quinta-feira, 23 de julho de 2026

"O vandalismo da memória histórica" - por Barros Alves

                                                                        


Ao visitar Teixeira de Freitas, próspero município do extremo sul da Bahia, depois de longa ausência, eis que não consigo encontrar na sede municipal, a Av. Lomanto Júnior,  nomeação que prestava homenagem a um dos mais influentes líderes políticos baianos da segunda metade do século passado. Sem motivo justificável o nome de Lomanto foi substituído pelo de Zilda Arns, uma personalidade que nunca pôs os pés na cidade. A constatação do desrespeito à memória daquele que foi  governador, senador e deputado federal, leva-me às considerações que seguem.

C.S. Lewis alertava para o perigo das gerações que se julgam capazes de “refundar o mundo”. Em sua arrogância, acreditam que a história começou com elas e que tudo o que as precedeu deve ser submetido ao tribunal ideológico do presente. Lembrai-vos do jargão "nunca antes neste país..." Eis uma ilusão recorrente e profundamente destrutiva. Nenhuma sociedade se sustenta sem memória, e nenhum futuro sólido pode ser construído sobre as ruínas deliberadamente produzidas do passado.

O que se observa hoje no Brasil, e particularmente em determinados ambientes políticos e acadêmicos, é a expansão de uma verdadeira cultura de hostilidade à história. Sob o rótulo aparentemente respeitável das “releituras históricas”, promove-se, na prática, um processo de deslegitimação da memória coletiva. Não se busca compreender o passado em sua complexidade; busca-se condená-lo. Não se pretende ampliar o conhecimento histórico; pretende-se reescrevê-lo segundo os dogmas ideológicos dominantes.

Essa postura tem produzido um fenômeno preocupante: o vandalismo simbólico. Em vez de destruir estátuas com marretas ou incendiar monumentos, apagam-se nomes, eliminam-se homenagens e removem-se referências históricas por meio de atos administrativos. O método mudou; a intolerância permanece a mesma. Trata-se de uma forma de iconoclastia que, sob o discurso da modernização ou da justiça histórica, revela profundo desprezo pela memória institucional e cultural da sociedade.

No Ceará, esse fenômeno tem se manifestado de maneira particularmente inquietante. A retirada do nome de Menezes Pimentel da fachada da Biblioteca Pública do Estado constitui um gesto de ingratidão histórica. Professor, ex-governador e homem público de reconhecida relevância, Menezes Pimentel não emprestou seu nome à instituição por acaso ou favor político. A homenagem representava o reconhecimento de uma trajetória vinculada ao desenvolvimento intelectual e administrativo do Estado. Sua supressão não engrandece a biblioteca nem fortalece a cultura; apenas empobrece a memória coletiva.

Da mesma forma, causam perplexidade as iniciativas que atingem a memória do presidente Humberto de Alencar Castello Branco e do reitor Antônio Martins Filho. Este último foi o fundador e primeiro reitor da Universidade Federal do Ceará, um dos maiores construtores da educação superior cearense. Quanto a Castello Branco, pode-se concordar ou discordar de aspectos de sua atuação política, mas ninguém pode negar sua relevância histórica. A tentativa de reduzir personagens dessa dimensão a caricaturas ideológicas revela menos sobre eles do que sobre aqueles que promovem tal julgamento.

Há algo de profundamente autoritário na pretensão de selecionar quais figuras do passado merecem ser lembradas e quais devem ser lançadas ao esquecimento. Os que hoje se apresentam como defensores da diversidade frequentemente demonstram escassa tolerância diante da diversidade de interpretações históricas. Querem uma memória pública higienizada, filtrada e adaptada às conveniências de sua visão de mundo. O resultado é uma história mutilada, incapaz de ensinar porque foi previamente censurada.

Uma sociedade madura não elimina seus personagens históricos; ela os estuda, contextualiza e debate. O apagamento não produz conhecimento. Ao contrário, produz ignorância. A destruição da memória coletiva nunca foi instrumento de progresso. Dos regimes totalitários do século XX aos movimentos contemporâneos de cancelamento histórico, a lógica permanece a mesma: controlar o passado para dominar a narrativa do presente.

O Ceará e o Brasil possuem desafios muito mais urgentes do que a perseguição simbólica a nomes inscritos em prédios públicos e instituições centenárias. Quando governantes e dirigentes concentram energias em rebatizar espaços e desmontar homenagens históricas, demonstram preocupante inversão de prioridades. A história deixa de ser objeto de estudo para se transformar em alvo de ressentimentos políticos.

A preservação da memória não é um ato de saudosismo. É um dever de civilização. Povos que perdem a capacidade de respeitar sua história acabam perdendo também a capacidade de compreender a si próprios. E aqueles que imaginam estar refundando o mundo costumam descobrir, tarde demais, que estavam apenas destruindo os alicerces sobre os quais ele foi construído.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

"Maracanaú-CE e Teixeira de Freitas-BA: trajetórias semelhantes de desenvolvimento e protagonismo regional " - Por Barros Alves

                                                                 


Em período de férias, por esses dias, depois de breve temporada capixaba, vim dar com os costados no extremo sul da Bahia, com pouso na simpática e buliçosa cidade de Teixeira de Freitas. Causou-me surpresa a similitude entre esse município e Maracanaú, onde se localiza o maior polo industrial do Ceará,  município que muito prezo por motivos vários.

A história recente de muitos municípios brasileiros é marcada por profundas transformações econômicas e sociais. Entre os exemplos mais expressivos desse fenômeno, quero crer que estão os municípios de Maracanaú, no nosso  Ceará; e Teixeira de Freitas, na Bahia. Embora localizados em regiões distintas do Nordeste, ambos compartilham características históricas notáveis: nasceram como pequenas vilas/distritos, conquistaram sua emancipação política no início da década de 1980 e, em poucos anos, tornaram-se importantes polos econômicos de seus respectivos estados.

Até o final da década de 1970, Maracanaú e Teixeira de Freitas eram localidades subordinadas administrativamente a municípios maiores. Maracanaú integrava o território de Maranguape, enquanto Teixeira de Freitas pertencia ao município de Alcobaça. Em ambos os casos, o crescimento populacional, a expansão das atividades econômicas e a crescente importância regional criaram as condições para a emancipação política.

Maracanaú foi emancipado em 1983, enquanto Teixeira de Freitas conquistou sua autonomia em 1985. A emancipação representou um marco decisivo para os dois municípios, permitindo maior capacidade de planejamento, investimentos em infraestrutura e fortalecimento das políticas públicas voltadas ao desenvolvimento local.

Apesar das semelhanças históricas, os caminhos que impulsionaram o crescimento econômico de cada cidade apresentaram características próprias. Em Maracanaú, o desenvolvimento esteve fortemente associado à industrialização. A implantação do Distrito Industrial de Maracanaú, um dos maiores do Nordeste, atraiu empresas de diversos segmentos, gerando empregos, renda e consolidando o município como um dos principais centros industriais do Ceará. Sua proximidade com Fortaleza também favoreceu a integração logística e econômica, ampliando ainda mais seu potencial de crescimento.

Já Teixeira de Freitas experimentou um desenvolvimento baseado principalmente no comércio, nos serviços e na posição estratégica que ocupa no Extremo Sul da Bahia. Situada em uma região de intensa atividade agropecuária e próxima a importantes áreas produtoras de celulose, café e pecuária, a cidade tornou-se um centro regional de negócios, saúde, educação e distribuição de mercadorias. Sua influência ultrapassa os limites municipais, atendendo dezenas de municípios da Bahia, além de localidades do Espírito Santo e de Minas Gerais.

A década de 1980 foi especialmente decisiva para ambos os municípios. Enquanto o Brasil enfrentava desafios econômicos em nível nacional, Maracanaú e Teixeira de Freitas vivenciavam um ciclo de expansão impulsionado por investimentos públicos e privados. O crescimento urbano acelerado atraiu migrantes em busca de oportunidades de trabalho e melhores condições de vida, contribuindo para a rápida ampliação da população e da economia local.

Outro aspecto que aproxima as duas cidades é o papel de centralidade regional que passaram a exercer. Maracanaú consolidou-se como um dos motores econômicos da Região Metropolitana de Fortaleza, destacando-se pela força industrial e pela arrecadação municipal. Teixeira de Freitas, por sua vez, transformou-se no principal centro urbano do Extremo Sul baiano, exercendo liderança econômica, comercial e de serviços em uma vasta área de influência.

Hoje, tanto Maracanaú quanto Teixeira de Freitas figuram entre os municípios mais relevantes de seus estados. Embora tenham seguido modelos de desenvolvimento distintos — um fortemente industrial e outro baseado no comércio e nos serviços — ambos demonstram como a combinação entre emancipação política, localização estratégica, empreendedorismo e investimentos estruturantes pode transformar antigas vilas e distritos em importantes polos econômicos regionais.

A comparação entre essas duas cidades revela que o desenvolvimento não segue um único caminho. Maracanaú e Teixeira de Freitas são exemplos de como diferentes vocações econômicas podem produzir resultados semelhantes em termos de crescimento, geração de oportunidades e protagonismo regional. Suas trajetórias reforçam a importância do planejamento local e da capacidade de aproveitar as potencialidades de cada território para construir um futuro de prosperidade.

"Vila Velha e Vitória são uma lição de Brasil possível" - Por Barros Alves

                                            


Viajar é uma forma de conhecer lugares, mas também de refletir sobre o país que somos e aquele que desejamos ser. Nos últimos dias, junto de minha mulher Lúcia, em visita a Vila Velha e Vitória, no Espírito Santo, vivemos mais uma vez a experiência do turismo religioso e cultural, prática que cultivamos sempre que possível. Difícil ignorar que ali vemos sinais concretos de um Brasil que dá certo.

Vila Velha e Vitória são cidades privilegiadas pela natureza. O mar, a paisagem harmoniosa e o clima agradável contribuem para o encanto imediato do visitante. Mas o que mais chama a atenção não é apenas a beleza física. É a sensação de cuidado, de pertencimento e de respeito ao espaço público.

No alto do morro onde se ergue o Convento de Nossa Senhora da Penha, um dos mais importantes centros de peregrinação do país, respira-se um ambiente de serenidade que convida à reflexão. Ali assistimos à celebração de São Boaventura, ocasião em que foram ressaltadas as virtudes intelectuais do santo franciscano. Em tempos marcados pela superficialidade e pela pressa, é reconfortante perceber que ainda existem espaços onde a fé dialoga com o conhecimento e a tradição continua a inspirar valores permanentes.

A poucos metros dali, a Praça Almirante Tamandaré oferece uma lição de urbanismo simples e eficiente. Trata-se de uma praça de verdade: ampla, aberta e destinada às pessoas. Sem a profusão de estruturas improvisadas que frequentemente descaracterizam nossos espaços públicos, o local proporciona uma agradável sensação de liberdade. As crianças brincam, as famílias convivem e os cidadãos ocupam naturalmente a cidade que lhes pertence.

                                                       


A travessia entre Vila Velha e Vitória pode ser feita pela moderna ponte que une os dois municípios. No entanto, as barcas que cruzam a Enseada do Suá representam uma alternativa que vai além da utilidade prática. Há algo de poético nesse deslocamento pelo mar, lembrando que o desenvolvimento urbano não precisa eliminar a beleza nem a memória das cidades.

Em Vitória, a limpeza urbana, a conservação dos espaços públicos e a organização geral revelam uma administração comprometida com a qualidade de vida da população. Entre as muitas atrações disponíveis, preferi visitar as igrejas históricas do centro antigo. A Catedral Metropolitana, a secular Igreja de São Gonçalo e o Memorial da Cúria Metropolitana constituem um valioso patrimônio cultural e religioso, preservado com respeito e dignidade.

O que mais nos  impressionou, contudo, foi a percepção de uma cidadania que parece compreender a importância da ordem, da convivência civilizada e do trabalho. Não se trata de idealizar realidades nem de ignorar os problemas que certamente também existem. Trata-se de reconhecer exemplos positivos que merecem ser observados e, quem sabe, replicados.

Vila Velha e Vitória sugerem a imagem de um Brasil possível: um país que preserva sua história, valoriza suas tradições, cuida de seus espaços coletivos e compreende que desenvolvimento econômico e elevação moral não são objetivos incompatíveis. Pelo contrário, são metas que devem caminhar juntas.

Num momento em que o debate público frequentemente se concentra nas deficiências nacionais, é importante destacar experiências bem sucedidas. O Espírito Santo oferece uma delas. E talvez a principal lição dessas duas cidades seja a de que o progresso não depende apenas de grandes projetos ou discursos grandiosos. Ele começa no cuidado cotidiano com a cidade, no respeito ao patrimônio comum, na valorização da cultura e na disposição de cada cidadão para contribuir com a construção de uma sociedade melhor.

Ao deixarmos Vila Velha e Vitória, trouxemos conosco a convicção de que o Brasil que desejamos não é uma utopia distante. Em muitos lugares, ele já está sendo construído.