quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

"Quem morreu foi Nietzsche" - Barros Alves

                                                                              

A recorrente proclamação da “morte de Deus”, lançada por Friedrich Nietzsche no século XIX, continua a ecoar em certos discursos contemporâneos como se fosse uma senha de libertação definitiva da vida pública, da História e da ordem social. No entanto, passados mais de cem anos, o que se observa não é o desaparecimento de Deus, mas o esgotamento intelectual e moral dessa própria pretensão. Se algo morreu, foi a ilusão de que a negação do transcendente poderia, por si só, fundar uma civilização mais justa, mais livre e mais humana.

Nietzsche diagnosticou uma crise real, qual seja o enfraquecimento da fé na Europa moderna, corroída pelo racionalismo fechado em si mesmo e pelo positivismo que reduziu a realidade ao mensurável. Contudo, ao celebrar a “morte de Deus”, o filósofo não ofereceu um caminho capaz de sustentar a dignidade humana no longo prazo. A História do século XX, marcada por totalitarismos, genocídios e guerras de escala inédita, mostra com eloquência que a tentativa de organizar a vida coletiva sem referência a um fundamento ético transcendente frequentemente desemboca na absolutização do poder, do Estado ou da vontade de alguns sobre os demais.

É precisamente nesse ponto que se revela atual e luminosa a reflexão de Giorgio La Pira. O estadista e pensador italiano, que foi prefeito de Florença e a Igreja Católica já o considera "Venerável", advertiu que estão profundamente enganados aqueles que relegam a plano inferior “a grande verdade do corpo místico que iluminou toda a ordem social”. Para La Pira, a concepção cristã não é um detalhe devocional a ser confinado à esfera privada, mas uma força histórica concreta que moldou instituições, inspirou leis, humanizou o exercício do poder e conferiu sentido comunitário à vida política ao longo dos séculos.

A ideia do "Corpus Mysticum", a humanidade unida em Cristo, foi decisiva para a superação de visões puramente tribais, étnicas ou utilitaristas da sociedade. Dela brotou a noção de dignidade intrínseca de toda pessoa humana, independentemente de sua força, riqueza ou utilidade econômica. Foi sob essa luz que se consolidaram princípios como o valor da vida, a centralidade do bem comum, a limitação moral do poder e a responsabilidade social do governante. Negar essa herança não é sinal de progresso, mas de amnésia histórica.

A mensagem do Cristo, transmitida pelos Evangelhos, não propõe um domínio teocrático nem a confusão entre Igreja e Estado. Propõe algo mais profundo e exigente: a conversão do coração humano, inclusive e, sobretudo, daquele que governa. “Quem quiser ser o primeiro, seja o servo de todos” (Mc 9.35). Essa inversão radical de valores constitui uma crítica permanente a qualquer forma de poder absoluto e desumanizador. Longe de justificar autoritarismos, o cristianismo autêntico os desmascara.

Persistir no desejo de banir Deus da vida pública equivale, na prática, a esvaziar o debate político de suas referências éticas mais profundas, substituindo-as por consensos frágeis, mutáveis e frequentemente ditados pela força ou pelo interesse. A História demonstra que sociedades que rompem totalmente com o horizonte do transcendente acabam por divinizar algo no lugar de Deus: o mercado, o Estado, a ideologia ou o próprio indivíduo. O resultado raramente é libertação; quase sempre é nova forma de servidão.

Por isso, a afirmação de que “Deus morreu” revela-se menos uma constatação filosófica e mais uma profissão de fé negativa e, como tal, incapaz de se sustentar diante da realidade histórica e espiritual da humanidade. Deus não morreu. O que se mostra cada vez mais evidente é a falência das narrativas que tentaram substituí-Lo sem oferecer algo melhor à condição humana.

Reafirmar, com La Pira, a centralidade do corpo místico e da inspiração cristã na ordem social não significa negar o pluralismo ou a modernidade, mas recordar que a civilização ocidental, com todas as suas imperfeições, foi profundamente iluminada pelo Evangelho. Ignorar essa verdade não é neutralidade, mas empobrecimento intelectual e moral.

No fim das contas, a História segue testemunhando que o Cristo anunciado pelos Evangelhos permanece vivo, interpelando consciências, inspirando gestos de justiça e sustentando a esperança dos povos. A “morte de Deus” não passou de um grito retórico. Quem realmente não resistiu à prova do tempo foi a soberba de acreditar que o homem, sozinho, poderia ocupar o Seu lugar.

 

 

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