terça-feira, 4 de julho de 2017

A TRADIÇÃO BÉLICA DO ISLAM



Barros Alves

Pessoa presumivelmente bem informada, à vista de críticas que fiz ao Estado Islâmico, disse-me em tom de repreensão, que o conhecido grupo terrorista não é um Estado e muito menos islâmico. Quanto a ser o califado fundado pelo iraquiano Abu Bakr al-Baghdadi um Estado consoante os parâmetros conceituais da Ciência Política dentro do modelo ocidental, não me deterei no assunto. Quanto ao qualificativo que denota a filiação religiosa do grupo ouso discorrer sobre tal.

Por primeiro é fácil constatar a tradição belicosa do Islam, apesar desse vocábulo ter o mesmo radical semítico das palavras SALAM/SHALOM que significa PAZ. Porém, pelo viés histórico vale lembrar o escritor Hammudah Abdalati, o qual registra “que a história islâmica encerra NATURALMENTE episódios de guerra legal e justificada...” (“O Islã em Foco”, edição da International Islamic Federation of  Students, 1994, pág. 219). Essa justificativa, nem sempre convincente, se faz em nome da autodefesa.

Com efeito, a palavra JIHAD, que se deve traduzir corretamente por “esforço no caminho de Deus”, chancela a idéia corânica de que este “esforço” não deve ser apenas espiritual, mas em face de todas as necessidades da existência, aí incluída a preservação, a todo custo, do espaço geográfico da fé herdada do profeta Maomé. Nos primeiros tempos do Islam esse esforço (Jihad) servia para a expansão da fé. No entanto, os fatos, apesar de toda a retórica pacifista do Islam, têm demonstrado que a Jihad é uma conseqüência natural da práxis religiosa legada aos pósteros pelo Profeta Maomé e seus seguidores iniciais pouco pautados pela paz. Basta ver  o conflituoso processo de sucessão do Profeta, no século VII, pelos autodenominados califas (representantes) do líder morto.

Daquele tempo a esta parte, o Islam, em suas mais diversificadas facções, tem adotado uma postura belicosa em face de outros grupos, povos e nações que dele divergem. Esta é a constatação que fazem muitos dos que se debruçam sobre a história do mundo muçulmano, entre os quais destaco o professor J.-M Abd El Jalil, no seguinte comentário: “O Islã constituiu uma comunidade belicista(...), acreditando-se sempre ameaçada essa comunidade se refugia na luta através da polêmica e das armas. Por conseguinte, o Islã não será unicamente uma religião:será também uma organização política e um mundo cultural à parte; e tudo isso ao mesmo tempo. Esta concepção do Islã deve estar sempre presente ao espírito para se evitar o equívoco por demais corrente de julgá-lo a partir de um ponto de vista ocidental, do Cristianismo”. (Apud “Islamismo – História e Doutrina”, de Jacques Jomier. Ed.Vozes. RJ, 2001, pág. 159).

Este autor francês, profundo conhecedor do mundo árabe-islâmico, lembra que “a história do Islã comportou guerras suficientes para que apareçam com clareza os princípios diretivos nesse campo.” O Corão, livro sagrado dos muçulmanos está cheio de indicações a este respeito e nele recolhemos o exemplo a seguir: “Combatei na senda de Deus os que vos combatem; mas não sejais transgressores. Deus não ama os transgressores. MATAI-OS EM TODA PARTE ONDE OS ENCONTRARDES E EXPULSAI-OS DONDE VOS EXPULSARAM. A subversão é pior do que o homicídio." (Corão, sura 2, vers. 186-187/190/191). Grifo meu. Os radicais que professam o islamismo fanaticamente entendem que o mundo ocidental e cristão deseja destruí-los. Nós somos os transgressores.

Daí é que falece razão ao discurso “politicamente correto” de que o grupo terrorista Estado Islâmico não professa o Islamismo, como se a fé islâmica fosse algo monolítico e não contivesse centenas de facções, surgidos a partir dos grupos originais sunitas e xiitas. Não apenas esse grupo de assassinos, como também a Al Qaeda, o Hamas, o Hezbollah, o Bokhâri e vários outros, são, indiscutivelmente, cada um a seu talante, seguidores do Profeta Maomé. E praticam com convicção inabalável o “esforço no caminho de Deus”, a Jihad, entre nós definida como guerra santa. Tudo isso em nome de Allah, o Clemente e o Misericordioso.