terça-feira, 27 de janeiro de 2026

"O CARIRI – RAÍZES E CENÁRIOS: memória, identidade e permanência histórica" - Por Barros Alves

                                                                                 
 
Armando Lopes Rafael é um dos mais lúcidos intérpretes da história e da cultura do Cariri cearense. Historiador de sólida formação, cronista atento às sutilezas da vida regional e pesquisador dedicado às fontes documentais e orais, ele alia erudição e sensibilidade narrativa. Seu texto transita com naturalidade entre o dado histórico rigoroso e a evocação literária, revelando não apenas conhecimento técnico, mas profundo amor pela terra caririense. Essa combinação de método e pertencimento confere autoridade intelectual à sua obra e a torna leitura indispensável para quem deseja compreender a alma do sul do Ceará.
No livro "O Cariri – Raízes e Cenários", o autor realiza um amplo painel histórico-cultural da região, revelando-a como espaço privilegiado da formação cearense e, em muitos momentos, da própria história nacional. O Cariri não é apresentado apenas como recorte geográfico, mas como território simbólico, onde se entrelaçam fé, tradição, política, imaginário popular e movimentos sociais de grande repercussão.
Desde o início, a obra reafirma que o Cariri foi — e continua a ser — cenário de fatos de grande relevo. Ali floresceram experiências religiosas singulares, conflitos políticos marcantes, movimentos culturais originais e personagens cuja influência ultrapassou as fronteiras estaduais. A região, como um oásis verde em meio ao semiárido, sempre foi polo de atração populacional e cultural, tornando-se um núcleo irradiador de identidade.
Entre os temas abordados no livro em apreço, destaca-se a reflexão sobre a "pequenina e belíssima escultura de madeira" imagem de Nossa Senhora, na Catedral do Crato, invocada como “A Mãe do Belo Amor”. Armando Lopes Rafael não se limita à descrição artística ou devocional da imagem; ele a situa na projeção histórica como eixo formador da espiritualidade regional. De par com Nossa Senhora da Penha, a  devoção mariana, nesse contexto, aparece como força civilizadora, elemento agregador das primeiras comunidades e símbolo da delicadeza espiritual que convive com a dureza do sertão. A imagem é, portanto, mais que objeto sacro: é signo histórico da consolidação do povoamento e da cultura local.
Outro ponto instigante da obra é a tese de que uma “mentalidade medieval” plasmou o povoamento do Cariri. O autor sugere que valores como honra, religiosidade intensa, estrutura patriarcal, apego à tradição e visão sacramental do mundo moldaram as relações sociais na região. Essa herança cultural, trazida pelos colonizadores portugueses e reinterpretada no sertão, explica muitos dos comportamentos políticos, religiosos e sociais que marcaram a história caririense. O Cariri, nesse sentido, conserva traços de longa duração histórica, onde o passado permanece vivo nas práticas cotidianas.
A análise do patrimônio imaterial do Cariri é outro mérito do livro. Armando Lopes Rafael valoriza as manifestações orais, as festas religiosas, os ritos populares, as tradições artesanais, as cantorias e narrativas transmitidas de geração em geração. Ele demonstra que a identidade regional não se sustenta apenas em monumentos ou documentos oficiais, mas sobretudo na memória coletiva. Ao registrar esse patrimônio, o autor contribui para sua preservação, reconhecendo-o como riqueza cultural de valor inestimável.
No campo político, chama atenção o estudo sobre os monarquistas do Cariri, com destaque para Barbalha como a cidade mais monarquista do Ceará. O autor revela que, mesmo após a Proclamação da República, permaneceram na região núcleos de resistência simbólica e ideológica ao novo regime. Essa peculiaridade histórica evidencia a força das tradições e o conservadorismo de parte das elites locais, reforçando a ideia de que o Cariri sempre dialogou intensamente com os grandes debates nacionais, ainda que à sua maneira.
Entretanto, é na abordagem da religiosidade intrínseca do povo caririense que o livro atinge uma de suas expressões mais significativas. A devoção ao Padre Cícero Romão Batista emerge como fenômeno central da história regional, projetando Juazeiro do Norte no cenário nacional. Ao lado dele, a figura da Beata Benigna representa a continuidade da santidade popular, nascida do testemunho de fé e sofrimento. Ambos caminham "pari passu" com o universo de lendas, mitos e ritos que enriquecem o imaginário do Cariri. A religiosidade, ali, não é elemento periférico: é fundamento estruturante da vida social, política e cultural.
Ao reunir esses múltiplos aspectos, quais sejam, a arte sacra, mentalidade histórica, patrimônio imaterial, tradição política e misticismo popular, "O Cariri – Raízes e Cenários" consolida-se como obra de referência para o conhecimento da história local. Mais que uma narrativa cronológica, o livro é interpretação abrangente de uma região que desempenhou papel decisivo na formação do Ceará e cuja influência ultrapassou fronteiras.
Armando Lopes Rafael, com rigor e sensibilidade, demonstra que compreender o Cariri é compreender parte essencial da identidade nordestina e brasileira. Sua obra reafirma que o sul cearense não é periferia da história, mas um de seus palcos mais expressivos, onde tradição e permanência dialogam continuamente com transformação e protagonismo.


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