quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

"A Europa anda nos trilhos" - Por Barros Alves

Escrevi esse artigo há pouco, a bordo de um trem para Paris, França; partindo de Milão, Itália. Rápido, silencioso, confortável, serviço de bordo de boa qualidade. E o trem é um transporte que enseja uma visão de todo o percurso. 

A história recente da infraestrutura de transportes revela escolhas políticas que moldam não apenas a mobilidade, mas também o desenvolvimento econômico, a integração social e a sustentabilidade ambiental de um país. Sob esse aspecto, a Europa oferece um exemplo eloquente: anda, literalmente, nos trilhos. Enquanto boa parte do continente europeu consolidou o transporte ferroviário como eixo estruturante da circulação de cargas e, sobretudo, de passageiros, o Brasil,  apesar de suas dimensões continentais, seguiu caminho oposto, relegando as ferrovias a um papel secundário em favor do transporte rodoviário.

Na Europa, o trem não é um luxo, mas um serviço público estratégico. Redes ferroviárias densas e interligadas permitem atravessar países inteiros com rapidez, conforto e preços relativamente acessíveis. É possível percorrer longas distâncias entre capitais e cidades médias sem depender de automóvel ou avião, reduzindo custos logísticos, emissões de poluentes e o tempo perdido em deslocamentos. A ferrovia tornou-se instrumento de coesão territorial, facilitando o turismo, o comércio e a mobilidade cotidiana de milhões de pessoas.

Essa preferência não é fruto do acaso. Trata-se de uma decisão política de longo prazo, baseada na compreensão de que o transporte ferroviário é mais eficiente energeticamente, mais seguro e mais democrático. Trens transportam grande número de passageiros e cargas com menor impacto ambiental e menor custo por quilômetro percorrido. Além disso, ao fortalecer o transporte coletivo de massa, os países europeus reduziram a dependência excessiva do transporte individual e dos combustíveis fósseis.

O Brasil, por sua vez, fez uma escolha estruturalmente distinta. Ao longo do século XX, especialmente a partir da segunda metade, optou-se por priorizar o transporte rodoviário. Rodovias passaram a ser vistas como sinônimo de progresso, enquanto as ferrovias foram abandonadas, sucateadas ou direcionadas quase exclusivamente ao escoamento de commodities. O resultado é um sistema caro, ineficiente e vulnerável: estradas sobrecarregadas, fretes elevados, alto índice de acidentes e um transporte de passageiros limitado, lento e oneroso.

Essa opção encareceu o serviço e diminuiu drasticamente a capacidade de atendimento à demanda nacional. Em um país de grandes distâncias, a ausência de uma malha ferroviária moderna para passageiros impõe custos sociais elevados: viagens longas e desconfortáveis, exclusão de regiões inteiras e dependência quase absoluta do transporte rodoviário, sujeito a pedágios, congestionamentos e oscilações no preço dos combustíveis.

Enquanto na Europa atravessam-se fronteiras de trem a preços módicos, no Brasil políticas públicas historicamente favoreceram o modal rodoviário, muitas vezes beneficiando interesses concentrados e estruturas econômicas fechadas, verdadeiros feudos financeiros do setor. A concentração de investimentos em estradas, em detrimento das ferrovias, não apenas limitou alternativas de mobilidade, como também reduziu a concorrência e encareceu o custo final para o usuário e para a economia como um todo.

Não se pode ignorar, ainda, um fator sensível e recorrente no debate nacional: a corrupção. Grandes obras rodoviárias, com contratos frequentes de manutenção e expansão, tornaram-se terreno fértil para desvios, sobrepreços e interesses pouco transparentes. Nesse contexto, investimentos ferroviários, que exigem planejamento de longo prazo, gestão técnica e menor margem para improvisação, acabaram perdendo espaço. A falta de continuidade administrativa e a captura das decisões por interesses imediatistas inviabilizaram um projeto ferroviário consistente para o país.

A comparação entre Europa e Brasil evidencia que a questão não é geográfica, mas política. Países menores, com menos recursos naturais, construíram sistemas ferroviários eficientes porque compreenderam seu valor estratégico. O Brasil, com território vasto e potencial logístico extraordinário, permanece preso a um modelo caro, poluente e socialmente excludente.

Repensar essa escolha é urgente. Colocar o Brasil “nos trilhos” não é apenas uma questão de transporte, mas de projeto de nação. Mais integrada, mais justa, mais eficiente e menos refém de interesses que encarecem o serviço e travam o desenvolvimento. A Europa mostra que é possível. Falta ao Brasil decisão política, visão de futuro e compromisso real com o interesse público. (28/12/2025)

 

 

 

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