Há
cerca de três meses o líder esquerdista Zé Dirceu, cujo feeling
político mostrou o caminho das pedras para que o PT ascendesse ao poder,
concedeu uma entrevista à BBC News Brasil, na qual afirmou que
Bolsonaro não deveria ir para uma prisão comum, em razão das más
condições de saúde do ex-presidente. Marxista, ateu confesso, militante
esquerdista desde criancinha, José Dirceu confirma o pensamento do
Cristo dos Evangelhos: ele é a pedra que clama, quando tantos
santarrões, igrejeiros, rosário em punho, se escondem atrás dos altares e
anestesiados pelo medo dos poderosos de toga, padecem do silêncio dos
covardes ou mesmo aplaudem a perversidade que estão a cometer contra o
ex-presidente Bolsonaro.
“Se eles se calarem, as
pedras clamarão” (Lc 19.40). Cristo fala sobre a atitude dos seus
discípulos, os quais não devem ter medo. Com efeito, há frases bíblicas
que, embora breves, atravessam os séculos como lâminas de sentido. “Se
eles se calarem, as pedras clamarão” é uma delas. Proferida por Jesus no
contexto de sua entrada triunfal em Jerusalém, essa afirmação não é
apenas uma imagem poética: é uma declaração teológica profunda sobre a
inevitabilidade da verdade, a força do testemunho e a responsabilidade
humana diante do bem.
O contexto da palavra no
Evangelho de Lucas (19.28–40), Jesus entra em Jerusalém montado num
jumentinho, enquanto os discípulos e a multidão o aclamam como Rei.
Incomodados, os fariseus pedem que Ele silencie os que o louvam. A
resposta de Jesus é direta e desconcertante: se aqueles se calarem, as
próprias pedras clamarão.
Não se trata de uma
ameaça, mas de uma constatação. A cena revela que o reconhecimento da
verdade não depende apenas da vontade humana. Quando a história alcança
um ponto decisivo, o silêncio torna-se impossível.
Na tradição bíblica, as pedras carregam forte simbolismo. Elas
servem de testemunho (Josué 24,27);
erguem altares e memoriais;
registram a Lei gravada;
e, paradoxalmente, podem tanto ferir quanto sustentar.
Quando
Jesus afirma que as pedras clamariam, Ele evoca a ideia de que a
própria criação participa do drama da salvação. Se os homens, dotados de
voz, consciência e liberdade, se omitem, aquilo que é aparentemente
inerte assume a função de acusar, lembrar e proclamar. Há silêncios que
são prudência, mas há silêncios que são cumplicidade. A frase de Jesus
denuncia o risco de uma fé acomodada, de uma religiosidade que prefere a
neutralidade à verdade. Quando a injustiça se impõe, quando a dignidade
humana é ferida, quando o bem é relativizado, o silêncio deixa de ser
virtude.
As pedras clamam justamente porque o
silêncio humano se torna ensurdecedor. Elas falam não com palavras, mas
com a força do óbvio, do escândalo moral, da realidade que se impõe
contra toda tentativa de negação.
Em cada época, essa palavra se renova. As “pedras” de hoje podem ser os fatos que desmentem discursos;
as vítimas que sobrevivem à tentativa de apagamento; a história que ressurge apesar das manipulações;
a consciência que não se deixa anestesiar.
Quando
instituições se calam (lembrai-vos da OAB, da CNBB e tantas outras);
quando lideranças se omitem, quando a verdade é sacrificada em nome da
conveniência, algo sempre fala. E fala alto.
A
advertência de Jesus é também um chamado. Ele não exalta as pedras; ao
contrário, espera que os homens falem. A criação só clama porque o ser
humano, criado para ser voz, abdica de sua missão.
Dar
testemunho não é gritar, mas ser fiel. Não é impor, mas anunciar. Não é
buscar aplauso, mas permanecer de pé quando o silêncio parece mais
confortável.
“As pedras falam” não é uma licença
para a omissão, mas uma denúncia dela. É o lembrete de que a verdade
sempre encontrará um caminho para se manifestar, com ou sem nossa
participação. A pergunta que permanece não é se as pedras clamarão, mas
se nós permitiremos que elas precisem fazê-lo.
Porque, no fundo, quando as pedras falam, não é a criação que falha. É o cristão que covardemente se calou.

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