Há
poucos dias andei batendo pernas por alguns países da Europa, esses
lugares onde a história parece caminhar de sobretudo e cachecol. Sofri
um frio dos diabos, daqueles que atravessam o casaco, os ossos e, por
fim, a alma. E foi justamente aí, entre ruas antigas e céus cinzentos,
que me bateu uma saudade danada do sol causticante do meu sertão.
Saudade de pisar o solo crestado, de palmilhar as veredas espinhosas da
minha Mombaça, essa terra que nasceu de Maria Pereira e que ontem
completou 173 anos de emancipação política.
Enquanto
o vento europeu me castigava o rosto, era o calor da memória que me
aquecia. Via, como num delírio manso, a paisagem agreste se abrindo
diante dos olhos: a terra dura, o verde raro e valente, a poeira que
sobe como incenso profano aos céus do sertão. Mombaça não se oferece
fácil; ela exige, testa, forja. Talvez por isso seja berço de tantas
histórias e de tantos heróis anônimos, homens e mulheres que constroem,
dia após dia, uma sociedade de bravos, com muito suor e, às vezes —
ainda — com sangue.
A Europa tem sua grandeza, não
nego. Monumentos que desafiam os séculos, cidades que parecem ter sido
desenhadas por poetas meticulosos. Mas nada disso me consola como o
aconchego simples da minha gente. Lá, tudo é pedra e memória; aqui, tudo
é vida que insiste. E resiste. O concreto é que eu não troco a aridez
dos sertões da Mombaça, que me viu nascer, pelas terras friorentas da
velha Europa. Prefiro o sol que castiga e ensina ao frio que paralisa e
distancia.
É na simplicidade do meu povo que
encontro ânimo e força para combater o bom combate. Um combate que não
se trava com armas reluzentes, mas com resistência, dignidade e fé no
amanhã. Sigo, assim, na linhagem combativa da intrépida Maria Pereira,
certo de que o sertão, com todas as suas durezas, continua sendo o lugar
onde meu coração anda descalço. E, ainda assim, em casa. (15/01/2026)

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