domingo, 18 de outubro de 2026

"A Polônia e as lições sobre segurança, imigração e liberdade" - Barros Alves

Entre a tranquilidade de Cracóvia e a insegurança que inquieta grandes cidades europeias, impõe-se uma reflexão sobre os limites da imigração, a preservação da identidade nacional e a responsabilidade dos governantes na defesa da ordem pública. Há alguns meses tive uma  experiência de viagem que ultrapassou o prazer de conhecer novas paisagens e monumentos, em especial os templos religiosos, que me encantam e inspiram. Essas vivências nos levam a refletir sobre os rumos das sociedades, as escolhas políticas de seus governantes e os valores que sustentam uma civilização. Foi o que aconteceu comigo há alguns meses, quando estive na Polônia, mais precisamente em Cracóvia, uma das cidades mais belas e historicamente significativas da Europa. Foi uma graça, porque a Polônia nem estava na minha agenda. Coloquei-a por exigencia  irrevogável da minha neta Sofia, que insistiu em visitar os campos de concentração de Auschwitz e Birkenau (Auschwitz II). Louvo-lhe agora a decisão acertadíssima.

Cracóvia encanta pela arquitetura, pela limpeza de suas ruas, pela hospitalidade de seus habitantes e pela extraordinária presença da tradição cristã. Existe naquele ambiente algo que transcende a beleza material. Sente-se uma atmosfera de espiritualidade que convida à contemplação e desperta a percepção de que uma cidade não se constrói apenas com edifícios, estradas e praças, mas também com valores, memória e identidade. Entretanto, uma característica me impressionou particularmente, que foi a segurança pública. Durante a madrugada, caminhei pelas ruas centrais e encontrei pessoas tranquilamente reunidas nas praças, admirando os monumentos e desfrutando da cidade como se fosse pleno dia. Não percebi aquele clima de apreensão que, infelizmente, passou a acompanhar a experiência urbana em tantas outras partes da Europa.

Então, naturalmente vem a pergunta: por que a Polônia transmite uma sensação de segurança que parece cada vez mais rara em determinadas metrópoles europeias? A resposta não pode ser reduzida a uma única causa, porque segurança pública resulta de uma combinação de fatores, quais sejam  atuação policial, eficácia da Justiça, condições socioeconômicas, integração cultural, políticas migratórias e respeito às leis. Ainda assim, as escolhas políticas de cada país merecem ser examinadas, sobretudo quando seus resultados parecem produzir realidades tão distintas.

A história da Polônia é uma sucessão de sofrimentos, resistências e renascimentos. Seu povo conheceu a brutalidade da ocupação nazista e, depois da Segunda Guerra Mundial, viveu sob um regime comunista imposto pela influência soviética, que restringiu liberdades, perseguiu opositores e submeteu a sociedade a décadas de autoritarismo. Uma nação que experimentou os horrores de dois totalitarismos aprendeu, a duras penas, o preço da perda da liberdade e da submissão da sociedade a projetos políticos que desprezam a dignidade humana.

A Polônia de São João Paulo II, o papa que enfrentou moralmente o comunismo; e de Santa Faustina Kowalska, apóstola da Divina Misericórdia, conserva uma identidade religiosa e cultural profundamente enraizada. O catolicismo, a memória histórica e o sentimento nacional continuam exercendo influência significativa na formação de sua sociedade, embora o país também experimente transformações culturais e religiosas. No campo migratório, os governos poloneses adotaram, em diferentes momentos, políticas restritivas à imigração, particularmente em relação à entrada de pessoas provenientes de regiões distantes de sua realidade cultural. Essas decisões suscitaram controvérsias, mas refletem uma preocupação política legítima, que é a de que a imigração precisa ser administrada pelo Estado, e não simplesmente aceita como um fenômeno inevitável, imune ao debate público. Nenhum país é obrigado a renunciar ao controle de suas fronteiras. Acolher estrangeiros não significa abdicar da responsabilidade de verificar sua entrada, combater organizações criminosas, prevenir ameaças terroristas e exigir o cumprimento das leis nacionais.

A solidariedade internacional não elimina a soberania nacional, assim como o respeito aos direitos dos imigrantes não suprime o dever dos governantes de proteger seus próprios cidadãos. Essa é uma distinção fundamental que parte da elite política europeia parece ter negligenciado durante anos.

Minha passagem por Paris proporcionou uma experiência bastante diferente. Ao entrar no metrô da capital francesa, deparei-me com uma composição humana e cultural que me causou forte estranhamento. A diversidade de origens, idiomas, costumes e vestimentas era tão marcante que, naquele primeiro momento, tive a impressão de estar em uma realidade completamente distinta daquela que imaginava encontrar na França. Não se trata de negar a dignidade de quem vem de outros países, tampouco de atribuir criminalidade a uma nacionalidade, etnia ou religião. Trata-se de reconhecer que a transformação demográfica e cultural de uma sociedade pode suscitar questões legítimas sobre integração, identidade nacional e convivência. Uma cidade histórica como Paris não deixa de ser francesa por receber imigrantes. Tampouco a presença de muçulmanos ou de pessoas provenientes da África constitui, por si mesma, uma ameaça à segurança. O problema começa quando os poderes públicos não conseguem assegurar a integração, combater a criminalidade e exigir de todos, nacionais ou estrangeiros, o respeito às normas comuns.

Na Itália, especialmente em Milão, tive uma impressão semelhante, embora o ambiente me parecesse culturalmente menos distante daquele que eu esperava encontrar na Europa. Essas experiências me levaram a refletir sobre uma questão que ultrapassa as fronteiras francesas e italianas, ou seja, até que ponto governos que estimularam ou toleraram fluxos migratórios intensos avaliaram adequadamente suas consequências para a habitação, os serviços públicos, a integração cultural e a segurança? A meu modesto compreender, a  imigração pode contribuir para a economia, renovar a força de trabalho e enriquecer a vida cultural de uma nação. Mas, quando ocorre sem planejamento adequado, sem mecanismos eficientes de integração e sem controle suficiente das fronteiras, pode agravar tensões sociais e sobrecarregar estruturas públicas já fragilizadas. O equívoco está em tratar qualquer preocupação com esses problemas como manifestação automática de xenofobia ou racismo. Democracias maduras precisam permitir o debate sobre imigração sem estigmatizar os estrangeiros, mas também sem intimidar os cidadãos que desejam discutir os efeitos das políticas adotadas.

A experiência histórica polonesa oferece outra lição importante. A liberdade precisa ser protegida contra todas as formas de totalitarismo. O nazismo e o comunismo, apesar de suas diferenças ideológicas, sempre foram irmanados para  produzirem regimes de perseguição, supressão das liberdades e violência contra os adversários.

 A Polônia conheceu essas duas tragédias de maneira particularmente dolorosa. Sua legislação estabelece mecanismos de proteção da ordem constitucional contra organizações que promovam ideologias totalitárias. A Constituição polonesa, em seu artigo 13, proíbe partidos e organizações cujos programas ou atividades admitam métodos totalitários e práticas como o ódio racial ou nacional. Lembre-se por pertinente e necessário que o combate ao totalitarismo não pode converter-se em justificativa para um novo autoritarismo. Como normalmente ocorre em democracias que criminalizam toda a manifestação que considera nazifascista, mas paradoxalmente  escancaram as portas da liberdade para a propaganda e estabelecimento de organizações e partidos marxistas/socialistas/comunistas, que têm causado malefícios insanaveis a todas as sociedades onde se estabeleceram no poder. 

A verdadeira lição polonesa não é a de que o Estado deva silenciar indiscriminadamente seus adversários ideológicos. É a de que nenhuma ideologia pode receber licença para destruir a liberdade alheia.

A Europa não está condenada à insegurança, assim como a imigração não conduz inevitavelmente à desordem.  Mas  os governantes não devem ignorar problemas concretos por receio de desagradar aos setores mais influentes da opinião pública. Quando bairros se tornam perigosos, quando mulheres e idosos sentem medo de circular à noite, quando o transporte público deixa de transmitir confiança e quando a população percebe que determinadas regras não são aplicadas de maneira uniforme, há uma falha de responsabilidade estatal que precisa ser enfrentada. A segurança é uma condição indispensável para o exercício da liberdade. Não basta proclamar direitos em documentos oficiais se o cidadão não pode usufruir deles nas ruas de sua própria cidade. O Estado que não protege seus habitantes compromete sua própria legitimidade. E o governante que prefere defender a imagem de suas políticas (lembrai-vos do incompetente Macron) a reconhecer seus resultados negativos abdica de uma de suas principais obrigações, que é servir ao bem comum.

A experiência da Polônia merece atenção por demonstrar que soberania, identidade nacional, preservação da memória histórica e defesa da ordem pública podem ocupar lugar central no debate democrático.

Voltei da Polônia com a lembrança de Cracóvia, de suas igrejas, de suas praças e de suas ruas tranquilas durante a madrugada. A experiência reforçou minha convicção de que a qualidade de uma sociedade não se mede apenas por sua riqueza material ou pelo brilho de seus monumentos, mas também pela capacidade de proporcionar segurança, preservar sua memória e transmitir confiança aos cidadãos. A França e a Itália, com suas extraordinárias contribuições à civilização ocidental, não perderam sua importância histórica. Mas os desafios enfrentados por algumas de suas grandes cidades justificam uma reflexão séria sobre as escolhas políticas que contribuíram para a situação atual e sobre as medidas necessárias para enfrentá-la. Importa  compreender que a generosidade precisa caminhar com a prudência, que a acolhida exige responsabilidade e que a diversidade somente pode florescer de maneira duradoura quando acompanhada de integração, respeito às leis e compromisso com o bem comum.

A Polônia, com sua história de sofrimento e resistência, oferece elementos importantes para essa reflexão. Que as demais nações europeias tenham a sabedoria de aprender com os acertos e os erros de suas próprias experiências antes que problemas administráveis se transformem em crises de difícil solução. Porque a liberdade não consiste apenas em poder entrar em qualquer lugar ou professar qualquer ideia. Consiste também em poder caminhar pelas ruas, de dia ou de madrugada, sem medo de ser vítima da violência. E assegurar essa liberdade é, antes de tudo, um dever inalienável do Estado.

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