segunda-feira, 16 de abril de 2018

A DENSA E LÍRICA POESIA DE IDEUSMAR FAHEINA



                                                                            


                                                                  Barros Alves
 
A poesia está a caminho do cemitério nesses aziagos tempos de altas tecnologias a conduzir o homem para insensibilidade tal que o assemelham à máquina?  As novas invenções da ciência impelem os leitores para outros mundos fora do universo poético? Estas perguntas se unem a outras historicamente existentes tais como se a poesia é inútil ou se a arte poética não passa de um diletantismo estéril, praticado por personalidades com espírito boêmio que têm ojeriza ao utilitarismo dos pragmáticos. Mas, todas essas perguntas formuladas insistentemente ao longo do tempo, como questionamentos que retornam e se alteiam principalmente em tempos de crise, de modo paradoxal são respondidas pela vida eterna da Poesia, a qual, também insistentemente arma-se de um misterioso poder para arrostar as mazelas do mundo e, militando na imprescindível seara das palavras bem ditas/benditas – com o perdão do trocadilho – alteia-se para dizer de sua utilidade plena no cosmos.

Roman Jakobson compreendeu perfeitamente a grandeza da Poesia e sua importância magistral em face do mundo, da vivência de todos, da multidão, e de cada um. Ele observa nas QUESTÕES POÉTICAS que “A obra poética, no conjunto dos valores sociais, não predomina, não triunfa sobre os outros, mas não deixa de ser o organizador fundamental da ideologia, constantemente orientada para esse objetivo. É a poesia que nos protege contra a automatização, contra a ferrugem que ameaça nossa formulação do amor e do ódio, da revolta e da reconciliação, da fé e da negação. É somente quando uma época acaba de morrer, e quando se dissolveu a estreita interdependência entre seus diverso componentes, é somente então que,  do famoso cemitério da história, se levantam, acima de toda espécie de velharias arqueológicas, os momentos poéticos.”

Perfeito! A sensação que tive ao ler poemas e trovas enfeixados sob o título “Depois do amor... a poesia”, de IdeusmarFaheina, foi exatamente a de estar vivenciando um momento poético cuja transcendência está, como soe de fato ocorrer com as coisas que estão para além do tempo cronológico, grávida de magia, das ilusões do invisível e da grandeza simbólica que só a poesia faz refulgir na alma do leitor ávido ressurgências ditadas pelo amor e de sentimentalidades em face do cotidiano quase sempre nada poético. Faheina como que ultrapassa o impasse desse seco cotidiano em face da poesia e cheio de sentimentos nobres fixa lembranças, resgata recordações, traça perfis em versos que transfiguram realidades e afidalgam o tema do poema.

Num tempo em que o soneto se recompõe do esquecimento em que foi posto, o autor assinala a grandeza desse gênero poético de difícil lapidação escrevendo dezenas deles com esmero de texto e sonoridade, certamente inspirados em instantes de deslumbramento cheios de luminosidade sensorial e emotiva. Eis uma poesia que não deixa ir buscar no amor sua maior ventura, a despertar o sonho fazendo do onírico a celebração da vida, lugar único para a festa da felicidade.Confirma a expressão de Alceu Amoroso Lima, o Tristão de Athayde, de que “a poesia é um sexto sentido. E um sentido todo peculiar que dá aos que o possuem um visão pessoal das coisas, uma compreensão inverificável no mundo. Sentido, aliás, de designação toda arbitrária, pois há nele o poder de todos os outros, sendo a poesia uma forma especial de sensação, só o sentimento lhe dá alma e a inteligência forma. Há nela, portanto, uma síntese de sentidos e de faculdades que criam no indivíduo uma personalidade nova e particular.

Há de fato na poesia de Faheina essa transfiguração admirável das coisas, essa recriação de um novo mundo que desafia a realidade, formulado por intermédio do poder da quimera, de uma espécie de sexto sentido divino intrínseco nos poetas. O mundo dos poetas é um mundo maravilhoso, pois como dizia outro poeta, Homero Prates, “da harmonia secreta das coisas ele extrai a mágica centelha.”Faheina conseguiu com talento e inspiração extrair muitas centelhas de amor e poesia que colocou neste livro que ora vem à lume para prazer de quantos o lerem.

quinta-feira, 29 de março de 2018

OS JUDEUS E O JULGAMENTO DE JESUS



                                                                       


Barros Alves

Desde os tempos imediatamente posteriores à crucificação de Jesus, surgiu na comunidade dos seus seguidores, então chamada “do Caminho” – só dois séculos depois é que apareceu o  apelido “cristão” - a ideia de creditar na conta dos judeus o julgamento e morte do Nazareno. Sacerdotes e doutores da Lei, a Sinagoga e o Sinédrio, ou seja, o alto clero do Judaísmo e o Judiciário da Judeia ocupada pelo Império romano, teriam tramado contra a vida daquele que se auto-intitulava “Filho de Deus”. A afirmação de Jesus constituía heresia, cujo herege era passível de lapidação, segundo o rigor da Lei de Moisés. O próprio fato de a morte de Jesus ter sido executada por crucificação, de logo, aponta para a autoridade romana. A crucificação era pena amplamente usada pelos romanos para castigar rebeldes, líderes políticos e revolucionários que se manifestassem contra a ocupação. A destoante pregação religiosa de Jesus, um judeu marginal, segundo o apropriado conceito do padre e “scholar” John P. Meyer, tornou-se grande incômodo não apenas para as autoridades do Templo, mas, sobretudo, para os romanos. O discurso de Jesus, ousado e contestador, soava aos ouvidos dos prepostos do Império como manifestação zelota, mesmo não sendo ele da seita belicosa dos Zelotes, como equivocadamente sugere o iraniano Reza Aslan, especialista em Novo Testamento. As narrativas da Paixão contidas nos Evangelhos não são relatos históricos, mas, em certa medida, formas ideológicas de expressão cultural dos primeiros cristãos amedrontados pelo terrorismo romano. Daí a latência do antissemitismo que se pode captar no discurso neotestamentário. Esse discurso permeou nossa cultura nesses 20 séculos de Cristandade. No Ocidente, chancelou perseguições e inomináveis crimes contra os judeus, em nome de Jesus. Entre os milhares de livros escritos sobre a Paixão, poucos são da lavra de juristas. Ademais, consoante lembra o erudito padre Raymond Brown, “há severas limitações impostas pelos materiais e métodos em nossa habilidade de adquirir exatidão sobre essa história...” Todavia, entre os respeitáveis mestres que intentaram desvendar os episódios da Paixão, assoma a autoridade de Haim Cohn, ex-presidente da Suprema Corte de Justiça de Israel, cuja densa obra “O Julgamento de Jesus, o Nazareno”, resultou da aliança entre os conhecimentos históricos da legislação judaica e percuciente e profunda pesquisa em fontes diversas. Na análise histórico-jurídica de Cohn se pode constatar que não foram os judeus que “judiaram” com Jesus.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

VIEIRA E OS LADRÕES





  Barros Alves

Por primeiro devo dizer que o Vieira a que se refere este artigo não é o ladrão baiano de prenome Gedel, preposto de S. Exa. o presidente da República. O de que tratamos é o Padre Antônio Vieira, glória excelsa da oratória sacra em língua portuguesa, cuja genialidade retórica está exposta nos famosos “Sermões”. Em vários desses discursos teológico-pastorais o jesuíta condena o mau costume de alguns que apreciam apoderar-se do alheio, costume este muito mais condenável quando o protagonista ou coadjuvante exerce cargo público. Para essa escória moral da sociedade parece não haver cura. Só há um remédio: pena rigorosa e irrecorrível. Para Vieira, nesses casos de roubo da coisa pública, as benéficas interpretações da lei não passam de subterfúgios de quem se acumplicia ou deseja apaziguar um feito por todos os modos reprovável e certamente repetível em face da impunidade. A exclamação procede: “Oh, como o inferno está cheio dos que com estas e outras interpretações, por adularem os grandes e os supremos, não reparam em os condenar!”. E o acréscimo é mais incisivo: “Em matéria de furtar não há exceção de pessoas, e quem se abateu a tais vilezas, perdeu todos os foros.” Discorrendo sobre o roubo do fruto proibido no Éden, o hermeneuta não poupa Adão para dar exemplo a seus descendentes neste vale de lágrimas: “Ainda que haja de viver novecentos anos [igualmente Adão], e houvesse de viver nove mil, uma vez que roubou e é conhecido por ladrão, nunca mais deve ser restituído, nem há de entrar no mesmo posto.”
 Também a Vieira credita-se a autoria do clássico “A Arte de Furtar”, subtitulado “espelho de enganos, teatro de verdades, mostrador de horas minguadas, gazua geral dos reinos de Portugal”. Obra que veio à lume em 1652, trata-se de crítica voraz aos que metiam os pés pelas mãos ao tempo do reinado de Dom João IV. Tanto quanto “A Arte de Furtar”, atualíssimas para o Brasil de hoje são as verberações do “Sermão do Bom Ladrão”, pregado na Igreja da Misericórdia de Lisboa, em 1655. Vieira, porém, manifesta o desejo de havê-lo verbalizado na Capela Real para auditório mais consentâneo com as admoestações do corajoso pregador. Excelente também em virtudes cristãs, Vieira logo alteia o verbo afirmando que “nem os reis podem ir ao paraíso sem levar consigo os ladrões, nem os ladrões podem ir ao inferno sem levar consigo os reis.” Esgrimindo dialética exemplar e rica teologia, com arrimo nas Sagradas Escrituras, em que assoma o texto base da narrativa da crucificação do Cristo entre dois ladrões (Evangelho segundo Lucas, cap. 23. Vers. 42ss), eis que o insuperável tribuno condena a ladroagem sobre todos os aspectos, sem conceder ao ato de roubar nenhuma comiseração, posto ser mais certo que “em vez de os reis levarem consigo os ladrões ao paraíso, os ladrões são os que levam consigo os reis ao inferno.” Pleno conhecedor do texto bíblico, vai Vieira expondo sua tese assentada na imprescindível devolução do furto. Todavia, segundo o pregador, a obrigatória restituição do bem roubado ao dono, não implica em comutação da pena, posto que o dano já está concretizado. Em especial se o patrimônio surrupiado pertence ao haveres do Estado. Ladrões da coisa pública são mais perigosos e pecam mais gravemente, posto que “ofendem a justiça pública, de que eles estão postos por defensores.”
Quanta semelhança há entre os príncipes e ladrões do discurso de Vieira e os governantes, sejam lulocomunopetistas ou golpistas que infelicitam o malsinado viver dos brasileiros: “Há príncipes que correm com os ladrões e concorrem com eles. Correm com eles, porque os admitem à sua familiaridade e graça, e concorrem com eles, porque, dando-lhes autoridade e jurisdições, concorrem para o que eles furtam.”. E citando São Basílio Magno: “os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos.” Oh, desgraçado mundo! Oh, mais desgraçado Brasil! Assim foi no Portugal dos tempos de Vieira, assim continua sendo nesta Terra de Santa Cruz dos dias hodiernos. Hoje como ontem, aqui como lá “o verbo roubar se conjuga de todos os modos.”

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

O PANFLETÁRIO FARIAS BRITO – II



                                                                         


Barros Alves

Farias Brito, como dito em artigo anterior, esmerou-se como crítico mordaz no jornal que fez publicar em 1916, pouco antes de sua morte, em fevereiro 1917. Em “O Panfleto” destilou sua ira contra literatos, jornalistas e políticos. Se para o filósofo panfletário os homens de letras que iluminavam a Academia na capital da República no limiar do século passado, não passavam de uma corja de nulidades, não melhor é a imagem que fazia dos jornalistas seus contemporâneos da cena carioca. Sua admoestação vale por um conceito: “Que ninguém se engane: estes senhores jornalistas são de uma grande soberba.” Acoima-os de grosseiros e prepotentes. Porém, paradoxalmente, de servis e chantagistas, posto que “se gritam com tanto furor, o seu objetivo não é senão este: impor-se, pelo medo, aos governos fracos, extorquir dinheiro ou galgar posições.” A leitura dessa parte do texto britiano remete, de logo, às reportagens massacrantes contra governos, veiculadas por grandes órgãos de Imprensa ou telejornais de grande audiência como os da Rede Globo, que concedem atualidade ímpar à diatribe contida n’“O Panfleto”. Farias Brito parece estar vendo o Brasil de hoje: “A verdade é esta, desoladora e triste; e ninguém que seja sincero poderá contestá-la. O certo é que a verba para a compra de jornais é já, ao que me informam os entendidos nas coisas da política, uma verba forçada e necessária no orçamento reservado dos governos.” Acusa a Imprensa da recém-instalada República de cometer verdadeiras monstruosidades, de querer ser senhora das consciências, de ser protagonista de processos ditados pela violência, “repugnantes, quando não desalmados e brutais”, no intento de a tudo vencer “pelo sistema da injúria e da calúnia organizada, (...) a tal ponto que não fica, em certos casos, muito longe da condição do bandido quando diz: a bolsa ou a vida.” Furioso, o filósofo que fez publicar a verrina sob o pseudônimo de Marcos José, refere-se às exceções, diz não pretender fazer do panfletarismo uma atividade permanente e que a revolta do seu espírito é um acidente de percurso. Do tiroteio não escapou nem Rui Barbosa, incensado pela Imprensa. Ele o chama de “pernicioso sofista” dominado por uma vaidade quase mórbida. Enfim, a imagem que Farias Brito faz de Rui Barbosa é ser o jurisconsulto um homem de vasto saber, mas de pouca profundidade. E concorda com Fausto Cardoso, que ao se manifestar sobre o saber de Rui disse: “é um oceano muito vasto, mas este oceano eu o atravessarei com água pela canela.” Enfim, FB acha que a grandeza de Rui é mais uma ficção criada pela imprensa. Acabo dando razão ao filósofo.

O PANFLETÁRIO FARIAS BRITO

                                                                     


Barros Alves

Conhecido no cenário intelectual brasileiro como o grande filósofo da nacionalidade, o cearense Farias Brito (1862-1917) lá dos tronos celestiais vê passar no olvido de seus conterrâneos o centenário de sua morte. Espírito brilhante e multifacetário foi, consoante autodefinição, “um indivíduo que encerra muitos homens dentro de si mesmo”, entre os quais contam-se “os violentos, apaixonados, quase agressivos”. Assim também tinha abrigo naquele “cabeça chata” de São Benedito, as personalidades sombrias, tempestuosas, sempre prontas para a luta e a revolução, a conviverem dramaticamente com a luminosidade de tantas outras faces que compuseram o grande filósofo,  o investigador do desconhecido e combatente do pensamento que legou à posteridade obra marcante e referencial nos estudos filosóficos de dicção lusófona. Em fins de 1916, Farias Brito logrou êxito em empreitada iniciada cinco anos antes, qual seja a publicação de uma revista de feição crítica, cujo primeiro e único número recebeu o icônico batismo de O PANFLETO. Crítica acerba, sátira violenta. Uma tempestade verbal saiu aos borbotões desse texto-diatribe marcado pela severidade de um homem ético tentando sobreviver numa sociedade mundana e hipócrita, para não dizer de outras mazelas que ele vergasta sem dó nem comiseração. Infelizmente, Farias Brito morreu dois meses depois de sair à lume o panfletária publicação. O PANFLETO, porém, cumpriu seu desiderato. Assestou suas baterias contra homens de letras, jornalistas e políticos, na visão dele, aquilo que hoje conceituaríamos como uma verdadeira organização criminosa, guardando-se as devidas e raras exceções, entre as quais não figura, por exemplo, nomes como Rui Barbosa, que dele merece boas estocadas. Por agora, conheçamos um pouco do que vai n’O PANFLETO sobre os literatos da época, imagem que não se distancia muito dos de hoje. “Dos nossos homens de letras não valia talvez a pena falar. Contudo é possível sair daí muita coisa interessante. Interessante e cômico(...) Homens de letras – eis uma raça que entre nós prolifera de uma maneira espantosa. Literatos temos de todo o tamanho e de todos os feitios. Alguns há que se apresentam em forma de ursos; outros de cobras, répteis ou víboras danadas. Alguns fazem a figura do jabuti; outros, a do cágado; e ainda outros a da lesma ou do porco.” Investe o filósofo contra a Academia Brasileira que não sabe se “de letras ou de tretas.” Reconhece ironicamente que o sodalício-mor da literatura nacional é um curral “que certamente não deve ser de bestas nem de vacas...”, e que “melhor se poderia chamar a Academia, para falar em linguagem menos zoológica, alojamento de pedantes e nulos, que nada valendo imaginam valer alguma coisa através daquela ficção já desfeita e completamente desmoralizada...” Farias Brito, de fato, não poupou viv’alma nessa publicação que dá bem uma ideia do seu inconformismo com o “status quo” intelectual da capital da república no limiar do século passado.

sábado, 14 de outubro de 2017

DECLARAÇÃO DE AMOR



                                                         
   Barros Alves

Quando em Cedro cheguei, inda pequeno,
Soprado pelos ventos do destino,
Logo assentei no coração-menino,
O amor por esta terra, doce e ameno.

Meu coração cedrense se fez pleno!
Primeiros sonhos e amores descortino,
Sentimentos do belo e do divino,
De um passado com o qual eu contraceno.

O sino da Matriz bate em meu peito
Badaladas sentidas, de saudade,
Uma dor que é mistério e não tem jeito.

Mas, Cedro para mim não é cidade!
É um caso veraz de amor perfeito
Que a mim me encanta pela eternidade...