizou o núcleo de Nova Lisboa. Denominou ainda o território circundante de Nova Lusitânia, gesto revelador de intenção colonizadora e política de posse.
Essa fundação precede tanto a atuação de Moreno quanto a ocupação holandesa. A iniciativa de Pero Coelho representou o primeiro esforço organizado de implantação da autoridade portuguesa na região. Apesar das adversidades — secas, hostilidades indígenas e carência de apoio metropolitano —, sua empresa marcou o início formal da colonização do Ceará.
O reconhecimento dessa primazia não é recente. Em 1903, o Barão de Studart mobilizou autoridades e intelectuais para celebrar o tricentenário do Ceará, tomando como marco justamente a chegada de Pero Coelho em 1603. A escolha não foi casual, mas baseada em documentação histórica. Esse dado demonstra que, no início do século XX, a elite intelectual cearense reconhecia explicitamente Pero Coelho como iniciador do processo colonizador. A posterior predominância simbólica de Moreno deve-se mais à força do romantismo literário e à necessidade de heróis identitários do que à cronologia factual.
Outro ponto relevante é o critério oficial de “idade” de Fortaleza. A data de 13 de abril de 1726, celebrada legalmente, corresponde à instalação do povoado à categoria da Vila de Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, cujo decreto régio com tal desiderato fora assinado em 11 de março de 1725. Trata-se, portanto, de marco administrativo e jurídico, não da origem efetiva da ocupação.
A definição legal privilegia a institucionalização municipal, não o início da presença europeia. Isso cria uma dissociação entre nascimento histórico e reconhecimento administrativo. Se considerarmos 1603 como marco inicial da fundação territorial portuguesa, a idade histórica do Ceará e, indiretamente, do núcleo que evoluiria para Fortaleza, é substancialmente anterior à data oficial.
Os fatos históricos sugerem distinção clara: Pero Coelho de Sousa (1603) foi primeiro a fundar núcleo organizado e a reivindicar formalmente o território para a Coroa portuguesa; Martim Soares Moreno (1612), continuador do processo colonizador, posteriormente elevado à condição de herói fundador por construção literária e simbólica; Matias Beck (1649) foi o construtor de fortificação holandesa, temporária, em localidade já explorada, sem continuidade política portuguesa imediata. Segundo Câmara Cascudo, o flibusteiro Matias Beck apenas patinou na praia.
Sob esse prisma, me parece historicamente consistente reconhecer Pero Coelho como o fundador do Ceará e, por extensão, o primeiro a lançar as bases do que viria a ser Fortaleza. Moreno foi colonizador relevante e figura simbólica poderosa; Beck, ocupante estrangeiro em contexto de guerra colonial.
A idade de Fortaleza é resultado de opção legislativa, não de consenso historiográfico sobre sua origem. A elevação a vila em 1726 fixou a data oficial, mas a gênese histórica remonta a iniciativas anteriores, especialmente à expedição de Pero Coelho de Sousa em 1603.
A memória coletiva, moldada pela literatura romântica e por escolhas políticas posteriores, consagrou Moreno como herói maior. Entretanto, à luz da documentação histórica e das comemorações tricentenárias promovidas pelo Barão de Studart, a primazia fundadora pertence a Pero Coelho. Reconhecer isso não diminui o valor de Moreno nem ignora a relevância do episódio holandês; apenas restitui a cronologia e a hierarquia dos fatos. A história, quando depurada de mitificações, não destrói símbolos, apenas os reposiciona.
Bibliografia consultada
ABREU, Capistrano de. Capítulos de História Colonial (1500–1800). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1935.
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GIRÃO, Raimundo. História Econômica do Ceará. Fortaleza: Imprensa Universitária, 1959.
GIRÃO, Raimundo. Pequena História do Ceará. Fortaleza: UFC, 1971.
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POMPEU SOBRINHO, Thomaz. História do Ceará. Fortaleza: Instituto do Ceará, 1953.
INSTITUTO DO CEARÁ (Histórico, Geográfico e Antropológico). Revista do Instituto do Ceará, diversos números sobre a colonização seiscentista.
