quarta-feira, 5 de agosto de 2026

"O triunfo da mediocridade autoritária" - Por Barros Alves

                                                       


Uma das perguntas mais perturbadoras da história política é esta: como homens de inteligência comum, formação limitada e escassa grandeza moral conseguem dominar povos inteiros e levar personalidades brilhantes à submissão? Como juristas renomados, professores, jornalistas, empresários, religiosos e intelectuais renunciam ao dever de resistir, aceitando ou mesmo justificando o avanço do autoritarismo?

Alexis de Tocqueville advertia que as democracias podem ser corroídas não apenas pela força das armas, mas pela conformidade das consciências. Hannah Arendt mostrou que o totalitarismo prospera quando as pessoas deixam de pensar criticamente e passam a aceitar como normal aquilo que antes lhes parecia intolerável. George Orwell demonstrou que controlar a linguagem é um caminho para controlar a realidade. Aleksandr Soljenítsin, sobrevivente do Gulag soviético, ensinou que a primeira vitória da tirania ocorre quando os homens aprendem a viver na mentira.

Stalin, Hitler e Mussolini pertencem a contextos históricos distintos e governaram regimes totalitários responsáveis por guerras, perseguições políticas e milhões de mortes. Seria incorreto equiparar os governos lulocomunopetistas a essas ditaduras? Eu penso que, mutatis mutandis, não. A  história permite comparar métodos, estratégias e tendências autoritárias, sempre respeitando as diferenças de escala e contexto.

Ao longo dos anos recentes os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff estimularam um modelo de poder caracterizado pela concentração de influência política, pela tentativa de hegemonia ideológica, pelo aparelhamento de significativas parcelas da administração pública, pela aproximação com governos de perfil autoritário na América Latina e em outras regiões do planeta, pela desqualificação sistemática de adversários. Ainda que essas práticas tenham ocorrido dentro de um regime dito democrático, elas suscitam debates legítimos sobre os limites do poder e a necessidade de preservar instituições independentes.

O problema maior, porém, não está apenas nos governantes. Está na capitulação das elites. Ao longo da história, regimes autoritários raramente triunfaram apenas pela força. Contaram sempre com intelectuais dispostos a justificar abusos, jornalistas que relativizaram violações, empresários que preferiram a conveniência ao princípio e líderes religiosos que trocaram a verdade pelo silêncio.

A liberdade não desaparece apenas quando surgem censores oficiais. Ela também enfraquece quando o medo da reprovação social substitui a coragem da palavra livre; quando a autocensura se torna hábito; quando críticas passam a ser confundidas com discursos de ódio; quando o debate é substituído pela desqualificação moral do adversário.

Nenhum projeto político, seja de esquerda ou de direita, pode colocar-se acima da Constituição, da alternância de poder, da liberdade de expressão, da independência do Judiciário e da autonomia da sociedade civil. Esses não são privilégios concedidos pelo Estado, mas fundamentos de uma ordem verdadeiramente democrática.

A maior tragédia política não é o aparecimento de líderes com vocação autoritária, uma vez que eles sempre existiram. A verdadeira tragédia ocorre quando homens e mulheres livres, plenamente capazes de discernir o certo do errado, abandonam o combate moral, acomodam-se ao poder e passam a justificar aquilo que antes condenavam.

A história ensina que as democracias morrem menos pela força dos tiranos do que pela fraqueza daqueles que deveriam defendê-las. A liberdade exige vigilância permanente, coragem intelectual e compromisso inabalável com a verdade. Quando esses valores são substituídos pelo conformismo e pela submissão ao poder, abre-se caminho para que a mediocridade política prevaleça sobre a excelência moral.