Nasci nos sertões adustos de Mombaça. Sou filho de agricultores, forjado na terra seca e sob o mandacaru, que não dá sombra nem encosto, mas cujo caule suculento já matou a fome de bichos e de pessoas. Desde a infância convivo com o fenômeno doloroso das estiagens. Trabalhei no roçado até o período da adolescência, quando por intermédio do estudo me libertei do ambiente insalubre e do cabo da enxada. Daquele tempo a esta parte, tenho lido muitos livros sobre o tema e convivido com estudiosos e pesquisadores nessa área, entre os quais destaco os professores Caio Lóssio Botelho e Ésio de Souza, ambos luminares em estudos sobre o semiárido. Nos livros que tenho lido não encontrei nenhuma referência exata que Dom João VI, nem os príncipes que o sucederam no governo do Brasil, nem ninguém da monarquia brasileira tenha afirmado pejorativamente que o subdesenvolvimento do Nordeste tenha como causa a preguiça do povo sertanejo e nordestino. Devo lembrar, por pertinente, que sou monarquista e já li centenas de livros biográficos e de História do Brasil, em especial sobre a monarquia. Em nenhuma obra vi declarações de monarquistas no sentido de desancar o nordestino em razão de ser acometido por uma pretensa preguiça.
Com efeito, não há evidências de que Dom João VI nem os Pedros imperadores tenham afirmado explicitamente que a pobreza no Nordeste brasileiro se devia à “preguiça do povo”. Essa ideia é mais um estereótipo histórico que circulava entre alguns colonizadores e administradores da época, mas não necessariamente reflete o pensamento do monarca português e nem dos seus sucessores no trono brasileiro. O que se sabe é que, durante o período de Dom João VI (1808–1821), o Brasil em processo de formação como nação independente, e o Nordeste em particular, enfrentavam sérios problemas estruturais. No caso do Nordeste, secas frequentes, desigualdade social, concentração de terras nas mãos de poucos latifundiários, monocultura de exportação (como cana-de-açúcar) e falta de investimentos em infraestrutura e saneamento. Essas condições criavam pobreza crônica e dificuldades econômicas para a maioria da população, especialmente camponeses e escravizados.
Portanto, se Dom João VI tivesse uma visão crítica da pobreza nordestina, provavelmente a teria entendido mais como consequência de fatores estruturais e naturais do que como resultado da “preguiça” do povo. A atribuição de preguiça ao povo nordestino é, na história, um mito ou preconceito que surgiu depois, usado para justificar desigualdades sociais.
O mito da “preguiça do nordestino” não vem de um fato histórico, mas de interpretações enviesadas da realidade econômica e social do Nordeste. Sabe-se à saciedade, que Nordeste, especialmente o semiárido, sofre com secas periódicas. A agricultura de subsistência dependia da chuva e, em anos de estiagem, o trabalho rendia pouco ou nada. Isso foi interpretado por alguns cronistas e administradores coloniais como “desinteresse ou preguiça”, quando na realidade eram condições naturais adversas. A economia nordestina, nos períodos colonial e imperial, era baseada em grandes latifúndios e monocultura (cana-de-açúcar, algodão). A grande massa de trabalhadores era composta por escravizados e camponeses pobres. A dificuldade de ascensão social e a exploração levavam a baixos níveis de produtividade. Essa situação remeteu a alguns analistas a ideia de que havia relação com preguiça. Administradores, viajantes e cronistas europeus ou das regiões mais ricas do Sudeste projetavam seus próprios valores de trabalho e eficiência sobre o Nordeste. Essa visão reducionista reforçou a ideia de que a população local era “preguiçosa”.
O estereótipo se consolidou principalmente no século XIX, por meio de discursos de elite e da imprensa. Alguns escritores e jornalistas, como o próprio José de Alencar, nosso incensado romancista que também foi político, em certo contexto literário, pensou dessa forma equivocada. Também cronistas de viagem, descreveram o sertanejo de forma caricata, enfatizando passividade e aparente falta de ambição. Para justificar a concentração de terras e o atraso de políticas públicas, elites regionais e nacionais reforçavam a narrativa de que “o povo não trabalhava direito”. No século XX, já sob a República, que no Brasil tem sido um desastre histórico, escolas e livros didáticos reforçaram essa imagem, criando um preconceito cultural que se perpetua até hoje.
Na verdade, além de problemas graves de governança que passam sobretudo pela corrupção como modo de governar, sobretudo – repito – sob a República, o que realmente explicava a pobreza são os ciclos de estiagens que ainda hoje geram fome, desigualdade social. Antes constatamos de fato a exploração da mão de obra escrava e o pós-abolição sem acesso à terra. E ontem como hoje temos políticas públicas insuficientes e centralização de investimentos no Sudeste. Enfim, A PREGUIÇA DO NORDESTINO É UM PRECONCEITO, não uma explicação histórica ou econômica. A pobreza nordestina tem causas estruturais muito concretas e históricas, e o estereótipo surgiu mais como uma forma de justificar desigualdades e preconceitos.
*Barros Alves é membro da Sociedade Cearense de Geografia e História - SCGH; e da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo - ACLJ.


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