Desde a fundação, em 1897, a Academia Brasileira de Letras convive com um paradoxo, qual seja o de que ao tempo em que abriga nomes incontornáveis da cultura nacional, tornou-se alvo constante de críticas quanto ao espírito que a anima. A ideia original, inspirada na Academia Francesa, pretendia conferir estabilidade institucional às Letras brasileiras. No entanto, cedo se ouviu o murmúrio, depois transformado em acusação aberta, de que o compadrio, os elogios recíprocos e a política de bastidores pesavam mais que o mérito literário. O próprio idealizador da ABL, Machado de Assis, patrocinou alguns desvios
O historiador Capistrano de Abreu, avesso a solenidades e pompas, simboliza a desconfiança de uma geração que via nas academias mais um teatro de vaidades do que um laboratório de pensamento. Conta-se que ao ser convidado para ser signatário da ata de fundação da ABL, o maranguapenses teria declinado e forma tão pessimista quanto astuciosa: “A mim me basta pertencer a uma sociedade que já me causa muitas dores de cabeça: a sociedade humana”. A crítica não era mero azedume, mas apontava para o risco de institucionalizar a literatura, submetendo-a às conveniências sociais.
Já Graça Aranha protagonizou um dos episódios mais emblemáticos dessa tensão ao romper com a ABL na década de 1920, acusando-a de conservadorismo estético e imobilismo intelectual. Para ele, a literatura brasileira necessitava de ímpeto renovador, não de um cenáculo preso a fórmulas e reverências mútuas. Sua saída foi um gesto simbólico contra o que percebia como fossilização do espírito literário.
Décadas depois, vozes internas continuaram a reconhecer limitações. Josué Montello, embora acadêmico que prezava a Arcádia, registrou em memórias, nos seus “Diários”, 4 volumes de deliciosa leitura; e em entrevistas, o ambiente competitivo e, por vezes, pouco edificante das eleições. Jorge Amado, também membro da Casa de Machado de Assis, jamais deixou de ser um escritor de vida pública intensa, mas sua presença ali sempre foi lida por alguns como a confirmação de que a consagração institucional é etapa distinta, não necessariamente essencial, da criação literária. Amado escreveu “Farda, Fardão, Camisola de Dormir”, uma novela satírica que ironiza o universo da “imortalidade” literária. Críticos mais contundentes, como Fernando Jorge, denunciaram reiteradamente o que consideravam a transformação das academias em redutos de autopromoção. Ele escreveu o contundente “Academia do Fardão e da Confusão”. Guilherme Figueiredo, intelectual do melhor quilate, com seu espírito independente, também ironizou o ritualismo excessivo e a teatralidade das sessões solenes, denunciando os conluios que existem durante a caça aos votos dos acadêmicos. No livro “As Excelências ou Como Entrar para a Academia”, ele conta sua peregrinação à cata de votos para ingressar na ABL e relata casos que podem ser considerados moralmente condenáveis, protagonizados por personalidades gradas do cenário literário nacional.
O problema, ao que parece, não reside apenas na Academia Brasileira de Letras, mas na proliferação indiscriminada de academias estaduais e municipais. No Ceará, onde a tradição literária é respeitável e produziu nomes de peso, cria-se uma academia a cada mês; encontra-se um grêmio literário em cada esquina. Multiplicam-se pelerines (os nossos arremedos de fardões), cadeiras, patronos e discursos laudatórios. Rareia, contudo, a obra que sobreviva ao tempo. A própria Academia Cearense de Letras parece estar sofrendo de inanição literária.
A institucionalização excessiva da literatura gera um efeito curioso. Transforma a atividade essencialmente solitária da escrita em exercício coletivo de autopromoção. Escrever é um ato de recolhimento, de enfrentamento íntimo com a linguagem e com o mundo. Não se produz grande literatura por aclamação, tampouco por votação. A criação literária não é assembleia; é combate interior.
Além disso, a crescente militância ideológica, de qualquer matiz, tem contribuído para a confusão entre literatura e panfleto. Produz-se muito barulho, mas pouca obra duradoura. O engajamento pode até fecundar a arte produzida por grandes nomes da Literatura, como demonstraram autores do passado; mas quando substitui a complexidade estética por slogans, empobrece o texto e reduz a ambição literária.
Não se trata de negar que as academias tenham abrigado - e ainda abriguem - escritores de inegável relevância. O ponto é outro. A consagração institucional não pode substituir o juízo do tempo. Quando a eleição para uma cadeira se torna mais importante que o livro; quando a fama do não (ou quase) escritor conta para a escolha; quando o discurso de posse pesa mais que a obra publicada; quando o elogio mútuo prevalece sobre a crítica franca, instala-se a decadência.
As academias, se quiserem sobreviver com dignidade, precisarão reencontrar sua razão de ser. Devem necessariamente estimular o pensamento livre, promover a crítica honesta e valorizar a literatura como arte exigente, não como ornamento social. Caso contrário, permanecerão como fogueiras de vaidades, iluminando pouco e consumindo muito da nossa paciência.

