domingo, 5 de abril de 2026

"Leis de gênero: a criminalização do humor e do riso" - Por Barros Alves

                                                                          


Há, ao longo da história, um traço recorrente nas experiências autoritárias, qual seja a tentativa de disciplinar não apenas o comportamento, mas também o pensamento, a linguagem e, em última instância, o próprio riso. Regimes de feição totalitária raramente se apresentam como tais; preferem vestir-se com as roupagens sedutoras do “progresso”, da “justiça social” ou da “proteção dos vulneráveis”. Sob esse manto aparentemente virtuoso, vão introduzindo, de forma gradual e muitas vezes quase imperceptível, mecanismos legais e culturais que restringem liberdades fundamentais.

Entre essas liberdades, poucas são tão essenciais quanto a liberdade de expressão e de pensamento. É dela que decorre a possibilidade de crítica, de debate e de aperfeiçoamento das ideias, elementos indispensáveis à vida democrática. No entanto, observa-se, em diversas partes do mundo e também no Brasil, um movimento crescente no sentido de normatizar discursos, interditar palavras e, mais grave ainda, cercear formas tradicionais de manifestação cultural, como o humor, a sátira e a ironia.

O humor sempre desempenhou um papel social relevante. Ele não apenas diverte, mas também revela contradições, expõe hipocrisias e desarma pretensões autoritárias. O riso, nesse sentido, é profundamente subversivo, posto que relativiza o poder, humaniza as relações e impede a sacralização de ideologias. Ridendo castigat mores! Não é por acaso que, historicamente, regimes autoritários demonstraram profunda aversão à sátira. 

O problema surge quando determinadas agendas, por mais legítimas que possam ser em sua origem,  passam a reivindicar proteção jurídica contra qualquer forma de crítica ou representação humorística. Ao transformar temas complexos e controversos em territórios imunes ao questionamento, cria-se um ambiente de censura indireta, no qual artistas, escritores e comunicadores passam a autocensurar-se por temor de sanções legais ou sociais.

No Brasil contemporâneo, essa tendência manifesta-se de maneira preocupante. Normas, projetos de lei e decisões judiciais, muitas vezes motivados pela intenção de proteger grupos específicos, acabam por estabelecer limites difusos e perigosos à liberdade de expressão. O resultado é um cenário em que costumes, tradições e valores culturais deixam de poder ser objeto de crítica ou de humor, sob o risco de serem interpretados como ofensivos ou discriminatórios.

Se levada às últimas consequências, essa lógica tornaria inviável a obra de inúmeros criadores que ajudaram a formar a identidade cultural brasileira. A literatura, em especial a literatura popular, o teatro, a música e o humor popular, todos marcados pela irreverência, pela crítica social e pela liberdade criativa, seriam submetidos a um crivo ideológico restritivo, incompatível com a riqueza e a diversidade que caracterizam a cultura nacional. As cantorias em que poetas repentistas improvisam versos ao ponteio da viola, sempre cáusticos do poder, perdem a força da criatividade poética; inúmeros folhetos de cordel como, por exemplo, o clássico a "Peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho do Tucum" já estão "cancelados", condenados ao fundo do baú e, pelo andar da carruagem, à fogueira inquisitorial das mediocridades imperantes, no cenário acadêmico e da Mídia, inclusive.

Além disso, a proliferação de neologismos legislativos e categorias conceituais pouco consolidadas contribui para a insegurança jurídica e para a fragmentação social. Em vez de promover a harmonia, tais iniciativas frequentemente acentuam divisões, estimulando uma dinâmica de antagonismo entre grupos que passam a se perceber como mutuamente excludentes. Em nome da inclusão, corre-se o risco de fomentar a intolerância recíproca.

A democracia, por sua própria natureza, exige o convívio com o dissenso, com o desconforto e até mesmo com o erro. Pretender eliminar completamente o risco de ofensa ou de discordância é, paradoxalmente, abrir caminho para formas sutis e, por vezes eficazes, de autoritarismo. Uma sociedade verdadeiramente livre não é aquela em que todos concordam, mas aquela em que todos podem discordar sem medo.

Por isso, é fundamental preservar o espaço do humor, da crítica e da livre manifestação intelectual. Não se trata de legitimar abusos ou de ignorar a dignidade das pessoas, mas de reconhecer que a liberdade de expressão é um valor estruturante, sem o qual os demais direitos tendem a esvaziar-se.

A tentativa de regular o riso, de domesticar a sátira e de enquadrar a criatividade em moldes ideológicos rígidos não representa avanço civilizatório, mas um retrocesso. Trata-se, em última análise, de uma forma de empobrecimento cultural e de enfraquecimento da própria democracia.

Defender a liberdade de expressão, inclusive quando ela se manifesta de maneira incômoda ou irreverente, é, portanto, um imperativo. Não apenas jurídico, mas moral e civilizacional. É preciso reconhecer, com clareza, que uma sociedade que perde a capacidade de rir de si mesma corre o risco de tornar-se prisioneira de suas próprias certezas e, nesse processo, abrir mão daquilo que tem de mais precioso: a liberdade.

"Cantos de morte e ressurreição" - Por Barros Alves

                                                                     


1.

Por que temer a morte se  não mata

A alma imperecível do cristão?!

Só mata o corpo, pois Jesus resgata

Todo fiel. E dá-lhe a salvação.


Temos promessa de ressurreição 

Do Trino Deus que tudo, enfim, governa.

A morte, pois, é mera transição 

Para vivermos plena vida eterna.


Oh, vil morte onde está teu aguilhão?

Tua maldade não me causa espanto,

O teu poder não passa de ilusão.


Que Deus nos cubra com o Sagrado Manto,

Conceda-nos viver eternamente 

Com o Pai, o Filho e o Espírito Santo.


                                                       



2.

Sexta-feira. Depois de torturado,

Pelas vielas de Jerusalém 

Arrastaram-no feito um Zé Ninguém

Para no Monte ser crucificado.


O Cordeiro de Deus, o Bem Amado,

O Filho do Altíssimo, o Sumo Bem,

Pede um sinal dos Céus. Não obtém.

Se sente por Deus Pai abandonado.


O lancinante grito se fez Luz

Naquela sexta-feira da Paixão,

Mistério que ainda hoje nos conduz...


Morte! Oh, morte, onde está teu aguilhão?

Foi destruído no Cristo sobre a cruz

Que nos deu Vida na RESSURREIÇÃO.


OBS: as pinturas são de Caravaggio.