
Barros
Alves
Neste
ano da graça de 2020, em que o município de Cedro comemora um centenário de
existência como ente político-administrativo autônomo, intento relembrar pessoas,
coisas e fatos que marcaram minha vida de cedrense por adoção. Nascido na roça,
pais analfabetos, quis o destino que uma irmã adotiva assumisse as
responsabilidades de mãe para comigo. Foi presente de Deus. Maktub! Chamava-se
Tereza Maria Alves e nascera em 14 de julho de 1925, na Fazenda Barreiros, de propriedade
do senhor Vicente Bezerra, respeitável sertanejo que legou aos pósteros valores
morais e éticos inegociáveis. Tereza ultrapassou a Carta de ABC por méritos
próprios e, mercê de ingentes esforços, aprendeu a ler com desenvoltura, aficcionando-se
aos parcos livros que lhe caíam nas mãos, com ênfase para a Literatura de
Cordel, cujos clássicos como “Oliveiros e Ferrabrás” e “A Imperatriz Porcina”
sabia de cor. Entusiasmava-se declamando Casemiro de Abreu (“Eu ia bem
satisfeito/ De camisa aberta ao peito/ Pés descalços, braços nus...) ou “A
Chegada de Lampião no Inferno”.
Lembro-me que nas tardes mornas da pacata Cedro
da década de 1960 ela, cadeira na calçada, religiosamente lia para mim histórias
bíblicas publicadas pela Editora Vozes, que inda hoje guardo como um tesouro
que não tem preço. As mãos que folhearam aquele livro, na incessante busca do
Mistério, foram as mesmas que me embalaram; mãos que teceram a teia de trabalho
penoso para que me não faltasse o pão de cada dia, nem o vestir, nem o calçar,
nem principalmente, o estudar, porque foram aquelas mãos abençoadas que
me conduziram aos livros e me fizeram
compreender que o livro é o mais importante instrumento de libertação do pobre.
Aqueles olhos cheios de bondade que perpassavam as páginas do velho compêndio
de História Sagrada, tinham algo de
estoicismo diante das dificuldades cotidianas e sofrimentos que se esvaíam em imensas
esperanças. Foi aquele olhar que imprimiu na minha alma o sentimento do sagrado
e a certeza do amor de Deus; a fidelidade a princípios e valores que elevam o
ser humano acima dos demais seres da Criação. Aquele olhar, a um tempo ígneo e
suave, cheio de determinação e fé, continua refletido no fundo da minha retina,
porque para mim é o olhar de uma santa providencialmente colocada em minha vida
pelo desígnio dos Céus. Tereza Maria
Alves será para mim, nos dois mundos, o MEU AMORZINHO dos meus tempos de
criança.
CRÔNICA
DO CENTENÁRIO II: O RIACHO DA VACA BRABA
Barros
Alves
Alberto Caeiro, um dos heterônimos do poeta
português Fernando Pessoa, escreveu um belo poema telúrico compendiado no
volume “O Guardador de Rebanhos”, no qual evoca o rio que corria pela sua
aldeia, ressaltando-lhe a grandeza em relação ao Tejo, grande rio de sua
Pátria: “O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,/ Mas o Tejo
não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,/ Porque o Tejo não é o
rio que corre pela minha aldeia...” Um rio pequeno e acanhado, mas imenso na
minha imaginação como o Amazonas, ainda escorre na saudade imorredoura da minha
infância. Chamávamos de riacho porque tantas vezes, em face da aridez dos dias
de verão, não passava de um filete a escorrer com resistência de criatura sertaneja;
em outros tantos momentos sumia no chão crestado de um leito transformado em
rachaduras como um desenho islâmico. Mas, tão logo caíam as primeiras
precipitações pluviométricas da estação chuvosa, eis que o Riacho da Vaca
Brava, agora feito rio de caudais imensas para os meus olhos de criança, como
que se agigantava, levando de eito em catadupas o que vinha pela frente,
correndo no rumo do Rio Salgado antes de chegar ao mar oceano. Às vezes a
transformação do filete de água foi tão grande que o riacho feito rio,
avolumado pelas águas rebeldes do Açude de Chico Ferreira, da Assunção,
resolveu invadir a cidade de Cedro numa demonstração de sua reiterada
ressurreição. O povo que o admirava, agora tinha medo do caudaloso rio que
deixou toda a população a nadar feito peixe.
O padre Antônio Vieira, o
prolífico escritor varzealegrense, não o conterrâneo de Pessoa, no livro
“Sertão Brabo”, toma a defesa do rio e diz que o erro foi de quem construiu a
cidade no leito original, então já desviado uma vez. Vieira lembra que a
nomeação do rio deve-se ao lugar onde nasceu, a fazenda homônima. E nos conta
anedota protagonizada por cantadores que foram relegados durante apresentação
no lugar, onde as moças preferiram o “rela bucho” ao som mavioso do ponteio da
viola: “As moças da Vaca Braba/ São todas doidas por dança,/ Se abufelam com os
rapazes/ Juntando pança com pança,/ Nunca vi uma vaca braba/ Ter tanta garrota
mansa.” Em 1963, o rio rugiu novamente, valente como uma vaca em cio, uma vaca
brava, e invadiu a cidade cujo paredão de piçarra, o “desvio”, não conseguiu
impedir a força das águas. Na inundação de 1963, com sete anos de idade, eu não
temi o rio. Mergulhei nas águas barrentas como se me batizasse no Jordão e de
lá saísse renascido para os embates da vida. Talvez por tanto ter-me banhado
nas águas do Riacho da Vaca Braba, algo de bravura tenha em mim se introjetado
para sempre, como esta lembrança que a um tempo é dolorosa e
rejuvenescedora, que teimosamente insiste em me levar de volta aos dias pluviais
da minha infância, grávidos de sonhos e de liberdade.
CRÔNICAS
DO CENTENÁRIO III: PADRE CÍCERO PASSOU
EM CEDRO?
Barros
Alves
Recentemente vi
em programa televisivo, entrevista do poeta Edson Reis, desvelado amante de
nossa Cedro, que com propriedade e desvelo se atém no mister de divulgar povo e
coisas do nosso chão. Todavia, arrimado em informações colhidas no livro “Gente
da Gente”, de autoria do Sr. Cândido Acrísio Costa, edição de 1974, o poeta foi
levado a deslizar em impropriedade histórica, sobretudo cronológica, ao afirmar
que no ano de 1900 o Padre Cícero havia se demorado em Cedro, a caminho de
Fortaleza, de onde partiria em sua peregrinação a Roma, na busca de justiça
para causa em que se tornara réu no então Santo Ofício, tribunal inquisitorial
da Igreja Católica, que o acoimava de heresia em face do chamado “Milagre da
Beata.”
Não se pode
olvidar a importância da história oral, na qual se fiou Cândido Acrísio Costa
para tratar do assunto. Todavia, é imprescindível o cotejamento dessas informações
com o registro escrito de fatos e provas documentais. Verba volant, scripta
manent, assenta o axioma latino. As palavras voam, o que se escreve permanece.
Não creio improvável que Padre Cícero tenha passado em Cedro. Todavia, não é
verdade que Padre Cícero viajou para Roma via porto de Fortaleza, consoante a
referência feita pelo poeta Edson Reis, arrimado – repito – na citada obra.
Vários autores de clássicas biografias do Padre Cícero asseguram que o prelado,
acompanhado do secretário João Davi, enfrentou os sertões pernambucanos com
destino a Recife, onde chegou em janeiro de 1898, depois de uma viagem penosa,
lutando contra as agruras da caminhada, no lombo de cavalo, mas “assinalada por
estrondosas manifestações de júbilo popular.” (Cf. O PADRE CÍCERO QUE EU
CONHECI, de Amália Xavier de Oliveira, 2ª edição, Ed. Premius, Fortaleza, 2001,
pág. 121; e PADRE CÍCERO-MITO E REALIDADE, de Otacílio Anselmo, Ed. Civ.
Brasileira, RJ, 1968, pág. 230).
O autor de
“Gente da Gente” informa que Padre Cícero demorou-se em Cedro, no retorno e não
na ida a Roma. Fê-lo segundo depoimento ouvido do pai, o Sr. Antônio Guedes
Viana. Porém, comete o mesmo erro cronológico, situando o episódio no ano de
1900. Com efeito, Padre Cícero regressou da Cidade Eterna e o navio em que
viajou aportou em Fortaleza, mas o prelado não se demorou na capital cearense.
Ralph Della Cava, brasilianista que escreveu o clássico MILAGRE EM JOASEIRO, e
quem eu tive a honra de entrevistar nas comemorações dos 40 anos da publicação
da citada obra, tendo por base as anotações do próprio taumaturgo, informa que
Padre Cícero chegou a Fortaleza provindo de Roma, “no dia 12 de novembro,
seguindo para Juazeiro no dia 20; lá chegou a 4 de dezembro de 1898.” (Cf. 3ª
edição, Cia. das Letras, SP, 2014, pág. 396) Ora, fica, então, assentado que o
Meu Padim não passou em Cedro em março de 1900, segundo a referência de Cândido
Acrísio Costa. Depois do regresso de Roma, o Padre Cícero não arredou pé de
Juazeiro, consoante afirma a unanimidade de seus biógrafos.