No
debate público brasileiro contemporâneo, uma crítica recorrente,
sobretudo entre setores liberais e conservadores, é a de que muitos
intelectuais e acadêmicos do país demonstram dupla moral: prontidão em
condenar governos de direita, inclusive os legitimamente eleitos, e uma
tendência paradoxal a relativizar, minimizar ou justificar abusos
cometidos por regimes de esquerda como os de Cuba, Nicarágua ou
Venezuela. Segundo essa crítica, há um silêncio seletivo diante de
atrocidades políticas, econômicas e morais cometidas por ditaduras de
viés socialista ou comunista, do stalinismo histórico aos
bolivarianismos contemporâneos.
Uma das queixas
mais fortes é precisamente a de que quando governos de direita, mesmo
dentro de marcos democráticos, adotam políticas controversas, muitos
intelectuais não hesitam em qualificá-los com termos como
“autoritários”, “antidemocráticos” ou mesmo “fascistas”. Por outro lado,
quando se trata de regimes como o venezuelano sob Nicolás Maduro, há
uma tendência em setores de esquerda a adotar uma postura crítica
atenuada, cautelosa ou justificadora, muitas vezes destacando fatores
externos, sobretudo a atuação dos Estados Unidos, como causa principal
dos problemas internos desses países.
Esse tipo de
posicionamento, principalmente quando vem acompanhado da rejeição a
esforços internacionais para pressionar ou sancionar tais regimes, é
interpretado por críticos como cumplicidade intelectual com a manutenção
de regimes autoritários, independentemente de sua orientação
ideológica.
A crise na Venezuela expôs essa
contradição de forma emblemática. Intelectuais de renome internacional,
como Noam Chomsky e outros, em 2019 assinaram uma carta criticando a
intervenção dos EUA e alertando para os riscos de uma ação externa que
visasse derrubar o governo de Maduro.
Esse
posicionamento não nega que tais intelectuais frequentemente condenem
violações de direitos humanos, mas condena primeiro a intervenção
externa e prioriza narrativas de negociação ou solução política interna,
o que, na percepção de muitos críticos, acaba por minimizar a gravidade
das ações repressivas internas do regime venezuelano, bem documentadas
por organismos independentes e que incluem prisões arbitrárias,
supressão de oposição e colapso econômico social que gerou milhões de
refugiados.
A questão central não deve ser
reduzida a uma simples acusação de “hipocrisia”, mas é, isso sim, um
desafio de coerência moral integrada ao discurso acadêmico e
intelectual. É legítimo criticar intervenções militares externas ou
imperialismo, mas essa crítica não pode servir como blindagem automática
para regimes que violam direitos básicos de seus cidadãos.
Críticos
argumentam que muitos intelectuais no Brasil e na América Latina tendem
a equiparar criticidade com resistência a narrativas hegemônicas, e
assim acabam, inadvertidamente ou por má fé mesmo, escamoteando abusos
por parte de aliados ideológicos. Em vez de uma análise que se mantenha
firme nos princípios democráticos, observa-se, para eles, uma narrativa
que prioriza o antagonismo geopolítico frente aos EUA ou ao
“capitalismo global” em detrimento da defesa clara e inequívoca de
liberdades civis e políticas universais.
No Brasil,
esse debate ganhou nova dimensão com a postura de figuras políticas e
intelectuais durante a crise venezuelana. O presidente Luiz Inácio Lula
da Silva chegou a qualificar o regime venezuelano como tendo “um viés
autoritário”, mas não chegou a declarar que se tratava de uma ditadura
comparável a outros regimes históricos. Lula foi criticado tanto por
apoiar uma narrativa menos dura quanto por resistir a reconhecer
amplamente a legitimidade da oposição venezuelana. Além disso, em
círculos acadêmicos e universitários brasileiras, houve casos em que
notas críticas ao governo Maduro foram contestadas por redes de
intelectuais associadas à esquerda.
É
indispensável sublinhar um princípio que deveria ser inquestionável:
nenhum regime autoritário, de direita ou de esquerda, é compatível com a
plena realização de liberdades públicas, direitos humanos e
instituições democráticas funcionalmente independentes. A defesa de tais
princípios não pode ser suspensa ou relativizada por afinidades
ideológicas.
A coerência intelectual exige que
críticas estejam enraizadas em fatos e princípios universais, não em
alianças políticas ou narrativas de conveniência. A crítica seletiva,
ainda que motivada por aversão legítima ao imperialismo ou a
intervenções externas, não pode se transformar em uma blindagem para a
violação sistemática de direitos civis.
A acusação
de silêncio ou cumplicidade de intelectuais brasileiros diante de
ditaduras de esquerda é um alerta que merece reflexão, não como
simplificação maniqueísta, mas como questionamento ético profundo. Que
tipo de papel público e moral os intelectuais devem desempenhar? Devem
ser guardiões imparciais de princípios democráticos e direitos humanos,
ou defensores automáticos de causas alinhadas com suas preferências
ideológicas?
O verdadeiro desafio para o pensamento
crítico contemporâneo no Brasil é superar tribalismos e abraçar uma
crítica consistente, que denuncie violações em qualquer contexto, sem
suavizações que sirvam apenas para proteger aliados ideológicos. Esse é o
teste de integridade que a história, mais uma vez, nos coloca diante de
nós. Até porque a maioria dos "intelequituais" brasileiros já
demonstraram inequivocamente simpatia por "mensalões", "petrolões",
sandinismos e bolivarianismos que não se coadunam jamais com a ética que
preside sistemas democráticos. (07/01/2026)

Nenhum comentário:
Postar um comentário