A iniciativa deixou muitas pessoas felizes e algumas preocupadas. A decisão do papa
Francisco de submeter a todos os fiéis um
questionário sobre
os pontos mais espinhosos da doutrina católica em matéria de moral
familiar e sexual empolgou muitos fiéis, felizes porque pela primeira
vez a Igreja lhes pediu sua opinião. Mas ela irritou alguns prelados,
como certo bispo francês que ralhou: "Não se reforma a Igreja através de
pesquisas de opinião". No final, ela também poderá decepcionar algumas
pessoas, caso as respostas do Vaticano não estejam à altura das
expectativas levantadas pelo questionário.
A reportagem é publicada pelo jornal
Le Monde e reproduzida pelo portal
Uol, 21-0-2014.
Na
quinta e sexta-feira (20 e 21), 185 dos 218 cardeais da Igreja se
reunirão em Roma, em preparação para o sínodo sobre a família convocado
pelo papa para o mês de outubro. Eles terão à disposição uma primeira
síntese das respostas recolhidas em todo o mundo sobre esses temas,
muitas vezes fontes de tensão entre a Igreja Católica e as sociedades
modernas. Entre elas consta a síntese francesa, que os bispos da França
não pretendiam publicar.
Dependendo da diocese, o questionário
suscitou de dezenas a centenas de contribuições. Longo (38 perguntas) e
com termos complexos – a noção de "lei natural" que opõe a Igreja a
possíveis evoluções doutrinárias é amplamente incompreendida – , ele foi
trabalhado sobretudo por grupos de fiéis já constituídos em torno
dessas questões.
Uma enquete junto a várias dioceses levou à
conclusão de duas constatações principais: a incompreensão, ou até a
rejeição, domina diante das regras em vigor na Igreja sobre a moral
sexual; e surge uma demanda global para que a instituição seja "mais
aberta, mais tolerante, mais respeitosa" em relação às pessoas que,
segundo os termos romanos, estejam "em situação irregular", como os
divorciados (casados novamente ou não), os homossexuais, as pessoas que
vivem em concubinato, os não-praticantes ou os não-crentes que pedem o
casamento ou o batismo para seus filhos.
Como já era esperado, é em matéria de moral sexual que os fiéis estão
menos de acordo com a Igreja. Os fiéis foram interrogados sobre o
Humanae vitae,
o texto oficial que estipula desde 1968 a proibição da "contracepção
artificial", e confirmou-se que eles "não o levam em conta", afirma
Thérèse Loison, que realizou a síntese de aproximadamente 200 respostas para a diocese de
Poitiers.
"Eles acreditam que a Igreja não deve impor uma única proposição, mas
que o casal deve decidir sobre a melhor forma de contracepção", diz
Elisabeth Benichou, encarregada de redigir a contribuição da diocese de
Annecy.
"Sabemos que a Igreja não reescreve seus textos antigos, mas bastaria
uma palavra do papa para dizer que, nessas questões, a instituição
confia nos casais."
"Na França, se a prática não corresponde à lei, muda-se a lei. A Igreja age de outra forma," confirmou no "
La Croix" de 31 de janeiro Dom
Pierre-Marie Carré,
arcebispo de Montpellier encarregado da síntese nacional. "Ela leva em
consideração a lei e a situação do casal e sua possibilidade de cumprir
um itinerário".
Segundo Dom
Eric de Moulins-Beaufort,
bispo auxiliar de Paris e autor da síntese parisiense, a maior parte
das respostas mostram que "a doutrina é um ideal que cada um adota do
jeito que pode ou quer. É o caso sobretudo do Humanae vitae. Alguns
fiéis o consideram uma indicação estimulante; é preciso conseguir
explicá-lo melhor, para que cada um se aproprie dele do seu jeito, mas
não me parece urgente reformá-lo", afirma o bispo.
De fato, nada
indica que o papa queira atualizar esse texto. No questionário, aliás,
fala-se em "aprofundamento" e "promoção da natalidade", ponto de vista
adotado por Dom
Dominique Rey, bispo de Toulon, que
defende "uma melhor formação dos jovens no plano ético e antropológico,
uma formação sobre o amor e sexualidade."
Claramente identificadas como movimentos progressistas dentro da Igreja, as
Réseaux du Parvis [rede de associações cristãs francesas] se mostram bem mais críticas: a
Humanae vitae
é um "profundo erro de consequências devastadoras que a cúpula católica
não deveria mais assumir, ele não é compreendido, muito poucos se
adequam a ele e poucos padres e bispos ousam apresentá-lo", explica um
texto que resume as contribuições de seus membros. Da mesma forma, a
Conferência dos Batizados,
que reúne na França alguns milhares de pessoas e afirma ter recebido
400 contribuições, pede para que a Igreja "pare no limiar do leito
conjugal" e "deixe de lado seu papel de fiscal e tabelião do sexo [...].
O povo de Deus está em desacordo completo com o magistério sobre essas
questões, e há cinquenta anos ele vem o rejeitando, ignorando ou
abandonando."
Em compensação, todos ou quase todos concordam que a
Igreja deve ter mais compreensão em relação às novas situações
familiares ou conjugais. "As pessoas estão pedindo para serem ouvidas,
mais do que uma abordagem jurídica, pois cada situação é diferente", diz
Benichou, aparentemente alinhada com o discurso oficial do papa
Francisco.
"Nota-se o desejo de que a Igreja não repita simplesmente as regras,
mas sim defenda um discurso mais positivo, que ela acompanhe as pessoas
em dificuldades e não as trate como pestilentas", confirma Dom
de Moulins-Beaufort.
Essa
forma de abordagem, caso a caso, poderia não agradar a todos. "É
verdade que deve ser dada uma atenção para cada um, independentemente de
sua situação, mas sem que isso coloque em xeque os fundamentos de nossa
fé comum", alerta Dom Rey.
O exemplo dos divorciados que voltam a
se casar é emblemático desse delicado equilíbrio. Como voltar atrás na
regra que proíbe esses crentes de comunhão e de um novo casamento
religioso sem prejudicar a indissolubilidade do casamento, regra
intangível da Igreja católica? "Existe uma forte demanda para que a lei
mude para os divorciados", afirma
Benichou, "pois a situação atual resulta em situações inaceitáveis."
Já os progressistas rejeitam por antecipação uma das soluções
defendidas por Roma, que quer ampliar os "pedidos de anulação" para os
primeiros casamentos. Outros ainda enfatizam a necessidade de uma melhor
"preparação para o casamento", para levar os casais a aprofundarem o
sentido de seu compromisso na esperança de diminuir o número de
divórcios. Na França, o índice de divórcios nos meios praticantes é
quase idêntico ao dos outros casais.
O lugar dos homossexuais e de seus filhos pode suscitar polêmica. Dom
de Moulins-Beaufort
explica as propostas de seus fiéis para o acolhimento dos homossexuais,
"por muito tempo estigmatizados": "Alguns deles acreditam que é preciso
acolhê-los como casais, outros, que é preciso convidá-los a viverem uma
amizade casta". Em
Annecy, mostrou-se a vontade de
"integrar plenamente os homossexuais às atividades da Igreja para
derrubar o constrangimento e os preconceitos."
Toda a arte do
papa residirá então em sua maneira de dizer as coisas sem mexer nos
textos e na doutrina. Isso porque, para além do uso inédito desse método
participativo sobre temas que muitas vezes são tabus, a iniciativa
também visa trazer soluções para que fiéis mais bem formados entendam
melhor os ensinamentos da Igreja e atenham-se mais a eles.
Sexta, 21 de fevereiro de 2014