De
Paris, 2 graus. Retornando a Milão, depois de bater pernas na Cidade
Luz e fazer algumas observações. Visitei importantes catedrais e igrejas
católicas na Polônia, na Itália e na França. Ao longo da história
europeia, poucas expressões materiais traduziram com tanta força a
cosmovisão cristã quanto as grandes catedrais. Erguidas em pedra, luz e
silêncio, elas não foram concebidas apenas como espaços litúrgicos, mas
como verdadeiros instrumentos pedagógicos, capazes de instruir povos
inteiros num tempo em que a maioria era analfabeta. A catedral, antes de
ser um monumento turístico, foi e continua sendo um catecismo
esculpido, um sermão permanente que atravessa séculos.
Na
Idade Média, período em que a fé cristã estruturava a vida social,
política e cultural da Europa, a arquitetura sacra tornou-se uma
linguagem teológica. Cada arco, vitral, estátua e proporção geométrica
comunicava verdades da fé católica. A verticalidade apontava para o
transcendente; a cruz latina organizava o espaço; a luz filtrada
simbolizava a graça divina que ilumina o mundo. Assim, a catedral
educava o fiel não apenas pela palavra, mas pela experiência sensível.
A
Catedral de Milão (Duomo di Milano) é um exemplo irretorquível.
Iniciada em 1386, é uma das expressões mais grandiosas dessa pedagogia
cristã. Seu estilo gótico tardio, singularmente revestido de mármore
branco rosado, revela a ambição de tornar visível a glória de Deus no
coração da cidade. Com mais de uma centena de pináculos e milhares de
esculturas, o Duomo é uma verdadeira “Bíblia de pedra”, na qual santos,
mártires e cenas da Escritura formam uma narrativa contínua da história
da salvação.
A pedagogia do Duomo manifesta-se
também em sua monumentalidade. O homem, ao adentrar aquele espaço,
percebe imediatamente sua pequenez diante do mistério divino. Não se
trata de opressão estética, mas de humildade espiritual. A catedral
educa para o senso do sagrado, algo cada vez mais raro em uma cultura
marcada pelo relativismo e pela banalização do transcendente.
De
modo semelhante, a Catedral de Notre-Dame de Paris, obra-prima do
gótico francês iniciada no século XII, desempenhou papel central na
formação espiritual e cultural da França e da Europa. Sua harmonia
arquitetônica, seus vitrais, especialmente as rosáceas, e seu programa
iconográfico foram concebidos como uma pedagogia da luz, símbolo de
Cristo, “luz do mundo”.
Notre-Dame não era apenas o
centro religioso de Paris, mas também seu coração intelectual e
simbólico. Diante de suas fachadas, o povo aprendia sobre o Juízo Final,
a vida de Cristo, a dignidade de Maria e a ordem moral do universo
cristão. A catedral ensinava sem relativizar, transmitia a fé sem
ambiguidades, afirmando a centralidade da Igreja Católica Apostólica
Romana na organização da sociedade.
As catedrais frente às rupturas modernas
Apesar
de, nos tempos recentes, o neopaganismo ter adentrado certos setores da
Igreja por meio de teologias liberais e heréticas, como a Teologia da
Libertação, que frequentemente substitui a transcendência de Deus por
categorias políticas e ideológicas, as grandes catedrais permanecem como
testemunhas silenciosas da ortodoxia cristã. Elas não se curvam às
modas teológicas nem às pressões culturais do momento.
A
pedra não se rende ao relativismo. A linguagem simbólica dessas
catedrais continua proclamando verdades perenes: a centralidade de
Cristo, a sacralidade da liturgia, a hierarquia do sagrado e a ordem
moral fundada na lei divina. Mesmo quando seus espaços são
ocasionalmente instrumentalizados por discursos alheios à fé, a própria
arquitetura resiste, denunciando a dissonância entre forma e conteúdo.
Negar
o papel da Igreja Católica na formação da Europa e, por consequência,
da civilização ocidental, é um exercício de amnésia histórica. As
grandes catedrais são provas materiais incontornáveis dessa influência.
Elas foram centros de cultura, de ciência, de arte, de direito e de
educação. Ao redor delas surgiram universidades, hospitais, cidades e
instituições que moldaram o Ocidente.
A pedagogia
religiosa das catedrais ensinou não apenas a fé, mas também o valor da
razão, da ordem, da beleza e da dignidade humana. Em um mundo que
frequentemente renega suas raízes, o Duomo de Milão e Notre-Dame de
Paris permanecem como faróis de memória e identidade, recordando que a
Europa nasceu aos pés do altar e sob a sombra da cruz.
As
grandes catedrais não são ruínas de um passado superado, mas mestres
vivos de uma tradição que resiste. Em meio às crises espirituais
contemporâneas, elas continuam a educar, a interpelar e a elevar o
espírito humano. São testemunhos inequívocos da Cristandade e da missão
histórica da Igreja Católica Apostólica Romana na construção da Europa e
da civilização ocidental. Enquanto essas pedras permanecerem de pé, a
verdade que elas proclamam jamais poderá ser totalmente silenciada. (30/12/2025)

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