Recentemente a Editora Ercolano publicou um livrinho (o diminutivo é afetuoso) até aqui desconhecido do leitor brasileiro. A pérola nos veio da velha Ucrânia.
Muitos conhecem a "A Revolução dos Bichos", do escritor inglês George Orwell; mas poucos leram o conto "A Revolta dos Bichos", de autoria do russo (ucraniano) Mykola Kostomárov, ambas as obras exercícios de ficção política com um conteúdo crítico ao poder autoritário. Embora separados por quase um século e por contextos históricos muito distintos, "A Revolta dos Bichos" ou "O Motim dos Animais" (Skótskoi bunt), de Mykola Kostomárov, e "A Revolução dos Bichos" (Animal Farm), de George Orwell, apresentam um notável ponto de contato: as duas obras utilizam a alegoria animal para refletir sobre os vícios do poder político e as deformações dos projetos de emancipação social. Contudo, as semelhanças terminam, em grande medida, nesse recurso formal, pois os objetivos ideológicos, a profundidade da crítica e o horizonte histórico de cada obra diferem substancialmente.
Kostomárov publicou "Skótskoi bunt" por volta de 1880, período marcado pelo conservadorismo do Império Russo e pelas tensões decorrentes da servidão rural. A narrativa apresenta animais que se insurgem contra a ordem estabelecida, imaginando construir uma sociedade mais justa. Entretanto, a rebelião degenera em desordem, violência e fracasso.
Já Orwell publicou "Animal Farm" em 1945, quando o mundo saía da Segunda Guerra Mundial e começava a confrontar as contradições do regime soviético. Na obra inglesa, os animais da Granja do Solar derrubam o fazendeiro Jones para criar uma sociedade baseada na igualdade. Pouco a pouco, porém, os porcos concentram o poder, transformando a revolução em uma nova forma de tirania.
Em ambos os casos, os animais funcionam como espelhos da sociedade humana. A diferença fundamental reside no alvo da crítica. Kostomárov dirige seu olhar para os perigos da rebelião descontrolada e para a incapacidade das massas de construir uma ordem estável. Orwell, por sua vez, examina a corrupção interna dos movimentos revolucionários e a transformação dos libertadores em opressores.
A obra de Kostomárov possui forte matriz conservadora. Poeta, ensaísta e historiador atento às revoltas camponesas e aos movimentos populares do Leste Europeu, ele via com desconfiança as explosões revolucionárias que prometiam instaurar uma nova sociedade. Em "Skótskoi bunt", a revolta dos animais sugere que a destruição da ordem tradicional pode gerar consequências ainda piores do que os problemas que se pretendia corrigir.
No caso de Orwell, crítico feroz do stalinismo, jamais abandonou seus ideais socialistas democráticos. Sua crítica não é dirigida à ideia de igualdade social, mas à burocratização e à concentração de poder que deformaram a Revolução Russa. Assim, ingenuamente, "Animal Farm" não condena a revolução em si; condena sua degeneração autoritária. Ora, a doutrina marxista que dá sustentação aos governos socialistas/comunistas é "intrinsecamente má", confirme assegurou com razão o Papa Pio XI. O stalinismo como todos os demais "ismos" filhotes do marxismo são autoritários, cruéis e criminosos.
Então, o que se constata é que enquanto Kostomárov parece advertir que a ordem é preferível ao caos revolucionário, Orwell sustenta que a revolução somente fracassa quando abandona seus princípios originais.
Outro aspecto comparativo relevante diz respeito à representação dos líderes.
Na obra de Kostomárov, os líderes da revolta aparecem frequentemente como figuras incapazes, impulsivas ou manipuladoras. O fracasso decorre tanto da irracionalidade coletiva quanto da ausência de direção política consistente.
Em Orwell, a liderança é representada sobretudo por Napoleão, figura suína que simboliza claramente Joseph Stalin. O problema não é a ausência de liderança, mas sua hipertrofia. Napoleão constrói um sistema baseado no culto à personalidade, na propaganda e na repressão.
Dessa forma, Kostomárov identifica o perigo na insuficiência de autoridade; Orwell, no excesso dela.
Se a obra de Kostomárov enfatiza a desordem provocada pela rebelião, Orwell concentra sua atenção na manipulação da linguagem.
Em "Animal Farm", os mandamentos revolucionários são continuamente alterados para justificar privilégios e abusos. Epa!!! Qualquer semelhança com o Brasil atual não é mera coincidência! A famosa máxima “Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que os outros” tornou-se uma das formulações mais célebres da literatura política do século XX.
A preocupação orwelliana antecipa discussões contemporâneas sobre propaganda, desinformação e controle ideológico. Nesse aspecto, sua obra alcança profundidade filosófica e política superior à de Kostomárov, cuja alegoria permanece mais próxima da fábula moral tradicional.
Apesar das diferenças, ambas permanecem atuais porque tratam de uma questão permanente da vida política: a distância entre os ideais proclamados e os resultados efetivamente alcançados.
Kostomárov alerta para os riscos da destruição irrefletida das instituições; Orwell adverte contra a captura das instituições por elites que se apresentam como representantes do povo.
O primeiro teme a anarquia; o segundo teme a tirania.
Destarte, podemos afirmar que "A Revolta dos Bichos", de Mykola Kostomárov; e "A Revolução dos Bichos", de George Orwell, pertencem a uma mesma tradição alegórica, mas expressam visões políticas distintas. Kostomárov, influenciado pelo conservadorismo do século XIX, enfatiza os perigos da insurreição popular e da ruptura da ordem social. Orwell, moldado pelas tragédias totalitárias do século XX, denuncia a corrupção do poder revolucionário e a metamorfose dos libertadores em novos tiranos.
Se a obra de Kostomárov pode ser lida como uma defesa da prudência política, a de Orwell constitui uma advertência universal sobre a tendência do poder a reproduzir privilégios e desigualdades. Em conjunto, os dois livros oferecem uma reflexão profunda sobre os limites das revoluções e sobre a fragilidade dos ideais humanos diante das tentações da dominação. O que não se sabe é se Orwell foi influenciado pelo quase drsconhecido ucraniano Kostomárov, para escrever o famoso "A Revolução dos Bichos".


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