quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

"Santo Tomás de Aquino, o Boi Mudo" - Por Barros Alves

                                                                      


Qual boi silente, à sombra do convento,

Tomás rumina o Verbo eterno e puro,

É um  luzeiro aceso em  claustro escuro,

A unir fé e razão num só intento.


Da graça e lei sondara o fundamento,

Luz acendera em face do obscuro;

Razão e fé, caminho mais seguro 

Para alcançar maior conhecimento...


Do ente ao "Ipsum Esse": elevação!

Mostrando em Deus essência e ser idênticos;

Nos sacramentos, os sinais autênticos.


Quais duas naturezas: fé, razão!

E mais o Cristo vivo ali no pão...

Eis mistérios sagrados e... helênicos!

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

"O CARIRI – RAÍZES E CENÁRIOS: memória, identidade e permanência histórica" - Por Barros Alves

                                                                                 
 
Armando Lopes Rafael é um dos mais lúcidos intérpretes da história e da cultura do Cariri cearense. Historiador de sólida formação, cronista atento às sutilezas da vida regional e pesquisador dedicado às fontes documentais e orais, ele alia erudição e sensibilidade narrativa. Seu texto transita com naturalidade entre o dado histórico rigoroso e a evocação literária, revelando não apenas conhecimento técnico, mas profundo amor pela terra caririense. Essa combinação de método e pertencimento confere autoridade intelectual à sua obra e a torna leitura indispensável para quem deseja compreender a alma do sul do Ceará.
No livro "O Cariri – Raízes e Cenários", o autor realiza um amplo painel histórico-cultural da região, revelando-a como espaço privilegiado da formação cearense e, em muitos momentos, da própria história nacional. O Cariri não é apresentado apenas como recorte geográfico, mas como território simbólico, onde se entrelaçam fé, tradição, política, imaginário popular e movimentos sociais de grande repercussão.
Desde o início, a obra reafirma que o Cariri foi — e continua a ser — cenário de fatos de grande relevo. Ali floresceram experiências religiosas singulares, conflitos políticos marcantes, movimentos culturais originais e personagens cuja influência ultrapassou as fronteiras estaduais. A região, como um oásis verde em meio ao semiárido, sempre foi polo de atração populacional e cultural, tornando-se um núcleo irradiador de identidade.
Entre os temas abordados no livro em apreço, destaca-se a reflexão sobre a "pequenina e belíssima escultura de madeira" imagem de Nossa Senhora, na Catedral do Crato, invocada como “A Mãe do Belo Amor”. Armando Lopes Rafael não se limita à descrição artística ou devocional da imagem; ele a situa na projeção histórica como eixo formador da espiritualidade regional. De par com Nossa Senhora da Penha, a  devoção mariana, nesse contexto, aparece como força civilizadora, elemento agregador das primeiras comunidades e símbolo da delicadeza espiritual que convive com a dureza do sertão. A imagem é, portanto, mais que objeto sacro: é signo histórico da consolidação do povoamento e da cultura local.
Outro ponto instigante da obra é a tese de que uma “mentalidade medieval” plasmou o povoamento do Cariri. O autor sugere que valores como honra, religiosidade intensa, estrutura patriarcal, apego à tradição e visão sacramental do mundo moldaram as relações sociais na região. Essa herança cultural, trazida pelos colonizadores portugueses e reinterpretada no sertão, explica muitos dos comportamentos políticos, religiosos e sociais que marcaram a história caririense. O Cariri, nesse sentido, conserva traços de longa duração histórica, onde o passado permanece vivo nas práticas cotidianas.
A análise do patrimônio imaterial do Cariri é outro mérito do livro. Armando Lopes Rafael valoriza as manifestações orais, as festas religiosas, os ritos populares, as tradições artesanais, as cantorias e narrativas transmitidas de geração em geração. Ele demonstra que a identidade regional não se sustenta apenas em monumentos ou documentos oficiais, mas sobretudo na memória coletiva. Ao registrar esse patrimônio, o autor contribui para sua preservação, reconhecendo-o como riqueza cultural de valor inestimável.
No campo político, chama atenção o estudo sobre os monarquistas do Cariri, com destaque para Barbalha como a cidade mais monarquista do Ceará. O autor revela que, mesmo após a Proclamação da República, permaneceram na região núcleos de resistência simbólica e ideológica ao novo regime. Essa peculiaridade histórica evidencia a força das tradições e o conservadorismo de parte das elites locais, reforçando a ideia de que o Cariri sempre dialogou intensamente com os grandes debates nacionais, ainda que à sua maneira.
Entretanto, é na abordagem da religiosidade intrínseca do povo caririense que o livro atinge uma de suas expressões mais significativas. A devoção ao Padre Cícero Romão Batista emerge como fenômeno central da história regional, projetando Juazeiro do Norte no cenário nacional. Ao lado dele, a figura da Beata Benigna representa a continuidade da santidade popular, nascida do testemunho de fé e sofrimento. Ambos caminham "pari passu" com o universo de lendas, mitos e ritos que enriquecem o imaginário do Cariri. A religiosidade, ali, não é elemento periférico: é fundamento estruturante da vida social, política e cultural.
Ao reunir esses múltiplos aspectos, quais sejam, a arte sacra, mentalidade histórica, patrimônio imaterial, tradição política e misticismo popular, "O Cariri – Raízes e Cenários" consolida-se como obra de referência para o conhecimento da história local. Mais que uma narrativa cronológica, o livro é interpretação abrangente de uma região que desempenhou papel decisivo na formação do Ceará e cuja influência ultrapassou fronteiras.
Armando Lopes Rafael, com rigor e sensibilidade, demonstra que compreender o Cariri é compreender parte essencial da identidade nordestina e brasileira. Sua obra reafirma que o sul cearense não é periferia da história, mas um de seus palcos mais expressivos, onde tradição e permanência dialogam continuamente com transformação e protagonismo.


domingo, 25 de janeiro de 2026

"Liturgia, silêncio e o sentido do sagrado" - Por Barros Alves

                                                              

Recentemente, ao participar de missas em Cracóvia, Milão, Florença, Roma e, inclusive, no  Vaticano, chamou-me a atenção um traço comum às celebrações: a sobriedade. Não houve palmas. A música sacra era solene, normalmente executada por coros, com forte presença do repertório tradicional da Igreja, do canto gregoriano à polifonia clássica, e, sobretudo, com um claro sentido de transcendência. O ambiente favorecia a oração e a reflexão. Havia silêncio antes, durante e depois da celebração. A liturgia parecia conduzir naturalmente ao mistério.

A comparação com muitas realidades brasileiras suscita uma reflexão necessária. Em não poucas paróquias, a música assume caráter excessivamente ruidoso, com forte influência de estilos e instrumentos típicos da cultura popular contemporânea. Não se trata de negar o valor da inculturação, princípio caro à tradição missionária da Igreja, mas de reconhecer que há uma linha tênue entre adaptar a linguagem e descaracterizar o sentido do sagrado. Quando o espaço litúrgico perde a atmosfera de recolhimento, corre-se o risco de transformar a celebração em espetáculo. A influência da música mundana, quando não devidamente filtrada pelo espírito litúrgico, pode conduzir a uma espécie de “carnavalização” do ambiente sagrado, esvaziando sua dimensão contemplativa.

O Concílio Vaticano II, na "Sacrosanctum Concilium", afirma que a música sacra será tanto mais santa quanto mais intimamente estiver unida à ação litúrgica. A finalidade da música na missa não é entreter, mas elevar a alma, servir ao rito e expressar a fé da Igreja. O protagonismo não pertence ao grupo musical, mas ao Mistério celebrado. Nesse sentido, a tradição europeia, especialmente nas grandes cidades mencionadas, parece conservar com maior rigor a consciência de que a liturgia é, antes de tudo, culto a Deus e participação no sacrifício eucarístico.

Outro aspecto observado foi a discrição dos serviços auxiliares. Não se notavam vestimentas distintivas para leigos encarregados de funções litúrgicas, nem uma multiplicidade de ministros extraordinários da Sagrada Comunhão. Nas celebrações presenciadas, a distribuição da Eucaristia era realizada ordinariamente pelo sacerdote e, quando necessário, por ministros devidamente instituídos, de modo simples e sem qualquer destaque visual que os diferenciasse excessivamente dos demais fiéis.

No Brasil, ao contrário, consolidou-se a figura do “ministro da Eucaristia” com identidade própria e, por vezes, com sinais externos que o distinguem da assembleia. É preciso reconhecer que, em um país de dimensões continentais e com escassez de clero em muitas regiões, os ministros extraordinários desempenham papel pastoral relevante. Contudo, o caráter “extraordinário” do ministério não pode ser diluído. Quando o recurso excepcional se torna prática ordinária, altera-se também a percepção simbólica da centralidade do sacerdócio ministerial e do próprio mistério eucarístico.

Essas observações não pretendem idealizar a Europa nem desmerecer a vitalidade da Igreja no Brasil. Nosso país possui uma religiosidade vibrante, marcada por forte participação popular e por expressões culturais riquíssimas. Entretanto, vitalidade não deve ser confundida com agitação, nem participação com protagonismo individual. A liturgia não é criação da comunidade local; ela é patrimônio da Igreja universal.

Talvez o desafio brasileiro esteja em reencontrar o equilíbrio entre inculturação e fidelidade à tradição. O silêncio, a solenidade, a sobriedade e a beleza não são elementos acessórios, mas dimensões constitutivas da experiência do sagrado. Em um mundo saturado de ruídos e estímulos, a Igreja pode e, talvez deva, oferecer um espaço radicalmente distinto, um lugar onde o homem reencontra o Mistério, não pela exaltação dos sentidos, mas pela contemplação.

Redescobrir a força do silêncio litúrgico, a centralidade do altar e a função verdadeiramente sagrada da música pode ser um caminho fecundo para aprofundar a fé. A liturgia, quando vivida com reverência e consciência, não precisa de artifícios para tocar o coração humano. Ela mesma, na sua forma autêntica, já é beleza que salva, verdade que ilumina e mistério que transforma.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

"O reiterado desprezo da Rússia pelo Direito Internacional" Por Barros Alves

                                                                                  


Recentemente tem sido grande o tiroteio midiático contra a decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de capturar Nicolás Maduro, reconhecidamente um narcoditador, criminoso de Estado, que destruiu a economia venezuelana sustentando uma rede internacional de bandidos, assassinou adversários, além das crueldades cometidas para com o seu próprio povo. Nessa lista de críticos do presidente norte-americano, líder sagrado nas urnas para governar a mais importante democracia do planeta, inscreve-se gente graúda da área do direito, que milita nas hostes esquerdistas, alguns deles notórios áulicos do governo brasileiro, este vergonhosamente aliado de terroristas e ditaduras sanguinárias, como é o caso de Cuba, Nicarágua, Irã e vários outros. Esses tão pressurosos críticos de um governo que deseja combater o que há de pior na política internacional, sempre foram silentes diante dos crimes cometidos pelos ditadores que Trump denuncia e promete destruir. Esse silêncio de cumplicidade assoma especialmente quando se olha para as decisões do Coronel Putin, velho comunista formado e cevado nas fileiras da KGB soviética. Nenhum desses críticos de Trump abriu o bico para criticar os desmandos de Putin, que há muito vem pisoteando o direito internacional e agredindo a ordem global.

Vamos aos fatos.

A invasão da Crimeia em 2014 e a guerra aberta contra a Ucrânia a partir de 2022 não constituem um desvio ocasional da política externa russa, nem podem ser relativizadas como respostas defensivas a circunstâncias excepcionais. Elas integram, ao contrário, uma sequência histórica coerente de agressões estatais, marcadas pelo uso da força, pela violação da soberania de Estados independentes e pelo desprezo sistemático aos princípios fundamentais do Direito Internacional consagrados após a Segunda Guerra Mundial. Desde o colapso da União Soviética, a Federação Russa tem demonstrado enorme dificuldade em aceitar a ordem internacional fundada na igualdade soberana dos Estados, no respeito às fronteiras e na solução pacífica de controvérsias, pilares expressamente consagrados na Carta das Nações Unidas.

Em 1992, ainda no rescaldo da dissolução soviética, tropas russas do antigo 14º Exército intervieram militarmente na Moldávia, apoiando separatistas da região da Transnístria. O resultado foi a criação de um território fora do controle do Estado moldavo, sustentado até hoje pela presença militar russa. Trata-se de um caso clássico de violação da soberania territorial e de ingerência armada nos assuntos internos de outro Estado.

Na Geórgia, o padrão repetiu-se com maior intensidade. Ao longo dos anos 1990, Moscou apoiou militarmente movimentos separatistas na Abkházia e na Ossétia do Sul. Em 2008, a Rússia foi além: invadiu diretamente o território georgiano, derrotou militarmente o país e, em seguida, reconheceu unilateralmente a “independência” das regiões ocupadas, em flagrante afronta ao princípio da integridade territorial, pedra angular do Direito Internacional contemporâneo.

Muito antes da anexação da Crimeia, a Rússia já submetia a Ucrânia a pressões territoriais e estratégicas, como no episódio da ilha de Tuzla, em 2003, quando ensaiou alterar unilateralmente o status de áreas sensíveis do estreito de Kerch. Era o prenúncio de uma política de coerção que se consolidaria anos depois.

A agressão russa não se limita ao emprego convencional de tropas. Em 2007, a Estônia, Estado-membro da União Europeia e da OTAN, foi alvo de ataques cibernéticos maciços, amplamente atribuídos a estruturas ligadas ao Kremlin. Inaugurava-se, ali, uma nova fronteira da violação da soberania: a guerra híbrida, que combina meios militares, tecnológicos, informacionais e políticos para desestabilizar Estados independentes. Esses episódios revelam um padrão claro e reiterado: instrumentalização de minorias russófonas; estímulo e armamento de movimentos separatistas; criação de “conflitos congelados”; emprego seletivo da força armada fora de qualquer autorização do Conselho de Segurança da ONU. Nada disso encontra respaldo no Direito Internacional. Ao contrário, tais condutas violam frontalmente o artigo 2º, §4º, da Carta das Nações Unidas, que proíbe o uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer Estado.

Argumentos baseados em vínculos históricos, culturais ou linguísticos jamais autorizaram, nem jamais autorizarão, a anexação de territórios ou a intervenção armada. Admiti-los seria desmontar todo o edifício jurídico erguido após 1945, retornando à lógica da força bruta e das esferas de influência, exatamente o que o Direito Internacional buscou superar.

A Rússia, ao longo das últimas décadas, não apenas violou regras específicas, mas desafiou a própria ideia de ordem jurídica internacional. Crimeia e Ucrânia não são exceções; são o ápice de uma trajetória marcada pelo uso recorrente da força como instrumento de política externa. Se tais condutas forem relativizadas, silenciadas ou justificadas, o resultado não será apenas a erosão do Direito Internacional, mas a legitimação de um mundo regido novamente pela lei do mais forte; um mundo que a humanidade já conhece bem e cujas consequências foram trágicas demais para serem ignoradas.

É bom lembrar aos críticos esquerdistas caolhos, que só vêm as ações do Trump, que o risco que corre o carvalho, corre o machado.

 

 


"Quem morreu foi Nietzsche" - Barros Alves

                                                                              

A recorrente proclamação da “morte de Deus”, lançada por Friedrich Nietzsche no século XIX, continua a ecoar em certos discursos contemporâneos como se fosse uma senha de libertação definitiva da vida pública, da História e da ordem social. No entanto, passados mais de cem anos, o que se observa não é o desaparecimento de Deus, mas o esgotamento intelectual e moral dessa própria pretensão. Se algo morreu, foi a ilusão de que a negação do transcendente poderia, por si só, fundar uma civilização mais justa, mais livre e mais humana.

Nietzsche diagnosticou uma crise real, qual seja o enfraquecimento da fé na Europa moderna, corroída pelo racionalismo fechado em si mesmo e pelo positivismo que reduziu a realidade ao mensurável. Contudo, ao celebrar a “morte de Deus”, o filósofo não ofereceu um caminho capaz de sustentar a dignidade humana no longo prazo. A História do século XX, marcada por totalitarismos, genocídios e guerras de escala inédita, mostra com eloquência que a tentativa de organizar a vida coletiva sem referência a um fundamento ético transcendente frequentemente desemboca na absolutização do poder, do Estado ou da vontade de alguns sobre os demais.

É precisamente nesse ponto que se revela atual e luminosa a reflexão de Giorgio La Pira. O estadista e pensador italiano, que foi prefeito de Florença e a Igreja Católica já o considera "Venerável", advertiu que estão profundamente enganados aqueles que relegam a plano inferior “a grande verdade do corpo místico que iluminou toda a ordem social”. Para La Pira, a concepção cristã não é um detalhe devocional a ser confinado à esfera privada, mas uma força histórica concreta que moldou instituições, inspirou leis, humanizou o exercício do poder e conferiu sentido comunitário à vida política ao longo dos séculos.

A ideia do "Corpus Mysticum", a humanidade unida em Cristo, foi decisiva para a superação de visões puramente tribais, étnicas ou utilitaristas da sociedade. Dela brotou a noção de dignidade intrínseca de toda pessoa humana, independentemente de sua força, riqueza ou utilidade econômica. Foi sob essa luz que se consolidaram princípios como o valor da vida, a centralidade do bem comum, a limitação moral do poder e a responsabilidade social do governante. Negar essa herança não é sinal de progresso, mas de amnésia histórica.

A mensagem do Cristo, transmitida pelos Evangelhos, não propõe um domínio teocrático nem a confusão entre Igreja e Estado. Propõe algo mais profundo e exigente: a conversão do coração humano, inclusive e, sobretudo, daquele que governa. “Quem quiser ser o primeiro, seja o servo de todos” (Mc 9.35). Essa inversão radical de valores constitui uma crítica permanente a qualquer forma de poder absoluto e desumanizador. Longe de justificar autoritarismos, o cristianismo autêntico os desmascara.

Persistir no desejo de banir Deus da vida pública equivale, na prática, a esvaziar o debate político de suas referências éticas mais profundas, substituindo-as por consensos frágeis, mutáveis e frequentemente ditados pela força ou pelo interesse. A História demonstra que sociedades que rompem totalmente com o horizonte do transcendente acabam por divinizar algo no lugar de Deus: o mercado, o Estado, a ideologia ou o próprio indivíduo. O resultado raramente é libertação; quase sempre é nova forma de servidão.

Por isso, a afirmação de que “Deus morreu” revela-se menos uma constatação filosófica e mais uma profissão de fé negativa e, como tal, incapaz de se sustentar diante da realidade histórica e espiritual da humanidade. Deus não morreu. O que se mostra cada vez mais evidente é a falência das narrativas que tentaram substituí-Lo sem oferecer algo melhor à condição humana.

Reafirmar, com La Pira, a centralidade do corpo místico e da inspiração cristã na ordem social não significa negar o pluralismo ou a modernidade, mas recordar que a civilização ocidental, com todas as suas imperfeições, foi profundamente iluminada pelo Evangelho. Ignorar essa verdade não é neutralidade, mas empobrecimento intelectual e moral.

No fim das contas, a História segue testemunhando que o Cristo anunciado pelos Evangelhos permanece vivo, interpelando consciências, inspirando gestos de justiça e sustentando a esperança dos povos. A “morte de Deus” não passou de um grito retórico. Quem realmente não resistiu à prova do tempo foi a soberba de acreditar que o homem, sozinho, poderia ocupar o Seu lugar.

 

 

"As pedras estão a clamar" - Por Barros Alves

Há cerca de três meses o líder esquerdista Zé Dirceu, cujo feeling político mostrou o caminho das pedras para que o PT ascendesse ao poder, concedeu uma entrevista à BBC News Brasil, na qual afirmou que Bolsonaro não deveria ir para uma prisão comum, em razão das más condições de saúde do ex-presidente. Marxista, ateu confesso, militante esquerdista desde criancinha, José Dirceu confirma o pensamento do Cristo dos Evangelhos: ele é a pedra que clama, quando tantos santarrões, igrejeiros, rosário em punho, se escondem atrás dos altares e anestesiados pelo medo dos poderosos de toga, padecem do silêncio dos covardes ou mesmo aplaudem a perversidade que estão a cometer contra o ex-presidente Bolsonaro. 
“Se eles se calarem, as pedras clamarão” (Lc 19.40). Cristo fala sobre a atitude dos seus discípulos, os quais não devem ter medo. Com efeito, há frases bíblicas que, embora breves, atravessam os séculos como lâminas de sentido. “Se eles se calarem, as pedras clamarão” é uma delas. Proferida por Jesus no contexto de sua entrada triunfal em Jerusalém, essa afirmação não é apenas uma imagem poética: é uma declaração teológica profunda sobre a inevitabilidade da verdade, a força do testemunho e a responsabilidade humana diante do bem.
O contexto da palavra no Evangelho de Lucas (19.28–40), Jesus entra em Jerusalém montado num jumentinho, enquanto os discípulos e a multidão o aclamam como Rei. Incomodados, os fariseus pedem que Ele silencie os que o louvam. A resposta de Jesus é direta e desconcertante: se aqueles se calarem, as próprias pedras clamarão.
Não se trata de uma ameaça, mas de uma constatação. A cena revela que o reconhecimento da verdade não depende apenas da vontade humana. Quando a história alcança um ponto decisivo, o silêncio torna-se impossível.
Na tradição bíblica, as pedras carregam forte simbolismo. Elas 
servem de testemunho (Josué 24,27);
erguem altares e memoriais;
registram a Lei gravada;
e, paradoxalmente, podem tanto ferir quanto sustentar.
Quando Jesus afirma que as pedras clamariam, Ele evoca a ideia de que a própria criação participa do drama da salvação. Se os homens, dotados de voz, consciência e liberdade, se omitem, aquilo que é aparentemente inerte assume a função de acusar, lembrar e proclamar. Há silêncios que são prudência, mas há silêncios que são cumplicidade. A frase de Jesus denuncia o risco de uma fé acomodada, de uma religiosidade que prefere a neutralidade à verdade. Quando a injustiça se impõe, quando a dignidade humana é ferida, quando o bem é relativizado, o silêncio deixa de ser virtude.
As pedras clamam justamente porque o silêncio humano se torna ensurdecedor. Elas falam não com palavras, mas com a força do óbvio, do escândalo moral, da realidade que se impõe contra toda tentativa de negação.
Em cada época, essa palavra se renova. As “pedras” de hoje podem ser os fatos que desmentem discursos;
as vítimas que sobrevivem à tentativa de apagamento; a história que ressurge apesar das manipulações;
a consciência que não se deixa anestesiar.
Quando instituições se calam (lembrai-vos da OAB, da CNBB e tantas outras); quando lideranças se omitem, quando a verdade é sacrificada em nome da conveniência, algo sempre fala. E fala alto.
A advertência de Jesus é também um chamado. Ele não exalta as pedras; ao contrário, espera que os homens falem. A criação só clama porque o ser humano, criado para ser voz, abdica de sua missão.
Dar testemunho não é gritar, mas ser fiel. Não é impor, mas anunciar. Não é buscar aplauso, mas permanecer de pé quando o silêncio parece mais confortável.
“As pedras falam” não é uma licença para a omissão, mas uma denúncia dela. É o lembrete de que a verdade sempre encontrará um caminho para se manifestar, com ou sem nossa participação. A pergunta que permanece não é se as pedras clamarão, mas se nós permitiremos que elas precisem fazê-lo.
Porque, no fundo, quando as pedras falam, não é a criação que falha. É o cristão que covardemente se calou.


"Saudades do sol de Mombaça" - Por Barros Alves

Há poucos dias andei batendo pernas por alguns países da Europa, esses lugares onde a história parece caminhar de sobretudo e cachecol. Sofri um frio dos diabos, daqueles que atravessam o casaco, os ossos e, por fim, a alma. E foi justamente aí, entre ruas antigas e céus cinzentos, que me bateu uma saudade danada do sol causticante do meu sertão. Saudade de pisar o solo crestado, de palmilhar as veredas espinhosas da minha Mombaça, essa terra que nasceu  de Maria Pereira e que ontem completou 173 anos de emancipação política.
Enquanto o vento europeu me castigava o rosto, era o calor da memória que me aquecia. Via, como num delírio manso, a paisagem agreste se abrindo diante dos olhos: a terra dura, o verde raro e valente, a poeira que sobe como incenso profano aos céus do sertão. Mombaça não se oferece fácil; ela exige, testa, forja. Talvez por isso seja berço de tantas histórias e de tantos heróis anônimos, homens e mulheres que constroem, dia após dia, uma sociedade de bravos, com muito suor e, às vezes — ainda — com sangue.
A Europa tem sua grandeza, não nego. Monumentos que desafiam os séculos, cidades que parecem ter sido desenhadas por poetas meticulosos. Mas nada disso me consola como o aconchego simples da minha gente. Lá, tudo é pedra e memória; aqui, tudo é vida que insiste. E resiste. O concreto é que eu não troco a aridez dos sertões da Mombaça, que me viu nascer, pelas terras friorentas da velha Europa. Prefiro o sol que castiga e ensina ao frio que paralisa e distancia.
É na simplicidade do meu povo que encontro ânimo e força para combater o bom combate. Um combate que não se trava com armas reluzentes, mas com resistência, dignidade e fé no amanhã. Sigo, assim, na linhagem combativa da intrépida Maria Pereira, certo de que o sertão, com todas as suas durezas, continua sendo o lugar onde meu coração anda descalço. E, ainda assim, em casa. (15/01/2026)


"Autoritarismos e corrupção: silêncio e cumplicidade dos intelectuais brasileiros" - Por Barros Alves

No debate público brasileiro contemporâneo, uma crítica recorrente,  sobretudo entre setores liberais e conservadores, é a de que muitos intelectuais e acadêmicos do país demonstram dupla moral: prontidão em condenar governos de direita, inclusive os legitimamente eleitos, e uma tendência paradoxal a relativizar, minimizar ou justificar abusos cometidos por regimes de esquerda como os de Cuba, Nicarágua ou Venezuela. Segundo essa crítica, há um silêncio seletivo diante de atrocidades políticas, econômicas e morais cometidas por ditaduras de viés socialista ou comunista, do stalinismo histórico aos bolivarianismos contemporâneos.
Uma das queixas mais fortes é precisamente a de que quando governos de direita, mesmo dentro de marcos democráticos, adotam políticas controversas, muitos intelectuais não hesitam em qualificá-los com termos como “autoritários”, “antidemocráticos” ou mesmo “fascistas”. Por outro lado, quando se trata de regimes como o venezuelano sob Nicolás Maduro, há uma tendência em setores de esquerda a adotar uma postura crítica atenuada, cautelosa ou justificadora, muitas vezes destacando fatores externos, sobretudo a atuação dos Estados Unidos, como causa principal dos problemas internos desses países.
Esse tipo de posicionamento, principalmente quando vem acompanhado da rejeição a esforços internacionais para pressionar ou sancionar tais regimes, é interpretado por críticos como cumplicidade intelectual com a manutenção de regimes autoritários, independentemente de sua orientação ideológica.
A crise na Venezuela expôs essa contradição de forma emblemática. Intelectuais de renome internacional, como Noam Chomsky e outros, em 2019 assinaram uma carta criticando a intervenção dos EUA e alertando para os riscos de uma ação externa que visasse derrubar o governo de Maduro. 
Esse posicionamento não nega que tais intelectuais frequentemente condenem violações de direitos humanos, mas condena primeiro a intervenção externa e prioriza narrativas de negociação ou solução política interna, o que, na percepção de muitos críticos, acaba por minimizar a gravidade das ações repressivas internas do regime venezuelano, bem documentadas por organismos independentes e que incluem prisões arbitrárias, supressão de oposição e colapso econômico social que gerou milhões de refugiados. 
A questão central não deve ser reduzida a uma simples acusação de “hipocrisia”, mas é, isso sim, um desafio de coerência moral integrada ao discurso acadêmico e intelectual. É legítimo criticar intervenções militares externas ou imperialismo, mas essa crítica não pode servir como blindagem automática para regimes que violam direitos básicos de seus cidadãos.
Críticos argumentam que muitos intelectuais no Brasil e na América Latina tendem a equiparar criticidade com resistência a narrativas hegemônicas, e assim acabam,  inadvertidamente ou por má fé mesmo,  escamoteando abusos por parte de aliados ideológicos. Em vez de uma análise que se mantenha firme nos princípios democráticos, observa-se, para eles, uma narrativa que prioriza o antagonismo geopolítico frente aos EUA ou ao “capitalismo global” em detrimento da defesa clara e inequívoca de liberdades civis e políticas universais.
No Brasil, esse debate ganhou nova dimensão com a postura de figuras políticas e intelectuais durante a crise venezuelana. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou a qualificar o regime venezuelano como tendo “um viés autoritário”, mas não chegou a declarar que se tratava de uma ditadura comparável a outros regimes históricos.  Lula  foi criticado tanto por apoiar uma narrativa menos dura quanto por resistir a reconhecer amplamente a legitimidade da oposição venezuelana.  Além disso, em círculos acadêmicos e universitários brasileiras, houve casos em que notas críticas ao governo Maduro foram contestadas por redes de intelectuais associadas à esquerda. 
É indispensável sublinhar um princípio que deveria ser inquestionável: nenhum regime autoritário, de direita ou de esquerda, é compatível com a plena realização de liberdades públicas, direitos humanos e instituições democráticas funcionalmente independentes. A defesa de tais princípios não pode ser suspensa ou relativizada por afinidades ideológicas.
A coerência intelectual exige que críticas estejam enraizadas em fatos e princípios universais, não em alianças políticas ou narrativas de conveniência. A crítica seletiva, ainda que motivada por aversão legítima ao imperialismo ou a intervenções externas, não pode se transformar em uma blindagem para a violação sistemática de direitos civis.
A acusação de silêncio ou cumplicidade de intelectuais brasileiros diante de ditaduras de esquerda é um alerta que merece reflexão,  não como simplificação maniqueísta, mas como questionamento ético profundo. Que tipo de papel público e moral os intelectuais devem desempenhar? Devem ser guardiões imparciais de princípios democráticos e direitos humanos, ou defensores automáticos de causas alinhadas com suas preferências ideológicas?
O verdadeiro desafio para o pensamento crítico contemporâneo no Brasil é superar tribalismos e abraçar uma crítica consistente, que denuncie violações em qualquer contexto, sem suavizações que sirvam apenas para proteger aliados ideológicos. Esse é o teste de integridade que a história, mais uma vez, nos coloca diante de nós. Até porque a  maioria dos "intelequituais" brasileiros já demonstraram inequivocamente simpatia por "mensalões", "petrolões", sandinismos e bolivarianismos que não se coadunam jamais com a ética que preside sistemas democráticos. (07/01/2026)


"A importância da lembrança piedosa dos Santos Reis" - Por Barros Alves

O dia 6 de janeiro, solenidade da Epifania do Senhor, ocupa um lugar especial na tradição cristã. Nessa data, a Igreja celebra a manifestação de Jesus Cristo ao mundo, representada de modo particular pela visita dos Santos Reis Magos ao Menino Deus. A lembrança piedosa dos Santos Reis não é apenas um elemento folclórico ou cultural, mas uma profunda expressão de fé, doutrina e identidade cristã, transmitida ao longo dos séculos.

A Festa dos Santos Reis tem sua origem nos primeiros séculos do Cristianismo, ligada diretamente à Epifania, termo de origem grega (epipháneia), que significa “manifestação” ou “aparição”. O Evangelho de São Mateus (Mt 2.1–12) narra a visita dos Magos do Oriente que, guiados por uma estrela, chegam a Belém para adorar o recém-nascido Rei dos Judeus.

Desde a Antiguidade cristã, a Igreja reconheceu nesse episódio uma verdade central da fé, qual seja a de que Cristo não veio apenas para Israel, mas para todas as nações. Os Reis Magos representam os povos pagãos que reconhecem em Jesus o verdadeiro Rei e Salvador, antecipando a universalidade da Igreja.

Na tradição católica, os Santos Reis simbolizam a busca sincera pela verdade, a humildade diante de Deus e a obediência à graça divina. Eles são frequentemente representados como reis para expressar que até os poderosos da terra devem se curvar diante de Cristo.

Os presentes oferecidos ao Menino Jesus possuem profundo significado teológico. O ouro, reconhecendo Jesus como Rei; o incenso, proclamando sua divindade; a mirra, anunciando seu sofrimento e sacrifício redentor.

A piedade popular, expressa em procissões, cânticos, presépios e celebrações como a Folia de Reis, ajuda a transmitir essas verdades de forma viva e acessível, especialmente às novas gerações.

Embora o Evangelho não mencione seus nomes, a tradição cristã, consolidada ao longo dos séculos, identifica os três Reis Magos como Melquior,  geralmente representado como um rei idoso, associado à Europa; Gaspar, frequentemente retratado como jovem, ligado à Ásia; e Baltasar, comumente representado como africano, simbolizando a África. Essa representação reforça o caráter universal da salvação em Cristo, alcançando todos os povos, culturas e raças.

Preservar a lembrança piedosa dos Santos Reis é defender a memória cristã, a identidade cultural e os valores espirituais que moldaram a civilização ocidental. Em um mundo marcado pelo secularismo e pelo esquecimento das raízes religiosas, tais tradições funcionam como verdadeiros instrumentos de evangelização, catequese e resistência cultural.

Mais do que uma celebração do passado, a Festa dos Santos Reis convida os fiéis, hoje, a imitar sua atitude: buscar Cristo com perseverança, adorá-Lo com humildade e oferecer-Lhe o melhor de si. Manter viva essa tradição é afirmar que a fé cristã não pertence apenas à história, mas continua a iluminar o presente e a orientar o futuro.

Assim, no dia 6 de janeiro, ao recordar os Santos Reis, a Igreja reafirma sua missão universal e convida cada cristão a reconhecer que Jesus Cristo é o verdadeiro Rei dos reis e Senhor da história.

 

 

"As grandes catedrais como mestres silenciosos da Cristandade" - Por Barros Alves

De Paris, 2 graus. Retornando a Milão, depois de bater pernas  na Cidade Luz e fazer algumas observações. Visitei importantes catedrais e igrejas católicas na Polônia, na Itália e na França. Ao longo da história europeia, poucas expressões materiais traduziram com tanta força a cosmovisão cristã quanto as grandes catedrais. Erguidas em pedra, luz e silêncio, elas não foram concebidas apenas como espaços litúrgicos, mas como verdadeiros instrumentos pedagógicos, capazes de instruir povos inteiros num tempo em que a maioria era analfabeta. A catedral, antes de ser um monumento turístico, foi e continua sendo um catecismo esculpido, um sermão permanente que atravessa séculos.
Na Idade Média, período em que a fé cristã estruturava a vida social, política e cultural da Europa, a arquitetura sacra tornou-se uma linguagem teológica. Cada arco, vitral, estátua e proporção geométrica comunicava verdades da fé católica. A verticalidade apontava para o transcendente; a cruz latina organizava o espaço; a luz filtrada simbolizava a graça divina que ilumina o mundo. Assim, a catedral educava o fiel não apenas pela palavra, mas pela experiência sensível.
A Catedral de Milão (Duomo di Milano) é um exemplo irretorquível. Iniciada em 1386, é uma das expressões mais grandiosas dessa pedagogia cristã. Seu estilo gótico tardio, singularmente revestido de mármore branco rosado, revela a ambição de tornar visível a glória de Deus no coração da cidade. Com mais de uma centena de pináculos e milhares de esculturas, o Duomo é uma verdadeira “Bíblia de pedra”, na qual santos, mártires e cenas da Escritura formam uma narrativa contínua da história da salvação.
A pedagogia do Duomo manifesta-se também em sua monumentalidade. O  homem, ao adentrar aquele espaço, percebe imediatamente sua pequenez diante do mistério divino. Não se trata de opressão estética, mas de humildade espiritual. A catedral educa para o senso do sagrado, algo cada vez mais raro em uma cultura marcada pelo relativismo e pela banalização do transcendente.
De modo semelhante, a Catedral de Notre-Dame de Paris, obra-prima do gótico francês iniciada no século XII, desempenhou papel central na formação espiritual e cultural da França e da Europa. Sua harmonia arquitetônica, seus vitrais, especialmente as rosáceas, e seu programa iconográfico foram concebidos como uma pedagogia da luz, símbolo de Cristo, “luz do mundo”.
Notre-Dame não era apenas o centro religioso de Paris, mas também seu coração intelectual e simbólico. Diante de suas fachadas, o povo aprendia sobre o Juízo Final, a vida de Cristo, a dignidade de Maria e a ordem moral do universo cristão. A catedral ensinava sem relativizar, transmitia a fé sem ambiguidades, afirmando a centralidade da Igreja Católica Apostólica Romana na organização da sociedade.
As catedrais frente às rupturas modernas
Apesar de, nos tempos recentes, o neopaganismo ter adentrado certos setores da Igreja por meio de teologias liberais e heréticas, como a Teologia da Libertação, que frequentemente substitui a transcendência de Deus por categorias políticas e ideológicas, as grandes catedrais permanecem como testemunhas silenciosas da ortodoxia cristã. Elas não se curvam às modas teológicas nem às pressões culturais do momento.
A pedra não se rende ao relativismo. A linguagem simbólica dessas catedrais continua proclamando verdades perenes: a centralidade de Cristo, a sacralidade da liturgia, a hierarquia do sagrado e a ordem moral fundada na lei divina. Mesmo quando seus espaços são ocasionalmente instrumentalizados por discursos alheios à fé, a própria arquitetura resiste, denunciando a dissonância entre forma e conteúdo.
Negar o papel da Igreja Católica na formação da Europa e, por consequência, da civilização ocidental, é um exercício de amnésia histórica. As grandes catedrais são provas materiais incontornáveis dessa influência. Elas foram centros de cultura, de ciência, de arte, de direito e de educação. Ao redor delas surgiram universidades, hospitais, cidades e instituições que moldaram o Ocidente.
A pedagogia religiosa das catedrais ensinou não apenas a fé, mas também o valor da razão, da ordem, da beleza e da dignidade humana. Em um mundo que frequentemente renega suas raízes, o Duomo de Milão e Notre-Dame de Paris permanecem como faróis de memória e identidade, recordando que a Europa nasceu aos pés do altar e sob a sombra da cruz.
As grandes catedrais não são ruínas de um passado superado, mas mestres vivos de uma tradição que resiste. Em meio às crises espirituais contemporâneas, elas continuam a educar, a interpelar e a elevar o espírito humano. São testemunhos inequívocos da Cristandade e da missão histórica da Igreja Católica Apostólica Romana na construção da Europa e da civilização ocidental. Enquanto essas pedras permanecerem de pé, a verdade que elas proclamam jamais poderá ser totalmente silenciada. (30/12/2025)


"A Europa anda nos trilhos" - Por Barros Alves

Escrevi esse artigo há pouco, a bordo de um trem para Paris, França; partindo de Milão, Itália. Rápido, silencioso, confortável, serviço de bordo de boa qualidade. E o trem é um transporte que enseja uma visão de todo o percurso. 

A história recente da infraestrutura de transportes revela escolhas políticas que moldam não apenas a mobilidade, mas também o desenvolvimento econômico, a integração social e a sustentabilidade ambiental de um país. Sob esse aspecto, a Europa oferece um exemplo eloquente: anda, literalmente, nos trilhos. Enquanto boa parte do continente europeu consolidou o transporte ferroviário como eixo estruturante da circulação de cargas e, sobretudo, de passageiros, o Brasil,  apesar de suas dimensões continentais, seguiu caminho oposto, relegando as ferrovias a um papel secundário em favor do transporte rodoviário.

Na Europa, o trem não é um luxo, mas um serviço público estratégico. Redes ferroviárias densas e interligadas permitem atravessar países inteiros com rapidez, conforto e preços relativamente acessíveis. É possível percorrer longas distâncias entre capitais e cidades médias sem depender de automóvel ou avião, reduzindo custos logísticos, emissões de poluentes e o tempo perdido em deslocamentos. A ferrovia tornou-se instrumento de coesão territorial, facilitando o turismo, o comércio e a mobilidade cotidiana de milhões de pessoas.

Essa preferência não é fruto do acaso. Trata-se de uma decisão política de longo prazo, baseada na compreensão de que o transporte ferroviário é mais eficiente energeticamente, mais seguro e mais democrático. Trens transportam grande número de passageiros e cargas com menor impacto ambiental e menor custo por quilômetro percorrido. Além disso, ao fortalecer o transporte coletivo de massa, os países europeus reduziram a dependência excessiva do transporte individual e dos combustíveis fósseis.

O Brasil, por sua vez, fez uma escolha estruturalmente distinta. Ao longo do século XX, especialmente a partir da segunda metade, optou-se por priorizar o transporte rodoviário. Rodovias passaram a ser vistas como sinônimo de progresso, enquanto as ferrovias foram abandonadas, sucateadas ou direcionadas quase exclusivamente ao escoamento de commodities. O resultado é um sistema caro, ineficiente e vulnerável: estradas sobrecarregadas, fretes elevados, alto índice de acidentes e um transporte de passageiros limitado, lento e oneroso.

Essa opção encareceu o serviço e diminuiu drasticamente a capacidade de atendimento à demanda nacional. Em um país de grandes distâncias, a ausência de uma malha ferroviária moderna para passageiros impõe custos sociais elevados: viagens longas e desconfortáveis, exclusão de regiões inteiras e dependência quase absoluta do transporte rodoviário, sujeito a pedágios, congestionamentos e oscilações no preço dos combustíveis.

Enquanto na Europa atravessam-se fronteiras de trem a preços módicos, no Brasil políticas públicas historicamente favoreceram o modal rodoviário, muitas vezes beneficiando interesses concentrados e estruturas econômicas fechadas, verdadeiros feudos financeiros do setor. A concentração de investimentos em estradas, em detrimento das ferrovias, não apenas limitou alternativas de mobilidade, como também reduziu a concorrência e encareceu o custo final para o usuário e para a economia como um todo.

Não se pode ignorar, ainda, um fator sensível e recorrente no debate nacional: a corrupção. Grandes obras rodoviárias, com contratos frequentes de manutenção e expansão, tornaram-se terreno fértil para desvios, sobrepreços e interesses pouco transparentes. Nesse contexto, investimentos ferroviários, que exigem planejamento de longo prazo, gestão técnica e menor margem para improvisação, acabaram perdendo espaço. A falta de continuidade administrativa e a captura das decisões por interesses imediatistas inviabilizaram um projeto ferroviário consistente para o país.

A comparação entre Europa e Brasil evidencia que a questão não é geográfica, mas política. Países menores, com menos recursos naturais, construíram sistemas ferroviários eficientes porque compreenderam seu valor estratégico. O Brasil, com território vasto e potencial logístico extraordinário, permanece preso a um modelo caro, poluente e socialmente excludente.

Repensar essa escolha é urgente. Colocar o Brasil “nos trilhos” não é apenas uma questão de transporte, mas de projeto de nação. Mais integrada, mais justa, mais eficiente e menos refém de interesses que encarecem o serviço e travam o desenvolvimento. A Europa mostra que é possível. Falta ao Brasil decisão política, visão de futuro e compromisso real com o interesse público. (28/12/2025)

 

 

 

"Um Natal sertanejo em três sonetos" - Por Barros Alves

1.

No ermo da vila a noite se derrama,

E um bom presságio de esperança cresce.

Na igrejinha, o presépio resplandece,

E o Advento divino se proclama.

 

O povo reza. Em cada rosto inflama

A fé antiga que jamais fenece;

E ante o Deus-Menino a alma em prece

Entoa suaves cantos. Cristo aclama!

 

Soa o sino. É anúncio de esperança!

Todo o sertão renasce na lembrança

Do Rei que nasce humilde, em singeleza.

 

O Menino ergue o olhar doce e profundo,

Ilumina de imenso amor o mundo

E invade o coração da Natureza.

 

2.

Na humilde gleba o vento traz canções

Do céu no brilho de bilhões de estrelas

E a humanidade extasiada ao vê-las

Vê retratadas celestes dimensões.

 

Cantos angelicais como orações 

São flores para os anjos recolhê-las...

Hosana nas Alturas! Merecê-las

É benção sobre muitas gerações.

 

Dos Céus nos chegam sensações mais puras

E o povo ajoelhado ante a Lapinha

Adora o pequenino e a Mãe Rainha.

 

Eis nosso Salvador, o Deus-criança 

Que traz à humanidade a esperança.

Aleluias! Hosana nas Alturas!!!

 

3.

No adro da capela brilha a lua 

Prateando a torre da igrejinha

Onde o povo diante da Lapinha

Faz que a fé mais forte e firme flua.

 

Por toda noite a reza continua,

Missa do Galo, cantos, ladainha...

Bendito seja aquele que caminha

E sob o olhar do Deus-menino atua.

 

Enquanto a gente humilde salmodia

Contrita, ajoelhada em oração 

Ante o Santo Maior do santoral

 

O Deus-menino na caminha espia

E abençoa o povo do sertão 

Naquela noite santa de Natal.